30 de julho de 2018

Capítulo 31


AURANOS

Enquanto esperava a ordem para atacar, Jonas ficou lado a lado com os homens que estavam prestes a se tornar seus irmãos de batalha, tanto limerianos quanto paelsianos. O sol estava a pino sobre sua cabeça. O suor brotava da testa e caía nos olhos, fazendo-os arder.
Ele pensava que o rei auraniano se renderia sem brigar. Assim, havia esperado três longos dias desde a chegada deles até o presente momento, enquanto as rações rapidamente acabavam, exceto para os mais privilegiados. Os outros foram forçados a explorar a floresta em busca de comida e a aguentar o sol queimando sobre eles devido aos escassos abrigos para os soldados comuns além da floresta, a mais de três quilômetros das muralhas do palácio — e ele ainda esperava que tudo terminasse sem derramamento de sangue. Que o rei Corvin fosse pressionado pela legião de soldados limerianos e paelsianos esperando pela ordem de batalha.
Mas isso não aconteceria. Sangue seria derramado.
Os soldados entraram em formação por ordem do rei Gaius e começaram a marchar na direção das muralhas. Havia um rio para cruzar, cortando a terra verde e viçosa, cheia de colinas e vales. Depois dele, era possível avistar o palácio murado, uma visão dourada e espetacular que fez Jonas perder o fôlego.
Assim como o enorme exército do rei Corvin que os aguardava, havia soldados trajados com armaduras reluzentes, elmos polidos sobre a cabeça. O ouro cintilava nos escudos da barreira auraniana.
Ficaram assim por uma hora inteira. Esperando. Observando. O coração de Jonas batia forte no peito. Ele segurava uma pesada espada com tanta força que algumas bolhas se formaram na pele já áspera.
— Eu os odeio. E mataria todos pela chance de ter uma vida como a deles — ele disse a Brion em voz baixa, incapaz de desviar os olhos do enorme e brilhante palácio, tão diferente de sua modesta casinha em Paelsia. E aquela terra, tão viçosa e verde enquanto a deles se esvaía e ficava cada vez mais seca e marrom. — Eles ficariam com tudo e nos deixariam sofrer e morrer sem pensar duas vezes.
Um músculo se retorceu no rosto de Brion.
— Eles merecem sofrer e morrer. Merecem viver somente de uvas, como nós sempre vivemos.
Jonas estava pronto para morrer a fim de ajudar seu povo a ter uma vida melhor. As coisas nunca haviam sido fáceis. E todos os seres vivos morriam em algum momento. Se tivesse que ser naquela batalha, que fosse.
O rei Gaius montava seu elegante garanhão preto ao longo da linha de soldados a postos, altivo sobre a sela, com um olhar de determinação. O príncipe Magnus cavalgava ao lado, passando os olhos frios pelos soldados que esperavam. A cavalaria lideraria o ataque. Bandeiras de guerra eram levadas no alto, com as cores de Limeros e as palavras Força. Fé. Sabedoria.
Parecia muito apropriado e calculado. As bandeiras vermelhas eram uma indicação da reputação do rei Gaius como o Rei Sanguinário.
Não dava para ver o chefe Basilius e seu flanco de guardas pessoais de elite. Antes, Jonas tinha andado pelas tendas armadas do outro lado da floresta. O chefe ocupara quatro delas para si, pois precisava de espaço para privacidade, meditação e descanso para ajudar a invocar sua magia dormente em auxílio às tropas.
— O feiticeiro despertará — diziam os rumores entre os soldados. — A magia dele transformará nosso inimigo em poeira.
O chefe Basilius seria o trunfo deles para a vitória.
Jonas optou por acreditar naquilo, apesar das dúvidas cada vez maiores.
O rei Gaius se dirigiu aos soldados.
— Hoje é um dia que vem sendo preparado há mil anos. O dia em que tomaremos aquilo que mantêm fora de nosso alcance. Fora do alcance de vocês. O que veem nesse reino pertence a vocês – a todos vocês. Ninguém poderá contê-los, contanto que trabalhem juntos. Juntem essa força que sei que vocês têm e me ajudem a esmagar aqueles que estão contra nós.
Um canto começou a ser entoado entre os soldados reunidos, baixo no início, mas tomando força e volume a cada repetição.
— Rei Sanguinário! Rei Sanguinário! Rei sanguinário!
Em pouco tempo, Jonas descobriu que estava se juntando a eles — e ao fazer isso, foi contaminado pela energia e sede de sangue da multidão. Mas parte dele sabia que o rei Gaius não era seu rei. Ele não tinha rei.
Apesar disso, estava seguindo o Rei Sanguinário na direção da batalha e estava disposto a perder sua vida naquilo.
— Há três meses, um paelsiano inocente morreu nas mãos de um lorde auraniano egoísta — o rei esbravejou. — Hoje vingaremos sua morte. Tomaremos o reino auraniano e tiraremos o rei do poder para sempre. Auranos é nossa!
A multidão vibrou.
— Tragam-me a cabeça do rei Corvin e eu lhes darei tesouros maiores do que tudo o que já viram — ele prometeu. — Não poupem ninguém. Mostrem-me um rio de sangue! Tomem tudo. Matem todos. — Ele ergueu a espada sobre a cabeça. — Atacar!
