15 de julho de 2018

Capítulo 3

Aquela manhã, Ronan Lynch havia acordado cedo, totalmente despreocupado, pensando casa, casa, casa.
Ele deixara Gansey ainda dormindo — o telefone agarrado em uma mão, os óculos dobrados e largados sobre o colchão — e descera cuidadosamente a escada com o corvo pressionado contra o peito para mantê-lo calado. Na rua, a grama alta molhava as suas botas de sereno, e a cerração ondulava em torno dos pneus do BMW carvão. O céu sobre a Indústria Monmouth tinha a cor de um lago lodoso. Estava frio, mas o coração de gasolina de Ronan estava empolgado. Ele se ajeitou no carro, deixando que este se tornasse a sua pele. O ar da noite ainda estava enovelado por baixo dos assentos e escondendo-se nos compartimentos das portas; ele tremia enquanto amarrava o corvo ao cinto de segurança no banco do passageiro. Isso ficou longe de ser perfeito, mas se revelou efetivo para evitar que um corvídeo saísse batendo asas dentro de seu esportivo. Motosserra o mordeu, mas não tão duro quanto o frio da manhã que nascia.
— Passa a minha jaqueta, idiota? — ele disse ao pássaro. Motosserra apenas bicou os controles da janela, então Ronan a pegou ele mesmo. Sua jaqueta da Aglionby estava ali atrás também, irremediavelmente amassada debaixo da caixa quebra-cabeça de linguagem, um objeto de sonho que traduzia diversas línguas, incluindo uma imaginária, para o inglês. Quando ele iria para a escola novamente? Um dia? Ele pensou que poderia abandoná-la oficialmente no dia seguinte. Essa semana. Semana que vem. O que o impedia? Gansey. Declan. A memória de seu pai.
Era um deslocamento de vinte e cinco minutos de carro até Singer’s Falls mesmo àquela hora da manhã, mas ainda faltava bastante para o amanhecer quando ele passou pela cidade imaginária e finalmente chegou à Barns. Urzes-brancas, galhos e árvores fecharam-se em torno do carro à medida que ele avançava pelo túnel de acesso de oitocentos metros. Erguida em contrafortes cobertos de mata, acessível apenas pelo caminho de entrada sinuoso através da floresta cerrada, a propriedade estava viva com os ruídos da mata desordenada da Virgínia que a cercava: folhas de carvalho balbuciando umas contra as outras, coiotes ou veados esmagando ruidosamente a vegetação rasteira, relva seca sussurrando, corujas questionando corujas, tudo respirando e passando pelo campo de visão. Estava frio demais para vagalumes, mas mesmo assim uma profusão deles brilhava e desaparecia acima dos campos.
Aqueles eram os seus campos. Fantasiosos, sem sentido, mas adoráveis.
Ronan Lynch adorava sonhar com luz.


Houve uma época em que a Barns era todo o ecossistema para Ronan. Os Lynch raramente a deixavam quando ele era jovem, porque não precisavam, porque dava muito trabalho, porque Niall Lynch não confiava em muita gente para cuidar dela em sua ausência.
Era melhor encontrar os amigos na casa deles, sua mãe, Aurora, explicara, porque o papai tem muitas coisas que quebram pela fazenda.
Uma das coisas que quebravam: Aurora Lynch. A Aurora de cabelos dourados certamente era a rainha de um lugar como a Barns, uma soberana alegre e bondosa de um país secreto e pacífico. Ela era um mecenas das artes extravagantes de seus filhos (embora Declan, o mais velho, raramente demonstrasse ser extravagante). E adorava Niall, é claro — todo mundo adorava o Niall maior que a vida, o poeta fanfarrão, o rei-músico — mas, diferentemente de todos os outros, ela o preferia em seus humores silenciosos. Aurora adorava a verdade, e era difícil adorar a ambos, verdade e Niall Lynch, quando o segundo falava.
Ela era a única pessoa que ele não conseguia ofuscar, e ele a adorava por isso.
Foi só muitos anos depois que Ronan ficou sabendo que o rei havia sonhado a sua rainha. Mas, pensando bem, fazia sentido. Seu pai adorava sonhar com luz também.


