5 de julho de 2018

Capítulo 39

Normalmente Adam não trazia ninguém consigo quando fazia um trabalho de Cabeswater. Ele confiava em suas habilidades sozinho. Ele confiava em suas emoções sozinho. Ele não podia machucar ninguém em uma sala vazia. Ninguém podia machucá-lo.
Ele era incognoscível.
Só que ele não era.
Então ele pediu a Blue Sargent que viesse com ele quando finalmente partiu para fazer o que Cabeswater havia lhe pedido semanas antes. Ele não contou a Blue, caso não funcionasse, mas Adam achou que, se a levasse, Cabeswater poderia ajudá-los a encontrar Maura.
Agora ele esperava no carro em um posto de gasolina descorado nas cercanias de Henrietta. Ele não sabia dizer se o pulso que sentia na palma das mãos era a batida do seu coração ou a linha ley.
— Eu sei o que você quer dizer — disse Noah do banco de trás. Ele estava caído sobre o encosto do passageiro como um suéter sem um corpo dentro. Adam havia quase esquecido que ele estava ali, pois Noah não havia sido convidado. Não porque fosse indesejado, mas porque ele estava morto, e não se podia contar com os mortos para que eles aparecessem em momentos específicos.
— Você acabou de responder aos meus pensamentos?
— Acho que não.
Adam não conseguia se lembrar se ele havia falado em voz alta. Ele achava que não.
O carro balançou quando um caminhão agrícola passou ruidosamente na rodovia. Tudo a respeito daquela região era gasto. O posto de gasolina era um sobrevivente de décadas passadas, com placas de latão na janela e galinhas à venda atrás. A fazenda do outro lado da estrada era antiga, mas charmosa, como um jornal amarelado.
Ele analisou a chantagem de Greenmantle por todos os ângulos em sua cabeça. Ela tinha de ser à prova de balas. Ele não havia contado a Gansey; não havia contado a Blue. Ele havia convencido Ronan e trazido o Homem Cinzento para o plano, mas, no fim, a conta ficaria toda com ele se Greenmantle explodisse na cara deles.
— Acho que está pronto — disse Noah.
— Para com isso. Para. É sinistro.
Ele olhou Noah de relance pelo espelho retrovisor e se arrependeu; o garoto morto era mais assustador quando refletido. Muito menos vivo.
Noah sabia disso e se escondeu da vista do espelho.
Do lado de fora do carro, a voz de Blue se ergueu:
— Como você se sentiria se eu reduzisse você às suas pernas?
Adam e Noah esticaram o pescoço para olhar pelo vidro de trás.
A voz de Blue soou de novo:
— Não. Não. Que tal você ver a questão do meu jeito? Que tal você não me reduzir a uma mercadoria e então, quando eu te pedir para não fazer isso, não dizer que é um elogio e que eu deveria ficar feliz por isso?
A boca de Noah assumiu uma forma de uuuu.
— É — concordou Adam, saindo do carro.
Blue estava a alguns metros dali. Ela usava uma camisa quadrada grande, shorts azuis, coturnos e meias que iam até acima dos joelhos. Apenas um palmo de pele nua era visível, mas era um palmo realmente bonito.
Um velho usando um boné trançado disse:
— Mocinha, um dia você vai se lembrar com saudade da época em que as pessoas lhe diziam que você tinha belas pernas.
Adam se preparou para a explosão.
Eram pregos e dinamite.
— Saudade? Ah, bem que eu gostaria de ser tão ignorante quanto você! Que felicidade! Existem garotas que se matam por causa da imagem negativa que têm do próprio corpo, e você...
— Algum problema aqui? — intercedeu Adam.
O homem parecia aliviado. As pessoas sempre ficavam satisfeitas em ver o Adam asseado, calado, a voz respeitosa sulista da razão.
— A sua namorada é esquentadinha.
Adam encarou o homem. Blue encarou Adam.
Ele queria dizer a ela que não valia a pena, que ele havia crescido com esse tipo de homem e sabia que eles não tinham traquejo, mas então ela jogaria a garrafa térmica na cabeça de Adam e provavelmente daria um tapa na boca do sujeito. Era impressionante que Blue e Ronan não se dessem melhor, pois eram marcas diferentes da mesma matéria impossível.
