15 de julho de 2018

Capítulo 36

Havia algo de vivo a respeito da noite.
Declan e Matthew tinham ido embora. Gansey, Blue, Ronan e Adam seguiram na Barns, sentados em um círculo na sala de estar que cheirava a madeira de nogueira. As únicas luzes eram as coisas que Ronan havia sonhado. Elas flutuavam sobre sua cabeça e dançavam na lareira. Parecia que a mágica pairava entre todos eles, mesmo nos lugares onde a luz não tocava. Gansey tinha consciência de que estavam todos mais felizes do que haviam estado em muito tempo, o que parecia estranho diante dos eventos assustadores da noite anterior e das notícias sinistras que haviam acabado de receber de Declan.
— Esta é uma noite para a verdade — disse Gansey, e, em outra ocasião, talvez eles tivessem rido dele por isso. Mas não hoje à noite. Hoje à noite, todos podiam perceber que faziam parte de uma máquina lenta que rodava, e a enormidade disso os desconcertava. — Vamos colocar isso no papel.
Lentamente, eles descreveram o que lhes havia acontecido no dia anterior, pausando apenas para que Gansey anotasse tudo em seu diário. Enquanto tomava nota dos fatos — a linha ley emperrando às 6h21, o ataque de Noah, a árvore que exsudava uma seiva negra, o olho de Adam se movendo sozinho —, ele começou a se dar conta dos papéis que eles representavam. Gansey praticamente podia ver o fim se se concentrasse bastante.
Eles discutiram se tinham responsabilidade de proteger Cabeswater e a linha ley — todos achavam que sim. Se Artemus sabia mais do que estava dizendo — todos achavam que sim. Se um dia ele abriria o jogo a respeito de tudo — todos pareciam pouco convencidos de que sim. Em meio a essa discussão, Ronan se pôs a caminhar de um lado para o outro. Adam foi à cozinha e voltou com um café. Blue fez um ninho de almofadas do sofá ao lado de Gansey e pousou a cabeça no colo dele.
Isso não era permitido.
Mas era. A verdade deslizava para a luz.
Também falaram sobre a cidade. Se era mais sensato se esconderem dos forasteiros ou lutar com eles quando chegassem a Henrietta para escavar relíquias sobrenaturais. Enquanto lançavam ideias para defender sonhos e aliados perigosos, monstros armados e fossos ácidos, Gansey tocou o cabelo acima da orelha de Blue suavemente, cuidando para não tocar a pele próxima de sua sobrancelha por causa de seu ferimento e para não cruzar com os olhos de Ronan e Adam por causa da inibição.
Era permitido. Era permitido que ele quisesse isso.
Então conversaram sobre Henry. Gansey tinha consciência de que estava contando os segredos de Henry mantidos a sete chaves, mas também havia decidido ao final do dia na escola que contar algo para si era o mesmo que contar a Adam, Ronan e Blue. Eles eram um pacote; não se poderia esperar conquistar Gansey sem conquistar os outros também. Adam e Ronan fizeram piadas infantis à custa de Henry (“Ele é meio chinês”, “Qual metade?”) e riram baixinho, como conspiradores; Blue chamou a atenção deles (“Muita inveja”?); Gansey disse para colocarem de lado seus preconceitos e que pensassem nele.
Ninguém havia dito a palavra demônio ainda.
Ela pairava ali, sem ser dita, definida pelo formato da conversa à volta dela. A coisa que Adam e Ronan haviam perseguido de carro, a coisa que habitara Noah, a coisa que possivelmente estava atacando Cabeswater. Era bastante possível que eles tivessem passado a noite inteira sem abordar o assunto se Maura não tivesse ligado da Rua Fox, 300. Gwenllian tinha visto algo nos espelhos do sótão, ela disse. Levara todo esse tempo para descobrir o que ela tinha visto realmente, mas parecia que havia sido Neeve com um aviso.
Demônio.
Desfazedor.
Desfazendo a floresta e tudo que está ligado a ela.
Essa revelação fez Ronan parar de andar de um lado para o outro e Adam ficou absolutamente calado. Nem Blue nem Gansey interromperam esse silêncio curioso, e então, ao cabo dele, Adam disse:
— Ronan, acho que você precisa contar para eles também.
A expressão de Ronan, se era alguma coisa, era traída. Que cansativo; Gansey podia ver precisamente a discussão que isso provocaria. Adam lançaria algo frio e verdadeiro pelo arco, Ronan dispararia um canhão de palavrões de volta, Adam jogaria gasolina na trajetória do projétil, e então tudo estaria em chamas por horas.
Mas Adam simplesmente disse, no tom mais sério:
