5 de julho de 2018

Capítulo 35

Naquela noite, a risada de Gwenllian anunciou sua presença no vão da porta do quarto de Blue. Era um momento ruim; Blue estava com um péssimo humor porque era hora de Maura voltar, ou de ela ir encontrar Maura, ou algo. Ela iria à caverna dos corvos sozinha. E lutaria com os monstros na caverna de Dittley, e seguiria até o meio da terra procurando por ela. Ela fazia planos, os deixava de lado e os reescrevia, um plano novo a cada segundo.
Gwenllian riu de novo, de maneira significativa. Era sua versão para limpar a garganta. Com um suspiro, Blue rolou para o lado. Ela encontrou a mulher apreciando uma colher de algo que parecia terrivelmente ser maionese.
— Você está fugindo, pequeno lírio azul?
— Ainda não — respondeu Blue, estreitando os olhos para Gwenllian para ver se havia um significado mais profundo nisso. Ao longe, ela ouvia Calla e Persephone brigando no quarto de Persephone. Bem, na verdade, Calla estava brigando e Persephone não estava dizendo nada. Ela continuou: — Escuta, não existe uma maneira legal de dizer isso, então vou simplesmente colocar para fora: você acha que vai deixar de maluquice logo? Porque eu tenho um monte de perguntas sobre o meu pai, e a minha mãe está desaparecida, e tentar fazer a investigação de um crime através de canções está começando a me cansar.
— Você está começando a soar como o seu principezinho, pequeno lírio — disse Gwenllian. — E não tenho certeza se este é o seu lugar. O que quer dizer: vá em frente. Dou a maior força para mulheres usurpadoras.
Blue deixou essa passar. Gwenllian já provara ser extremamente talentosa em encontrar o ponto fraco de uma pessoa e atingi-lo casualmente.
— Eu só quero a minha mãe de volta. E, por favor, para de me chamar assim. Meu nome é Blue.
— Azul lírio — acrescentou Gwenllian.
— Por favor...
— Lírio.
— ... para.
— Azul — terminou Gwenllian com algum triunfo. Ela comeu o que quer que tivesse sobrado na colher. Possivelmente era condicionador de cabelo. — Venha até o meu quarto e vou lhe mostrar que somos a mesma coisa, você e eu, eu e você.
Com um suspiro, Blue rolou para fora da cama e seguiu Gwenllian escada acima até o sótão escuro. Mesmo agora, após o sol ter se posto, estava vários graus mais quente que na casa, o que o fazia parecer pequeno e fechado, como uma jaqueta.
Blue havia limpado quase todas as evidências que Neeve deixara para trás, e Persephone e Calla haviam juntado o resto. Os únicos resquícios dignos de nota eram dois espelhos grandes posicionados um de frente para o outro, na parte inclinada do aposento.
Gwenllian levou Blue diretamente até eles, tomando cuidado para não ficar entre os espelhos. Ela acariciou o cabelo de Blue com as duas mãos, como se estivesse alisando uma peruca, e então usou as mãos para virar a cabeça de Blue para o espelho à esquerda.
— Essa sou eu — ela disse. E virou a cabeça de Blue para o espelho à direita. — Essa é vous.
— Explique.
— Já fui uma espada e já fui um trovão, e já fui um cometa extinto, e já fui uma palavra, e já fui um espelhoooo!
Blue esperou até que a canção tivesse terminado.
— Então você está dizendo que é um espelho.
— Do azul mais profundo — sussurrou Gwenllian no ouvido de Blue. Ela deu um salto para trás para desenhar a forma de Blue no ar com os dedos. — Blue. Blue. Blue. Azul. Azul. Azul. Por toda parte. E eu. É o que fazemos.
— Ah. Nossas auras? Tudo bem, certo. Mas a Persephone disse que você é médium, e eu definitivamente não sou.
Muito enfastiada, Gwenllian abriu os braços dramaticamente. As duas mãos novamente apontadas para os espelhos.
— Espelhos! Estou lhe dizendo, é isso que nós fazemos.
Algo alfinetou Blue, desconfortavelmente. Ela olhou para os espelhos; Neeve os usara para divinação, disse Calla. Ela ficara entre eles e vira infinitas possibilidades para si mesma se estendendo em qualquer um dos lados, em ambos os espelhos.
