15 de julho de 2018

Capítulo 38

Henry estava usando calças quando Blue e Gansey se encontraram com ele e o Homem Cinzento no Águia Nova. O supermercado estava quase vazio e tinha aquela atemporalidade reluzente que esses lugares começavam a assumir após determinada hora da noite. O som ambiente tocava uma canção sobre deixar os sonhos de outra pessoa e entrar em seu carro. Havia apenas uma moça no caixa, e ela não ergueu o olhar quando eles passaram pelas portas automáticas. Eles encontraram Henry parado no corredor de cereais olhando para o seu telefone, enquanto o sr. Cinzento permanecia parado no fim do corredor, lendo convincentemente a parte de trás de uma lata de aveia granulada. Nenhum dos dois chamava atenção. O sr. Cinzento se fundia ao ambiente porque a sua profissão o havia ensinado a fazer isso. Henry não se fundia ao ambiente — ele exalava a dinheiro, da jaqueta cheia de estilo à camiseta da Madonna, passando pelos tênis pretos —, e mesmo assim ele não conseguia chamar a atenção de nenhuma maneira extraordinária: Henrietta não era estranha a esse tipo de dinheiro jovem da Aglionby.
Henry estivera segurando uma caixa de cereal do tipo ruim para você, mas bom para marshmallows, e a colocou de volta na prateleira quando os viu. Parecia bem mais agitado do que estivera na festa de toga. Provavelmente, refletiu Blue, um efeito colateral de ter sido mantido refém com uma arma apontada para si.
— O que eu me pergunto — disse Gansey — é o que estou fazendo no supermercado Águia Nova às onze da noite.
— O que eu me pergunto — respondeu Henry — é por que eu estava no carro de um bandido às nem-sei-que-horas da noite. Sargent, me fala que você não faz parte dessa quadrilha sórdida de ladrões.
Com as mãos nos bolsos de seu blusão com capuz, Blue deu de ombros como que se desculpando e gesticulou com o queixo para o Homem Cinzento.
— Ele tá tipo... saindo com a minha mãe.
— Que rede emaranhada nós tecemos — disse Gansey de um jeito animado, recortado. Ele estava excitado após a noite na Barns, e a presença de Henry apenas encorajava isso. — No entanto, esse não era o próximo passo que eu queria dar na nossa amizade. Sr. Cinzento?
Ele teve de repetir o nome do sr. Cinzento, pois na realidade o Homem Cinzento não estivera fingindo olhar para a lata de aveia; ele estivera realmente lendo a parte de trás dela.
O sr. Cinzento se juntou a eles. Ele e Blue trocaram um abraço de lado e em seguida ele a virou pelos ombros para examinar os pontos acima de sua sobrancelha.
— Foram bem dados.
— Mesmo?
— Você provavelmente não vai ficar com cicatriz.
— Droga — disse Blue.
— O Águia Nova foi ideia sua ou do Henry?
— Achei que poderia ser reconfortante. É bem iluminado, tem câmeras, mas o áudio não é gravado. Protegido e seguro — respondeu o sr. Cinzento.
Blue jamais havia pensado no supermercado dessa maneira.
— Desculpe sobre o susto — acrescentou o sr. Cinzento cordialmente.
Henry acompanhava atentamente todo o diálogo.
— Você estava fazendo o seu trabalho. Eu estava fazendo o meu.
Era verdade. Enquanto Blue crescera aprendendo os princípios da energia interna e ouvindo histórias de ninar, Henry Cheng crescera contemplando quão longe ele suportaria para proteger os segredos de sua mãe. A ideia de que eles haviam tido alguma participação nisso a deixou tão desconfortável, que ela disse:
— Agora vamos parar de fazer suposições e começar a pensar em soluções. Podemos conversar sobre quem está vindo para cá e por quê? Não era esse todo o sentido dessa troca? Alguém está vindo de algum lugar para conseguir algo, e está todo mundo enlouquecendo com isso?
— Você é uma dama de ação. Agora eu sei por que R. Gansey incluiu você ao gabinete dele. Venha comigo, presidente — disse Henry.
Eles o seguiram. Seguiram pelo corredor de cereais, o corredor da padaria e o corredor dos enlatados. Enquanto o faziam, Henry descrevia o que lhe haviam dito sobre a venda que estava para acontecer, com todo o entusiasmo de um aluno que faz uma apresentação escolar sobre um desastre natural. O encontro dos vendedores de artefatos era para acontecer no dia após o evento para arrecadar fundos em Aglionby, a fim de disfarçar melhor a chegada de carros e pessoas estranhas a Henrietta. Vários grupos desceriam para inspecionar o objeto à venda — uma entidade mágica —, para que os potenciais compradores pudessem confirmar por si mesmos o caráter sobrenatural do produto. Então um leilão seria feito — pagamento e entrega de mercadoria, como sempre, a serem realizados em uma locação em separado, fora do alcance de olhos curiosos; afinal, ninguém queria ter sua carteira proverbial roubada por um colega comprador. Outros artigos talvez fossem disponibilizados para venda; informações, pessoalmente.
