5 de julho de 2018

Capítulo 34

Gansey podia ter encontrado Gwenllian, mas Blue tinha de conviver com ela. Todas as mulheres da Rua Fox, 300 tinham de fazê-lo, na realidade. Era como conviver com um desastre natural, ou uma criança selvagem, ou um desastre natural de criança selvagem.
Para começo de conversa, ela não dormia. Ela gritou com Calla que havia dormido por mil vidas e que tinha a intenção de passar o resto desta desperta, e então começou a fazer exatamente isso. De madrugada, Blue acordava e a ouvia, toda atrapalhada pelo sótão acima de seu quarto.
Então havia o seu jeito de se vestir. Sua consciência sobrenatural dentro da tumba havia lhe dado quantidade suficiente de exposição ao mundo exterior em evolução para não ficar chocada com a existência de carros ou confusa com a língua inglesa, mas não o bastante para lhe proporcionar quaisquer modos sociais. Então ela usava o que queria usar (Blue podia ao menos respeitar a motivação, se não o resultado), que era sempre um vestido, às vezes dois ou três, um em cima do outro, às vezes virados ao contrário. Isso frequentemente envolvia roubar roupa do armário de outras pessoas. Blue só era poupada porque era muito mais baixinha.
Havia problemas com as refeições, também: para Gwenllian, toda hora era hora de comer. Ela parecia não ter o sentido de satisfação, tampouco o de gosto, muitas vezes combinando alimentos de um jeito que parecia problemático para Blue. A garota não acreditava em dizer para as pessoas como viver a vida (bem, talvez um pouco), mas era difícil ficar ali e vê-la passar creme de amendoim sobre uma salsicha fria.
E havia a parte maluca. Quarenta por cento do que saía de sua boca vinha sob a forma de canção, e o resto era uma mistura variada de salmos, gritos, brincadeiras e um sussurro pavoroso. Ela subia no telhado, falava com a árvore no quintal e ficava de pé em cima dos móveis. E frequentemente colocava coisas no cabelo para tirar mais tarde, e então parecia esquecer que elas estavam ali. Em muito pouco tempo, seu enorme emaranhado de cabelo se tornou um depósito vertical de lápis, folhas, tecidos e fósforos.
— A gente podia cortar o cabelo dela — sugeriu Orla em determinado momento.
— Não creio que essa seja uma decisão que um ser humano pode tomar por outro ser humano — disse Persephone.
— Mesmo se o outro ser humano parecer uma mendiga? — perguntou Orla.
Era um ponto sobre o qual tanto Blue quanto Orla concordavam. A pior parte disso era que Gansey havia se oferecido para levá-la embora — e continuou se oferecendo para levá-la embora —, mas Persephone insistiu que Gwenllian ficasse com elas.
— Leva mais que um fim de semana para desfazer séculos de danos — disse Persephone.
— Séculos de danos estão sendo incorridos em apenas um fim de semana — respondeu Calla.
— Ela é uma médium muito talentosa — disse Persephone suavemente. — Com o tempo vai conseguir se sustentar.
— E pagar pela minha terapia — acrescentou Blue.
— Boa — disse Orla. Para recompensar Blue pela excelente resposta, ela havia pintado as unhas da garota para combinar com o Pig, numa cor, ela informou a Blue, chamada Doce Beligerante.
Gansey seguia tentando conversar com Gwenllian, mas ela sempre se portava de maneira ironicamente deferente quando ele chegava na casa. Além disso, Gansey tinha algum compromisso na escola que guardava com cautela para si, Ronan e Adam viviam sumindo juntos, e Noah não podia ou não queria ir à Rua Fox, 300.
Blue se sentia um pouco como se tivesse sido trancada em um manicômio.
Mãe, está na hora de você voltar para casa.


O Homem Cinzento apareceu um dia no meio da semana, para grande satisfação de Blue.
— Sou eu — ele chamou no corredor enquanto entrava na casa. Blue podia vê-lo de seu lugar de fazer lição de casa, na mesa da cozinha; ele parecia arrumado e perigoso de camisa e calça cinza. Parecia mais otimista que da última vez em que ela o vira.
Gwenllian, que examinava o aspirador de pó rugindo, mas sem usá-lo, o viu também.
— Olá, bela espada! Matou alguém hoje?
— Uma espada conhece a outra — ele lhe disse suavemente, colocando as chaves do carro no bolso. — Você matou alguém hoje?
Ela estava tão encantada que desligou o aspirador de pó para que seu sorriso insano pudesse ser a coisa mais alta no corredor.
