15 de julho de 2018

Capítulo 34

Havia uma história que Niall contara certa vez a Ronan de que ele não conseguia se lembrar bem, mas da qual sempre gostara. Era algo a respeito de um garoto — que se parecia muito com Ronan, como acontecia muitas vezes com os garotos nas histórias de Niall — e de um velho — que se parecia muito com Niall, como acontecia muitas vezes com os homens nas histórias de Niall. O velho poderia ter sido um mago, na realidade, e o garoto poderia ter sido o seu aprendiz, embora Ronan talvez tivesse combinado a história com um filme que vira certa vez. Na história, havia um salmão mágico que conferiria felicidade à pessoa que o comesse. Ou talvez fosse sabedoria, não felicidade.
De qualquer maneira, o velho andava preguiçoso, ocupado demais ou em uma viagem de negócios para desperdiçar o seu tempo tentando pescar o salmão, e assim havia mandado o garoto pescá-lo para ele. Quando o garoto o pescasse, ele deveria cozinhá-lo e trazê-lo para o velho. O garoto cumpriu o combinado, pois era tão esperto quanto o velho mago, mas, enquanto cozinhava o salmão, ele se queimara. Sem refletir a respeito, ele colocou o dedo queimado na boca e assim ficou com a mágica do salmão para si.
Ronan achou que havia conseguido a felicidade sem querer.
Ele podia fazer qualquer coisa.
— Ronan, cara, o que você está fazendo aí em cima? — chamou Declan. — O jantar está pronto!
Ronan estava no telhado de um dos pequenos galpões para equipamentos. Era o mais alto que ele podia chegar em um curto espaço de tempo sem asas. Ele não baixou os braços. Vagalumes, quinquilharias e sua flor de sonho reluziam e redemoinhavam à sua volta, e continuaram passando por seu campo de visão enquanto ele mirava o céu estriado com uma tonalidade rósea. Após um momento, o telhado gemeu e Declan também, e então seu irmão mais velho se puxou para cima, ao lado de Ronan. Ele ficou olhando não para o céu, mas para as coisas que flutuavam à volta do irmão mais novo.
Suspirou.
— Com certeza você fez muitas coisas com esse lugar. — Estendeu a mão para pegar um vagalume. — Meu Deus, Ronan, não tem sequer mosquitos por aqui.
Ronan baixou os braços e olhou para a luz que Declan havia apanhado. Em seguida deu de ombros.
Declan soltou o vagalume de volta no ar. Ele flutuou bem à sua frente, iluminando os traços duros de um Lynch, o nó de preocupação entre suas sobrancelhas, o premir de desapontamento em sua boca.
— Ele quer ir com você — disse Ronan.
— Não posso levar uma bola reluzente comigo.
— Aqui — disse Ronan. — Espera.
Ele deslocou o peso do corpo para tirar algo do bolso e o ofertou a Declan, pousando-o na palma de sua mão. Parecia uma arruela de metal tosca para equipamentos pesados. Tinha aproximadamente quatro centímetros, um peso de papel de um filme de ficção científica, tirado de uma máquina esquisita.
— Você está certo, isso tem bem menos chance de chamar atenção — disse Declan, de esguelha.
Ronan deu um tapa brusco no objeto, e uma pequena nuvem de esferas flamejantes se espalhou com um sibilar cintilante.
— Uau, Ronan!
Declan desviou o queixo abruptamente.
— Fala sério, você acha que eu ia explodir o seu rosto?
Ele o demonstrou de novo, aquele tapa rápido, aquele estouro de esferas brilhantes. Depois largou o objeto na mão de Declan e, antes que Declan pudesse dizer alguma coisa, o acertou para ativá-lo mais uma vez.
Esferas expeliram-se no ar. Por um momento, ele viu como seu irmão ficou preso dentro delas, observando-as pairar furiosamente em torno de seu rosto, cada sol dourado disparando luzes douradas e brancas, e, quando viu o vasto desejo no rosto de Declan, percebeu quanto ele havia perdido ao não crescer, nem como sonhador, nem como objeto sonhado. Aquele jamais fora o seu lar. Os Lynch jamais haviam feito esforço algum para que isso acontecesse.
— Declan? — chamou Ronan.
O rosto de Declan se desanuviou.
— Essa é a coisa mais útil que você já sonhou na vida. Você deveria dar um nome para ela.
— Já dei. ORBMASTER. Tudo em letras maiúsculas.
— Mas tecnicamente você é o mestre, certo? E isso é só uma esfera.
— Qualquer pessoa que a segurar se torna um ORBMASTER. Você é um ORBMASTER Agora mesmo. Toma, fique com ela, coloque-a no bolso. ORBMASTER WASHINGTON.
Declan estendeu a mão e bagunçou a cabeça raspada de Ronan.
— Você é um fedelho de primeira.
A última vez que eles haviam estado nesse telhado juntos, seus pais ainda estavam vivos, o gado pastava lentamente, e o mundo era um lugar menor. Aquela época havia passado, mas, por uma vez que fosse, estava tudo bem.
Os irmãos olharam para trás, para o lugar que os havia feito e, juntos, desceram do telhado.

Um comentário:

  1. AH NÃO GENTE, NÃO AGUENTO ESSAS RELAÇÕES FRATERNAS TÃO BEM TRABALHADAS <3 awnawnawnwnaw

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Boa leitura, E SEM SPOILER!