— Senhor — começou Adam, e as sobrancelhas de Blue se levantaram —, acho que talvez a sua mãe não tenha lhe ensinado como falar com mulheres.
O velho balançou a cabeça para Adam, como que com pena.
Adam acrescentou:
— E ela não é minha namorada.
Blue lhe lançou um olhar reluzente de aprovação e então entrou no carro com uma forte e dramática batida de porta que Ronan teria aprovado.
— Escuta, garoto — começou o velho.
— Aliás, o senhor está com a braguilha aberta — Adam interrompeu.
Ele entrou de volta em seu carrinho usado, o que Ronan chamava de Hondayota. Ele se sentia heroico sem motivo. Blue fervia, com toda razão, enquanto eles deixavam o posto de gasolina. Por alguns momentos, não se ouviu nada a não ser o ruído esforçado da respiração do carrinho.
Então Noah disse:
— Mas você tem pernas bonitas.
Blue se virou para ele. Adam não conseguiu segurar uma risada, e ela bateu no ombro dele também.
— Você pegou a água, pelo menos? — ele perguntou.
Ela sacudiu a garrafa térmica para demonstrar o sucesso.
— Eu também trouxe um pouco de pulverizador. Dizem que é uma boa proteção quando se está fazendo uma divinação.
— Nós vamos fazer uma divinação? — Noah se endireitou.
Adam teve dificuldade para explicar.
— Cabeswater fala uma língua, e eu falo outra. Consigo ter uma ideia geral ao ler as cartas. Mas é mais difícil de chegar aos detalhes de como consertar o alinhamento. Então vou fazer uma divinação. Eu faço toda hora. É muito eficiente, Noah.
— Uma maneira eficiente de fazer com que a sua alma nua seja roubada por forças absolutamente más, talvez — disse Noah.
Blue trocou um olhar com Adam.
— Não acredito no mal absoluto.
— Ele não se importa se você acredita nele — disse Noah.
Ela se virou em seu assento para encará-lo.
— Normalmente eu não gosto de dizer quando você está sendo sinistro. Mas você está.
O garoto morto se afundou ainda mais no banco de trás; o ar se aqueceu marginalmente enquanto ele o fazia.
— Ele já me chamou de sinistro hoje.
— Me conta mais sobre a questão do alinhamento — disse Blue a Adam. — Me conta por que ela quer que você faça isso.
— Não entendo por que isso importa.
Ela fez um ruído de profunda exasperação.
— Mesmo colocando de lado todas as considerações espirituais possíveis, ou... ou mitológicas, ou qualquer coisa que realmente signifique algo, você está manipulando essa fonte de energia gigantesca que parece se comunicar diretamente na sua cabeça em uma língua diferente, e que, para mim, parece algo sobre o qual eu teria um monte de perguntas se fosse você!
— Não quero falar sobre isso.
— Mas eu quero. Você está dirigindo toda essa distância até aqui, e não quer perguntar nem a razão disso?
Adam não respondeu, porque sua resposta não seria educada.
Seu silêncio, no entanto, pareceu pior. Blue disparou:
— Se você não queria conversar, não sei por que me perguntou se eu queria vir!
— Talvez eu não devesse ter perguntado.
— Certo, quem gosta de ficar ao lado de uma pessoa que pensa!
Adam se segurou, com esforço. Com apenas uma farpinha na voz, ele disse:
— Eu só quero terminar com isso.
— Me deixa aqui. Eu volto a pé.
Ele pisou no freio com tudo.
— Não pense que eu não faria isso.
— Vá em frente, então!
Blue já tinha a mão na maçaneta da porta.
— Pessoal — lamuriou-se Noah.
O melhor e o pior aspecto de Blue Sargent era que ela realmente faria o que estava dizendo; ela realmente voltaria a pé até Henrietta se ele parasse naquele instante. Ele fez uma careta para ela, e ela fez uma careta de volta.
Não brigue com Blue. Não brigue com Gansey.
Com um suspiro, Adam acelerou de novo.
Blue se recompôs e então ligou o rádio.
Adam não havia nem se dado conta de que o toca-fitas antiquado funcionava, mas, após alguns segundos sibilantes, uma fita que estava dentro desafinou uma canção. Noah começou a cantar junto imediatamente.
— Abóbora um, abóbora dois...