Dentro da casa da fazenda, Ronan ligou algumas lâmpadas para expulsar a escuridão para a rua. Alguns minutos de busca e ele encontrou um balde de blocos do alfabeto, que passou para Motosserra ordenar. Então ele colocou um dos discos da Bothy Band de seu pai e, enquanto o violino e os acordeões estalavam e se distorciam pelos corredores estreitos, foi tirar o pó das prateleiras e reparar uma dobradiça quebrada de um armário na cozinha. À medida que o sol finalmente se derramava dourado no vale estreito protegido, ele continuava o processo de repintar a escada de madeira gasta que levava até o antigo quarto de seus pais.
Ronan inspirava. Ronan expirava.
Ele esquecia como soltar o ar quando não estava em casa.
Ali, o tempo mantinha seu próprio relógio. Um dia em Aglionby era uma apresentação estilhaçada de slides de imagens que não importavam e conversas que ele não guardava. Mas na Barns, o mesmo dia passava com uma desenvoltura preguiçosa, cheia de quatro vezes mais coisas. A leitura na cadeira da janela, os filmes antigos na sala de estar, o reparo vagaroso de uma porta de celeiro que não parava de bater. As horas levavam o tempo que fosse necessário.
Lentamente suas memórias de antes — tudo que esse lugar tinha sido para ele quando abrigara toda a família Lynch — se sobrepunham a memórias e esperanças de depois — cada minuto que a Barns havia sido sua, todo o tempo que ele passara ali sozinho ou com Adam, sonhando e planejando.
Casa, casa, casa.
Era hora de dormir. De sonhar. Ronan tinha um objeto específico que ele tentava criar, e ele não era estúpido o suficiente para achar que o conseguiria na primeira tentativa.


Regras para sonhos, entoou Jonah Milo.
Ronan estava na aula de inglês. Milo, o professor, estava postado de pulôver xadrez diante de uma lousa digital resplandecente. Seus dedos eram um metrônomo no quadro, que clicavam com suas palavras: regras para sonhadores. Regras para sonhados.
Cabeswater?, Ronan perguntou à sala de aula. O ódio anuviou seus pensamentos. Ele jamais esqueceria o cheiro daquele lugar: borracha e detergente industrial, mofo e molho teriyaki de cafeteria.
Sr. Lynch, tem algo que gostaria de compartilhar?
Certo: não vou ficar nessa maldita aula nem mais um segundo...
Ninguém o está mantendo aqui, sr. Lynch, Aglionby é uma escolha. Milo parecia desapontado. Vamos nos concentrar. Regras para sonhos. Leia alto, sr. Lynch.
Ronan não leu. Eles não podiam obrigá-lo.
Sonhos são facilmente destruídos, celebrou Milo. Suas palavras soavam como jingle de anúncio de sabão em pó. É difícil manter o equilíbrio entre o subconsciente e o consciente. Há um gráfico na página quatro do seu texto.
A página quatro estava escura. A página quatro não existia mais. Não havia gráfico.
Regras para sonhados, sr. Lynch, quem sabe você não se endireita, ajeita a camisa e mostra um pouco da concentração da Aglionby? Um anjo da guarda poderia ajudá-lo a despertar os pensamentos. Todos confiram para ver se o seu parceiro de sonho está aqui.
O parceiro de sonho de Ronan não estava ali.
No entanto, Adam estava na última fileira de cadeiras. Atento. Engajado. Este Estudante da Aglionby Representa o Legado da América. Seu livro didático parecia visível na bolha de pensamento acima de sua cabeça, denso com escritas e diagramas.
A barba de Milo estava mais longa do que estivera no início da aula. Regras para sonhadores. Realmente, estamos falando de arrogância, não é? Sr. Lynch, gostaria de falar sobre como Deus está morto?
Isso é bobagem, disse Ronan.
Se você sabe mais, pode vir aqui e dar a aula. Só estou tentando entender por que você acredita que não vai acabar morto como o seu pai. Sr. Parrish, regras para o sonhador?
Adam respondeu com uma precisão científica. Heaney declara explicitamente na página vinte que sonhadores devem ser classificados como armas. Vimos em estudos de nossos pares como isso nasce da realidade. Exemplo A: o pai de Ronan está morto. Exemplo B: K está morto. Exemplo C: Gansey está morto. Exemplo D: eu também estou morto. Exemplo E: Deus está morto, como você mencionou. Eu acrescentaria Matthew e Aurora Lynch à lista, mas eles não são humanos, de acordo com o estudo de 2012 de Glasser. Tenho diagramas aqui.
Vá se foder, disse Ronan.
Adam parecia murchar. Ele não era mais Adam, e sim Declan. Faça o seu tema de casa, Ronan, contanto que seja nessa sua maldita vida. Você não faz ideia nem de quem você é?


