15 de julho de 2018

Capítulo 33

Ninguém conseguia realmente acreditar que Ronan tinha usado seu celular.
Ronan Lynch tinha muitos hábitos que irritavam seus amigos e quem o amava — falar palavrões, beber, correr de carro nas ruas —, mas o que mais enlouquecia os seus conhecidos era a sua incapacidade de atender ligações ou mandar mensagens. Quando Adam conhecera Ronan, ele achara a aversão de Ronan ao seu aparelho moderno tão completa que presumira que devia haver uma história por trás disso. Devia haver alguma razão para isso, porque, mesmo diante de uma emergência, a primeira resposta de Ronan era passar o telefone para outra pessoa. Agora que Adam o conhecia melhor, ele se dera conta de que isso tinha mais a ver com o fato de que o telefone não permitia nenhum trejeito. Noventa por cento de como Ronan transmitia os seus sentimentos era através de sua linguagem corporal, e um telefone simplesmente não se importava com isso.
E, no entanto, ele o havia usado. Enquanto esperava que Declan terminasse o seu assunto com Ronan, Adam tinha ido à Boyd’s se livrar de algumas trocas de óleo que tinha para fazer. Ele já estava lá havia algumas horas, quando Ronan ligou. Então Ronan mandara uma mensagem para Gansey e ligara para a Rua Fox. Disse a mesma coisa para cada um deles: Venha à BarnsPrecisamos conversar.
E porque Ronan jamais havia realmente lhes pedido para fazer qualquer coisa pelo telefone, todos largaram o que estavam fazendo para atendê-lo.
Quando Adam chegou à Barns, os outros já tinham chegado — ou pelo menos o Camaro estava lá, e Adam presumiu que Gansey tinha trazido Blue, especialmente agora que o segredo deles havia sido revelado. O BMW de Ronan estava estacionado de lado, com as rodas viradas de tal forma que sugeriam que ele havia deslizado até a sua posição atual. E, para o espanto de Adam, o Volvo de Declan já estava estacionado ali, encostado de ré, pronto para partir.
Adam desceu do carro.
A Barns exercia um estranho efeito sobre Adam. Ele não soubera diagnosticar esse sentimento das primeiras vezes em que a visitara, porque não acreditava verdadeiramente à época nos dois componentes dos quais a Barns era feita: mágica e amor. Agora que ele tinha pelo menos uma relação passageira com ambos, ela o afetava de uma maneira diferente. Ele costumava se perguntar o que teria sido dele se tivesse crescido em um lugar assim. Agora Adam pensava como — se assim o quisesse — ele poderia um dia viver em um lugar assim. Ele não compreendia bem o que havia mudado.
Lá dentro, encontrou os outros em vários estados de celebração. Precisou de um momento para se dar conta de que se tratava do aniversário de Ronan: a grelha soltava fumaça nos fundos e havia cupcakes comprados na mesa da cozinha, assim como alguns balões inflados rolando pelos cantos da sala. Blue estava sentada sobre os ladrilhos, amarrando barbantes aos balões, seu olho ruim fechado com o inchaço, enquanto Gansey e Declan estavam ao lado do balcão, cabisbaixos, falando em tons graves e sussurrados que os faziam parecer mais velhos do que eram. Ronan e Matthew entraram na cozinha se empurrando, vindos do quintal. Os dois eram barulhentos e camaradas, brincando um com o outro, impossivelmente físicos. Era assim que era ter irmãos?
Ronan ergueu a cabeça e cruzou com o olhar de Adam.
— Tira os sapatos antes de sair andando por aí, cabeçudo — disse Ronan.
Adam parou onde estava e se inclinou para desamarrar os cadarços.
— Você não... eu estava falando para o Matthew.
Ronan manteve o olhar de Adam um momento mais e então observou Matthew tirar os sapatos.
Enquanto observava atentamente Matthew deslizando para a sala de jantar de meias, Adam compreendeu: tratava-se de uma festa para Matthew.
Blue pôs-se de pé para se juntar a Adam. Em voz baixa, ela explicou:
— O Matthew vai morar com o Declan. Ele está saindo da Aglionby.
O quadro ficou mais claro: era uma festa de despedida.
Lentamente, durante a hora seguinte, a história saiu aos solavancos, entregue em fragmentos por cada uma das pessoas ali. A conclusão era esta: a Barns estava mudando de comando por meio de uma revolução pacífica, a coroa passando do pai para o filho do meio à medida que o filho mais velho abdicara. E, se você acreditasse em Declan, estados rivais salivavam a um passo da fronteira.
Tratava-se ao mesmo tempo de uma festa de adeus e um conselho de guerra.
Adam não acreditava no que via; ele não sabia dizer se algum dia presenciara Ronan e Declan juntos no mesmo lugar sem brigar. Mas era verdade: Declan parecia aliviado e exausto; Ronan, intenso e poderoso, determinado e alegre; Matthew, inalterável e ebuliente como o sonho feliz que era.