— Uma entidade mágica? — Blue e Gansey ecoaram ao mais tempo em que o Homem Cinzento disse: — Outros artigos?
— Entidade mágica. Essa era toda a descrição. A ideia é que seja um grande segredo. Vale a viagem! Eles falaram. — Henry traçou com o dedo um rosto sorridente sobre o exterior de uma caixa de macarrão e queijo para micro-ondas. O logotipo era um urso minúsculo com um monte de dentes; era difícil dizer se ele estava sorrindo ou fazendo uma careta. — Falaram para eu me manter ocupado e não aceitar doces de nenhum estranho.
— Entidade mágica. Será que é o Ronan? — perguntou Gansey ansiosamente.
— Nós acabamos de ver o Ronan; eles não tentariam vendê-lo sem que o tivessem em mãos, certo? Poderia ser um demônio? — disse Blue.
Gansey franziu o cenho.
— Certamente ninguém tentaria vender um demônio.
— Laumonier poderia — disse o sr. Cinzento, não soando afetuoso. — Não gosto do som de “outros artigos”. Não quando estamos falando de Laumonier.
— O que isso parece? — perguntou Gansey.
— Pilhagem — respondeu Henry por ele. — O que você quer dizer com o Ronan sendo uma entidade mágica? Ele é um demônio? Porque, se ele for, isso faz todo sentido.
Nem Blue nem Gansey se apressaram para responder a essa questão; a verdade de Ronan era um segredo tão enorme e perigoso que nenhum dos dois estava disposto a brincar com isso, mesmo com alguém que ambos gostavam tanto quanto Henry.
— Não exatamente — disse Gansey. — Sr. Cinzento, o que acha de todas essas pessoas vindo para cá? O Declan parecia preocupado.
— Não posso dizer que sejam as pessoas mais inocentes do mundo — disse o Homem Cinzento. — Elas vêm de todas as partes, e a única coisa que têm em comum é um determinado oportunismo e uma moral flexível. Imprevisíveis sozinhas, mas coloque-as juntas em um lugar com algo que elas realmente desejam, e é difícil dizer o que pode acontecer. Há uma razão para que tenham sido orientadas a não trazer dinheiro consigo. E se o Greenmantle decide partir para cima do Laumonier? A briga é feia entre eles e os Lynch.
— Colin Greenmantle está morto — disse Henry de maneira absolutamente precisa. — Ele não vai partir para cima de ninguém tão cedo, mas, se o fizer, vamos ter problemas maiores para considerar.
— Ele está morto? — disse o Homem Cinzento bruscamente. — Quem dis... espere.
Os olhos do Homem Cinzento viraram-se abruptamente para cima. Foi necessário um momento para que Blue percebesse que ele estava olhando para um espelho convexo colocado ali para evitar o roubo de produtos. O que quer que ele tenha visto no espelho instantaneamente o transformou em algo abrupto e poderoso.
— Blue — ele disse em voz baixa —, você tem a sua faca?
O pulso de Blue lentamente subiu o conta-giros; ela o sentiu em seus pontos.
— Sim.
— Dê a volta com os garotos até o próximo corredor. Não por ali. O outro. Sem fazer barulho. Não lembro se a entrada para a sala dos fundos é naquela parede, mas, se for, saiam por ali. Não saiam por uma porta que possa disparar um alarme.
O que quer que ele tenha visto no espelho havia desaparecido agora, mas eles não hesitaram. Blue seguiu na frente rapidamente até o fim do corredor dos enlatados, olhou de relance para ambos os lados e entrou no outro corredor. Sabão em pó. Caixas e mais caixas, em uma reunião agressiva de cores. Do outro lado deles havia uma grande caixa de manteiga e ovos. Nenhuma saída para um depósito. A parte da frente da loja parecia distante.
Do outro lado do corredor, eles ouviram a voz do Homem Cinzento, baixa, equilibrada e perigosa. Um tom mais frio do que havia usado há pouco com eles. Outra voz respondeu, e Henry ficou absolutamente imóvel ao lado deles. Seus dedos tocaram a borda de uma das prateleiras — Desconto incrível de 3,99 dólares! —, e ele virou a cabeça, ouvindo.
— É — ele sussurrou. — É o Laumonier.
Laumonier. Um nome que carregava mais emoção do que um fato. Blue o ouvira em conversas sussurradas sobre Greenmantle. Laumonier. Perigo.