Maura estava sempre tirando o pajem de copas do seu baralho de tarô e o mostrando para Blue: Olha, é você! Veja todo o potencial que ela tem dentro de si!
— Sim — disse Gwenllian em um trinado. — Você está entendendo. Elas usam você, lírio azul? Elas pedem que você segure as mãos delas para que vejam melhor o futuro? Você as faz ver os mortos? Você é mandada embora do quarto quando as coisas ficam ruidosas demais para elas?
Blue anuiu, emudecida.
— Espelhos — arrulhou Gwenllian. — É isso que nós somos. Quando você segura uma vela na frente de um vidro, isso não deixa o quarto duas vezes mais iluminado? Da mesma forma nós, lírio azul, azul lírio.
Ela saltou sobre o colchão.
— Que útil! Um acréscimo maravilhoso para os estábulos. Como os corcéis de Gwythur e Gwarddur e Cunin e Lieu. — Ela interrompeu sua canção para balançar a cabeça e dizer, com uma voz mais normal: — Não, não de Lieu. Mas dos outros.
Blue não conseguia acreditar que havia finalmente encontrado alguém como ela. Ela achava que isso não seria possível.
— O que é lírio azul, então? De onde vem esse nome?
Gwenllian avançou em direção aos espelhos, parando quase entre eles. Ela deu um giro para se colocar a dois centímetros de Blue.
— Bruxas, minha almofadinha floral. É isso que nós somos.
Uma emoção deliciosa e travessa trespassou Blue ao ouvir a palavra. Não que ela tivesse aspirações de ser uma bruxa; mas ela fora um acessório sem nome por tanto tempo que a ideia de ter um título, ou ser qualquer coisa, era deliciosa.
Mas equivocada.
— Talvez você — disse Blue. — Mas o melhor que eu posso fazer é não ajudar as pessoas. Às vezes. — Ela pensou em como havia desconectado Noah em Monmouth, mas fora incapaz de fazê-lo na fazenda de Jesse Dittley. Isso, ela se deu conta, havia sido por causa de Gwenllian.
— Pessoas! — Gwenllian riu gloriosamente. — Pessoas! Homens? O que a faz pensar que você é amiga de homens?
Alguém poderia argumentar, pensou Blue, que ela  era amiga de homens, mas ela não achou que seria útil mencionar isso.
— Quem quer que queira falar com as pessoas! — Gwenllian gesticulou grandiosamente para os dois espelhos. — Vá! Fique ali! De pé!
Calla havia deixado bem claro anteriormente que não queria se colocar entre os dois espelhos de Neeve. E também havia deixado implícito que fazer isso poderia ter algo a ver com o desaparecimento de Neeve.
Blue não queria ficar entre eles.
Gwenllian a empurrou.
A garota foi lançada na direção deles, os braços girando. Ela podia ver a luz reluzindo em suas superfícies. Ela oscilou e parou um pouco antes de chegar até eles.
— Tudo bem, eu... — ela disse.
Gwenllian a empurrou de novo.
Blue só deu um passo para trás, mas foi o suficiente para colocá-la bem no meio dos dois espelhos.
Ela esperou ser vaporizada.
Esperou os monstros aparecerem.
Nenhuma das duas coisas aconteceu.
Em vez disso, ela espiou lentamente para a esquerda, então para a direita, depois olhou para suas mãos. Elas ainda eram visíveis, o que era notável, pois seu reflexo não era visível em nenhum dos espelhos. Os espelhos somente refletiam um ao outro, repetidamente. Havia algo um pouco sombrio e perturbador a respeito das imagens dentro deles, mas nada mais.
— Onde estou? — perguntou Blue a Gwenllian.
A mulher riu e saiu dando saltos, batendo palmas alegremente.
— Não lamente a sua estupidez! A magia de espelhos não significa nada para os espelhos.
Blue aproveitou a oportunidade para sair dali rapidamente, de volta para o centro do aposento.
— Não compreendo.
— Nem eu — Gwenllian disse despreocupadamente. — E essa conversa fútil me deixou faminta.
A mulher começou a descer a escada do sótão.
— Espera! — chamou Blue. — Você não vai contar sobre o meu pai?
— Não — respondeu Gwenllian. — Vou pegar maionese.

2 comentários:

  1. Será mesmo que Blue descobriu o que é? Uma bruxa.

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  2. Bruxa, Mago e um Greywaren, a lista está aumentando

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Boa leitura, E SEM SPOILER!