5 de julho de 2018

Capítulo 32

De volta ao apartamento, Adam ficou no chuveiro por um longo, longo tempo. Dessa vez, a parte de seu cérebro que calculava quanto poderia custar um banho demorado e quente ficou calada. Ele ficou na água até ela se tornar morna. Após sair do chuveiro e se vestir, ocorreu a Adam, com atraso, que Ronan poderia ter ficado incomodado com o sonho em si, e não por observar a si mesmo morrendo. Ele tinha ido dormir com a intenção de conseguir provas de assassinato, e havia acordado com sangue nas mãos. Adam sabia que os horrores noturnos só vinham a Ronan quando ele tinha um pesadelo. Ronan devia estar ciente do que o esperava, mas mesmo assim havia se entregue à tarefa voluntariamente quando Adam lhe pedira.
Talvez Adam devesse ver se o amigo estava bem. Certamente ele ainda estaria ali.
Mas Adam ficou onde estava, pensando sobre o outro Ronan. O morto. A parte mais estranha foi que o momento havia sido a visão de Adam a partir da árvore em Cabeswater, mas virada ao avesso. Não Gansey morrendo, mas Ronan. Então aquela visão estava errada? Será que ele já havia mudado o seu futuro? Ou havia mais por vir?
Ouviu-se uma batida na porta do apartamento.
Provavelmente Ronan. Embora não fosse do feitio dele ser o primeiro a admitir que estava errado.
A batida veio de novo, mais insistente.
Adam se certificou de que suas mãos não estavam mais ensanguentadas e abriu a porta.
Era o seu pai.
— Não vai me convidar para entrar? — era o seu pai dizendo.
O corpo de Adam não era dele, e, assim, com um pouco de assombro, ele se observou dar um passo para trás para permitir que Robert Parrish entrasse no apartamento.
Como seus ombros eram estreitos ao lado do outro homem. Era difícil ver de onde ele viera sem um exame próximo do rosto de ambos. Então se via que Robert Parrish tinha os lábios finos e estreitos de Adam. Então não era difícil ver o mesmo cabelo claro, moldado pela poeira, e a ruga entre as sobrancelhas, formada pela desconfiança. Na realidade, não era algo nem um pouco difícil ver que um havia gerado o outro.
Adam não conseguia lembrar o que estivera pensando antes de abrir a porta.
— Então é aqui que você está se mantendo — disse Robert Parrish. Ele examinou a prateleira de brechó, a luz de cabeceira improvisada, o colchão no chão. Adam era uma coisa saindo do caminho. — Parece que eu e você temos um encontro em breve — acrescentou seu pai. E parou para ficar bem de frente para Adam. — Você vai olhar na minha cara quando eu falo com você, ou vai continuar olhando para aquela prateleira?
Adam ia continuar olhando para aquela prateleira.
— Tudo bem, então. Escuta, eu sei que nós trocamos algumas palavras, mas acho que você podia retirar a queixa. A sua mãe está realmente incomodada, e vai ficar bastante ridículo no dia da audiência.
Adam tinha certeza de que seu pai não poderia estar ali. Ele não se lembrava de tudo que havia acontecido depois que ele apresentara sua queixa, mas ele achava que a questão envolvia uma ordem judicial temporária para que ele não se aproximasse de Adam. À época, ele achou que se lembrava de ter achado essa decisão confortadora, uma memória que parecia boba agora. Seu pai havia batido nele durante anos antes de ser pego, e um soco era um ato maior do que uma violação de restrição. Ele poderia ligar para a polícia depois, é claro, e denunciar a violação do seu pai; ele não tinha certeza se eles penalizariam o seu pai, mas o lado adulto de Adam achava que parecia uma boa coisa deixar isso registrado. Tudo isso, no entanto, viria depois desses minutos pelos quais ele ainda tinha de passar.
Ele não queria apanhar.
Era uma percepção estranha. Não que Adam tivesse se acostumado a ser espancado. A dor era algo assombroso nesse sentido; ela sempre funcionava. Mas, na época em que ele morava na casa dos pais, havia se acostumado com a ideia daquele tipo de violência íntima. Agora, no entanto, dias suficientes haviam se passado para que ele parasse de esperá-la, o que tornava a possibilidade súbita de seu reaparecimento algo de certa maneira mais intolerável.
Ele não queria apanhar.
Ele faria o que fosse necessário para não apanhar.