Adam deu um tapa no rádio ao mesmo tempo que Blue. A fita foi ejetada com tanta força que Noah estendeu uma mão para pegá-la.
— Essa música. O que você está fazendo com isso no seu aparelho? — demandou Blue. — Você ouve isso por diversão? Como essa canção escapou da internet?
Noah riu e lhes mostrou a fita. Ela trazia um rótulo marcado com a caligrafia de Ronan: “MOMENTOS ÍNTIMOS DE PARRISH NO HONDAYOTA”. O outro lado trazia: “CANÇÃO DE MERDA PARA CANTAR JUNTO”.
— Coloque para tocar! — disse Noah alegremente, acenando com a fita.
— Noah. Noah! Tira isso dele — disse Adam.
À frente deles, a entrada para a Skyline Drive se assomou. Adam estava pronto dessa vez; ele abriu a carteira enquanto se aproximavam lentamente. Dentro aninhavam-se precisamente quinze dólares.
Blue lhe passou uma nota de cinco.
— Minha contribuição.
Houve uma pausa.
Ele a aceitou.
Na janela, Adam trocou seus fundos combinados por um mapa, o qual deu de volta para Blue. Enquanto ia para uma área de estacionamento inclinada além da entrada, Adam examinou duvidosamente seu orgulho em busca de algum dano e ficou surpreso ao não encontrar nenhum.
— Estamos no lugar certo? — ela perguntou. — Você precisa do nosso mapa de quinze dólares?
— Vou saber em um segundo. Podemos sair — disse Adam.
Diante deles, o terreno caía bruscamente em uma ravina sem fundo; atrás, as montanhas ascendiam sombriamente. O ar estava enevoado com a fragrância agradável e perigosa da fumaça de madeira: em algum lugar, uma daquelas montanhas outonais estava em chamas. Adam forçou a vista até encontrar de onde vinha aquela fumaça, que encobria um pico ao longe.
Daquela distância, parecia algo mais mágico que ameaçador. Blue e Noah implicavam um com o outro enquanto Adam pegava as cartas de tarô. Endireitando os pés para sentir melhor o pulso da linha, ele colocou uma carta ao acaso sobre o capô quente. Seus olhos desconcentrados passaram sobre a imagem — um cavaleiro enegrecido montado em um cavalo, carregando um bastão coberto de vinhas — e começaram a transformá-la em algo sem palavras e onírico. A visão foi substituída pela sensação. Um sentimento vertiginoso de viagem, escalada, retidão.
Ele cobriu a imagem com a mão até recuperar a visão, então guardou a carta.
— Cavaleiro de paus? — Blue lhe perguntou.
Adam não se lembrava mais qual era a carta realmente.
— Era mesmo?
— Agora me digam quem é sinistro? — perguntou Noah.
Adam colocou a mochila nas costas e partiu na direção do início da trilha.
— Vamos lá. É por aqui.
A trilha estreita e pedregosa estava coberta com folhas amassadas. O terreno tinha um declive abrupto de um lado e subia impetuosamente do outro. Adam estava absolutamente consciente das rochas enormes que se projetavam na trilha. Abaixo de um tapete de líquen verde-menta, eles sentiam as pedras frias e vivas, condutoras selvagens da linha ley. Ele levou Noah e Blue trilha acima até chegarem a uma confusão de rochas. Saindo da trilha, Adam escalou ao lado deles, encontrando apoio para os pés em pedras que se projetavam e em galhos expostos de árvores. As pedras grandes e azuis estavam tombadas umas sobre as outras como o brinquedo de um gigante.
Sim, é isso mesmo.
Ele espiou para dentro de uma fenda do tamanho de um homem.
— Cobras? Ninhos? Ursos? — disse Blue.
— Parque nacional protegido — disse Noah, sombriamente engraçado. E então, com uma valentia inesperada: — Vou entrar primeiro. Eles não podem me machucar.
Ele parecia desfocado e frágil enquanto deslizava para dentro. Houve silêncio, silêncio.
Blue forçou a visão.
— Noah?
De dentro da fenda se ouviu um rugido farfalhado enorme, e, de uma hora para outra, uma grande rajada de folhas de carvalho explodiu da abertura, sobressaltando Blue e Adam.
Noah reapareceu. Ele tirou quatro folhas e meia de carvalho do cabelo espigado de Blue e soprou alguns farelos de folhas do nariz de Adam.