— Não vai mudar nada, Ronan. Estamos aqui com luzes de sonho à nossa volta, e posso ver uma garota com cascos que você sonhou comendo isopor no corredor. Nós andamos em um carro que você tirou dos seus sonhos. É surpreendente, mas isso não vai mudar a maneira que eles veem você.
E Ronan retrucou:
Você não lidou bem com a revelação.
Em seu tom magoado, Gansey achou que ele finalmente compreendia algo a respeito de Ronan.
— Eu tinha outras coisas acontecendo na minha vida — respondeu Adam.
— Isso complicou um pouco mais as coisas.
Gansey achou que definitivamente ele compreendia algo a respeito de Ronan. Blue e Gansey trocaram olhares. Blue tinha uma sobrancelha adentrando as mechas de seu cabelo; seu outro olho ainda estava fechado do inchaço. Isso a fazia parecer mais curiosa ainda do que ela pareceria normalmente. Ronan puxou as pulseiras de couro.
— Como quiser. Eu sonhei Cabeswater.
Mais uma vez a sala ficou absolutamente silenciosa.
Em um determinado nível, Gansey percebeu por que Ronan hesitara em lhes contar: a capacidade de tirar uma floresta mágica de sua cabeça acrescentava uma aparência de outro mundo à sua persona. Mas em todos os outros níveis, Gansey se sentia ligeiramente confuso, como se lhe contassem um segredo que já ouvira antes. Ele não sabia dizer se isso ocorria porque a própria Cabeswater talvez já tivesse sussurrado essa verdade para eles em uma de suas caminhadas por lá, ou se a questão era meramente que o peso da evidência já era tão conclusivo que o seu subconsciente aceitara a propriedade do segredo antes de o pacote ter sido oficialmente entregue.
— E pensar que você poderia sonhar a cura para o câncer — disse Blue.
— Escuta, Sargent — retrucou Ronan. — Eu ia sonhar para você um creme oftálmico uma noite dessas, já que pelo visto a medicina moderna não está fazendo merda nenhuma por você, mas eu quase fui morto por uma cobra assassina saída do quarto círculo do inferno dos sonhos, então de nada.
Blue pareceu apropriadamente tocada.
— Ah, obrigada, cara.
— Sem problemas, colega.
Gansey deu um piparote com a caneta em seu diário.
— Enquanto estamos sendo francos, você sonhou alguma outra locação geográfica que valha a pena nos contar? Montanhas? Lugares com água?
— Não — disse Ronan. — Mas eu sonhei o Matthew.
— Meu Deus — disse Gansey, em um estado contínuo de impossibilidade, ocasionalmente se agitando para um estado mais elevado, de mais impossibilidade ainda. Tudo isso era difícil de acreditar, mas havia meses as coisas vinham sendo difíceis de acreditar. Ele já havia chegado à conclusão de que Ronan era diferente de qualquer outra pessoa; e essa era apenas mais uma prova para corroborar sua opinião. — Isso significa que você sabe o que as visões naquela árvore querem dizer?
Ele se referia à árvore oca que proporcionava visões a quem quer que estivesse dentro dela; eles a haviam descoberto da primeira vez em que exploraram Cabeswater. Gansey havia tido duas visões nela: uma, onde ele parecera muito próximo de beijar Blue Sargent, e outra, onde ele parecera muito próximo de encontrar Owen Glendower. Ele tinha um ávido interesse em ambas as situações. Ambas haviam parecido muito reais.
— Pesadelos — respondeu Ronan como a encerrar a questão.
Blue e Adam piscaram. Blue ecoou:
— Pesadelos? Isso é tudo? Não são visões do futuro?
— Quando eu sonhei aquela árvore, foi o que ela fez. Os piores cenários possíveis. O que quer que ela achou que teria a maior chance de foder com a mente de vocês no dia seguinte — disse Ronan.
Gansey não tinha certeza de que ele teria classificado qualquer uma de suas visões como pior cenário possível, mas a verdade é que ambas haviam lhe proporcionado certa medida de fodeção em sua mente. A expressão estupidificada de Blue sugeriu que ela concordava. Adam, em contrapartida, soltou uma respiração tão grande que parecia que a estivera segurando durante meses. Isso não causava surpresa. A vida real de Adam já vinha sendo um pesadelo quando ele pisara naquela árvore. Uma fodeção acima e além da verdade em sua mente deve ter sido verdadeiramente terrível.
— Você conseguiria — começou Gansey e então parou, pensativo. — Você conseguiria sonhar alguma proteção para Cabeswater?
Ronan deu de ombros.
