30 de julho de 2018

Capítulo 36

AURANOS

A vitória era deles. O rei de Auranos estava morto. A princesa mais velha e herdeira do trono foi encontrada morta em seus aposentos. Mas ainda havia um detalhe. A princesa Cleiona havia fugido do palácio.
Para uma garota tão jovem e aparentemente inocente, ela era muito astuta. Se Magnus ficasse cara a cara com ela de novo, ela não escaparia por entre seus dedos pela terceira vez. Ele não gostava de se sentir frustrado. Também não gostava da ponta de culpa que surgira em relação à tragédia que se havia abatido sobre a menina — a morte do pai e da irmã, assim como do guarda que a protegia em Paelsia. Aquele que ela havia dito que amava e que Magnus matara com sua própria espada.
Irrelevante. Estava feito. E não havia nada que ele pudesse fazer para mudar aquilo, mesmo se quisesse.
Magnus nem havia contado ao pai que tinha chegado perto de capturá-la outra vez. Não achava que um segundo fracasso envolvendo a princesa lhe garantiria alguma vantagem com o rei. Além disso, não queria interromper sua comemoração. Magnus foi a única pessoa convidada para o jantar privado com o rei Gaius e o chefe Basilius na tenda muito bem protegida de seu pai. Eles brindaram à vitória mútua com o melhor dos vinhos paelsianos.
Magnus se absteve. Estava muito preocupado com a saúde de Lucia para ter cabeça para comemorar. Ela ainda estava inconsciente, depois que sua magia estourara as portas do castelo, garantindo-lhes a vitória. A força da explosão também o havia derrubado, mas quando voltou a si, minutos depois, estava apenas abalado, não ferido.
Lucia, no entanto, estava coberta de sangue. Desesperado de pânico, Magnus a carregou até os médicos. Quando chegou, seus cortes e arranhões haviam milagrosamente — ou magicamente — desaparecido. Mas ela permaneceu inconsciente.
Os médicos, desnorteados, disseram a ele que ela precisava descansar e em algum momento acordaria. Enquanto esperava, ele rezou à deusa Valoria para trazer Lucia de volta. Sua irmã acreditava na deusa do fundo do coração. Ele não, mas estava disposto a tentar.
Duzentas pessoas — dos três reinos — haviam morrido na explosão. Mas Lucia sobreviveu.
E Magnus estava grato por isso.
Já haviam se passado mais de doze horas e ele não tinha novidades sobre ela. Era hora do jantar e o rei e o chefe brindavam, rindo da vitória e bebendo a um futuro melhor. Magnus estava sentado com eles à mesa, sem tocar na comida.
— Ah, meu filho — o rei comentou, sorrindo. — Sempre tão sério, até em um momento como este.
— Estou preocupado com Lucia.
— Minha querida arma secreta. — O rei ficou radiante. — Tão poderosa quanto esperava que fosse. Impressionante, não é?
— Muito — o chefe concordou, secando a quarta taça de vinho. — E uma linda garota. Se eu tivesse filhos, acho que poderíamos fazer uma boa combinação entre nossas terras.
— De fato.
— Falando nisso… — O chefe olhou para Magnus. — Eu tenho uma filha que ainda não está comprometida. Ela só tem doze anos, mas daria uma ótima esposa.
Magnus tentou disfarçar o olhar de desgosto. A ideia de uma noiva tão nova o deixava nauseado.
— Nunca se sabe o que o futuro trará — seu pai disse, passando o dedo na borda da taça de vinho. — Acho que devíamos conversar sobre como faremos com as benesses da guerra. Os próximos dias e semanas serão muito interessantes.
— Devemos indicar representantes para garantir que tudo seja dividido em partes iguais, como foi discutido. É claro, acredito que Limeros será honesto ao tratar conosco.
— Com certeza.
— Há tanto aqui, tantas riquezas. Ouro, tesouros, recursos. Água fresca. Florestas. Campos e mais campos de plantações. Uma terra com animais de caça em abundância. É um paraíso.
— Sim — concordou o rei. — E há também a questão da Tétrade.
O chefe ergueu uma sobrancelha escura e grossa.
— Você acredita na Tétrade?
— Você não?
O chefe virou a taça seguinte.
— É claro que sim. Tenho procurado por sinais de sua localização durante anos de meditação, enviando minha própria magia por quilômetros para tentar sentir onde ela pode estar.
— Teve algum sucesso? — o rei perguntou.
O chefe acenou com a mão.
— Sinto que estou perto de alguma coisa.
— Eu acredito que esteja aqui em Auranos — o rei Gaius disse calmamente.
— É? O que lhe dá essa impressão?
— Auranos floresce, é verde e viçosa, como o próprio Santuário da lenda, enquanto Paelsia está secando e Limeros se transformando em gelo. É uma dedução simples.
Enquanto o chefe refletia sobre isso, ele girava o resto do vinho cor de âmbar na taça.
— Outras pessoas já disseram a mesma coisa, mas não sei bem se acredito nisso. Acredito que as rodas de pedra encontradas em Limeros e Paelsia apontam para indícios de sua localização.
— Talvez — o rei Gaius reconheceu. — Mas ter tirado esta terra do rei Corvin significa possuir tudo o que está aqui, com acesso irrestrito em minha busca. Encontrar um só cristal significaria magia infinita, mas ter todos eles…
O chefe concordou, com os olhos acesos de ganância.
— Nós nos tornaríamos deuses. Sim, isso é bom. Vamos encontrá-los juntos e dividi-los em dois: meio a meio.
— Gosta desse plano?
— Gosto muito.
