30 de julho de 2018

Capítulo 33

AURANOS

O nascer do sol era a coisa mais bonita do mundo, mesmo em época de guerra. Lucia havia se levantado mais cedo e estava na frente de sua tenda esperando o céu se transformar em uma mistura de cor-de-rosa e laranja acima da cidade de tendas.
Ela odiava estar ali. Estivera afastada do pior da batalha, mas não era ignorante. Homens morriam dos dois lados do cerco. E ela queria que aquilo terminasse.
Lucia tinha decidido pedir ao pai permissão para voltar a Paelsia, mas a ideia foi descartada no momento em que seu irmão foi levado para a tenda dela com a ajuda de dois guardas de seu pai. O próprio rei entrou em seguida, com o rosto carrancudo. O rosto de Magnus estava ensanguentado, e os olhos, meio fechados.
— O que aconteceu? — ela perguntou.
Um médico entrou correndo quando os guardas se afastaram, e cortou a jaqueta e a camisa de Magnus. Seu braço havia sido cortado até o osso. Um ferimento sangrento em seu abdômen mostrava que também havia sido esfaqueado.
— Eu nem sabia que ele ainda estava lá até ser trazido de volta ao acampamento em uma maca — explicou o rei. — Eu não queria que ele se envolvesse tanto no combate agora, mas ele gosta de ir contra as minhas ordens. Garoto tolo.
Lucia estendeu o braço na direção dele, mas puxou a mão trêmula de volta para colocá-la diante da boca.
— Magnus!
— Ele perdeu muito sangue. Quis que fosse trazido para cá por uma questão de privacidade.
A raiva se acendeu dentro dela.
— Magnus, por que você faria uma coisa dessas? Por que seria irresponsável a ponto de se expor a um perigo tão grande?
A expressão cheia de dor de Magnus e o olhar meio vidrado foram até onde ela estava, a poucos metros de distância. Ele não respondeu.
O médico de repente pareceu assustado e a atenção de Lucia se voltou para ele.
— O que está fazendo? Ajude-o! Salve-o!
O rosto do homem havia empalidecido enquanto examinava os ferimentos do príncipe.
— Receio ser tarde demais para isso, vossa alteza. Ele está à beira da morte.
O rei praguejou, tirando a espada e segurando sua ponta na garganta do médico.
— Você está falando do herdeiro do trono de Limeros.
— Eu… eu não posso ajudá-lo. Os ferimentos são muito graves. — A voz dele tremia e ele fechou bem os olhos, como se esperasse que a punição pelo que anunciara fosse a morte.
— Eu posso ajudar meu irmão — Lucia afirmou. — Mas diga ao médico para sair primeiro.
— Saia — o rei bufou, arranhando a garganta do médico com sua espada. O ferimento jorrou sangue imediatamente. — Cuide de suas próprias feridas.
Levando a mão à garganta, o médico se afastou da espada do rei e saiu correndo da tenda.
Lucia se ajoelhou ao lado do irmão. O chão da tenda estava ensopado de sangue. A respiração dele estava cada vez mais lenta, mas seus olhos não desviavam dos dela. Mesmo através da dor, ele olhava para ela com raiva. E cautela.
— Fiquei sabendo o que você fez com os garotos da aula de esgrima — ela disse com calma. — Não gosto de quem você está tentando se tornar. Meu irmão é melhor do que isso.
Os olhos dele se estreitaram, as sobrancelhas se uniram.
— Você quer entrar no meio da batalha para tirar sangue dos outros. É para poder afundar o aço na carne, acreditando que isso o tornará mais homem? Quantos você matou hoje? — Ela não esperava uma resposta. Mesmo se ele estivesse em condições de falar, eles não conversavam desde a noite em que ele chegara de Paelsia. — Se você não fosse meu irmão, eu o deixaria morrer. Mas independente de quantos homens matou, independente do quão cretino insiste em ser, independente do quanto me despreze, eu ainda amo você. Está me ouvindo?
Havia dor no olhar dele, e Magnus voltou sua atenção para a parede da tenda, como se não suportasse mais ver o rosto dela.
O coração de Lucia doía, mas não importava mais. Nada mais importava exceto sua magia.
E ela estava extremamente furiosa no momento. Isso ajudaria.
Ela não sabia como sua magia funcionava, apenas que funcionava. Ela havia praticado, sozinha e com a tutora que seu pai havia providenciado — a velha que alegava também ser bruxa, apesar de não ser capaz de demonstrar magia verdadeira.
Ar, água, fogo, terra.
Ela olhou para o pai e pressionou as mãos contra o braço de Magnus. O osso estava visível debaixo do sangue e dos músculos. O estômago dela embrulhou.
— Eu pedi para ajudar com outros ferimentos, pai. Poderia ter praticado antes disso. Posso falhar. — O rei lhe havia negado a chance de ajudar outros feridos, deixando aos médicos a tarefa de lidar com eles.