— É seguro.
Adam estava contente por tê-los consigo.
Dentro era sombrio, mas não escuro; a luz vinha da entrada, e também de baixo, onde as pedras estavam empilhadas de qualquer jeito. No meio do espaço pequeno havia uma rocha grande do tamanho de uma mesa ou um altar. A superfície era gasta e côncava. Ele se lembrou ou a reconheceu de seu insight na garagem.
Depois sentiu um ligeiro tremor dos nervos, ou expectativa. Era estranho fazer isso com plateia. Ele não sabia bem como parecia visto de fora.
— Derrame a água ali, Blue.
Ela correu uma mão sobre a pedra para limpar a sujeira.
— Ah!
Ela tirou uma pedra negra do bolso e a colocou junto à reentrância. Então a encheu lentamente de água.
A poça rasa de água refletiu o teto escuro.
Noah se afastou, certificando-se de que não estava sendo refletido. Seu temor sugou o calor do espaço. Blue estendeu uma mão para ele, mas Noah balançou a cabeça.
Então ela ficou ao lado de Adam, o ombro pressionado contra o dele, e Adam se sentiu agradecido por isso também. Ele não conseguia se lembrar da última vez em que alguém o havia tocado, e o gesto era estranhamente tranquilizante. Após um segundo, Adam percebeu que parte disso se devia provavelmente ao fato da capacidade que Blue tinha de amplificar qualquer parte de Cabeswater à qual ele estivesse ligado.
Eles encararam a água. Ele já havia feito isso antes, mas nunca dessa maneira, cercado por pedras. Adam tinha a sensação de que havia outra pessoa ali com eles. Ele não queria admitir que já se sentia intimidado pela poça escura mesmo antes de qualquer coisa sobrenatural acontecer.
Nenhum dos dois disse nada por alguns minutos.
Finalmente, Blue sussurrou:
— É como se alguém lhe dissesse “Blusão bacana, cara!”, quando você estivesse com o uniforme da Aglionby.
— O quê?
— Eu queria que você soubesse por que eu fiquei tão brava com aquele velho. Eu estava pensando numa maneira de explicar. Sei que você não entende. Mas o motivo é esse.
Era verdade que ele não tinha compreendido a confusão no posto de gasolina, além do fato de que ela estava incomodada, e Adam não gostava que Blue fosse incomodada. Mas ela estava certa a respeito do blusão, também. As pessoas presumiam coisas baseadas no blusão ou no blazer da Aglionby o tempo inteiro; ele mesmo já fizera isso. E ainda fazia.
— Entendi — ele sussurrou de volta. Adam não sabia ao certo por que eles estavam sussurrando, mas se sentia melhor agora. Mais normal. Eles estavam no controle ali. — É uma simplificação.
— Exatamente. — Blue respirou fundo. — Tudo bem. E agora?
— Vou olhar para dentro disso e me concentrar — disse Adam. — Talvez eu me desligue para valer.
Noah se encolheu.
Blue, no entanto, soou prática:
— O que você quer que a gente faça se você se desligar para valer?
— Acho que nada. Eu realmente não sei como vou parecer por fora. Usem o bom senso se algo parecer errado, eu acho.
Noah se abraçou.
Inclinando-se sobre a poça, Adam viu o seu rosto. Ele não havia notado que não se parecia com ninguém mais até chegar ao segundo grau, quando todos começaram a notar isso. Ele não sabia se tinha uma boa ou uma má aparência — apenas que tinha uma aparência diferente. Cabia a cada um interpretar se a estranheza do rosto dele era bela ou feia.
Adam esperou que seus traços desaparecessem, se confundissem em uma sensação. Mas tudo que ele via era seu rosto sujo de Henrietta, com sua boca fina puxada para baixo. Ele gostaria que não tivesse crescido para parecer com os genes combinados dos seus pais.
— Não acho que esteja funcionando — ele disse.
Mas Blue não respondeu, e, após meia batida de coração, Adam percebeu que sua boca não havia se mexido no reflexo quando ele falou. Seu rosto apenas o encarava de volta, as sobrancelhas franzidas de suspeita e preocupação.