Ronan acordou bravo e de mãos vazias. Ele abandonou o sofá para bater as portas de alguns armários pela cozinha. O leite na geladeira havia estragado, e Matthew comera todos os cachorros-quentes da última vez que viera junto. Ronan saiu irado para o terraço, protegido com telas, na luz fina da manhã, e arrancou uma fruta estranha de uma árvore em um vaso. Ela dava pacotes de amendoins cobertos de chocolate. Enquanto ele caminhava nervosamente de um lado para o outro, Motosserra batia as asas, voando rente ao chão atrás dele, picando pontos escuros que ela esperava que fossem amendoins caídos.
Regras para sonhadores: o Milo do Sonho havia perguntado a ele onde estava a sua companheira de sonho. Boa pergunta. A Garota Órfã havia assombrado o seu sono desde quando ele era capaz de lembrar, uma criaturinha desamparada com um quipá branco pousado sobre o cabelo loiro-claro, curto e repicado. Em tempos passados, Ronan tivera a impressão de que ela era mais velha, mas talvez ele que fosse mais jovem. Ela o ajudara a se esconder nos pesadelos. Agora ela é quem se escondia atrás de Ronan, mas ainda o ajudava a manter a mente dele nas tarefas. Era esquisito que ela não tivesse aparecido quando Milo a mencionara. Todo o sonho havia sido esquisito.
Você não faz ideia nem de quem você é?
Ronan não fazia, exatamente, mas ele achava que estava vivendo melhor com o mistério que se desenrolava de si mesmo. Seu sonho podia se danar.
— Brek — disse Motosserra.
Ronan jogou um amendoim para ela e voltou silenciosamente para a casa, em busca de inspiração. Às vezes colocar as mãos em algo real o ajudava quando ele estava com dificuldades para sonhar. Para conseguir trazer de volta um objeto de sonho, ele tinha de saber a sensação que esse objeto passava ao tato, seu cheiro, a maneira que ele se esticava e dobrava, como a gravidade funcionava nele ou não, as coisas que o tornavam físico em vez de efêmero.
No quarto de Matthew, uma bolsa sedosa de rochas magnéticas chamou a atenção de Ronan. Enquanto ele estudava o tecido, Motosserra perambulou suavemente por entre suas pernas, rosnando de forma grave. Ele nunca compreendera por que ela escolhia caminhar e pular na maioria das vezes. Se ele tivesse asas, tudo o que faria seria voar.
— Ele não está aqui — Ronan disse a Motosserra enquanto ela esticava o pescoço longo, numa tentativa de ver sobre o topo da cama. Grunhindo em resposta, Motosserra buscava entretenimento sem muito sucesso. Matthew era um garoto agitado e alegre, mas seu quarto era ordeiro e frugal.
Ronan costumava pensar que isso acontecia porque Matthew mantinha toda a sua bagunça dentro da sua cabeça de cabelos cacheados. Mas agora ele suspeitava que isso acontecia porque Ronan não tivera imaginação suficiente para sonhar um ser humano completamente formado. O Ronan de três anos quisera um irmão cujo amor fosse completo e descomplicado. O Ronan de três anos sonhara Matthew, o oposto de Declan de todas as maneiras. Ele era humano? O Adam de Sonho/Declan não parecia acreditar que sim, mas o Adam de Sonho/Declan também era claramente um mentiroso.
Regras para sonhadores.
Sonhadores devem ser classificados como armas.
Ronan já sabia que ele era uma arma, mas tentava compensar o fato. A meta de hoje era sonhar algo para manter Gansey seguro caso ele fosse picado de novo. Ronan havia sonhado antídotos antes, é claro, autoinjetores de adrenalina e curas, mas o problema é que ele não sabia se eles funcionariam, até que fosse tarde demais caso não funcionassem.
Então por ora, um plano melhor: uma simples armadura de pele. Algo que protegeria Gansey antes que ele chegasse a se machucar.
Ronan não conseguia afastar a ideia de que o tempo de que dispunha estava acabando.
Sim, funcionaria. E seria ótimo.


