30 de julho de 2018

Capítulo 37

AURANOS

— Só uma vez — Brion disse baixinho — eu queria que você estivesse errado.
Jonas olhou para ele.
— Eu já me enganei muitas vezes.
— Mas não dessa vez.
— Não. Não dessa vez.
Eles estavam na beira da floresta e observavam o corpo coberto de sangue do chefe ser pendurado para todos verem. O rei limeriano exibiu o assassinato como símbolo da fraqueza do chefe. Ele não era feiticeiro ou deus, como seu povo sempre acreditara. Era apenas um homem.
Um homem morto.
Depois de sua morte, na noite anterior, o exército limeriano havia virado suas lâminas contra os mesmos paelsianos que antes lutavam a seu lado. Aqueles que se recusaram a se curvar diante do rei Gaius tiveram a garganta cortada imediatamente ou foram decapitados e tiveram a cabeça espetada em uma estaca. Muitos se curvaram e juraram lealdade a Limeros.
A maioria teve medo de morrer.
Quanto mais era forçado a testemunhar aquela atrocidade, mais o coração de Jonas ficava obscuro. Não apenas Auranos, mas Paelsia havia sido derrubada por aqueles monstros limerianos gananciosos e mentirosos, liderados por seu rei sanguinário e mortífero. Era tudo o que ele temia.
Ele havia resgatado Brion bem a tempo. Seu amigo estava diante de uma espada limeriana, e pelo olhar furioso e insolente em seu rosto, ele não ia se curvar diante do rei Gaius. Quando o cavaleiro ergueu a espada, pronto para decapitar Brion, Jonas o matou, pegou o companheiro e fugiu.
Ele havia matado muitos desde o início da guerra. Antes disso, considerava-se um caçador, mas de animais, não de humanos. Agora sua lâmina havia encontrado o coração de muitos homens. O pouco que havia do garoto de dezessete anos dentro dele endurecera. Cada vez que ele matava, ficava mais fácil. E o rosto dos homens cuja vida tirara ficavam menos distintos uns dos outros. Mas aquele não era o caminho que ele teria escolhido se soubesse onde acabaria.
Juntos, Brion e Jonas haviam encontrado outros garotos que reconheceram ser de seu país, os que se recusaram a se render àquela loucura. Agora eles eram um grupo de seis, todos reunidos sob a proteção da floresta.
— E agora? — Brion perguntou, com o rosto sério e assustado. — O que podemos fazer além de observar e esperar? Se sairmos daqui, seremos massacrados.
Jonas pensou no irmão. Desde seu assassinato, tudo havia mudado. Uma vida de adversidades e pobreza em Paelsia não era nada se comparada aos horrores que estavam por vir.
— Precisamos esperar e ver o que acontece em seguida — Jonas respondeu.
— Então devemos recuar como covardes? — Brion murmurou. — E deixar o rei Gaius destruir nossa terra? Massacrar nosso povo?
A ideia já deixava o estômago de Jonas apertado. Ele odiava se sentir impotente. Queria agir agora, mas sabia que todos acabariam mortos.
— O chefe cometeu muitos erros. Agora ele se foi. E, em minha opinião, ele era um péssimo líder. Precisávamos de uma pessoa forte e capaz, não de alguém tão facilmente enganado por um homem como o rei Gaius. — Jonas estava com os dentes cerrados. — A derrota de Basilius me dá nojo. Por causa de sua ganância e sua estupidez, todos nós estamos sofrendo agora.
Os outros quatro garotos se reuniram e resmungaram sobre a injustiça de tudo aquilo.
— Mas nós sempre sobrevivemos, apesar de todas as desvantagens. — Jonas elevou a voz para ser escutado pelos outros. — Paelsia está morrendo há gerações. Mas nós ainda vivemos.
— É do rei Gaius agora — um garoto chamado Tarus disse. Ele não tinha muito mais de catorze anos e era o irmão mais velho do menino que Jonas vira morrer no campo de batalha. — Ele nos destruiu e agora pertencemos a ele.
— Não pertencemos a ninguém. Está me ouvindo? Ninguém. — Jonas se lembrou das palavras que seu irmão dissera uma vez. — Se quiser algo, precisa ir atrás. Porque não vai cair do céu em suas mãos. Então vamos pegar de volta o que foi tirado de nós. E assim criaremos um futuro melhor para Paelsia. Um futuro melhor para todos nós.
— Como?
— Ele não tem ideia — disse Brion, sorrindo de verdade pela primeira vez em dias. — Mas ele fará mesmo assim.
Jonas não conseguiu deixar de sorrir também. Seu amigo estava certo. Ele descobriria como dar um jeito naquilo. Não havia dúvida.
O rapaz olhou para o palácio auraniano. Ao mesmo tempo que o dourado cintilava sob o sol, parte dele ainda queimava pela explosão do dia anterior. Uma nuvem preta de fumaça se elevava sobre o castelo.
Ele havia escutado os relatos. O rei estava morto. A princesa mais velha, Emilia, também estava morta. Contudo, a princesa Cleo ainda não havia sido encontrada.
Quando ficou sabendo disso, surpreendeu-se com a leveza em seu coração pesado. A garota que ele culpava pela morte de seu irmão, aquela que ele sonhava matar para se vingar, que conseguira escapar com perspicácia de seu próprio destino, das algemas e de um barracão trancado e vigiado.
Ela era rainha agora. Uma rainha exilada.
E ele precisava encontrá-la.
O futuro, tanto de Paelsia quanto de Auranos, agora dependia completamente da sobrevivência dela.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!