Seus pensamentos se revolviam dentro dele, lodo anuviando uma poça d’água. Seres humanos eram tão circulares; viviam os mesmos ciclos lentos de alegria e miséria repetidamente, sem nunca aprender. Toda lição no universo tinha de ser ensinada bilhões de vezes, e nunca era aprendida.
Como somos arrogantes, pensou Adam, por fazer bebês que não conseguem caminhar, falar ou se alimentar. Como estamos certos de que nada vai destruir essas pequenas criaturas antes que elas possam cuidar de si. Quão frágeis eles eram, quão facilmente abandonados, negligenciados, surrados e odiados. Animais que são presas nascem com medo.
Ele não achava que tivesse nascido com medo, mas havia aprendido.
Talvez fosse bom que o mundo esquecesse todas as lições, todas as memórias boas e ruins, todos os triunfos e fracassos, tudo isso morrendo com cada geração. Talvez essa amnésia cultural poupasse a todos. Talvez, se eles se lembrassem de tudo, a esperança morresse.
Fora de você, a voz de Persephone o lembrou.
Era difícil abandonar a si mesmo; havia um conforto estranho e terrível em vestir as bordas do seu interior.
Com esforço, Adam se lembrou de Cabeswater. Ele tateou ao longo do campo de energia de sua mente. Em algum lugar por ali haveria uma ponta ou dispersão, alguma aflição que ele poderia curar.
Lá estava. Bem no fundo da linha ley, a energia estava fraturada. Se ele se concentrasse, podia até ver a razão para isso: uma rodovia havia sido cortada na montanha, retirando rochas e rompendo a linha natural da ley. Agora ela espirrava instavelmente enquanto saltava por cima e por baixo da rodovia. Se Adam pudesse realinhar algumas das rochas carregadas no topo daquela montanha, isso causaria uma reação em cadeia que eventualmente faria com que a linha escavasse o seu caminho por baixo da terra e abaixo da rodovia, juntando as extremidades soltas novamente.
— Por que você quer que eu faça isso? Rogo aliquem aliquid.
Ele não esperava realmente uma resposta, mas ouviu um discurso balbuciado, incompreensível a não ser por uma palavra: Greywaren.
Era Ronan que falava a língua de Cabeswater sem esforço algum. Não Adam, que tinha dificuldade.
Mas não no pátio da Aglionby. Ele não tivera dificuldade então. Não houvera uma língua. Só ele e Cabeswater.
— Não Ronan — disse Adam. — Eu. Sou eu que estou fazendo isso por você. Me conta. Me mostra.
Imagens se sucederam rapidamente. Conexões voavam, elétricas. Veias. Raízes. Raios bifurcados. Afluentes. Ramos. Vinhas serpenteando em torno de árvores, manadas de animais, pingos d’água correndo juntos.
Não compreendo.
Dedos entrelaçados. Ombro encostado em ombro. Punho batendo em punho. Mão levantando Adam do chão de terra.
Cabeswater folheava loucamente através das próprias memórias de Adam e as apresentava por um instante em sua mente. Lançava imagens de Gansey, Ronan, Noah e Blue tão rápido que Adam mal conseguia acompanhar todas elas.
Então a grade de raios estourou através do mundo, uma grade iluminada de energia.
Adam ainda não compreendia, e então compreendeu.
Havia mais de uma Cabeswater. Ou mais do que quer que fosse.
Quantas? Ele não sabia. Quão vivas elas estavam? Ele não sabia também. Elas pensavam, eram estranhas, morriam, eram boas, eram certas? Ele não sabia. Mas sabia que havia mais de uma, e esta estendia os dedos ao máximo para alcançar a outra.
A enormidade do mundo cresceu cada vez mais dentro de Adam, e ele não sabia se podia contê-lo. Ele era apenas um garoto. Seria o seu destino saber disso?
Eles já haviam transformado Henrietta quando despertaram a linha ley e fortaleceram Cabeswater. Como o mundo pareceria com mais florestas despertas por toda parte? Será que ele se partiria ao meio com a eletricidade estática e a magia, ou aquele era um balanço pendular, resultado de centenas de anos de sono?
Quantos reis dormiam?
Não posso fazer isso. É grande demais. Não fui feito para isso.
A dúvida de súbito o transpassou sombriamente. Era uma coisa essa dúvida, ela tinha peso, corpo e pernas...