Algo a respeito de tudo isso deixava Adam fora de prumo. Ele não compreendia bem a situação.
Sentia a fragrância de madeira de luxo da janela aberta na cozinha, e isso o fazia pensar na divinação no carro de Ronan. Viu a Garota Órfã de relance, escondendo-se com Motosserra debaixo da mesa de jantar, com uma caixa de brinquedos de montar, e mais uma vez se lembrou do choque ao descobrir que Ronan havia sonhado Cabeswater. Ele havia mergulhado no sonho de Ronan Lynch; e Ronan refizera tudo nesse reino, como bem ditara a sua imaginação.
— Por que isso não está aqui?
A voz de Ronan veio da cozinha, exasperada.
Matthew resmungou uma resposta.
Um momento mais tarde, Ronan enganchou os dedos no vão da porta da sala de jantar e olhou para fora.
— Parrish. Parrish. Vê se encontra um maldito rolo de papel-alumínio em algum lugar! Talvez no quarto do Matthew.
Adam não se lembrava bem de onde ficava o quarto de Matthew, mas ficou contente de ter uma desculpa para dar uma volta. Enquanto a conversa continuava na cozinha, ele seguiu em frente pelos corredores, subiu escadas escondidas e entrou em outros corredores e outras escadas. Lá embaixo, Ronan disse alguma coisa e Matthew soltou uma risada tão sacana que deve ter sido algo terrível.
Para a surpresa de Adam, ele também ouviu a risada de Ronan, algo real, do tipo sincero. Então se viu no que talvez fosse o quarto de Niall e Aurora. A luz através da janela derramava-se sobre a colcha branca, delicada e sonolenta. Desprenda-se, ó criança humana dizia uma citação emoldurada ao lado da cama. Havia uma foto acima do roupeiro: Aurora, a boca aberta em um largo, surpreso e ingênuo sorriso, semelhante ao de Matthew. Niall a abraçando, belo e bem-vestido, o cabelo comprido até o queixo, enfiado atrás das orelhas. Seu rosto era o de Ronan.
Adam ficou parado, olhando para a foto por um longo tempo, sem saber ao certo por que ela chamava tanto sua atenção. Talvez pela surpresa, ele pensou, pois ele simplesmente presumira que Aurora era como uma paleta branca, meiga e calada como em Cabeswater. Ocorreu-lhe que talvez ela fosse feliz e irrequieta, para que Ronan acreditasse por tanto tempo que ela era real, e não um sonho.
O que era real?
Era possível que o motivo que o prendesse fosse Niall Lynch, aquela versão mais velha de Ronan. A semelhança não era perfeita, é claro, mas era próxima o suficiente para ver os maneirismos de Ronan nela. Esse pai insensato e feroz; essa mãe feliz e insensata. Algo dentro de Adam doía. Ele não compreendia nada.
Então encontrou o quarto de Ronan. Ele sabia que era o quarto de Ronan pela bagunça e extravagância, um primo mais reluzente de seu quarto na Monmouth. Pequenos objetos estranhos estavam jogados por todos os cantos e enfiados debaixo da cama: os sonhos de um Ronan mais jovem, ou talvez os presentes de um pai. Havia coisas comuns também — um skate, uma mala com rodinhas toda arranhada, um instrumento de aparência complicada que devia ser uma gaita de foles largada, empoeirada em uma caixa aberta. Adam ergueu um carrinho polido da estante, que então começou a tocar uma canção esquisita e adorável.
Adam teve de se sentar.
Ele o fez na beirada da colcha branca felpuda, um quadrado de luz branca e pura derramado sobre seus joelhos. Ele se sentiu bêbado. Tudo naquela casa parecia tão certo da sua identidade, tão certo do seu lugar... Tão certo que era desejado. Ele ainda segurou o carrinho equilibrado sobre os joelhos, embora ele tivesse ficado em silêncio. Não era um tipo qualquer de carro — era todo-o-carro-esportivo-já-sonhado em uma forma que-nada-tinha-de-um-carro-esportivo —, mas que lembrava a Adam a primeira coisa que ele comprara para si na vida. Uma memória odiosa, o tipo de memória que às vezes costeava sua consciência quando ele estava caindo no sono, seus pensamentos rolando próximos dele e então recuando, queimados. Adam não conseguia se lembrar de quantos anos ele tinha; quando sua avó lhe enviara um cartão com dez dólares, na época em que ela ainda mandava cartões. Ele comprara um carrinho com o dinheiro, mais ou menos desse tamanho, um Pontiac. Ele não se lembrava de nenhum detalhe de onde comprara o modelo, ou do porquê daquele modelo, ou por que havia recebido o cartão. Tudo o que se lembrava era de estar deitado no chão do seu quarto, deixando marcas de pneu no tapete e ouvindo seu pai falar do outro quarto...
Os pensamentos de Adam revolveram próximos da memória e levaram um choque.
Ele tocou o capô do modelo de sonho e se lembrou do momento de qualquer forma. A antecipação temerosa de se lembrar da memória era pior do que ela em si, pois ela continuaria enquanto Adam lhe opusesse resistência. Às vezes era melhor simplesmente ceder de uma vez.