A antecipação fazia suas mãos tremerem.
Cabeswater não manda em você, a voz de Persephone dissera.
— Adam, estou sendo realmente decente aqui, mas você está acabando com a minha paciência — seu pai lhe disse. — Pelo menos finja que ouviu o que eu disse.
— Eu ouvi — respondeu Adam.
— Bem. Isso aí.
Só porque ele tem uma crise de birra, não quer dizer que esteja mais certo que você.
Para a prateleira, Adam disse:
— Acho que você deve ir.
Ele se sentiu um covarde, como se não tivesse ossos.
— Então é assim que vai ser?
Era assim que ia ser.
— Pois fique sabendo que você vai parecer um idiota naquele tribunal, Adam — disse Robert Parrish. — As pessoas me conhecem e sabem o tipo de homem que eu sou. Nós dois sabemos que isso é apenas para chamar atenção, e todo mundo vai perceber também. Não pense que eu não sei de onde isso vem. Você andando por aí com aquelas bichinhas ricas.
Parte de Adam ainda estava ali com seu pai, mas a maior parte estava recuando. A melhor parte dele. Aquele Adam, o mágico, não estava mais em seu apartamento. Aquele Adam caminhava em meio às árvores, deixando sua mão correr sobre pedras cobertas de musgos.
— O tribunal vai ver isso de cara. E você sabe o que vai acontecer com você então? Você vai estar nos jornais como o garoto que colocou o papai trabalhador na cadeia.
As folhas farfalharam, próximas e protetoras, pressionando-se contra seus ouvidos, enroladas em seus punhos. Elas não queriam assustá-lo. O que elas sempre quiseram foi falar a língua dele e chamar sua atenção. Não era culpa da temível Cabeswater que Adam já fosse um garoto receoso quando fizera a barganha.
— Você acha que eles vão realmente olhar para você e ver um garoto que sofre abusos? Você faz ideia do que isso seja? Aquele juiz já ouviu histórias que você não faz nem ideia. Ele não vai sequer piscar.
Os galhos se inclinaram na direção de Adam, curvando-se em torno dele de um jeito protetor, um ramo com espinhos apontado para fora.
Cabeswater havia tentado, antes, apegar-se à sua mente, mas agora sabia cercar seu corpo. Ele havia pedido para ser separado, e Cabeswater tinha ouvido. Eu sei que vocês não são a mesma pessoa, disse Adam. Mas, na minha cabeça, tudo é sempre tão confuso. Fiquei com tantos defeitos.
— Então, voltamos para onde a gente começou, você e eu, quando cheguei aqui. Você pode cancelar a audiência tão rápido quanto quiser, e isso tudo termina de uma vez.
A chuva salpicava através das folhas, virando-as de cabeça para baixo, respingando em Adam.
— Olha só para você. Eu estava conversando com você. Praticando para o seu dia no tribunal? Pelo menos finja que não estive falando com uma parede. Que diabos?
O tom áspero na voz de seu pai trouxe Adam voando de volta para si. Uma mão pairava no ar, como se fosse tocar Adam ou já o tivesse tocado, mas agora recuava.
Na palma de sua mão, um pequeno espinho saía para fora. Um filete de sangue corria trêmulo do ferimento, reluzente como um milagre.
Puxando o espinho da mão, o pai de Adam o observou, essa coisa que ele havia feito. Ele ficou em silêncio por um longo momento, e então algo se registrou em seu rosto. Não era bem medo, mas incerteza. Seu filho estava diante dele, e ele não o conhecia.
Eu sou incognoscível.
Robert Parrish começou a falar, mas então parou. Agora ele tinha visto algo no rosto ou nos olhos de Adam, ou sentido algo naquele espinho que o espetara, ou talvez, como Adam, podia agora sentir a fragrância de terra úmida de uma floresta no apartamento.
— Você vai fazer papel de idiota naquele tribunal — disse o seu pai finalmente. — Você não vai dizer nada?
Adam não ia dizer nada.
Seu pai bateu a porta atrás de si quando saiu.
Adam ficou parado ali por um longo momento. Ele limpou o olho direito e a face com as costas da mão e as secou nas calças.
Depois deitou de volta na cama e fechou os olhos, as mãos entrelaçadas sobre o peito, cheirando a musgo e cerração.
Quando fechou os olhos, Cabeswater ainda estava esperando por ele.

Um comentário:

  1. Espero que esse desgraçado do pai dele receba a punição que merece.

    j.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!