O quê? Adam achou que havia falado em voz alta, mas não conseguia lembrar bem como fazer era diferente de imaginar. Ele havia perambulado longe demais do próprio corpo.
Mais uma vez, ele sentiu aquele algo duvidoso o buscando, falando com ele. Ele não acreditava no poder dele aqui. Ele sabia que Adam era um fingidor.
Adam lutou com as palavras. Você é Cabeswater? Você é Glendower? Mas palavras pareciam o meio errado para aquele lugar. Palavras eram para bocas, e ele não tinha mais boca. Ele se estendeu por aquele mundo; Adam parecia não conseguir encontrar seu caminho de volta para a caverna. Ele era um oceano, afundando, sinistramente.
Ele estava sozinho, exceto por essa coisa, e achou que ela o odiava ou o queria, ou ambos. Ele desejava vê-la; vê-la não seria a pior das possibilidades.
Adam se debatia no escuro. Todas as direções pareciam a mesma. Algo subia rastejando em sua pele.
Ele estava em uma caverna. Agachado. O teto era baixo e as estalactites tocavam as suas costas. Quando ele estendeu o braço para tocar a parede, ela pareceu real sob seus dedos. Ou como se fosse real e ele não.
Adam
Ele se virou para a voz, e era de uma mulher que ele reconheceu, mas não conseguia nomear. Ele estava distante demais dos seus pensamentos. Embora Adam estivesse certo de que havia sido a voz dela, ela não olhou para ele. Ela estava agachada na caverna ao seu lado, sobrancelhas fechadas em concentração, um punho pressionado aos lábios. Um homem se ajoelhava ao lado dela, mas tudo a respeito do seu corpo dobrado e esguio sugeria que ele não estava em comunicação com a mulher. Ambos não se mexiam enquanto encaravam uma porta instalada na pedra.
Adam, vá
A porta lhe dizia para tocá-la. Ela descrevia a satisfação da maçaneta virando debaixo de sua mão. Ela prometia uma compreensão da escuridão dentro dele se Adam a abrisse. Ela pulsava nele, a fome, o desejo crescente.
Ele nunca quisera tanto algo.
Ele estava na frente dela. Adam não se lembrava de atravessar a distância, mas de alguma maneira ele havia feito isso. A porta era vermelho-escura, entalhada com raízes, nós e coroas. A maçaneta tinha um tom negro oleoso.
Ele havia se distanciado tanto do seu corpo que não conseguia imaginar nem como começar a voltar para ele.
A porta precisa de três para abrir
Adam se agachou, imóvel, os dedos fechados na pedra, temerosos e desejosos.
Em algum lugar muito distante, ele sentiu seu corpo envelhecendo.
Adam, vá
Não posso, ele pensou. Estou perdido.
— Adam! Adam. Adam Parrish.
Ele voltou com um acesso de dor. O rosto parecia molhado; a mão parecia molhada; as veias pareciam cheias demais de sangue.
A voz de Noah se ergueu:
— Por que você o cortou tão fundo?
— Eu não medi! — disse Blue. — Adam, seu idiota, diz alguma coisa.
A dor tornava toda resposta possível mais dura do que teria sido de outra forma. Em vez disso, ele sibilou e se endireitou a duras penas, firmando uma mão com a outra. O ambiente que o cercava estava lentamente se apresentando para ele; Adam havia esquecido que eles rastejaram para passar entre as rochas. Noah se agachava a poucos centímetros dele, os olhos em Adam. Blue estava um pouquinho atrás.
As coisas começavam a fazer sentido. Ele estava muito consciente de seus dedos, de sua boca, de sua pele, de seus olhos e de si mesmo. Ele não se lembrava de um dia ter se sentido tão feliz assim em ser Adam Parrish.
Seus olhos se concentraram no canivete rosa na mão de Blue.
— Você me cortou? — ele disse.
Os ombros de Noah se curvaram repentinamente de alívio ao ouvir sua voz.
Adam estudou sua mão. Um corte limpo marcava o dorso. Sangrava sem se importar com o que ele pensasse a respeito, mas não doía muito, a não ser que ele mexesse a mão. O canivete devia estar muito afiado.
Noah tocou a borda do ferimento com seus dedos congelados, e Adam o afastou com um tapa. Ele lutava para se lembrar de tudo que a voz acabara de dizer, mas ela já deslizava para fora de sua cabeça como um sonho.
