5 de julho de 2018

Capítulo 37

Às vezes, Gansey esquecia como gostava da escola e como era bom naquilo. Mas ele não conseguia esquecer em manhãs como aquela — o nevoeiro de outono subindo dos campos e erguendo-se à frente das montanhas, o Pig rodando tranquilo e ruidoso, Ronan saindo do banco de passageiro e dando batidinhas com os nós dos dedos no teto, com os dentes reluzindo à mostra, a grama úmida molhando ligeiramente as pontas negras dos seus sapatos, a bolsa jogada sobre o seu blazer, Adam de olhar atento tocando punhos quando eles se encontravam na calçada, garotos à volta deles rindo e chamando uns aos outros, abrindo espaço para os três, pois essa era um rotina antiga: Gansey-Lynch-Parrish. Manhãs como aquela eram algo para se guardar para sempre.
Não haveria nada para arruinar a perfeição revigorante do momento a não ser a presença de Greenmantle em algum lugar e a não presença de Maura. A não ser as questões relativas a Gwenllian e Blue, e cavernas que se avultavam cheias de promessas e ameaças. A não ser por tudo. Era tão difícil esses dois mundos coexistirem.
Corvos matutinos e trabalhadores em andaimes chamavam uns aos outros sobre o campus enquanto os garotos atravessavam juntos o gramado da escola. O som de martelos ecoava dos prédios; eles estavam substituindo parte do telhado. O andaime estava carregado de telhas de ardósia.
— Olha isso — disse Ronan. Com um movimento brusco do queixo, ele indicou Henry Cheng, parado com uma placa no canto do gramado da escola.
— “Faça a diferença: depois de se formar” — Gansey leu enquanto se aproximavam dele. — Jesus, você passou a noite aqui?
Os sapatos de Henry estavam lisos com a condensação, e os ombros, encolhidos contra o frio. O nariz estava extremamente róseo. O cabelo, normalmente gloriosa e enormemente espigado, ainda estava glorioso e espigado; ele claramente tinha suas prioridades. Ele havia plantado outro cartaz em um vaso atrás de si, no qual se lia: “PENSE PROFUNDAMENTE... mas não sobre Aglonby”.
— Que nada. Só desde as seis. Eu queria que eles pensassem que eu passei a noite toda aqui.
Adam ergueu uma sobrancelha hesitante diante da cena.
— Quem são “eles”?
— Os professores, obviamente — respondeu Henry.
Gansey tirou uma caneta da bolsa e cuidadosamente acrescentou um “i” em “Aglonby”.
— Isso ainda é sobre o conselho de estudantes?
— Eles ignoraram totalmente a minha petição — disse Henry. — Fascistas. Eu precisava fazer algo. Vou ficar parado aqui até eles concordarem em começar um.
— Parece que você encontrou uma boa maneira de ser expulso — observou Ronan.
— Você deveria saber.
Adam estreitou os olhos. Havia algo diferente a respeito dele. Ou talvez só houvesse alguma diferença entre ele e Henry. Henry era um garoto. Adam era um...
Gansey não sabia.
— Que motivo eles deram para ignorar a petição? — perguntou Adam.
Henry fez uma pausa para gritar através do gramado:
— Cheng Dois, se esse café não for para mim, pega outro! Por favor! Obrigado! Por favor!
O outro Cheng levantou seu copo de café de longe como para saudá-lo e gritou:
— Desculpa! Desculpa! — antes de desaparecer em um dos prédios acadêmicos.
— Um desonrado — sussurrou Henry. Para Adam, falou: — Eles disseram que seria um gasto muito grande dos recursos da administração estabelecer e monitorar o conselho.
— Parece um motivo razoável — respondeu Adam, seus olhos já nos prédios das aulas. — Sobre o que você ia falar no conselho mesmo? O cardápio do almoço?
Ronan abriu um sorriso desagradável.
Cheng teve um calafrio e disse:
— Você, Parrish, é parte do problema.
— Vou pegar um café para você. — Gansey olhou para o relógio. — Eu tenho tempo.
— Gansey — reclamou Ronan.
— Nos encontramos lá.
— Você é um príncipe entre os homens, Dick Gansey — disse Cheng.
— Mais para um homem entre os príncipes — sussurrou Adam. — Você tem sete minutos, Gansey.
Gansey os deixou conversando com Cheng e se dirigiu para a sala dos professores. De maneira geral, os alunos não deveriam circular livremente pela sala dos professores, mas, estreitando a questão, Gansey era isento dessa regra em virtude de seu declarado favoritismo. Ele limpou a grama úmida dos sapatos no capacho da entrada e fechou a porta atrás de si. O velho assoalho junto à porta estava curvado pelo peso da tradição e exigia um empurrão familiar e pesado para fechá-la; Gansey o fez sem pensar.
Dentro, a sala era frugal e arejada, e cheirava a lareira e bagels. Tinha todo o conforto de uma prisão antiga: bancos de madeira nas paredes, mural histórico no reboco, candelabro com teias de aranha acima, uma variedade esparsa de provisões para o café da manhã sobre uma mesa antiga vergada. Gansey parou na frente da cafeteira. Ele estava tendo aquele sentimento de atemporalidade esquisito que o campus muitas vezes lhe provocava: o sentimento de que sempre estivera naquela velha sala naquele velho prédio, ou de que alguém havia estado ali, e que todos os momentos e todas as pessoas eram os mesmos. Naquele lugar sem forma, ele se sentiu imensamente grato pelo fato de Ronan e Adam o esperarem lá fora, por Blue e pela família dela, por Noah e por Malory. Ele se sentia tão grato por ter encontrado a todos, finalmente.
