5 de julho de 2018

Capítulo 33

— O que me deixa impressionado — pensou Greenmantle em voz alta — é que existem pessoas que realmente fazem isso como forma de lazer. Pessoas que trocam dias de férias por essa experiência. Realmente fico pasmo. Não faço a menor ideia de onde estamos. Presumo que você diria algo se estivéssemos perdidos e/ou fôssemos morrer aqui embaixo.
Os Greenmantle estavam em uma caverna: mulher, marido, cão, uma família das cavernas americana. Piper descobrira que Otho, quando deixado sozinho, comia a porta dos banheiros, então agora ele andava com seus passos miúdos à frente dela. A caverna era escura e tinha cheiro de sovaco. Greenmantle tinha pesquisado superficialmente sobre espeleologia antes de partir aquela tarde. Ele havia descoberto que cavernas deveriam ser caminhos de uma beleza natural intocada.
No fim das contas eram apenas buracos no chão. Ele achava que as cavernas haviam sido exageradamente propagandeadas.
— Não vamos morrer aqui embaixo — disse Piper. — Tenho o clube do livro na terça-feira.
— Clube do livro! Você só está aqui há duas semanas e já faz parte de um clube do livro.
— O que mais eu devia fazer enquanto você está na rua tentando se encontrar? Só ficar em casa engordando, é isso? Não diga “converse com suas amiguinhas no telefone” que eu enfio essa picareta no meio do seu olho.
— Que livro vocês vão discutir?
Piper apontou a lanterna para o teto e então para o chão úmido. Tanto o facho da lanterna quanto o lábio de Piper se crisparam, em sinal de desagrado.
— Não lembro o título. Algo sobre frutas cítricas. É a memória literária de uma jovem crescendo em uma plantação de laranjas com o pano de fundo da guerra e luta de classes subversiva, com possíveis sugestões religiosas ou algo assim. Não diga “Eu prefiro morrer”.
— Eu não disse nada — respondeu Greenmantle, embora estivesse realmente considerando “Eu prefiro morrer” como um candidato para avançar a conversa. Ele preferia aventuras de espionagem que envolviam homens corajosos com mais de trinta anos entrando e saindo voando de abrigos de alta tecnologia enquanto dirigiam carros velozes e fazendo importantes telefonemas. Ele segurou o leitor de frequência eletromagnética na mão para ver se conseguia variar o grau de lampejos no mostrador. Mas não conseguia.
Otho havia parado para se aliviar; Piper pegou um saquinho de plástico.
— Isso não faz sentido. Você acabou de colocar aquela merda na sua sacola?
— Vi um programa na ABC sobre como o ecoturismo está destruindo as cavernas — ela o informou. — Essa cara? A que você está fazendo agora? É parte do problema. Você é parte do problema.
Na opinião de Greenmantle, buracos no chão eram o lugar mais apropriado para se jogar merda de cachorro. Ele passou o leitor de frequência eletromagnética pela parede com uma mão e um geofone com a outra. Ele teria um retorno idêntico se estivesse segurando uma tocha e um uquelele.
— O que eu vou fazer é contratar um milhão de servos para vir procurar essa mulher nas cavernas e, se isso não funcionar, vou simplesmente arrancar as vísceras da filha dela na frente do Homem Cinzento — disse ele.
— Servos! Eu não quero um milhão deles pisoteando tudo aqui embaixo. Eu quero explorar minhas conexões mediúnicas sem todos aqueles resmungos.
— Suas conexões mediúnicas! — Ele sentiu que ela o encarava; a pele da nuca dele estava derretendo. — Tudo bem, vou dizer para eles terem cuidado.
— Sabe de uma coisa? Você devia me deixar ficar com dois deles, para me ajudar com as minhas metas de vida.
— O quê?
— Eu poderia ligar para eles e fingir que sou você. “Olá, capanga, aqui é o Colin, você pode apagar uma pessoa para mim?” — Ela fez uma boa imitação da voz dele, talvez ligeiramente anasalada e apaixonada por si mesma. E parou naquele instante, pernas afastadas, cabelo loiro em desalinho à sua volta, como uma sessão de fotos de uma modelo na caverna.
Por um momento estranho, fugaz, Greenmantle achou que a havia encontrado na caverna e que a estava trazendo de volta à luz, e então se lembrou do saquinho de merda do cachorro e de como eles haviam chegado ali. Ele achou que aquela caverna talvez estivesse cheia de monóxido de carbono. Provavelmente ele estava morrendo.
— Você ouviu isso? — perguntou Piper.
— O som de você zombando de mim?
Ela não respondeu. Piper franzia o cenho observando a continuação do túnel, o queixo erguido e as sobrancelhas unidas como se estivesse escutando. Ele pensou em alguém dormindo. Ele pensou em acordá-lo.
— O som do meu amor? — ele tentou.
Ela não respondeu. Piper ainda estava ouvindo.
— O som de você me assustando de verdade?
Mas na verdade ele é que estava se assustando de verdade.
Finalmente, Piper se voltou para ele. Ela não parecia que tinha ouvido o som do seu amor. E disse:
— Definitivamente, eu preciso de dois dos seus servos. Vamos voltar para um lugar que tenha sinal de celular.
Greenmantle se sentia muito feliz em obedecer. Ele nunca mais queria ver uma caverna na vida.

Um comentário:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!