Haviam sido ditas palavras? Por que ele acreditava que haviam sido ditas palavras?
— Eu não sabia mais o que fazer para tentar te trazer de volta — admitiu Blue. — O Noah disse para eu te cortar.
Ele estava confuso com o canivete. Parecia representar um lado diferente de Blue; um lado que Adam não havia pensado que existisse. Seu cérebro se cansou quando ele tentou encaixar essa parte com o resto dela.
— Por que vocês me pararam? O que eu estava fazendo?
Ela disse “nada” ao mesmo tempo em que Noah dizia “morrendo”.
— O seu rosto ficou meio vazio — ela continuou. — E aí seus olhos simplesmente... pararam de piscar? De se mover? Tentei te trazer de volta.
— E aí você parou de respirar — disse Noah, desabando até o chão. — Eu avisei. Eu avisei que era uma má ideia, mas ninguém nunca me ouve. “Ah, vamos ficar bem, Noah, você está sempre se preocupando”, e quando eu vejo você está nas garras da morte. Ninguém nunca diz: “Noah, sabe de uma coisa? Você estava certo. Obrigado por salvar a minha vida, porque estar morto seria um saco”. As pessoas sempre...
— Para — interrompeu Adam. — Estou tentando lembrar tudo que aconteceu.
Havia alguém importante... três... uma porta... uma mulher que ele reconheceu...
Estava desaparecendo. Tudo, exceto o terror.
— Da próxima vez vou deixar você morrer — disse Blue. — Enquanto faz o seu truquezinho especial, Adam, você esquece onde eu cresci. Sabe qual é a palavra que as pessoas usam quando alguém te ajuda durante um ritual ou uma leitura? É obrigado. Você não devia ter trazido a gente se queria fazer isso sozinho.
Adam se lembrou de uma coisa: ele se perdera.
O que significava que, se tivesse vindo sozinho, estaria morto agora.
— Desculpa — ele disse. — Eu fui um tanto imbecil mesmo.
— Nós não íamos dizer isso — respondeu Noah.
— Eu ia — disse Blue.


Então eles escalaram até o topo da montanha e, enquanto o sol os atingia com tudo do alto, encontraram as pedras que Adam tinha visto na poça de divinação. Foi necessária toda a força deles juntos para empurrar as pedras apenas alguns centímetros. Adam não sabia como teria conseguido essa parte sem ajuda, também. Talvez ele estivesse fazendo errado e houvesse uma maneira de movê-las mais adequada a um mágico.
Adam deixou impressões digitais com sangue na pedra, mas havia algo nisso que lhe causava satisfação.
Eu estive aqui. Eu existo. Estou vivo, porque sangro.
Ele não deixara de se sentir agradecido por seu corpo. Olá, mãos outrora ressecadas de Adam Parrish, estou contente em vê-las.
Eles sabiam o momento preciso em que solucionaram o alinhamento, porque Noah disse “Ah!” e estendeu os dedos para o ar. Por alguns minutos, ficou posicionado contra o céu lívido, e não havia diferença entre ele, Blue e Adam. Não havia o que dizer, a não ser que ele era uma pessoa absolutamente viva.
Enquanto o vento os fustigava, Noah lançou um braço camarada em torno dos ombros de Blue e outro em torno dos ombros de Adam, e trouxe os dois para si. Eles seguiram cambaleantes de volta para a trilha. O braço de Blue passava por trás das costas de Noah e seus dedos agarravam a camiseta de Adam, de maneira que eles eram uma única criatura, um animal ébrio de seis pernas. A mão de Adam pulsava com a batida de seu coração.
Ele provavelmente sangraria até a morte no caminho de volta descendo a montanha, mas não se importava com isso.
Subitamente, com Noah ao seu lado e Blue próxima dele, três fortes, Adam se lembrou da mulher que tinha visto na poça.
E soube imediatamente quem era.
— Blue — ele disse. — Eu vi sua mãe.

2 comentários:

  1. Olha só que legal é você não ser um mala por alguns minutos, né qrido? mesmo que você ainda tenha sido um mala algumas vezes

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  2. Eu acho que aquele homem que estava com a Maura era o Artemus. Será ?

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Boa leitura, E SEM SPOILER!