15 de julho de 2018

Capítulo 37

Dependendo por onde você começasse a história, ela dizia respeito a Henry Cheng.
Henry nunca fora bom com palavras. Caso em questão: no primeiro mês em que estivera em Aglionby, ele havia tentado explicar isso a Jonah Milo, o professor de inglês, e ouvira que ele estava sendo exigente demais consigo mesmo. Você tem um ótimo vocabulário, Milo dissera. Henry sabia que tinha um ótimo vocabulário. Não era a mesma coisa que ter as palavras necessárias para se expressar. Você fala muito bem para um garoto da sua idade, havia acrescentado Milo. Diabos, ha, mesmo para um cara da minha idade. Mas soar como se você estivesse dizendo o que sentia não era o mesmo que realmente consegui-lo. Muitos estrangeiros quando falam uma segunda língua se sentem assim, havia terminado Milo. Minha mãe disse que ela jamais se sentia ela mesma em inglês. Mas a questão não era que Henry perdia um pouco de sua personalidade em inglês. Ele perdia um pouco de si mesmo em voz alta. Sua língua nativa era o pensamento.
Então ele não tinha como explicar para valer como ele se sentia quando tentava fazer amizade com Richard Gansey e com os membros da família real de Gansey. Ele não tinha palavras para articular suas razões para oferecer seu segredo mais rigorosamente guardado no porão do Prédio Borden. Não havia uma descrição possível para o quão difícil era esperar para ver se sua oferta de paz havia sido aceita.
O que significava que ele simplesmente tinha de matar o tempo.
Henry se manteve ocupado.
Ele impressionou Murs em história com seu estudo aprofundado sobre a disseminação de equipamentos eletrônicos pessoais através do primeiro mundo; ele incomodou Adler na administração com seu estudo aprofundado sobre a disparidade entre o orçamento de publicidade da Aglionby versus seu orçamento para bolsas de estudo. Ele gritou até ficar rouco na beira do campo do jogo de futebol de Koh (eles perderam). Ele grafitou as palavras PAZCADELAS no lixão ao lado da sorveteria.
Não havia muito dia mais sobrando. Ele estava esperando que Gansey ligasse? Henry não tinha palavras para o que estava esperando. Um evento no tempo. Não. Mudança climática. Uma diferença permanente na maneira como as safras eram cultivadas no noroeste.
O sol se pôs. A turma de Vancouver retornou para Litchfield para se recolher e obedecer à ordem-unida de Henry. Ele se sentia vinte por cento culpado por desejar tornar-se amigo de Gansey, Sargent, Lynch e Parrish. A turma de Vancouver era ótima. Eles só não eram o suficiente, mas lhe faltavam as palavras para dizer por quê. Por que eles sempre o admiravam? Por que eles não conheciam os seus segredos? Por que ele não queria mais seguidores, mas amigos? Não. Era algo mais.
— Leve o lixo para a rua — disse a sra. Woo para Henry.
— Estou muito ocupado, tia — respondeu Henry, embora estivesse assistindo de cuecas à abertura de um videogame.
Então ele se viu saindo pela porta dos fundos da Mansão Litchfield para o estacionamento de cascalho apenas com uma camiseta da Madonna e seus tênis pretos favoritos. O céu acima assumira um tom róseo-cinzento. Próximo dali, uma rolinha lamentosa chilreou sonhadoramente. Os sentimentos que não tinham palavras dentro de Henry subiram à sua cabeça de qualquer forma.
Sua mãe era a única que sabia o que Henry queria dizer quando ele dizia que não era bom com palavras. Ela sempre tentava explicar as coisas para o seu pai, especialmente quando ela havia decidido se tornar Seondeok em vez de sua esposa. É isso, ela sempre dizia, mas também algo mais. A frase passara a viver na cabeça de Henry. Algo mais explicava perfeitamente por que ele nunca conseguia dizer o que queria — algo mais, por sua definição, sempre seria algo diferente do que você já tinha na mão.
Ele deixou seus sentimentos saírem expirando através dos dentes e então avançou com cuidado pelo cascalho até as latas de lixo.
Quando se virou, viu um homem parado na porta pela qual acabara de passar.
Henry parou de caminhar. Ele não sabia o nome desse homem — magro, porém vigoroso, branco, confiante —, mas teve a sensação de que sabia que tipo de homem era. Mais cedo aquele dia, ele havia contado a Richard Gansey sobre a carreira de sua mãe, e agora, horas mais tarde, ele encarava uma pessoa que sem dúvida alguma estava ali por causa da carreira de sua mãe.
— Você acha que poderíamos bater um papo? — disse o homem.
— Não — respondeu Henry. — Acho que não.
Ele buscou o telefone no bolso de trás antes de se lembrar, no meio do caminho, que não estava usando calças. Em seguida olhou de relance para as janelas da casa. Não estava procurando ajuda — ninguém dentro dela sabia o suficiente a respeito de sua mãe para chegar a suspeitar do tipo de perigo que ele estava correndo, mesmo que olhasse diretamente a situação —, mas por qualquer janela com uma fresta que pudesse deixar a AbelhaRobô vir até ele.
O homem exibiu a palma das mãos para Henry em um gesto exagerado para que o garoto visse que ele não estava armado. Como se isso fizesse alguma diferença.
— Te garanto que temos os mesmos objetivos.