Eles ouviram Laumonier dizer em sua voz, cheia de sotaque:
— Que surpresa vê-lo aqui em Henrietta! Onde está o seu dono, sabujo?
— Acho que nós dois sabemos a resposta a essa pergunta — disse o sr. Cinzento, com a voz tão equilibrada que nem parecia que ele ficara sabendo da notícia sobre Colin Greenmantle apenas poucos minutos atrás. — De qualquer maneira, andei trabalhando sozinho desde o verão. Achei que era do conhecimento de todos. Para mim, é mais interessante ver você aqui em Henrietta.
— Bem, a cidade não pertence a ninguém agora — disse Laumonier —, então estamos em um país livre, como dizem.
— Não tão livre — disse o Homem Cinzento. — Pelo que eu sei, você tem algo para vender aqui. Gostaria de te ver chegando e indo embora de novo: Henrietta é o meu lar agora, e não sou fã de hóspedes.
Havia certa graça na situação.
— Essa é a parte onde eu digo “ou o quê”? Porque parece que deveria ser assim.
Suas vozes se calaram por um momento — parecia que a situação estava ficando desagradável —, e Gansey começou a digitar furiosamente. Ele virou o telefone para Blue e Henry.
Ele está enrolando para dar tempo de a gente sair daqui. Henry a abelharobô consegue encontrar uma porta?
Henry pegou o telefone de Gansey e acrescentou ao texto:
Vou ter que esconder a abelharobô pq eles sempre a quiseram essa é uma das razões pq me pegaram
Blue arrancou o telefone dele e digitou mais lentamente, porque ela tinha bem menos prática do que eles:
Quem o sr Cinzento está tentando esconder deles? Todos nós ou só você Henry
Henry tocou o peito suavemente.
Blue digitou:
Vão assim q puderem. A gte se vê depois
Em seguida passou o telefone de Gansey de volta para ele, tirou rapidamente várias etiquetas de preços das prateleiras até ficar com um buquê delas, e deu a volta no fim do corredor. Blue levou um susto ao descobrir que não havia um homem com o sr. Cinzento, mas dois. Ela levou um bom tempo para perceber que a sensação desconcertante que tivera ao olhar para os estranhos se devia ao fato de eles parecerem esquisitamente parecidos um com o outro. Irmãos. Gêmeos, talvez. Ambos tinham uma aparência que ela passara a desprezar durante seu tempo trabalhando no Nino’s. Clientes que não aceitavam um não como resposta, com os quais era difícil de negociar, que sempre terminavam tirando parte do seu pedido da conta. Além disso, eles tinham um jeito lento, mandão, que de certa maneira cheirava a uma vida inteira de traumas bruscos.
Eram ligeiramente aterrorizantes.
O sr. Cinzento piscou para Blue de um jeito vago, nenhum reconhecimento em seu rosto. Os outros dois homens miraram o blusão com capuz de Blue primeiro — não parecia muito profissional — e então seu punhado de etiquetas de preços. Ela passou o polegar sobre as extremidades delas de um jeito entediado e casual, e disse:
— Senhores? Olá? Sinto muito pela inconveniência, mas vou precisar que vocês tirem seus carros.
— Desculpe, por quê? — perguntou o primeiro. Agora que ela podia ouvi-los melhor, seu sotaque era mais pronunciado. Francês? Talvez.
— Nós estamos fazendo compras — disse o outro, vagamente entretido.
Blue carregou em seu sotaque de Henrietta; ela havia aprendido de outros tempos que isso a tornava inofensiva e invisível para pessoas de fora da cidade.
— Eu sei. Sinto muito. Nós temos um varredor de rua para limpar o estacionamento, e ele quer a área toda liberada. Ele vai ficar possesso se ainda tiver carros quando chegar.
O sr. Cinzento procurou de maneira tão exagerada suas chaves, que levantou a perna de uma calça, revelando uma arma. Os irmãos resmungaram e trocaram olhares entre si.
— Sinto muito de novo — disse Blue. — Vocês podem levar os carros para o estacionamento da lavanderia se não tiverem terminado aqui.
— Varredor de rua — disse Laumonier, como se tivesse acabado de ouvir a frase.
— A empresa nos obriga a fazer isso para manter a franquia — disse Blue. — Eu não faço as regras.
— Vamos manter a decência — disse o sr. Cinzento, com um sorriso fino para os outros dois. Ele não olhou para Blue. Ela continuou parecendo entediada e sitiada, correndo os polegares sobre as etiquetas de preços sempre que sentia o coração bater mais forte. — Nos falamos mais tarde.
Os três seguiram na direção da porta da frente, a formação inquieta de ímãs opostos se ampliando, e, quando partiram, Blue deslizou apressadamente pelo corredor, através das portas dos fundos, passando por banheiros sujos, entrando em um depósito cheio de caixas e latas, e saindo para a rua onde Gansey e Henry tinham acabado de chegar, repleta de latas de lixo, entupidas de papelões atrás da loja.