— Sr. Cinzento, deixe ela em paz e vem pegar uma xícara de chá — chamou Blue da mesa da cozinha. — Senão ela vai começar a cantar de novo.
O Homem Cinzento olhou de relance sobre o ombro para Gwenllian enquanto ia até a cozinha e atendia ao pedido de Blue, ponderando por alguns minutos para encontrar um chá que tivesse uma chance maior de deixá-lo alerta do que com o intestino solto.
— Seus amigos, o sr. Parrish e o sr. Lynch, me contrataram — ele disse enquanto se sentava de frente para Blue. Então esse era o caminho que aqueles dois estavam tomando! Ele bateu com o dedo sobre um problema de álgebra até que Blue o arrastou de volta para si e o retrabalhou corretamente. — Eles têm um plano para Greenmantle, e parece bastante promissor.
— O que é?
— Eu prefiro não contar, porque, quanto menos pessoas souberem, melhor. Também não se trata de uma conversa educada para se ter à mesa — disse o sr. Cinzento. — Eu tenho uma pergunta para você. Sobre a sua caverna amaldiçoada. Você acha que é um lugar onde se poderia esconder um corpo? Ou pelo menos parte de um?
Blue estreitou os olhos.
— Naquela caverna tinha um monte de lugares para um monte de coisas. Corpo de quem? Qual parte?
No mesmo instante, Gwenllian se manifestou na cozinha, arrastando o aspirador de pó atrás de si como um cão bravo que se leva para passear.
— E a maldição, lírio?
— Achei que você era a maldição — respondeu Blue.
— Provavelmente — disse Gwenllian, despreocupada. — O que mais existe lá, além de mim? Sou conhecida dos galeses livres, adorável Gwen, adorável Gwen, de Gower a Anglesey, adorável Gwen, ah, Gwen, a morta!
— Eu disse que ela ia começar a cantar — falou Blue.
Mas o Homem Cinzento apenas ergueu as sobrancelhas.
— Armas e poesia andam lado a lado.
Gwenllian se aprumou.
— Que arma astuciosa você é. Um poeta, foi assim que acabei naquela caverna.
— A história é boa? — perguntou o Homem Cinzento.
— Ah, a melhor.
Blue observou o diálogo com um pouco de espanto. Em algum lugar havia uma lição nisso.
O Homem Cinzento deu um golinho no seu chá.
— Você deveria cantá-la para nós.
E, inacreditavelmente, ela cantou.
Ela cantou uma cançãozinha furiosa sobre o poeta de Glendower, Iolo Goch, e como ele sussurrara a guerra no ouvido de seu pai (ela sussurrou essa parte no ouvido de Blue), e assim, enquanto o sangue se entranhava no solo do País de Gales, Gwenllian fez o seu melhor para matá-lo com uma facada.
— Ele estava dormindo? — perguntou o Homem Cinzento com interesse profissional.
Gwenllian riu por aproximadamente um minuto, então disse:
— Era um jantar. Que refeição adorável ele teria sido!
Então ela cuspiu no chá do Homem Cinzento, mas isso parecia ter mais a ver com Iolo Goch do que com o sr. Cinzento.
Ele suspirou e empurrou a xícara para longe.
— Então eles condenaram você àquela caverna.
— Era isso ou a forca! E escolhi a forca, de maneira que eles me deram o túmulo falso em vez disso.
Blue olhou para Gwenllian com os olhos semicerrados, tentando imaginar como ela havia sido seis séculos atrás. Uma jovem mulher, da idade de Orla, filha de um nobre, uma bruxa numa era em que bruxas nem sempre eram a melhor coisa para ser. Cercada pela guerra e fazendo o seu melhor para pará-la.
Blue se perguntou se teria coragem de esfaquear alguém, se achasse que isso pouparia vidas.
Gwenllian arrastou o aspirador de pó de volta para o corredor sem nenhum tipo de despedida.
— Gwenllian e aspirador, saída do palco pela direita — disse Blue.
O Homem Cinzento empurrou o chá para mais longe ainda.
— Você acha que teria um tempo para me mostrar essa caverna de onde a tirou? Só para eu saber onde ela fica, como uma opção?
A ideia de deixar a casa era incrivelmente atraente. Não seria ruim ver Jesse de novo, também. E, embora ela estivesse incomodada por Adam e Ronan não terem confiado nela com o que quer que fosse o plano deles para Greenmantle, queria ajudar de alguma maneira.
— Talvez. Você vai me alimentar?
— Não vou nem cuspir na sua comida.