— Você não vai falhar — seu pai disse com firmeza, guardando a espada. — Vamos, Lucia. Cure-o.
Lucia já sabia que podia curar alguns arranhões, pois havia praticado em si mesma. Mas um ferimento mais profundo provocado por uma faca ou espada… não tinha certeza.
A única certeza era de que não podia perder Magnus.
Lucia concentrou toda a sua energia para curar o ferimento. Quando o calor da magia da terra deixou suas mãos e entrou no braço do irmão com um brilho pálido de luz branca, ele arqueou as costas do chão, como se agonizasse.
Aquilo quase a fez parar, mas ela não ousou. Não tinha certeza de que conseguiria canalizar aquele nível de magia novamente. Usar qualquer magia ao extremo — como o que havia feito com Sabina — a enfraquecia. Sua tutora acreditava que era por seu poder ainda ser novo, e precisar de tempo e prática para se fortalecer.
Em vez de se afastar por medo de machucá-lo ainda mais, Lucia forçou a magia a sair de suas mãos e entrar no ferimento. Magnus se contorcia de dor sob seu toque, enquanto as mãos dela emitiam um brilho branco. O ferimento começou a se fechar: a carne foi se juntando, alisando, formando um todo.
Lucia não parou. Direcionou as mãos para o estômago destroçado de Magnus e canalizou a magia para a ferida.
Dessa vez um grito áspero de dor escapou da garganta do príncipe.
Ela enfrentou os lamentos do irmão até ele ser curado. Depois do braço, ela moveu as mãos para o rosto ensanguentado, curando os machucados e cortes até finalmente desviar as mãos.
— Basta — ele rosnou.
Magnus não parecia grato por Lucia ter salvado sua vida.
— Doeu?
Ele bufou, mas o som bem que poderia ter sido um riso dolorido.
— Queimou meus ossos como lava.
— Ótimo. Talvez pela dor você aprenda a lição e não seja tão imprudente.
O tom ríspido da voz de Lucia provocou um olhar pesado de Magnus.
— Farei o possível, minha irmã. Mas não posso dar nenhuma garantia.
Os olhos dela começaram a arder. Ela demorou um instante para perceber que estava chorando, o que apenas a deixava mais furiosa.
— Eu mesma esfaqueio você se for tão idiota a ponto de quase ser morto outra vez.
A expressão violenta no rosto de Magnus finalmente cedeu. As raras lágrimas de Lucia tendiam a afetá-lo, mesmo quando estavam brigando.
— Não chore, Lucia. Não por minha causa.
— Não estou chorando por sua causa. Estou chorando por causa dessa guerra estúpida. Quero que termine logo.
O rei inspecionou os braços nus de Magnus e sua barriga, usando um pano para limpar o sangue. Os ferimentos haviam desaparecido por completo. Um orgulho diferente de tudo o que Lucia já havia visto brilhou nos olhos do pai.
— Incrível. Simplesmente incrível. Seu irmão lhe deve a vida.
Ela olhou para Magnus.
— Como pagamento, gostaria apenas de sua gratidão.
Magnus engoliu em seco e algo vulnerável passou por seus olhos castanhos antes de desviar o olhar.
— Obrigado por salvar minha vida, irmã.
O rei ajudou Lucia a se levantar.
— Você disse que quer que a guerra termine.
— Mais do que tudo.
— Estamos paralisados. Rompemos as muralhas do palácio, mas não conseguimos avançar mais. O rei Corvin e todos os que poderiam permitir o fim rápido e fácil dessa guerra estão protegidos dentro do castelo e recusam-se a se render.
— Então derrube a porta — Magnus disse, levantando-se do chão ensanguentado. Seu rosto estava pálido e havia círculos escuros em volta dos olhos. Embora os ferimentos estivessem curados, ele ainda levaria um tempo para se recuperar totalmente.
— Derrubaríamos se fosse possível. Mas as portas receberam um feitiço de proteção. Não posso rompê-las… Não pelos meios normais.
— Um feitiço de proteção — Lucia estava surpresa. — De uma bruxa?
— Sim.
A raiva pelas constantes mentiras do rei acendeu dentro dela.
— Então foi por isso que me trouxe aqui. Porque já sabia disso. Por que não me disse antes?
— Porque eu não sabia se o que me haviam contado era verdade até chegarmos à porta. A bruxa que supostamente produziu o feitiço foi trazida a mim para responder algumas perguntas. Mas ela não foi de muita ajuda.
— Onde ela está agora? — Magnus perguntou.
— Ela se foi.
— O senhor a deixou ir? — Magnus questionou, com as palavras cobertas de descrença. — Ou a matou?
O rei deu um pequeno sorriso para ele.
— Ela era uma das pessoas que conspiravam com meu inimigo. Poderia estar ajudando-o agora. Ela não trocaria de lado. Sua morte foi mais rápida do que ela merecia.
Um arrepio desceu pelos braços de Lucia. O rei voltou sua atenção a ela, mudando a expressão de ira para outra de preocupação e carinho. Ele pegou nas mãos dela com cuidado.