— Sabe, seu povo já o considera um rei. O suficiente para fazer sacrifícios de sangue e pagar impostos sobre o vinho para manter seu estilo de vida confortável. — O rei Gaius recostou na cadeira. — Eles acreditam que você seja um grande feiticeiro descendente dos próprios vigilantes, que logo se elevará e os tirará do abandono.
O chefe espalmou as mãos.
— Sem meu povo, não sou ninguém.
— Eu já o conheço há algum tempo e até agora não vi nem uma centelha dessa magia.
Um vislumbre de inimizade passou pelo rosto do chefe.
— Você não me conhece há tanto tempo assim. Talvez um dia eu lhe mostre meu verdadeiro poder.
Magnus observava o pai com atenção. Algo estranho acontecia e ele não estava entendendo muito bem, mas sabia que devia ficar calado. Quando o rei lhe pediu que participasse do jantar de comemoração, foi bem específico ao dizer que Magnus estaria ali apenas para observar e aprender.
— Quando começamos nossa busca pela Tétrade? — perguntou o chefe. Tanto seu prato quanto o copo de vinho estavam vazios.
— Eu pretendo começar imediatamente — o rei respondeu.
— E quais dois elementos deseja ter?
— Dois? Eu desejo ter os quatro.
O chefe franziu a testa.
— Todos os quatro? E como isso seria uma divisão meio a meio?
— Não seria.
— Não entendo.
— Eu sei. E isso é um tanto… triste, na verdade. — Um sorriso se abriu no rosto do rei.
O chefe o encarou por um instante com um olhar ébrio nos olhos, graças às duas garrafas de vinho que bebera. Depois começou a rir.
— Você quase me enganou. Não, Gaius. Eu confio que cumprirá sua palavra. Somos como irmãos depois do sacrifício de sangue de seu bastardo. Eu não esqueço.
— Nem eu. — O rei continuou sorrindo quando levantou e andou até o outro lado da mesa. — Hora de descansar. Amanhã é um novo dia. Eu já me cansei das tendas. Devíamos nos mudar para o castelo. Os alojamentos são bem melhores lá.
Ele ofereceu a mão ao chefe Basilius, que ainda ria daquela conversa divertida. Ele pegou a mão do rei e se levantou, cambaleante.
— Ótima refeição. Seus cozinheiros merecem uma comenda.
O rei Gaius ficou olhando para ele.
— Mostre-me um pouco de magia. Só um pouco. Sinto que mereço.
O chefe bateu na barriga.
— Hoje não. Estou muito cheio para essas demonstrações.
— Muito bem. — O rei estendeu a mão de novo. — Boa noite, meu amigo.
— Boa noite. — Ele apertou a mão do rei.
O rei Gaius o puxou para mais perto.
— Eu acreditava nas histórias. Nas histórias que diziam que você era um feiticeiro. Vi magia o suficiente para não duvidar desses rumores até ter provas suficientes para descartá-los. Devo admitir, tive algum medo. Embora eu seja um homem de ação, não tenho o dom da magia. Ainda não.
O chefe uniu as sobrancelhas.
— Está me chamando de mentiroso?
— Sim — afirmou o rei Gaius. — É exatamente disso que o estou chamando.
Pegando a adaga que havia escondido na outra mão, o rei Gaius cortou a garganta do chefe em um único movimento rápido e leve.
Os olhos do chefe se esbugalharam de surpresa e dor e ele se afastou do rei com passos instáveis.
— Se é realmente um feiticeiro — o rei disse com frieza —, cure-se.
Magnus segurou a beira da mesa mas não fez nenhum movimento. Todos os músculos de seu corpo estavam tensos com aquela cena.
O sangue esguichava por entre os dedos do chefe. Seu olhar de pânico apontava para a entrada da tenda, vigiada apenas pelos homens de Gaius. Ele havia sido confiante o suficiente para ir ao jantar sem nenhum guarda pessoal.
— Ah, e sobre aquele seu acordo de dividir tudo meio a meio — o rei disse com um sorriso — era apenas por tempo limitado. Auranos é minha. E, agora, Paelsia também.
O chefe parecia estar chocado com aquela reviravolta, e caiu no chão com uma pancada pesada. O rei cutucou o ombro do chefe, de modo que ele ficasse virado de barriga para cima.
Seus olhos estavam arregalados e vidrados, e havia sangue escorrendo pelo corte aberto na garganta.
Magnus lutou contra o ímpeto de saltar para trás. De certa forma, não podia dizer que estava totalmente surpreso. Ele já esperava há um tempo que seu pai virasse a mesa sobre o chefe.
Quando o rei olhou para o filho como se quisesse avaliar sua reação, viu uma expressão um tanto entediada no rosto do príncipe.
— Ah, o que é isso? Não está nem um pouco impressionado? — Ele soltou uma risada áspera. — Ah, Magnus, você precisa me dar um pouco de crédito.
— Não sei bem se deveria ficar impressionado ou preocupado — Magnus respondeu sem se abalar. — Pelo que sei, você pode fazer a mesma coisa comigo.
— Não seja ridículo. Estou fazendo tudo isso por você, Magnus. Juntos encontraremos a Tétrade. Tem sido meu objetivo de vida desde que era menino e ouvi falar das lendas pela primeira vez. Encontrar os quatro cristais me daria um poder supremo. Poderíamos governar todo o universo.
Um arrepio desceu pela espinha de Magnus ao ver o olhar maníaco de seu pai.
— Não posso dizer que meu pai não tem ambição.
— Clara e precisa. Agora — o rei caminhou até a entrada da grande e luxuosa tenda — vamos informar o povo de Auranos e Paelsia que seus líderes estão mortos e eles agora devem se curvar diante de mim. Ou morrer.

2 comentários:

  1. Mas também, esse Basilius foi muito trouxa de não ter percebido o que ia acontecer... Agora pronto, bem feito pra ele!

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Boa leitura, E SEM SPOILER!