15 de julho de 2018

Capítulo 35

Dependendo por onde você começasse a história, ela dizia respeito a Neeve Mullen.
Neeve tinha o tipo de carreira que a maioria das médiuns desejava ter. Parte disso ocorria porque ela tinha uma variedade de clarividência que era muito fácil de transformar em dinheiro: ela era boa com números específicos, letras específicas, tirar números de telefone das carteiras das pessoas, aniversários da cabeça das pessoas, apontando precisamente os momentos de eventos futuros. E parte disso era porque ela era obstinadamente ambiciosa. Nada jamais era suficiente. Sua carreira era um copo que nunca parecia ficar cheio. Ela começou com uma linha telefônica, e então publicou alguns livros e conseguiu um programa na televisão, exibido de manhã bem cedo. Ela tinha respeito dentro da comunidade.
Mas.
Fora da comunidade, ela seria sempre só uma médium. Ultimamente, neste século, mesmo a melhor médium tinha o estigma que provocava o torcer de nariz de uma bruxa e nada da admiração. Neeve podia colocar as mãos sobre o futuro, o passado e outros mundos, mas ninguém se importava. E assim ela fizera os feitiços, sonhara os sonhos e pedira aos seus guias espirituais por um caminho. Me digam como me tornar poderosa de um jeito que as pessoas não ignorem.
Henrietta, sussurrou um de seus guias. A tela de sua televisão se cobriu de mapas do tempo na Virgínia. Ela sonhava com a linha ley. Sua meia-irmã a chamou: “Venha a Henrietta e me ajude!”. Espelhos lhe mostravam um futuro com todos os olhos nela. O universo apontava o caminho.
E ali estava ela, em uma floresta escurecida, com Piper Greenmantle e um demônio.
Neeve deveria ter adivinhado que sua fixação com o poder lhe proporcionaria a oportunidade de barganhar com um demônio, mas ela não fizera isso. Ela não era cem por cento eticamente correta, mas não era idiota: ela sabia que não havia um final feliz para uma barganha dessas. Então, era um beco sem saída. Literalmente.
A moral estava baixa.
Piper, em contrapartida, seguia entusiasmada. Havia trocado seus trapos rasgados por um vestido azul-celeste perfeito, com sapatos de salto para combinar; era um choque de cor em uma paisagem cada vez mais incolor. Ela disse a Neeve:
— Ninguém compra um objeto de luxo de uma mendiga pedindo carona.
— O que você está vendendo? — perguntou Neeve.
— O demônio — respondeu Piper.
Neeve não tinha certeza se isso fora uma falha de imaginação ou uma percepção mediúnica de sua parte, mas ela não havia antecipado isso também. Uma súbita sensação ruim acompanhou a resposta de Piper. Neeve tentou articulá-la.
— Tenho a impressão de que o demônio está ligado a essa localização geográfica e existe para um fim específico, isto é, desfazer todos os artefatos de energia associados a este lugar, no caso, e assim me parece improvável que você consiga movê-lo sem causar um dano consi...
— O tempo é esquisito aqui, não? — interrompeu Piper. — Não sei dizer se estamos aqui há alguns minutos ou não.
Neeve tinha bastante certeza de que elas haviam estado ali por bem mais tempo, mas aquela floresta manipulava o seu sentido de tempo para atrasar Piper. Mas Neeve não queria dizer isso em voz alta, pois temia que Piper usasse aquela informação de uma maneira terrível. Neeve se perguntou se ela poderia matar Piper — o quê? Não, ela não havia se perguntado. Era o demônio sussurrando em seus pensamentos, como sempre fazia.
Ela se perguntou o que ele estaria sussurrando para Piper.
Neeve olhou para o demônio. Ele a olhou de volta. Ele estava começando a parecer mais em casa ali, em meio à floresta, o que provavelmente era um mau sinal para as árvores. Em uma voz baixa, ela disse:
— Não vejo como você espera vender esse demônio. Isso é um exercício em arrogância. Você não pode controlá-lo.
A voz mais baixa não fazia sentido, à medida que o demônio estava bem ali,  as Neeve não
conseguia deixar de usá-la.
— Ele está me concedendo um favor — disse Piper. — É isso que ele disse.
— Sim, mas no fim das contas, o demônio tem a sua própria agenda. Você só é uma ferramenta.
