15 de julho de 2018

Capítulo 32

O clima de tempestade espelhava perfeitamente a alma de Blue Sargent. Seu primeiro dia de volta à escola depois da suspensão havia sido interminável. Uma pequena parte disso se devia ao fato de que o tempo longe das aulas fora extraordinário: o oposto absoluto da experiência mundana na Escola Mountain View. Mas a parte muito mais significativa disso se devia à memória do elemento menos mágico da sua suspensão: a festa de toga de Henry Cheng. O encanto daquela experiência era mais impressionante pelo fato de que ele na realidade não continha nenhuma mágica. E sua afinidade instantânea com os estudantes ali apenas sublinhou como ela tinha fracassado absolutamente em viver qualquer coisa parecida com isso em seus anos na Mountain View. O que a fazia se sentir tão instantaneamente confortável com a turma de Vancouver? E por que aquela afinidade tinha de acontecer com pessoas que pertenciam a um mundo diferente? Na realidade, ela sabia a resposta para essa questão. A turma de Vancouver tinha os olhos nas estrelas, não treinados sobre o chão. Eles não sabiam de tudo, mas queriam saber. Em um mundo diferente, Blue poderia ser amiga de garotos como Henry durante toda a sua adolescência. Mas, neste mundo, ela continuava em Henrietta e observava essas pessoas seguirem em frente. Ela não estava indo para a Venezuela.
Blue se sentia extremamente frustrada por sua vida ser tão claramente demarcada.
Coisas que não eram o suficiente, mas que ela poderia ter.
Coisas que eram algo mais, que ela não poderia ser.
Então ela assumiu a postura de uma senhora birrenta — encolhida no blusão com capuz longo que ela transformara em vestido —, esperando que os ônibus partissem e liberassem sua bicicleta. Blue desejou ter um celular ou uma bíblia para poder fingir que estava muito ocupada como o punhado de adolescentes tímidos parados na fila do ônibus à sua frente. Quatro colegas de aula estavam parados perigosamente próximos dela, conversando sobre se a sequência daquela cena de roubo a banco naquele filme que todos tinham visto era realmente incrível ou não, e Blue temia que eles perguntassem a sua opinião a respeito dela. Ela sabia que não havia nada de errado com aquele assunto, mas também sabia que não havia como conversar sobre aquele filme sem soar como uma fedelha condescendente. Ela se sentia com mil anos de idade. E que talvez fosse uma fedelha condescendente. Ela queria sua bicicleta. Queria seus amigos, que também eram fedelhos de mil anos de idade. Queria viver em um mundo onde estivesse cercada por fedelhos condescendentes de mil anos de idade.
Ela queria ir para a Venezuela.
— Ei, ei, garota! Quer dar a volta de carro da sua vida?
Blue não percebeu imediatamente que as palavras estavam sendo dirigidas para ela. A ficha só caiu quando ela se deu conta de que todos os rostos à sua volta estavam apontados em sua direção.
Ela girou lentamente e descobriu que havia um carro muito prateado e caro estacionado na pista exclusiva dos bombeiros.
Blue tinha conseguido passar meses ao lado de garotos da Aglionby sem parecer que estava saindo com garotos da Aglionby, mas ali estava o garoto corvo mais garoto corvo de todos, estacionado na pista exclusiva dos bombeiros, perto dela. O motorista usava um relógio que até Gansey teria considerado exagerado. Tinha o cabelo alto o suficiente para tocar o teto do carro.
Usava grandes óculos escuros com aros negros, apesar da notável falta de sol. Era Henry Cheng.
— Uauuu — disse Burton, um dos garotos do roubo a banco, virando-se lentamente. — Não Sou sua Cadela tem um encontro? Foi ele quem bateu em você?
Cody, o segundo dos ladrões de banco, deu um passo na direção do meio-fio para olhar embasbacado para o carro esportivo. Ele perguntou a Henry:
— É uma Ferrari?
— Não, é um Bugatti, cara — disse Henry através da janela aberta do passageiro. — Ha-ha, estou brincando, cara. É totalmente uma Ferrari. Sargent! Não me deixe esperando!
Metade da fila do ônibus estava olhando para ela. Até aquele momento, Blue jamais havia empilhado realmente todas as suas declarações públicas contra o comercialismo gratuito, os namorados ofensivos e os estudantes da Aglionby em um único lugar. Agora que todos olhavam para Henry e então para ela, ela via a pilha e a achava enorme. Ela também via como cada aluno lentamente rotulava essa pilha de BLUE SARGENTE É UMA HIPÓCRITA.
Não havia uma maneira fácil de mostrar que Henry não era seu namorado, e, ademais, isso parecia de certo modo sem sentido diante do fato de que seu namorado secreto era apenas ligeiramente menos esmagadoramente Aglionby do que o espécime na sua frente nesse instante.