Então pensou sobre aquele poço na caverna dos corvos.
Pelo segundo mais curto possível, Gansey achou que sabia... de algo. A resposta.
Mas ele não havia feito uma pergunta, e então o momento tinha passado, de qualquer maneira, e ele percebeu que estava ouvindo algo. Um grito, uma batida, o nome de Adam...
Gansey não se lembrou da decisão de se mexer, apenas seus pés já corriam até a porta.
Lá fora, o pátio parecia um palco montado para uma peça: duas dúzias de estudantes pontilhavam o gramado, mas nenhum deles se mexia. Uma nuvem lenta e pálida se movia entre eles, assentando-se vagarosamente. A atenção de todos estava voltada para o canto do gramado onde Henry estivera parado.
Mas fora o nome de Adam que ele ouvira.
Ele viu que a área mais alta do andaime estava pendurada de um jeito torto, os trabalhadores olhando fixamente para baixo em suas posições no telhado. Poeira. A nuvem era isso. Do que quer que tenha caído do andaime. As telhas de ardósia.
Adam.
Gansey abriu caminho entre os alunos. Ele viu Henry primeiro, então Ronan, ilesos, mas cobertos de pó como corpos de Pompeia. Ele cruzou o olhar com Ronan — Está tudo bem? — e não reconheceu a expressão dele.
Depois Adam.
Ele estava de pé, absolutamente imóvel, as mãos junto ao corpo. O queixo estava voltado de maneira cautelosa e frágil para cima, e os olhos não focavam nada. Diferentemente de Ronan e Henry, ele não tinha nenhum pó sobre si. Gansey viu o sobressalto de seu peito enquanto ele respirava, ofegante.
Em volta dele havia centenas de telhas de ardósia quebradas. Os pedaços haviam explodido por dezenas de metros, enterrados na grama como mísseis.
Mas o chão ao redor de Adam estava limpo, em um círculo perfeito.
Era esse círculo, esse círculo impossível, que os outros alunos encaravam. Alguns deles estavam tirando fotos com seus celulares.
Ninguém estava falando com Adam. Não era difícil compreender isso: Adam não parecia alguém com quem se pudesse conversar, naquele instante. Havia algo mais assustador a respeito dele do que a respeito do círculo. Como o chão limpo, não havia nada inerentemente incomum sobre sua aparência. Mas no contexto, cercado por aqueles prédios de tijolos, ele não... pertencia.
— Parrish — disse Gansey quando ele se aproximou. — Adam. O que aconteceu?
Os olhos de Adam deslizaram até ele, mas sua cabeça não se virou. Era aquela imobilidade que o fazia parecer tão outro.
Atrás, ele ouviu Ronan dizer:
— Gosto do jeito que vocês, otários, pensaram no Instagram antes de pensar em ajudar. Caiam fora.
— Não, não caiam fora — corrigiu Henry. — Avisem um professor que tem alguns homens no telhado prestes a ser processados.
— O andaime quebrou — disse Adam em voz baixa. Uma expressão estava surgindo em seu rosto agora, mas ela também era estranha: assombro. — Desmoronou tudo.
— Você é o cara mais sortudo dessa escola — disse Henry. — Como você não morreu, Parrish?
— Foram os seus cartazes de merda — sugeriu Ronan, parecendo muito menos preocupado que Gansey. — Eles criaram um campo de força de merda.
Gansey se inclinou e Adam o puxou ainda mais para perto, segurando seu ombro firmemente. Bem no ouvido de Gansey, ele sussurrou, com a voz marcada pela incredulidade:
— Eu não... Eu só pedi... Só pensei...
— Pensou o quê? — perguntou Gansey.
Adam o soltou. Seus olhos estavam pousados sobre o círculo à sua volta.
— Pensei aquilo. E aconteceu.
O círculo era absolutamente perfeito: pó do lado de fora, nenhum pó do lado de dentro.
— Sua criatura maravilhosa — disse Gansey, porque não havia mais nada a dizer. Porque ele havia pensado agora há pouco que esses dois mundos não poderiam coexistir e, no entanto, ali estava Adam, os dois ao mesmo tempo. Vivo por causa disso.
Essa coisa que eles estavam fazendo. Essa coisa. O coração de Gansey era uma fenda repleta de possibilidades, temeroso, ofegante e assombrado.
Ronan exibia um sorriso duro. Agora Gansey reconhecia a expressão no rosto de Ronan: arrogância. Ele não tivera medo por Adam. Ele soubera que Cabeswater o salvaria. Estivera certo disso.
Gansey pensou como era estranho conhecer aqueles dois rapazes tão bem e, no entanto, não conhecê-los de verdade. Ambos tão mais difíceis e tão melhores do que quando os conhecera pela primeira vez. Teria sido isso que a vida fizera com todos eles? Esculpira-os em versões mais duras, mais verdadeiras de si mesmos?
— Eu disse — falou Ronan. — Mágico.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!