Blue avisou Calla que estava saindo com um assassino de aluguel, e então o sr. Cinzento a levou até a loja de conveniência no centro para um sanduíche de atum (O MELHOR SANDUÍCHE DE ATUM DA CIDADE!) antes de deixar Henrietta para trás. O carro zunia e voava através da escuridão de um jeito que parecia ligeiramente fora do controle do Homem Cinzento.
— Esse carro é mesmo terrível — disse Blue.
Isso era permitido, pois o carro não era realmente do sr. Cinzento. Era um Mitsubishi branco usado, do tipo que rapazes com sonhos e egos grandes normalmente dirigiam. Ele exibia uma placa personalizada em que lia: LADRÃO.
— Ele cresce em você — disse o sr. Cinzento, fazendo uma pausa. — Como um câncer.
— Tu dum da.
Os dois riram juntos com satisfação, e então ficaram brevemente em silêncio quando perceberam que fazia tempo demais desde que haviam estado na companhia de alguém com o mesmo senso de humor, i.e., Maura Sargent. Ao fundo, os Kinks tocavam suavemente, o som da alma do sr. Cinzento.
— Eu fico querendo que as coisas voltem ao normal — admitiu Blue. — Mas agora eu sei que isso não vai acontecer, mesmo quando minha mãe voltar. — Ela queria dizer se, mas disse quando.
— Eu não te vejo como uma fã de coisas normais — disse o Homem Cinzento. Ele diminuiu a marcha ligeiramente à medida que os faróis iluminavam os olhos de três cervos parados ao lado da estrada.
Era reconfortante ser tão conhecida. Ela disse:
— Não sou, realmente, mas estava acostumada com isso, eu acho. É chato, mas pelo menos não é assustador. Você se assusta às vezes? Ou é durão demais para isso?
Ele parecia divertido, mas também um cara durão, sentado silenciosa e eficientemente atrás da direção do carro.
— Pela minha experiência — disse o Homem Cinzento —, os caras durões são os que mais têm medo. Eu só evito me sentir assustado sem motivo.
Blue achou que parecia uma meta razoável. Após uma pausa, ela disse:
— Sabe de uma coisa? Eu gosto de você.
Ele olhou de relance para ela.
— Eu também.
— De mim ou de você? A gramática não deixou claro.
Os dois curtiram mais uma risada e a presença de outra pessoa com exatamente o mesmo senso de humor.
— Ah, aqui está — disse Blue. — Não vá passar.
A fazenda Dittley estava quase totalmente no escuro quando eles estacionaram na entrada, com apenas a janela da cozinha acesa. Por um momento, Blue achou que talvez Jesse tivesse partido para reconquistar sua esposa, o filho e o cão. Mas então ela viu sua grande silhueta abrir a cortina para observar os faróis parando perto da casa.
Ele foi até a porta no mesmo instante.
— Olá — disse Blue. — Vim te importunar e talvez mostrar a sua caverna para o sr. Cinzento, se não tiver problema.
Ele os deixou entrar.
— VOCÊ ESTÁ COM BAFO DE ATUM.
— Eu devia ter trazido um pra você? — ela perguntou.
— EU SÓ COMO MACARRÃO INSTANTÂNEO.
Ele apertou a mão do Homem Cinzento, que se apresentou como sr. Cinzento. Então Jesse se inclinou, Blue ficou na ponta dos pés e eles se abraçaram, porque parecia o certo a fazer.
— ACABEI DE TIRAR UNS BISCOITOS DE BANDEIRANTES DO CONGELADOR.
— Ah, não se preocupe — disse Blue. — Como você mesmo sentiu o cheiro, nós acabamos de comer.
— Vou querer um — o Homem Cinzento interpôs. — Se forem de chocolate com menta.
Jesse os pegou.
— NADA PARA VOCÊ, FORMIGA?
— Que tal um copo de água e uma atualização empolgante sobre como a sua vida é boa agora que tiramos a maluca da sua caverna?
— A VIDA ESTÁ ÓTIMA — admitiu Jesse. — MAS A CAVERNA... VOCÊS ESTÃO DE BOTAS? PORQUE ELA ESTÁ CHEIA DE LAMA.
Blue e o sr. Cinzento lhe asseguraram que estavam bem com seus calçados atuais. Jesse pegou uma lanterna para Blue, um holofote e uma espingarda para si e os guiou pelo campo escuro até a construção que cobria a caverna. À medida que eles se aproximavam, Blue achou que sentia o cheiro de algo familiar. Não era a fragrância de terra do campo molhado ou a fragrância enfumaçada da noite outonal. Era algo metálico e próximo, úmido e estagnado. Era o cheiro, Blue se deu conta, da caverna dos corvos.