— Lances sombrios em Cabeswater significam lances sombrios nos meus sonhos. Eu já disse, não consegui tirar nem um cremezinho para o olho da Sargent na noite passada, e isso é o básico do básico. Uma criança poderia manifestar isso. Não consegui nada.
— Posso tentar te ajudar — disse Adam. — Eu poderia adivinhar enquanto você sonha. Eu poderia limpar a energia para você conseguir algo útil.
— Isso parece muito insubstancial — disse Gansey, realmente querendo dizer o monstro parece enorme.
Blue se endireitou e gemeu, segurando o olho.
— Não tenho problemas com insubstancial. Acho que não devemos fazer nada substancial até conversarmos com a minha mãe. E quero saber mais sobre o que a Gwenllian viu. Ugh. Acho que você precisa me levar para casa, Gansey. Meu olho está me deixando maluca e me dando uma sensação de cansaço maior do que estou na verdade. Desculpa, garotos.
Como não havia como surgirem mais ideias sem mais informações, os outros usaram a deixa como desculpa para se levantarem e se alongarem também. Blue se dirigiu para a cozinha e Ronan deu uma corridinha à sua frente, tirando-a do caminho intencionalmente com o quadril.
Idiota — ela disse, e ele riu alegremente.
Gansey se sentiu profundamente emocionado com o som daquela risada, aqui de todos os lugares, aqui na Barns, aqui na sala que ficava a apenas cinquenta metros de onde Ronan havia encontrado seu pai morto e sua vida em pedaços. Era um som tão descartável agora, aquela risada.
Um riso fácil que dizia que ele podia ser gasto facilmente porque havia mais de onde ele tinha vindo.
O ferimento estava se curando contra todas as probabilidades; a vítima sobreviveria no fim das contas.
Ele e Adam continuaram na sala de estar, de pé, pensando. Uma janela dava para a área de estacionamento escura onde o BMW, o calhambeque de Adam e o glorioso Camaro estavam estacionados. O Pig parecia uma nave espacial na luz da entrada; o coração de Gansey ainda se sentia cheio de promessas e mágicas, ao mesmo tempo sombrias e triviais.
— Você sabe da maldição da Blue, não é? — perguntou Adam em voz baixa.
Se você beijar o seu verdadeiro amor, ele vai morrer.
Sim, ele sabia. Ele também sabia por que Adam estava lhe perguntando aquilo, e podia sentir a tentação de brincar e se esquivar com uma piada, porque era estranhamente embaraçoso falar dele e de Blue. Blue e ele. Gansey se transformou em um aluno da sétima série de novo. Mas essa era a noite da verdade, e a voz de Adam era séria, então ele disse:
— Sei.
— Você acha que ela se aplica a você? — perguntou Adam.
Cuidadosamente, Gansey respondeu:
— Acho que sim.
Adam olhou de relance para ver se Ronan e Blue ainda estavam na cozinha; estavam.
— E você?
— Eu o quê?
— A maldição diz que você é o amor verdadeiro dela. E você? Você a ama? — Adam pronunciou “ama” muito cuidadosamente, como se a palavra fosse um elemento estranho na tabela periódica.
Gansey estava preparado para rebater essa resposta, mas um olhar de Adam lhe disse que seu amigo estava bastante interessado nela e que, provavelmente, na verdade, a pergunta dizia respeito a uma questão completamente diferente.
— Sim — respondeu Gansey simplesmente.
Agora Adam se virou para ele, intenso.
— O que isso quer dizer? Como você sabia que isso era diferente de ser apenas o amigo dela?
Agora ficara realmente óbvio que Adam estava pensando a respeito de uma coisa completamente diferente, e assim Gansey não tinha certeza de como responder. Isso o fez lembrar de estar no buraco com Henry mais cedo naquele dia, quando Henry não precisara de nada dele, a não ser que ele o ouvisse. A situação não era a mesma agora. Adam precisava de algo. Então ele procurou uma maneira de articulá-lo.
— Acho que... ela me tranquiliza. Como Henrietta.
Anteriormente, ele havia contado isso a Adam; que assim que ele encontrara a cidade, algo dentro dele havia parado — algo que sempre se agitara dentro dele e ele nem se dera conta. Adam não havia compreendido, mas então, novamente, Henrietta sempre significara algo diferente para ele.
— Só isso? Tão simples assim?
— Não sei, Adam! Você está me pedindo para definir um conceito abstrato que ninguém conseguiu explicar desde o início dos tempos. Você parece que jogou isso na minha cara — disse Gansey. — Por que nós respiramos ar? Por que nós amamos ar? Porque não queremos sufocar. Por que nós comemos? Porque não queremos morrer de fome. Como eu sei que eu a amo? Porque eu consigo dormir depois que converso com ela. Por quê?