— Meu objetivo era terminar de assistir à introdução do EndWarden II. Não acredito que finalmente encontrei alguém que compartilha da mesma visão.
O homem o avaliou, parecendo considerar suas opções.
— Fiquei sabendo que está sendo negociado algo aqui em Henrietta. Não gosto de pessoas negociando coisas em Henrietta. E presumi que você também não gosta de pessoas se intrometendo na sua vida.
— E, no entanto — disse Henry alegremente —, eis você.
— Vamos fazer isso do jeito mais fácil? Me poupe o incômodo.
Henry balançou a cabeça.
O homem suspirou. Antes que Henry tivesse tempo de reagir, ele fechou a distância entre os dois, abraçou Henry de um jeito nem um pouco amigável e negligentemente aplicou um golpe que fez Henry emitir um gemido suave e tropeçar para trás segurando o ombro. Algumas pessoas teriam gritado, mas Henry era tão determinado quanto o homem a manter segredos.
— Não desperdice o meu tempo — disse o homem —, afinal eu comecei isso de uma maneira muito civilizada.
AbelhaRobô, pensou Henry. Apareça.
Tinha de haver uma janela com uma fresta aberta em alguma parte da casa; a sra. Woo sempre ligava o aquecimento quente demais.
— Se está tentando tirar um segredo de mim — respondeu Henry, tocando o ombro cautelosamente —, está desperdiçando o seu tempo.
— Pelo amor de Deus — disse o homem, inclinando-se para tirar a pistola do coldre em seu tornozelo. — Em outra situação eu teria achado isso muito honroso. Mas agora simplesmente entre no meu carro antes que eu atire em você.
A arma venceu, como normalmente acontece. Henry lançou um último olhar para a casa antes de seguir em direção ao carro do outro lado da rua. Ele reconheceu o carro branco, embora não compreendesse o que isso queria dizer. Henry fez menção de entrar no banco de trás.
— No assento do passageiro é melhor — disse o homem. — Já te disse, é só um bate-papo.
Henry obedeceu, olhando de relance para trás para a casa uma terceira vez enquanto o homem se ajeitava atrás da direção e se afastava do meio-fio. O homem baixou o volume do rádio (estava tocando “Yes, I’m a Lover Not a Fighter”) e disse:
— Só quero saber quem eu devo esperar e se eles vão trazer problemas. Não tenho nenhum interesse de interagir com você de novo.
No assento do passageiro, Henry olhou para fora da janela antes de colocar o cinto de segurança. Puxou os joelhos e abraçou as pernas nuas. Estava começando a tremer um pouco. O homem aumentou o nível de aquecimento.
— Para onde você está me levando? — perguntou Henry.
— Estamos dando uma volta no quarteirão como pessoas razoáveis fazem quando estão querendo conversar.
Henry pensou a respeito de um buraco no chão.
— Nunca tive uma conversa razoável com uma pessoa segurando uma pistola.
Ele olhou para fora da janela novamente, esticando o pescoço para olhar atrás de si. Tirando as luzes da rua, estava escuro. Henry logo estaria longe demais da AbelhaRobô para se comunicar com ela. Mesmo assim, enviou um último apelo: Conte para alguém que possa fazer isso parar.
Não era um pedido que fazia sentido em palavras, mas que fazia sentido nos pensamentos de Henry, e isso era tudo que importava para a abelha.
— Escute — disse o homem. — Lamento pelo seu ombro. Foi puro hábito.
Um clinc metálico soou no topo do para-brisa. Enquanto o homem esticava o pescoço para ver o que havia batido no carro, Henry se endireitou atentamente. Inclinando-se para frente, ele viu três linhas negras delgadas na beirada da janela.
Um telefone tocou.
O homem fez um ruído antes de abrir o telefone sobre o console central. Quem quer que fosse, havia ganhado sua atenção, pois ele o pegou e o ajeitou no ombro para deixar a mão livre para trocar as marchas. Ao telefone, disse:
— É uma pergunta muito estranha de fazer.
Henry aproveitou a oportunidade para baixar minimamente a janela. A AbelhaRobô imediatamente deixou o para-brisa zunindo e entrou pela fresta.
— Ei... — disse o homem.
Ela voou para a palma de Henry. Ele a levou com cuidado, contente, ao peito. O peso dela transmitia segurança.
O homem franziu o cenho para ele, e então disse ao telefone:
— Não raptei ninguém durante anos, mas tenho um aluno no meu carro neste exato momento. — Uma pausa. — As duas declarações são precisas. Eu estava tentando esclarecer alguns rumores. Você gostaria de falar com ele?
As sobrancelhas de Henry dispararam para cima.
O homem passou o telefone para ele.
— Alô? — disse Henry.
— Bom — disse Gansey do outro lado do telefone —, pelo visto você foi apresentado ao sr. Cinzento.

4 comentários:

  1. auhsauhs Ai, scrr
    É tão legal ela não ter introduzido um novo personagem à essa altura, porque eu já is ficar indignada
    Tenho vários tipos diferentes de crushes no Sr. Cinzento, cara
    E em Gansey
    E em Ronan
    Não tanto em Adam
    Certamente em Blue

    ResponderExcluir
  2. Isso me lembra o enredo de um filme mafioso, com o Gansey sendo o chefão, kkkkk

    ResponderExcluir
  3. Uauu! Sr. Cinzento, vestindo branco! Aí que tudo!!!!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Não fala que o Sr. Cinzento está vestindo branco, só que ele é branco

      Excluir

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!