Na hora do almoço, Ronan abandonou a cama após mais dois fracassos para produzir uma boa armadura. Ele colocou botas sujas de barro e um blusão com gorro encardido e foi para a rua.
A Barns era um conglomerado de anexos, abrigos e grandes celeiros de gado; Ronan parou em um deles para encher cochos e lançar um bloco de sal sobre o topo dos cubinhos de ração, uma variação de sua rotina de infância. Então partiu para o pasto alto, passando pelas massas informes e silenciosas do gado de sonho de seu pai que dormia nos campos. No caminho, desviou para um dos grandes celeiros de equipamentos. Na ponta dos pés, tateou em torno do topo do batente da porta até encontrar a minúscula flor de sonho que deixara ali. Quando a jogou para o ar, a flor pairou só um pouco acima de sua cabeça, lançando um brilho amarelo fraco e contínuo, suficiente para iluminar seu caminho através do celeiro sem janelas. Ronan seguiu por esse caminho empoeirado, passando pelas máquinas quebradas e não quebradas, até encontrar seu horror noturno albino enroscado sobre o capô de um carro velho e enferrujado, todo ameaça, maltrapilha branca e olhos fechados. Suas garras pálidas e selvagens haviam arranhado o capô até o metal puro; o horror noturno já tinha passado mais do que algumas horas ali. A criatura abriu um olho rosado para o considerar.
— Precisa de alguma coisa, seu pequeno bastardo? — Ronan lhe perguntou.
A criatura fechou o olho de novo.
Ronan a abandonou e continuou seu caminho, com os cochos estrepitando produtivamente, deixando a flor de sonho o seguir, embora ele não precisasse dela à luz do dia. Quando passou pelo maior celeiro de gado, não estava mais sozinho. A relva farfalhava de cada lado do caminho. Marmotas, ratos e criaturas que não existiam avançavam a passos miúdos, saídos da relva para correr em suas pegadas e à frente dele, veados emergiam da beira da mata, a pele escura invisível, até que se movessem.
Alguns dos animais eram reais. A maioria dos veados eram de cauda branca da Virgínia, alimentados e amansados por Ronan, com a única finalidade de o divertir. Sua domesticação recebera a ajuda de um cervo sonhado que vivia entre eles. Ele era claro e adorável, com cílios longos e trêmulos, e orelhas vermelhas de raposa. Agora, ele fora o primeiro a aceitar a oferta de Ronan do bloco de sal, rolando-o para o campo, permitindo que Ronan fizesse carinho no pelo curto e grosso de sua cernelha e tirasse alguns carrapichos do pelo suave atrás de suas orelhas. Um dos veados mordiscou a ração das mãos em concha de Ronan, e o resto esperou pacientemente enquanto ele a jogava na relva. Provavelmente era proibido alimentá-los. Ronan nunca conseguia lembrar quais deles podiam ser alimentados ou caçados na Virgínia.
Os animais menores se aproximaram rastejando, alguns tocando suas botas com as patas, outros alinhando-se na relva perto dele, e mais alguns assustando os veados. Ronan espalhou a ração para eles também e inspecionou se tinham ferimentos e carrapatos.
Ele inspirou. Ele expirou.
Então pensou sobre como queria que a armadura de pele parecesse. Talvez ela não precisasse ser invisível. Talvez pudesse ser prateada. Ou ter luzes.
Ronan abriu um largo sorriso com o pensamento, sentindo-se subitamente bobo, preguiçoso e ridículo. Ele parou, deixando que o fracasso do dia deixasse seus ombros e desabasse no chão.
Enquanto se alongava, o cervo branco ergueu a cabeça para observá-lo intensamente. Os outros observaram a atenção do cervo e também focaram o olhar. Eles eram belos como os sonhos de Ronan e como Cabeswater, só que agora ele estava acordado. De alguma maneira, sem que Ronan marcasse o momento, a diferença entre sua vida desperta e sua vida de sonho havia começado a se estreitar. Embora metade desse rebanho esquisito fosse cair no sono se Ronan morresse, enquanto ele estivesse ali, enquanto inspirasse e expirasse, ele seria um rei.
Ronan deixou o mau humor no campo.


De volta à casa, ele sonhou.

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