— CUIDADO COM ONDE PISAM.
— O que devo cuidar? — perguntou o sr. Cinzento.
— ESSA É A PERGUNTA CERTA.
Jesse caminhou a passos curtos da melhor maneira que um Dittley conseguia até a porta. Ele passou o holofote para Blue enquanto destrancava o cadeado.
— DEEM UM PASSO PARA TRÁS.
Ela deu um passo para trás.
— MAIS PARA TRÁS QUE ISSO.
Ela deu um passo mais para trás ainda. O Homem Cinzento deu um passo na frente de Blue. Apenas o suficiente para bloquear um ataque, não sua visão.
Jesse Dittley abriu a porta com um chute. Foi um chute em câmera lenta, porque sua perna era muito longa — havia um tempo considerável entre o momento em que ele começou a lançar a perna e quando seu pé realmente atingiu a porta. Blue se perguntou como deveria chamar aquilo. Uma perna-aríete, quem sabe.
A porta se abriu.
— UAU — disse Jesse enquanto algo voava em sua direção.
Era algo terrível.
Blue era uma pessoa com a mente bastante aberta, ela achava, disposta a aceitar que havia uma boa parte do mundo que estava fora de sua compreensão e de seu entendimento. Ela sabia, academicamente, que, só porque algo parecia assustador, não significava que queria machucá-la.
Mas esse algo queria machucá-los.
Não era nem malevolência. Era que às vezes algo estava do seu lado, e às vezes não estava, e esse não estava. O que quer que os seres humanos fossem, esse era contra.
A sensação de ser desfeitos os fustigou, e então alguma coisa avançou pelo vão da porta.
O Homem Cinzento tirou uma arma negra enorme da jaqueta e atirou nela, três vezes em cada uma de suas cabeças. Ela caiu no chão. Não sobrara muito das cabeças.
— ISSO PARECEU EXCESSIVO — disse Jesse.
— Sim — concordou o Homem Cinzento.
Blue se sentiu contente que a coisa havia morrido e então se sentiu mal por se sentir contente que ela havia morrido. Era mais fácil ser generosa agora que aquela coisa não estava tentando desmontar com o cerne de sua existência.
Jesse fechou a porta e trancou novamente.
— ESSA FOI A MINHA SEMANA.
Ela olhou para o corpo estranho e sem articulações, que lembrava vagamente uma minhoca, com escamas em tons de arco-íris reluzindo no facho de sua lanterna. Ela não sabia direito se era algo feio, ou belo, ou apenas diferente de qualquer coisa que já vira antes.
— Há muitos desses por aqui?
— O SUFICIENTE.
— Você já viu algum desses antes? — perguntou o sr. Cinzento.
— NÃO ATÉ AGORA. NEM SEMPRE PARECEM ASSIM, TAMBÉM. ALGUNS DELES NÃO QUEREM MATAR. ALGUNS SÃO APENAS UMAS COISAS VELHAS. MAS ELES ENTRAM NA CASA.
— Por que eles estão saindo? — perguntou Blue.
— EU DISSE QUE A CAVERNA É AMALDIÇOADA.
— Mas nós tiramos ela de lá!
— ACHO QUE ERA ELA QUE OS MANTINHA LÁ EMBAIXO. A CAVERNA ADORA UM SACRIFÍCIO.
Eles consideraram o corpo por vários minutos.
— Vamos enterrar essa coisa? — disse o sr. Cinzento.
— NAH. OS CORVOS COMEM O QUE SOBRAR.
— Isso não é legal — disse Blue. Ela queria oferecer ajuda, mas o que eles poderiam fazer? Colocar Gwenllian de volta na caverna?
O Homem Cinzento guardou sua arma. Ele parecia insatisfeito com tudo que tinha acontecido. Blue se perguntou se ele estava pensando em esconder partes de corpos em uma caverna que já parecia cheia de corpos, e então se ele estava pensando a respeito de Maura em uma caverna com essas criaturas, e, tão logo ela pensou nisso, sua expressão espelhou a do Homem Cinzento.
— NÃO TEM PROBLEMA, FORMIGUINHA — disse Jesse. — ACHO QUE O TEMPO DELA GUARDANDO A CAVERNA JÁ PASSOU. AGORA É A MINHA VEZ.

Um comentário:

  1. Vamo lá, os diálogos com o Sr. Cinzento não são os melhores de todos os tempos? <3

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Boa leitura, E SEM SPOILER!