5 de julho de 2018

Capítulo 38

O dia havia finalmente chegado.
Após todos os adiamentos, após meses de espera, era chegado o dia no tribunal.
Adam se levantou como faria normalmente para ir à escola, mas, em vez de colocar o uniforme, colocou o terno bacana que havia comprado seguindo o conselho de Gansey um ano antes. Ele não permitira que Gansey pagasse por nada, na época. No entanto, a gravata em que ele deu o nó agora fora presente de Natal de Gansey, que Adam aceitou porque já tinha uma gravata quando o amigo a comprou, então não seria caridade.
Parecia um princípio bobo agora, completamente divorciado da realidade. Adam se perguntou se passaria cada ano de sua vida pensando em como havia sido estúpido no ano anterior.
Ele pensou em esperar até depois do café da manhã para se vestir, para evitar derramar qualquer coisa no terno, mas isso era bobagem. Ele não seria capaz de comer nada.
Seu caso era às dez da manhã, horas depois do início das aulas, mas Adam tinha pedido permissão para folgar o dia inteiro. Ele sabia que seria impossível esconder a razão de sua ausência de Gansey e Ronan se tivesse de deixar a escola no meio da manhã, e igualmente difícil de disfarçar onde ele estivera se voltasse logo depois do tribunal.
Parte dele queria não estar fazendo isso sem os outros — um desejo chocante diante do fato de que, apenas algumas semanas antes, a própria ideia de que Gansey pudesse chegar a saber a respeito do julgamento havia perturbado Adam.
Mas agora — não. Ele ainda não queria que eles lembrassem essa parte dele. Ele só queria que vissem o novo Adam. Persephone havia lhe dito que ninguém precisava saber do seu passado se ele não quisesse que soubessem.
Ele não queria.
Então ele esperou, enquanto Gansey, Ronan e Blue partiam para a escola e viviam dias comuns. Ele se sentou na beirada do colchão e trabalhou um plano para chantagear Greenmantle enquanto transcorria o primeiro período. Olhou fixamente para o texto de biologia e pensou em um círculo sem pó em torno de seus pés para o segundo período. Então foi para o tribunal.
Cabeswater acenou para Adam, mas ele não podia voltar atrás. Ele tinha de estar ali para isso.
Cada passo diante do tribunal era um evento esquecido tão logo acontecia. Havia o estacionamento, um detector de metal, um funcionário, uma escada de fundos em vez de um elevador, outro funcionário, uma sala vista de relance com o teto baixo e bancos como uma igreja de cada lado de um corredor, uma igreja para o mundano, uma missa para aqueles que alegavam inocência.
Adam tentou se acalmar dizendo a si mesmo que as pessoas trabalhavam ali todos os dias, que aquilo não era nada extraordinário para elas, que não havia nada de especial a respeito daquele prédio. Mas o cheiro de prédio antigo, de mofo e cola, a sensação do tapete puído debaixo dos seus pés, a luz das lâmpadas fluorescentes inconstante e insalubre acima — tudo parecia estranho. Tudo era um fardo para seus sentidos, com o peso de como aquele dia não era igual a nenhum outro. Ele passaria mal. Ou desmaiaria.
Será que seu pai já estava no prédio?
Era uma sala de tribunal fechada para casos juvenis, de maneira que as únicas pessoas na sala até o momento eram profissionais: assistentes, advogados, oficiais de justiça.
Adam repassou os resultados possíveis em sua cabeça. Se ele perdesse, sabia academicamente que o tribunal não poderia obrigá-lo a voltar para casa. Ele tinha dezoito anos e era livre para fracassar ou ser bem-sucedido na vida, à parte de sua família. Mas será que isso ficaria marcado em sua história? Um garoto que havia falsamente levado o pai aos tribunais? Como seria feio. Que baixaria. Ele imaginou o pai de Gansey interpretando: disputa familiar das classes mais baixas. É por isso que os mais desfavorecidos continuam desfavorecidos, ele diria. Brigas entre si e bebida, TV o dia inteiro e compras em liquidação no Walmart.
Ele não conseguia se sentir muito imbuído da vitória, também, pois não tinha certeza de como isso pareceria. Era possível que seu pai voltasse para a cadeia. Se isso acontecesse, será que sua mãe teria como pagar as contas? Ele não devia se preocupar com isso. Mas não conseguia parar de pensar.
Adam sentia como se estivesse fingindo em seu terno novo.
Mas você é apenas um deles, um caipira pobretão usando diamantes.
Lá estava o seu pai.
Ele usava uma jaqueta com o logotipo de alguma empresa local nas costas e a camisa polo de sua empresa. Adam rezou em busca de alguma clareza, para ver o seu pai como todos o viam, em vez de Pai? É o Adam...
— Ainda dá tempo de você contar a verdade — disse Robert Parrish.
A mãe de Adam não tinha vindo.
Os dedos de Adam estavam entorpecidos.