Os pensamentos do demônio sussurraram através das árvores, e elas estremeceram. Um pássaro cantou, mas era um som ao contrário. A alguns metros de Neeve, uma boca se abriu no chão. Ela se abria e fechava lentamente, de um jeito faminto e desatento. Não era possível, mas o demônio não se importava com possível. A floresta vivia agora segundo regras de pesadelo. Piper não parecia incomodada.
— E você é uma pessimista. Demônio, faça-me uma casa. Caverna casa. O que quer que você consiga fazer rápido por aqui. Desde que eu possa tomar um banho, estou nessa. Que assim seja, ou sei lá.
Assim foi, ou sei lá, de acordo com as palavras de Piper.
A mágica do demônio não lembrava em nada algo que Neeve já tivesse usado um dia. Ela era negativa, um cartão de débito mágico; uma prova mediúnica de energia não era nem criada, tampouco destruída. Se elas quisessem fazer um prédio, o demônio teria de desfazer parte da floresta. E não era um processo fácil de observar. Se tivesse sido um simples apagamento, Neeve talvez não tivesse tanta dificuldade com ele. Mas era uma corrupção. Videiras não paravam de crescer, florescendo e brotando com um crescimento incessante até que se estrangulavam e apodreciam. De espinheiros delicados cresciam lâminas e espinhos que se dobravam e se retorciam até cortarem o galho de onde pendiam. Pássaros vomitavam seus aparelhos digestivos, que se transformavam em cobras, que comiam os pássaros e então se devoravam, debatendo-se em agonia.
O pior eram as árvores grandes. Elas eram sagradas — Neeve sabia que elas eram sagradas — e resistiam à mudança mais que qualquer outra coisa viva na floresta. Primeiro elas sangravam uma seiva negra. Então, lentamente, suas folhas murchavam. Os galhos caíam uns contra os outros, desabando como um adubo escuro. A casca se soltava em lâminas, desprendendo-se como uma pele apodrecida. As árvores começaram a gemer. Não era um ruído que um ser humano poderia produzir. Não era uma voz. Era uma versão tonal do ruído que um ramo faz, lamentando-se ao vento. Uma canção vinda de uma árvore caindo em uma tempestade.
Aquilo ia contra tudo o que Neeve defendia.
Ela se obrigou a observar, no entanto. Ela devia isso àquela floresta antiga e sagrada. Observá-la morrer. Neeve se perguntou se ela havia sido trazida para esta floresta para salvá-la. Tudo era um pesadelo.
A casa nova de Piper preencheu uma fenda enorme e profunda nas rochas, suspensa e assegurada por meios mágicos. A estrutura era um casamento estranho dos desejos de Piper e da sensibilidade de ninho-de-vespa-de-estuque do demônio. Bem no centro da sala maior havia uma banheira profunda no formato de uma lágrima.
Como em qualquer bom acordo, ambas as partes ficaram vagamente insatisfeitas, mas não disseram nada a respeito. Piper deu uma risadinha zombeteira e disse simplesmente:
— Ótimo. Hora de falar com o meu pai.
— Em vez da possessão, você poderia usar a banheira para uma divinação e se comunicar com o seu pai — sugeriu Neeve rapidamente. O que ela não disse é que ela achava que a divinação usaria muito menos energia do que a possessão. Poderia não salvar uma árvore, mas poderia preservá-la por mais algum tempo.
O demônio contraiu as antenas na direção de Neeve. Ele sabia o que estava fazendo. Um segundo mais tarde, Piper olhou para a banheira de forma avaliadora; era claro que o demônio havia tagarelado diretamente em sua cabeça. Neeve esperou por uma réplica, mas Piper apenas correu os dedos em torno da borda da banheira, pensativa. Ela disse:
— Eles vão se emocionar mais se virem o meu rosto. Demônio, conecte o meu pai nessa coisa. Que assim seja, ou sei lá.
E assim foi, ou sei lá.
Laumonier estava em um banheiro público. Ele estava parado na frente do espelho, e também na frente da porta para o banheiro masculino para se certificar de que ninguém entrasse. Piper estreitou os olhos, mirando a banheira.
— Vocês estão na Frutos do Mar da Hora? Não posso acreditar. Odeio tudo.
— Sim, nós queríamos ostras — disse Laumonier, sua voz emanando do demônio em vez da banheira. Seus olhos estavam estreitados, tentando conseguir uma visão melhor de onde quer que sua filha estivesse.
— Você está no ninho de uma vespa?
— É um santuário — disse Piper.
— Para o quê?
— Para mim. Ah, que bom que você perguntou desse jeito. Deixou bem apropriado para eu responder. Olha, vou apressar isso aqui, pois estou morrendo de vontade de tomar um banho. O que vocês fizeram aí do seu lado?