Sua sombra os alcançou primeiro, lançada fixa na parte de trás do supermercado, e ambos se encolheram diante do movimento antes de perceber a quem ela pertencia.
— Sua coisa mágica — disse Gansey, e abraçou a cabeça de Blue, livrando grande parte de seu cabelo dos prendedores. Os dois estavam tremendo no frio. Tudo parecia falso e inflexível sob o céu negro, com os dois rostos de Laumonier ainda na memória de Blue. Ela ouviu portas de carros se fechando, talvez do estacionamento da frente, cada som ao mesmo tempo distante e próximo na noite. — Aquilo foi genial.
Henry estendeu a mão acima da cabeça, a palma aberta para o céu. Um inseto redemoinhou de sua mão, por um momento mal iluminado pelas luzes da rua, e então se perdeu na escuridão. Ele o observou ir e então buscou o telefone.
Blue perguntou:
— O que eles queriam? Por que o sr. Cinzento acha que eles estariam interessados em você?
Henry observou uma página de texto passar pela tela.
— A AbelhaRobô... o Gansey Boy te contou o que era? Bom... a AbelhaRobô foi uma das primeiras coisas que o Laumonier e o Greenmantle disputaram. O Lynch estava falando em vendê-la para um deles, mas ele a vendeu para a minha mãe, porque ela a queria para mim; ela nunca esqueceu isso; é por isso que eles a odeiam e ela os odeia.
— Mas o Laumonier não está aqui por sua causa, não é? — perguntou Gansey. Ele também estava lendo a tela do telefone de Henry. Ela parecia reportar de volta sobre o paradeiro de Laumonier.
— Não, não — disse Henry. — Eu aposto que eles reconheceram o carro do seu cara Cinzento dos velhos tempos e vieram conferir se tinha alguma coisa para conseguir de Kavinsky enquanto estavam por aqui. Não posso dizer que conheço o jeito dos franceses. Não sei se eles ainda me reconheceriam daquele buraco no chão; estou mais velho agora. Mas mesmo assim... Parece que o cara assassino de vocês achou que tinha uma chance de isso acontecer. Ele me fez um favor. Jamais vou esquecer.
Ele virou o telefone para que Blue visse a reportagem ao vivo das ações de Laumonier. O texto vinha aos trancos, era estranhamente coloquial, e descrevia o lento progresso de Laumonier saindo do estacionamento da mesma maneira que Henry havia descrito a venda de artefatos que estava para acontecer. Os pensamentos de Henry, na tela. Era uma mágica esquisita e específica.
Enquanto eles a observavam juntos, Gansey abriu o sobretudo e enfiou Blue dentro dele, de costas para si. Isso também era uma mágica esquisita e específica, o desembaraço dela, o calor de Gansey à sua volta, a batida do coração dele nas costas dela. Ele fechou uma mão em concha sobre o olho machucado dela como se para protegê-lo de algo, mas era apenas uma desculpa para as pontas de seus dedos a tocarem.
Henry não parecia afetado por essa exibição pública de proximidade. Ele pressionou os dedos contra a tela do celular; ela piscou algumas vezes e reportou algo para ele em hangul.
— Você gostaria... — Blue começou, e hesitou. — Você quer ficar com a gente hoje à noite?
A surpresa iluminou o sorriso de Henry, mas ele balançou a cabeça.
— Não, não posso. Preciso voltar para Litchfield, um capitão para o seu barco. Eu não me perdoaria se eles viessem atrás de mim e encontrassem Cheng Dois e os outros. Vou deixar a AbelhaRobô de vigília até que a gente possa... — Ele fez um círculo com um dedo em um gesto que significava algo como uma reunião em um local combinado.
— Amanhã? — perguntou Gansey. — Vou encontrar minha irmã no almoço. Apareçam, por favor.
Nem Henry nem Blue precisaram dizer qualquer coisa em voz alta; Gansey certamente devia saber que, só pelo convite, ele assegurara que ambos viessem.
— Acho que somos amigos agora — disse Henry.
— Certamente — respondeu Gansey. — A Jane diz que deve ser assim.
— Deve ser assim — concordou Blue.
Algo mais iluminou o sorriso de Henry nesse instante. Era algo genuíno e satisfeito, mas também mais do que isso, e não havia palavras que o descrevessem precisamente. Ele guardou o telefone no bolso.
— Bom, bom. O caminho está liberado; vou indo nessa. Até amanhã.

Um comentário:

  1. Os caras são trigêmeos, onde será que está o terceiro?

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Boa leitura, E SEM SPOILER!