5 de julho de 2018

Capítulo 36

O primeiríssimo artefato sobrenatural que Greenmantle havia adquirido fora uma boneca amaldiçoada. Ele a havia comprado no eBay por quinhentos dólares (o preço incluía o envio em dois dias). A descrição do produto no leilão havia prometido que a boneca passara as últimas duas semanas no porão do vendedor rosnando e revirando os olhos. Às vezes, dizia o texto, um escorpião saía rastejando dos ouvidos da boneca. Ele também avisava que aquele não era um brinquedo para crianças e realmente estava sendo oferecido somente para incrementar rituais satânicos ou de magia negra.
Greenmantle a comprara com partes iguais de ceticismo e esperança. Para sua contrariedade, mas não surpresa, a boneca não tinha nada de extraordinário quando chegou. Ela não rosnava. Seus olhos fechavam e abriam somente quando era cutucada. Não havia sinal de inseto algum. Piper — sua namorada à época — e ele haviam passado a noite comendo sushi encomendado pelo telefone e jogando feijões verdes na boneca, em uma tentativa de provocar alguma atividade demoníaca.
Um tempo depois, Piper disse:
— Se tivéssemos um cachorrinho, ele poderia pegar os feijões para nós.
Greenmantle havia respondido:
— E então poderíamos sacrificá-lo e usar o sangue dele para ativar a boneca.
— Casa comigo? — ela perguntou.
Ele pensou.
— Eu me amo mais, sabe. Tudo bem para você vir sempre em segundo lugar?
— Idem — ela respondeu. Então se cortou e esfregou o sangue na testa da boneca com um nível de envolvimento pessoal que Greenmantle ainda tinha de alcançar.
Mesmo assim, a boneca não rosnou nem mordeu ninguém, mas, naquela noite, Greenmantle a colocou em uma caixa no quarto de visitas, e na manhã seguinte ela estava caída de rosto virado para o chão, perto da porta da frente. Ele sentiu o nível de emoção, medo e prazer apropriado.
— Não me impressionou — disse Piper, passando sobre ela a caminho de sua aula de esgrima para damas ou sua turma de culinária pelada. — Encontre algo melhor.
E ele havia encontrado.
Ou melhor, ele havia contratado pessoas para encontrar algo melhor.
Agora, anos mais tarde, ele tinha montes de artefatos sobrenaturais, quase todos eles mais interessantes do que a boneca ocasionalmente móvel. Ele ainda preferia que seus artefatos fossem ligeiramente atmosféricos. Piper gostava deles sombrios.
Algo estava acontecendo com ela ali em Henrietta, e não era apenas sua aula de ioga.
Ele não devia tê-la trazido.
Greenmantle entrou na casa alugada.
— Piper — chamou. Não houve resposta. Ele fez uma pausa na cozinha para pegar um pedaço de queijo e uma uva. — Piper, se você foi pega pelo sr. Cinzento, dê um latido.
Ela não tinha sido pega por nada, exceto o espelho. Estava no banheiro do corredor olhando fixamente para si mesma, e não respondeu quando ele chamou seu nome. Isso não era particularmente incomum, uma vez que Piper ficava facilmente fascinada pelo próprio reflexo. Ele voltou para a cozinha para pegar uma taça de vinho. Piper havia usado todas as taças de vinho e não as lavara, de maneira que ele serviu um Pugnitello barato em uma xícara da Academia Aglionby.
Então Greenmantle voltou para o banheiro. Ela ainda estava mirando a si mesma atentamente.
— Você está fora do ar — ele disse, puxando-a. Ele notou uma carta de tarô, o três de espadas, pousada na beira da pia. — Hora de olhar para mim agora.
Ela ainda tinha o olhar perdido em lugar nenhum. Greenmantle estalou os dedos rudemente na sua frente por alguns minutos, e então, depois de começar a ficar um pouco amedrontado, mergulhou os dedos dela na xícara e colocou a ponta dos dedos cobertos de vinho na boca de Piper.
Ela voltou.
— O que você quer? Por que meus dedos estão na minha boca? Você é tão pervertido.
— Eu só estava dizendo oi. Oi, querida, cheguei.
— Ótimo. Você chegou. Estou ocupada.
E bateu a porta do banheiro na cara dele. De dentro do banheiro, ele ouviu um cantarolar. Não soava como Piper, embora tivesse de ser.
Greenmantle achou que provavelmente havia chegado a hora de terminar o seu trabalho e cair fora daquele lugar.
Ou talvez simplesmente cair fora daquele lugar.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!