Eu me arrependo do instante em que esguichei ele em você, o pai de Adam havia dito. Ele não gritara isso. Ele não estava bravo. Era apenas um fato.
Adam se lembrou do momento em que percebera que ele era Adam. Ele não lembrava exatamente o que sua mãe havia dito depois, apenas o sentimento da resposta dela — algo como Eu também não imaginava isso, ou Isso não é o que eu queria. A única coisa que ele se lembrava com precisão era daquele carro, e da palavra esguichei.
Adam suspirou. Era incrível como algumas memórias jamais se apagavam. Antigamente — talvez mesmo alguns meses atrás — Adam teria se lembrado dessa memória sempre de novo, girando obsessiva e miseravelmente em sua cabeça. Assim que cedesse, ele não saberia como parar.
Mas agora, pelo menos, ele podia simplesmente senti-la ferroar uma vez e então deixá-la de lado para outro dia qualquer. Ele sempre deixava aquele trailer, muito lentamente.
Uma tábua do assoalho rangeu; nós de dedos bateram uma vez na porta aberta. Adam ergueu o olhar para ver Niall Lynch parado no vão. Não, era Ronan, o rosto bem iluminado de um lado, na completa escuridão do outro, parecendo poderoso e à vontade com os polegares enfiados nos bolsos do seu jeans, pulseiras de couro dando voltas em seu punho, os pés descalços.
Sem dizer uma palavra, ele atravessou o quarto e se sentou ao lado de Adam sobre o colchão. Quando estendeu a mão, Adam colocou o carrinho nela.
— Este ferro-velho — disse Ronan. Ele girou o pneu da frente, e mais uma vez a música tocou do carrinho. Eles ficaram sentados assim por alguns minutos, enquanto Ronan examinava o carro e girava cada roda para tocar uma canção diferente. Adam observou o quão atentamente Ronan estudava as linhas de junção, os cílios baixos sobre os olhos claros. Ronan expirou, colocou o carrinho na cama ao lado dele e beijou Adam.
Uma vez, quando Adam ainda vivia no parque de trailers, ele empurrara o cortador de grama pelo jardim lateral estreito quando percebeu que estava chovendo a dois quilômetros dali. Ele podia cheirá-la, a fragrância de terra molhada sobre o campo, mas também o cheiro elétrico e agitado de ozônio. E ele podia vê-lo: um lençol cinzento brumoso de água bloqueando a sua visão das montanhas. Ele podia rastrear a linha de chuva se deslocando através do vasto campo seco em sua direção. Ela era pesada e escura, e Adam sabia que ele ficaria encharcado se ficasse na rua. Ela vinha de tão longe que ele tinha tempo suficiente para guardar o cortador e buscar abrigo. Em vez disso, no entanto, ele apenas ficou parado ali, observando-a se aproximar. Mesmo no último minuto, enquanto ouvia a chuva batendo no gramado, ele ficou ali. Adam fechou os olhos e deixou que a tempestade o encharcasse.
Assim foi esse beijo.
Eles se beijaram de novo. Adam sentiu esse beijo mais do que os próprios lábios.
Ronan se afastou, os olhos fechados, engolindo. Adam observou seu peito subir e descer, o cenho franzir. Ele se sentia tão reluzente, sonhador e imaginário quanto a luz através da janela.
Ele não compreendia nada.
Passou um longo momento antes que Ronan abrisse os olhos, e, quando o fez, sua expressão era confusa. Ele se levantou. Ainda olhava para Adam, e este o olhava de volta, mas nenhum dos dois disse nada. Provavelmente Ronan queria algo dele, mas Adam não sabia o que dizer. Ele era um mágico, Persephone havia dito, e sua mágica fazia conexões entre coisas distintas. Agora ele se sentia repleto de uma luz branca e etérea, para fazer qualquer tipo de conexão lógica. Adam sabia que de todas as opções no mundo, Ronan Lynch era a versão mais difícil de qualquer uma delas. Ele sabia que Ronan não era algo para ser experimentado junto. Ele sabia que a sua boca ainda estava quente. Ele sabia que ele havia começado o seu período inteiro na Aglionby, certo de que tudo o que ele queria fazer era se afastar ao máximo desse estado e de tudo o que isso implicava.
Ele tinha certeza de que aquele era o primeiro beijo de Ronan.
— Vou descer — disse Ronan.

6 comentários:

  1. OH MEU DEUS, EU DESCONFIAVA HAVIA UNS CAPÍTULOS, MAS OH MEU DEUS!
    É MUITO OTP, JESUS
    VAMOS, HOMEM, REAGE
    BEIJA ELE, BEIJA MAIS!

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    1. Tinha nem o que desconfiar né? O próprio Ronan admitiu isso no segundo livro

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  2. Como isso foi PERFEITO...

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  3. Ahhh tive até que reler :3

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Boa leitura, E SEM SPOILER!