— Preciso da sua magia para quebrar o feitiço.
Ela olhou para o irmão em busca de alguma orientação. Era um velho hábito.
Magnus notou seu olhar preocupado.
— Parece perigoso.
— Não para a minha filha — o rei afirmou. — Ela não é uma bruxa qualquer; é uma feiticeira com uma fonte infinita de magia poderosa na ponta dos dedos.
— Tem certeza absoluta disso? — Magnus perguntou sem rodeios. — Se estiver errado…
— Não estou errado — o rei disse com firmeza.
— É claro que ajudarei, pai — Lucia aceitou. — Por Limeros.
Ver Magnus quase morto na batalha fez com que ela desejasse o fim daquilo, independente do que fosse preciso. Ela só queria voltar para casa o mais rápido possível. O rei apertou as mãos de Lucia e sorriu para ela.
— Obrigado. Obrigado, minha bela filha.
Sem demora, e com a proteção de vinte guardas limerianos, eles a conduziram pelo campo de batalha cheio de corpos. Ela tentou não olhar para o rosto dos mortos. Aquela dor e a destruição sem sentido poderiam ter sido evitadas se Auranos tivesse se rendido. Ela começava a odiá-los tanto quanto seu pai por deixarem as coisas chegar àquele ponto.
— Pare se for muito para você — Magnus aconselhou, baixinho, quando chegaram à entrada do castelo. — Prometa.
— Eu prometo. — Ela fez um gesto positivo com a cabeça, depois voltou sua atenção para as altas portas de madeira à sua frente. Era certo que havia um feitiço nas portas. Um feitiço muito poderoso. — Você consegue ver?
— O quê?
— O feitiço. Ele brilha sobre a porta. Eu… eu acho que foi criado a partir de uma combinação dos quatro elementos.
Magnus sacudiu a cabeça.
— Não vejo nada além de uma porta. Uma porta grande.
A porta não era o problema. O feitiço era. E havia sido lançado por uma bruxa muito poderosa, que havia se aprofundado muito na magia para criar algo daquele tipo.
“Uma magia de sangue ajudou nesse feitiço”, Lucia pensou de repente. Alguém — ou muitas pessoas — havia sido sacrificado para criar tamanha proteção.
O fato de os auranianos terem permitido aquilo apenas fortalecia sua resolução. Havia sangue nas mãos deles tanto quanto em qualquer outra.
Lucia precisaria se esforçar muito para romper a barreira de proteção. Ela não podia duvidar de si mesma. Seus poderes eram mais fortes quando vinham de uma motivação profunda e emotiva. Ela se lembrou de como se sentira ao ver Magnus à beira da morte e invocou sua recém-descoberta magia.
Ela subiu à superfície para saudar os elementos. A força do ar, a coragem da terra, a resistência da água e a devastação do fogo.
Magnus e os outros viram quando ela apontou as mãos para as portas, para o feitiço, e derrubou tudo.
Quando a magia de Lucia encontrou a magia de sangue da outra bruxa, elas entraram em combustão. O feitiço de proteção se elevou como um dragão feroz em uma tentativa de derrubá-la. Mas seu pai estava certo. Sua magia era mais poderosa. Ela revidava. Ela mudava. Ela crescia diante dos olhos de Lucia.
As portas explodiram em uma bola de fogo, sacudindo o chão sob seus pés. A onda de choque atingiu todos em um raio de trinta metros, jogando-os para trás. Lucia foi jogada com força no chão e tomada pela dor.
Gritos de terror encheram seus ouvidos. Pessoas estavam morrendo, pegando fogo; alguns tiveram a garganta cortada por fragmentos afiados de madeira, enquanto outros foram reduzidos a pedaços, com os membros espalhados. Rios de sangue encharcavam a terra.
A última coisa que Lucia viu antes de desmaiar foi o exército de seu pai entrando pela passagem destruída e incendiada, na direção do castelo auraniano.

6 comentários:

  1. Eu to tentando gostar de todos pq é até compreensível e tal, vários lados da moedas, essa coisa toda. Mas ta ficando difícil. Não é por mal, eu sei, eles não se conhecem
    MAS PARA DE FORÇAR A BARRA, POXA!

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  2. Já peguei ranço do Gaius

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    1. Gaius é aquele vilão que a gente ama odiar, mas tem muita coisa pra descobrir sobre ele ainda.

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  3. Velho, acho isso muito injusto.A irmã de Cloe não sobrevive e Magnus tem tipo uma curandeiro/jesus/vasilisa do seu lado. Eu até entendo que ele é um dos principais e tal(gosto dele pra k*),mas achei uma sacanagem.

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  4. Dificil,isso aqui ta pior que disputa politica... Não sei em que lado ficar. Os dois lados da guerra são terríveis, esse livro é mt foda pqp.

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