30 de julho de 2018

Capítulo 38

AURANOS

Os aposentos da princesa Cleo agora pertenciam a Lucia. Magnus ficou por perto enquanto os médicos e curandeiros a cercavam, mas eles saíram quando perceberam que não podiam fazer mais nada para ajudar. Ela estava deitada na grande cama com dossel, com o belo rosto pálido, os cabelos bem pretos espalhados sobre os travesseiros de seda.
Magnus ficou paralisado ao lado da cama, amaldiçoando a deusa que não havia respondido às suas preces. Uma curandeira limpava a testa de Lucia com um pano frio e úmido.
— Saia daqui — ele esbravejou.
A mulher olhou para ele com medo e saiu correndo do quarto. Ele estava reagindo assim ultimamente. Suas ações no campo de batalha, a facilidade com que tirara a vida daqueles que estavam em seu caminho e a frieza com que assistira ao chefe Basilius ser assassinado fariam sua reputação de sanguinário quase se equiparar à de seu pai.
Apenas Lucia era capaz de enxergar seu verdadeiro eu — mesmo antes de sua espada ter sentido gosto de sangue. Mas talvez aquele Magnus tivesse morrido na noite em que mostrara a ela seus verdadeiros sentimentos. A máscara que ele sempre usava havia se rompido, mas uma nova havia crescido, mais forte e espessa do que nunca. Ele poderia ficar feliz com aquilo, mas não sentia nada além de luto pelo que havia se perdido.
— O amor de um irmão por sua irmã — o rei disse atrás dele. Os ombros de Magnus ficaram tensos, mas ele não tirou os olhos do rosto de Lucia. — É mesmo uma coisa linda.
— Ela não está melhorando.
— Mas vai melhorar.
— Como pode afirmar? — As palavras de Magnus eram tão afiadas quanto sua espada.
— Eu tenho fé, meu filho. Ela é exatamente como a profecia disse que seria: uma feiticeira diferente de qualquer outra que o mundo já viu em mil anos.
— Ou ela não passa de uma bruxa que agora está destruída por ajudar o senhor a conquistar a vitória sobre Auranos.
Seu pai zombou.
— Magnus, você é tão pessimista. Apenas espere. Amanhã falarei com meus novos súditos e acalmarei a mente deles em relação ao futuro. Todos agora são cidadãos honorários de Limeros. Eles vão comemorar minha vitória.
— E se não comemorarem, o senhor vai garantir que sejam punidos.
— Não posso ter nenhum opositor. Não ficaria muito bem, ficaria?
— Acha que ninguém se oporá?
— Talvez alguns. E eu serei obrigado a usá-los como exemplo.
O comportamento calmo de seu pai a respeito de tudo aquilo era irritante.
— Só alguns? Nós invadimos o reino e matamos o rei deles, a princesa mais velha, e tomamos a terra; além disso, assassinamos o líder de Paelsia. Acha que todos vão aceitar sem questionar?
— Não fomos responsáveis pela morte da princesa Emilia. Foi uma tragédia ela estar doente. Eu nunca mataria uma garota inocente. Afinal, sua presença no palácio teria facilitado meu caminho para o coração dos cidadãos auranianos.
— E a princesa Cleiona? E ela? É rainha agora.
O rei ficou tenso. Era o primeiro sinal de nervosismo que Magnus havia visto.
— Ela seria esperta se viesse até mim e implorasse por minha proteção.
— E o senhor a protegeria? Ou cortaria a garganta dela também?
O rei sorriu — um sorriso frio — e passou o braço sobre os ombros rígidos do filho.
— Sinceramente, Magnus. Cortar a garganta de uma menina de dezesseis anos? Que tipo de monstro acha que eu sou?
Algo chamou a atenção de Magnus. As pálpebras de Lucia se mexeram. Ele perdeu o fôlego.
Mas depois de esperar mais alguns instantes, nada mais aconteceu. O rei apertou ainda mais os ombros de Magnus, como se soubesse que ele estava sofrendo.
— Está tudo bem, filho. Ela vai se recuperar com o tempo. Isso é apenas temporário.
— Como sabe disso? — A voz dele estava sufocada.
— Porque a magia ainda está dentro dela, e eu ainda não acabei. Preciso usá-la para encontrar a Tétrade. — O rei fez um gesto positivo com a cabeça, confiante e muito sério. — Deixe-nos, Magnus. Eu fico com ela.
— Mas pai…
— Eu disse para ir agora. — Era impossível confundir seu tom de voz firme. Tratava-se de um pedido inegociável.
Magnus saiu do lado da cama e lançou um olhar obscuro ao pai.
— Eu vou voltar.
— Não tenho dúvidas disso.
Ele saiu do quarto e encostou na parede do corredor. Parecia que ele havia recebido uma facada no coração. Se Lucia nunca acordasse, ele a perderia para sempre. O luto pela única pessoa no mundo que ele havia amado e que havia retribuído esse amor enfraqueceu seus joelhos.
Ele passou a mão no rosto, imaginando o que seria aquela umidade quente. Por um instante, achou que estivesse sangrando.
Praguejando em voz baixa, afastou as lágrimas, jurando que seriam as últimas que derramaria. Força, e não fraqueza, era o que ele precisava daquele dia em diante.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!