— Programamos uma exposição para o seu objeto — disse Laumonier, saindo de um dos cubículos. — Programamos para acontecer um dia depois de um evento para arrecadar fundos para uma congressista em uma escola para garotos aqui, para permitir que convidados de fora da cidade participem. O que estamos vendendo?
Piper descreveu o demônio, que levantou voo e deu uma volta na banheira. Pela expressão de Laumonier, Neeve sabia que o demônio também estava se descrevendo. Eles ficaram claramente impressionados com a desorientação de seus pensamentos.
— Belo achado — disse Laumonier. — Mantemos contato.
E desapareceram da banheira de divinação.
— Hora do banho — disse Piper triunfantemente. Ela não pediu que Neeve a deixasse sozinha, mas ela a deixou do mesmo jeito. Ela precisava sair. Ela precisava ficar só. Ela precisava ficar calma, para que pudesse ver as coisas com clareza.
Ela não sabia ao certo se um dia se sentiria calma novamente.
Na rua, no topo das escadas de vespa, Neeve agarrou os cabelos. Em retrospectiva, ela sabia que havia usado o poder do universo somente para o seu ganho pessoal. Fora assim que ela chegara ali. Ela não podia ficar brava com essa lição. Ela precisava tentar salvar a floresta. Era isso. Neeve não conseguiria viver consigo mesma, sabendo que deixara que um lugar sagrado fosse destruído.
Então começou a correr.
Normalmente, Neeve não corria, mas, assim que começou a correr, não pôde acreditar que tivesse demorado tanto para tomar essa atitude. Ela poderia ter feito isso no momento em que viu o demônio, até que ele estivesse longe demais para ser ouvido em sua cabeça. O medo e a revulsão subitamente a alcançaram, e, enquanto Neeve respirava ofegante pela floresta, o choro veio aos soluços. Demônio, demônio, demônio. Ela estava com muito medo. As folhas secas debaixo de seus pés se transformaram em cartas de tarô com seu rosto nelas. Neeve escorregou sobre as superfícies, mas tão logo elas deixavam a sola de seus sapatos, viravam folhas novamente.
Água, ela pensou para a floresta. Eu preciso de um espelho se eu for ajudá-la.
Folhas se mexeram indiferentemente sobre ela. Uma gota de chuva respingou sobre o seu rosto, misturando-se a suas lágrimas.
Chuva, não. Água para um espelho, pensou. Ela olhou sobre o ombro enquanto corria. Tropeçou. Ela se sentia observada, mas é claro que ela se sentiria observada. O lugar todo a observava. Escorregando por uma lomba, as mãos pegando apenas folhas secas que só a empurravam para mais longe, ela se viu olhando para o toco oco de uma árvore.
Água, água. Enquanto observava, a água borbotou e o encheu. Neeve mergulhou a mão e rezou para algumas deusas escolhidas, e então manteve as mãos sobre o toco para realizar a divinação. Sua mente se encheu com as imagens da Rua Fox. O sótão no qual ela tinha ficado, os rituais que fizera ali. Os espelhos que ela colocara para a impelir através de possibilidades que eventualmente a haviam trazido para ali.
Neeve queria muito olhar por sobre o ombro.
Mas não podia interromper sua concentração.
Então sentiu o momento em que a conexão se firmou. Ela não reconheceu o rosto, mas não importava. Se era uma mulher na Rua Fox, 300, a informação chegaria às pessoas que desejavam fazer algo a respeito disso. Neeve sussurrou:
— Você consegue me ouvir? Tem um demônio. Ele está desfazendo a floresta e tudo que está ligado a ela. Estou tentando...
— Sabe de uma coisa? — Piper perguntou. — Se você tinha um problema comigo, podia ter vindo até mim primeiro.
A conexão de Neeve se rompeu. A água no toco se agitou, apenas água, e então a casca escura e dura do demônio irrompeu pela superfície. Com um ligeiro balançar de antenas, ele rastejou até o braço dela. Pesado. Malevolente. Sussurrando possibilidades terríveis, cada vez mais terríveis probabilidades. Piper entrou no foco do outro lado do toco, caminhando pelas folhas até eles. Seu cabelo ainda estava úmido do banho.
Neeve não perdeu seu tempo implorando.
— Por favor, Neeve. Esses tipos da Nova Era como você são os piores. — Piper gesticulou para o demônio. — Desfaça-a.

Um comentário:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!