Blue estava tomada pela certeza desconfortável de que provavelmente ela precisava rotular a pilha BLUE SARGENT É UMA HIPÓCRITA com a própria caligrafia.
Ela avançou a passos largos até a janela do passageiro.
— Não chupe ele aqui, Sargent! — alguém gritou. — Faça ele pagar seu filé primeiro!
Henry sorriu descontraidamente.
— Ho! Os nativos estão agitados. Olá, meu povo! Não se preocupem, vou estabelecer um salário mínimo mais alto para todos vocês! — Olhando de volta para Blue, ou pelo menos virando os óculos escuros para ela, ele disse: — Oi, oi, Sargent.
— O que você está fazendo aqui? — demandou Blue. Ela estava se sentindo... ela não tinha certeza. Ela estava sentindo muito.
— Vim para conversar sobre os homens na sua vida. Para conversar sobre os homens na minha vida. Aliás, gostei do vestido. Bem chique boêmio, ou o que quer que seja. Eu estava a caminho de casa, e queria saber se você se divertiu na festa de toga e também me certificar de que os nossos planos para o Zimbábue ainda estão valendo. Vejo que você tentou arrancar o seu olho; está meio pendurado.
— Pensei... acho... que era a Venezuela.
— Ah, certo, a gente faz isso a caminho.
— Meu Deus — ela disse.
Henry inclinou a cabeça em um gesto de humilde reconhecimento.
— A formatura bafeja sobre nós, senhorita caipira — ele disse. — Agora é o momento de verificar se estamos com os barbantes para todos os balões que queremos ficar antes que eles voem.
Blue o encarou cautelosamente. Teria sido fácil responder que ela não voaria a parte alguma, que esse balão lentamente perderia o seu hélio e afundaria no chão no mesmo lugar em que havia nascido, mas pensou nas previsões de sua mãe para ela e não respondeu. Em vez disso, pensou em como queria viajar para a Venezuela, assim como Henry Cheng, e isso significava algo nesse minuto, mesmo que não o significasse na semana que vem. Um pensamento lhe ocorreu.
— Não preciso te lembrar que estou com o Gansey, certo?
— É claro que não. Eu sou Henrysexual, de qualquer maneira. Posso te levar em casa?
Fique longe dos garotos da Aglionby, porque eles são uns canalhas.
— Não posso entrar nesse carro. Você não está vendo o que está acontecendo atrás de mim? Não quero nem olhar — disse Blue.
— Que tal você me mostrar seu dedo médio, gritar comigo agora e se retirar com seus princípios? — disse Henry. Ele sorriu, vencedor, e ergueu três dedos. Em seguida mudou para dois, fazendo um chifre do diabo com a mão.
— Isso é incrivelmente desnecessário — Blue lhe disse, mas podia se sentir sorrindo.
— A vida é um show — ele respondeu. E contou um com o dedo médio, e então seu rosto se fundiu em uma expressão de choque exagerado.
— Vê se cai morto, filho da puta! — gritou Blue.
— ESTÁ BEM! — gritou Henry de volta, com um pouco mais de histeria do que o papel exigia. Ele tentou deixar o estacionamento guinchando os pneus, parou para soltar o freio de mão, e então arrancou aos trancos mais tranquilamente.
Ela nem tivera tempo para se virar para ver os resultados da sua peça em três atos antes de ouvir um ronco muito familiar. Ah, não...
Mas, com certeza, antes que Blue pudesse se reabilitar de seu último visitante, um Camaro laranja brilhante estacionou junto ao meio-fio na sua frente. O motor estava falhando um pouco; ele não estava tão feliz em estar vivo quanto o veículo que havia ocupado anteriormente a faixa exclusiva dos bombeiros, mas estava fazendo o melhor que podia. Ele também era, da mesma forma, obviamente um carro da Aglionby, contendo um garoto da Aglionby, exatamente como aquele que havia acabado de partir.
Antes, Blue tivera metade da atenção da fila do ônibus. Agora ela tinha toda ela.
Gansey se inclinou sobre o assento do passageiro. Diferentemente de Henry, pelo menos ele tivera as boas maneiras de reconhecer a atenção da escola com um largo sorriso.
— Jane, desculpe pela pressa. Mas o Ronan acabou de me ligar.
— Ele ligou para você?
— Sim. Ele quer falar com a gente. Você pode vir?
As letras BLUE SARGENT É UMA HIPÓCRITA estavam certamente rabiscadas com sua própria caligrafia. Ela achou que tinha um tanto de autoanálise para fazer depois.
Houve um silêncio relativo.
A autoanálise estava acontecendo agora.
— Garotos corvos estúpidos — ela disse, e entrou no carro.

3 comentários:

  1. Ai, nossa, essa cena foi tão incrível! Aí, eu gosto do Henry, espero que ele não seja um traidor, afs
    Mds, Gansey e Blue é muito otp, gente, me matem antes que eles se beijem e eu derreta em histeria

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  2. Tanto esforço pra nada! Que desperdício!

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  3. Kkkkk quase tive um ataque com essa cena kkk

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Boa leitura, E SEM SPOILER!