Mesmo se eu perder, ele pensou debilmente, ele não pode me fazer voltar, então não importa. Vai ser só uma hora de humilhação e aí terá terminado.
Ele gostaria de nunca ter feito isso.
— Muito bem — disse o juiz. Seu rosto era uma memória que desapareceu no instante em que Adam piscou os olhos.
Cabeswater o roubou por um segundo jubiloso, as folhas dobradas em torno de sua garganta, e então o soltou. Com que desespero Adam queria se prender a Cabeswater. Por mais estranho que fosse, era algo familiar, e do seu lado.
Ele errara em ir ali sozinho. Por que ele se importava que Gansey e Ronan vissem isso? Eles já sabiam. Eles sabiam tudo sobre ele. Que mentira o incognoscível era. A única pessoa que não conhecia Adam era ele mesmo.
Que idiota orgulhoso você tem sido, Adam Parrish.
— Há testemunhas para este caso? — perguntou o juiz.
Não havia.
Adam não olhou para o pai.
— Então acho que devemos começar.
Um som sibilante veio do oficial ao lado do juiz: uma voz através do seu rádio. O oficial inclinou a cabeça para ouvir, então sussurrou algo de volta no aparelho. Aproximando-se do juiz, ele disse:
— Senhor juiz, o oficial Myley diz que há algumas testemunhas do caso lá fora, se não for tarde demais para elas entrarem.
— A porta já está fechada, não está?
— Está.
O juiz espiou o relógio.
— Elas são certamente para o caso Parrish?
— O oficial Myley acredita que sim.
O juiz sorriu de alguma piada interna deles, alguma graça antiga da qual os outros não participavam.
— Longe de mim duvidar dele. Mande-as entrar, e decido se aceitarei.
Adam se perguntou miseravelmente qual dos vizinhos estava vindo em defesa de seu pai.
Em uma hora, isso terminará. Você nunca mais vai precisar fazer isso. Tudo que você precisa fazer é sobreviver.
A porta se entreabriu. Adam não queria olhar, mas olhou de qualquer maneira.
No corredor estava parado Richard Campbell Gansey III em seu uniforme escolar, sobretudo, cachecol e luvas, parecendo saído de outro mundo. Atrás dele estava Ronan Lynch, a maldita gravata amarrada direito uma vez na vida e a camisa enfiada para dentro das calças.
Humilhação e alegria brigavam furiosamente dentro de Adam.
Gansey avançou a passos largos entre os bancos enquanto o pai de Adam o encarava. Ele seguiu em linha reta até o juiz, direto até ele. Agora que estava bem ao lado de Adam, sem olhar para ele, Adam podia ver que Gansey estava ligeiramente ofegante. Ronan, ao lado dele, também. Eles tinham corrido.
Por ele.
Gansey tirou a luva da mão direita e cumprimentou o juiz.
— Juiz Harris — ele disse calorosamente.
— Sr. Gansey — disse o juiz. — Já encontrou aquele seu rei?
— Falta um pouquinho. E o senhor, já terminou aquele terraço?
— Falta um pouquinho — respondeu Harris. — Qual o seu interesse neste caso?
— Ronan Lynch aqui estava presente no incidente — disse Gansey. — Achei que o lado dele da história valia a pena ser ouvido. E eu sou amigo do Adam desde o primeiro dia aqui em Henrietta, e fico feliz que essa história miserável chegue ao fim. Gostaria de ser testemunha do caráter de Adam, se possível.
— Parece razoável — disse Harris.
— Eu objeto! — exclamou Robert Parrish.
Gansey se virou para Adam, finalmente. Ele ainda projetava sua expressão gloriosamente real, Richard Campbell Gansey III, cavaleiro branco, mas seus olhos estavam em dúvida. Tudo bem eu fazer isso?
Tudo bem ele fazer isso? Adam havia rejeitado tantas ofertas de ajuda de Gansey. Dinheiro para a escola, dinheiro para a comida, dinheiro para o aluguel. Pena e caridade, havia pensado Adam. Por tanto tempo, ele quisera que Gansey o visse como um igual, mas era possível que, por todo esse tempo, a única pessoa que precisava ver isso fosse Adam.
Agora ele podia ver que não era caridade que Gansey estava oferecendo. Era apenas verdade.
E algo mais: amizade do tipo inabalável. Uma amizade que você podia contar para valer. Que poderia passar pelas maiores dificuldades e voltar mais forte que antes.
Adam estendeu a mão direita, e Gansey o cumprimentou com um aperto de mãos, como se eles fossem homens, porque eles eram homens.
— Muito bem — registrou Harris. — Vamos prosseguir com o caso.

4 comentários:

  1. "Por tanto tempo, ele quisera que Gansey o visse como um igual, mas era possível que, por todo esse tempo, a única pessoa que precisava ver isso fosse Adam."

    Os anjos cantam, os sinos no céu tocam. Finalmente Adam Parrish está deixando de ser um babaca tão grande

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  2. FINALMENTE, MEU DEUS
    PELA GLÓRIA DE MERLIM, DE NEWTON E DOS OUTROS DEUSES

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  3. Ah!! Enfim Adam aceitando a amizade deles sem orgulho besta! 😍

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Boa leitura, E SEM SPOILER!