— Por nada — disse Adam, uma mentira tão descarada que ambos olharam para o pátio na rua, em silêncio de novo. Ele tamborilou os dedos de uma mão na palma da outra.
Normalmente, Gansey teria dado espaço para Adam vagar; sempre fora duvidosamente produtivo pressionar Adam ou Ronan a falar antes de eles estarem prontos. Mas, nesse caso, era tarde, e Gansey não tinha meses para esperar que Adam voltasse ao tópico da discussão. Ele disse:
— Achei que esta noite era uma ocasião para a verdade.
— O Ronan me beijou — disse Adam imediatamente, as palavras em uma fila de espera. Então mirou atentamente o pátio da frente. Quando Gansey não disse nada, ele acrescentou: — Eu também o beijei.
— Jesus — disse Gansey. — Cristo.
— Você está surpreso?
Ele estava sobretudo surpreso que Adam tivesse lhe contado. Gansey levara vários meses de encontros furtivos com Blue para que fosse capaz de reunir coragem de contar aos outros, e mesmo assim apenas sob circunstâncias extremas.
— Não. Sim. Não sei. Encarei umas mil surpresas hoje, e então não sei mais dizer. Você ficou surpreso?
— Não. Sim. Não sei.
Agora que Gansey tivera mais de um segundo para pensar a respeito da situação, ele considerou todas as maneiras que uma situação dessas poderia implicar. Ele imaginou Adam, sempre o cientista. Ronan, feroz, leal e frágil.
— Não magoe ele, Adam.
Adam continuou espiando para fora da janela. O único detalhe que entregava o funcionamento furioso de sua mente era o lento torcer de seus dedos juntos.
— Não sou nenhum idiota, Gansey.
— Estou falando sério. — Agora a imaginação de Gansey havia disparado à frente para imaginar um futuro em que Ronan talvez tivesse de existir sem ele, sem Declan, sem Matthew, e com um coração partido. — Ele não é tão durão quanto parece.
Não sou nenhum idiota, Gansey.
Gansey não achava que Adam fosse um idiota. Mas muitas vezes ele tivera seus sentimentos machucados por Adam, mesmo quando Adam não tivera essa intenção. Alguns dos piores estragos haviam surgido porque Adam não se dera conta de que os causara.
— Acho que você é o contrário de idiota — disse Gansey. — Não quero deixar subentendido de outra forma. Só queria dizer...
Tudo que Ronan já dissera um dia a respeito de Adam se reestruturou na mente de Gansey. Que constelação estranha eles formavam.
— Não vou detonar com a cabeça dele. Por que você acha que eu estou conversando com você? Nem sei como eu... — Adam não terminou a frase. Era uma noite para a verdade, mas ambos haviam encerrado seu estoque de coisas sobre as quais tinham certeza.
Olharam para fora da janela de novo. Gansey tirou uma folha de menta do bolso e a colocou na boca. A sensação de mágica que ele havia sentido no início da noite parecia mais pronunciada ainda.
Tudo era possível, bom e ruim.
— Eu acho — disse Gansey lentamente — que a questão diz respeito a ser sincero consigo mesmo. Isso é tudo que você pode fazer.
Adam soltou uma mão da outra.
— Acho que era isso que eu precisava ouvir.
— Eu faço o melhor que posso.
— Eu sei.
No silêncio, eles ouviram Blue e Ronan conversando com a Garota Órfã na cozinha. Havia algo bastante reconfortante a respeito do murmúrio familiar e afetuoso da voz deles, e Gansey sentiu aquele puxão estranho do tempo. Que ele tinha vivido esse momento antes, ou o viveria no futuro. De desejar e ter, ambos ao mesmo tempo. Ele se sobressaltou ao perceber que desejava encerrar sua busca por Glendower. Ele queria o resto de sua vida. Até esta noite, Gansey não havia pensado realmente que havia qualquer coisa além disso para sua vida.
— Acho que chegou a hora de encontrarmos Glendower — ele disse.
— Acho que você está certo — disse Adam.

3 comentários:

  1. "— Escuta, Sargent — retrucou Ronan. — Eu ia sonhar para você um creme oftálmico uma noite dessas, já que pelo visto a medicina moderna não está fazendo merda nenhuma por você, mas eu quase fui morto por uma cobra assassina saída do quarto círculo do inferno dos sonhos, então de nada.
    Blue pareceu apropriadamente tocada.
    — Ah, obrigada, cara.
    — Sem problemas, colega."

    Que diálogo, meus senhores, que diálogo <3 (na minha cabeça eles são parabatai)

    ResponderExcluir

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!