Os soldados avançaram, correndo pelo campo. O chão tremia sob seus pés. No rio, a menos de um quilômetro das muralhas do palácio, a força auraniana os encontrou em um choque violento de corpos e espadas e escudos.
Homens de ambos os lados caíam em volta de Jonas, derrubados por flechas com ponta de aço, machados e espadas quando o combate mal havia começado. O odor metálico de sangue enchia o ar.
Jonas abria caminho pela densa massa de corpos, ficando junto a Brion. Os dois amigos de infância olhavam um pelo outro.
As carcaças de cavalos caíam no chão e no rio. Os cavaleiros, rastejando, encontravam o golpe da espada inimiga contra o peito. Gritos de dor e agonia ressoavam pelo ar enquanto a carne encontrava o metal e membros arrancados se espalhavam.
Eles brigavam para chegar mais perto das muralhas. Para tomar o palácio à força. Estavam tão perto, mas os soldados auranianos também eram cruéis e brutais.
Jonas se viu derrubado no chão pelo golpe de um escudo na lateral da cabeça, e ficou ali caído, aturdido, com o gosto metálico do sangue inundando sua boca. Um falcão voava em círculos sobre a batalha, como se observasse tudo desinteressadamente.
Um cavaleiro auraniano apareceu sobre Jonas, erguendo a espada para acertá-lo no coração.
Mas outra espada girou primeiro, derrubando o auraniano com tudo. Um indivíduo desceu do cavalo e rapidamente calcou uma lâmina menor no pescoço do cavaleiro, cortando sua garganta e provocando um jato de sangue.
— Vai ficar caído aí como uma pedra? — perguntou uma voz. — Levante-se. Está perdendo toda a diversão.
Uma mão enluvada apareceu diante de seu rosto. Jonas sacudiu a cabeça e se obrigou a sentar antes que o príncipe Magnus o ajudasse a ficar em pé.
— Deixe alguns para mim. — Uma ponta de sorriso apareceu nos lábios do príncipe. Ele voltou para o seu cavalo e cavalgou para o meio da batalha, com a espada ensanguentada nas mãos.
O combate estava mais perto do palácio, mas não perto o suficiente para que ele fosse invadido. O fogo queimava em algumas áreas do extenso campo de batalha. O cheiro de morte enchia as narinas de Jonas. Ele olhou em volta e descobriu que sua espada havia sumido. Ele tinha ficado desacordado e não percebera. Por quanto tempo havia ficado ali caído na grama pisada, cercado por cadáveres? Praguejou em voz alta e abriu caminho por entre os corpos, procurando outra arma. Alguém havia recolhido as armas dos abatidos. Então encontrou um machado. Serviria.
Um inimigo o atacou — um homem com o braço já pendurado depois de um ferimento brutal. Mas havia mais fúria do que dor nos olhos dele.
— Escória paelsiana — ele bufou ao levantar a espada. — Morra, seu verme!
Os músculos de Jonas doíam e queimavam ao girar o machado no alto para acertar carne e ossos. O jato de sangue atingiu em cheio seu rosto.
Iluminado apenas pelas tochas fincadas no chão e pela lua que brilhava no céu negro, Jonas continuava lutando. Ele havia trocado o machado por um par de espadas curtas e curvas que parecia ter pertencido a um dos guardas pessoais do chefe. Elas se acomodaram em suas mãos e permitiram que ele retalhasse qualquer coisa que estivesse à sua frente.
Muitos já haviam caído por suas lâminas. Ele havia perdido a conta de quantas vidas havia tirado.
Jonas também mostrava os sinais de uma batalha que havia durado quase doze horas sem descanso. Sangrava de uma ferida no ombro. Outra lâmina havia cortado seu abdômen, bem acima das costelas. Ele sobreviveria, mas os ferimentos estavam começando a deixá-lo mais lento.
— Jonas — uma voz o chamou do meio da confusão de corpos no chão.
Ele enfiou uma espada nas entranhas de um auraniano e viu a luz deixar seus olhos antes de olhar para a esquerda.
Um garoto estava no chão a seu lado, com metade do corpo esmagada por um cavalo caído.
Jonas se esforçou para chegar perto dele.
— Eu conheço você? — Ele passou os olhos pelos ferimentos do garoto. O cavalo que havia esmagado suas pernas não era o problema. Havia um ferimento profundo cheio de sangue em seu estômago; os intestinos apareciam por baixo. Um cavalo não causaria aquilo.
Uma lâmina afiada, sim.
— Você mora na minha vila. Você é Jonas, Jonas Agallon. Irmão mais novo do Tomas.
Agora ele reconhecia o rosto do garoto pálido, embora no início não tivesse se lembrado de seu nome.
— É mesmo. Leo, não é?
Dois soldados se enfrentavam nas proximidades, cambaleando ao passar por eles. Um tropeçou em um corpo e o outro — felizmente aliado de Jonas — acabou com ele. À sua esquerda, flechas em chamas voavam pelo ar, lançadas pelos arqueiros posicionados no topo das muralhas do palácio.
— Jonas — o garoto disse, com a voz baixa —, estou com medo.
— Não fique. — Jonas se forçou a manter a atenção no garoto. — É apenas um ferimento superficial. Você vai se recuperar logo.
Ele estava mentindo. Leo não viveria para ver o próximo nascer do sol.
— Que bom. — O garoto deu um sorriso dolorido, mas os olhos estavam cheios de lágrimas. — Só me dê mais um minuto para descansar e eu logo voltarei para a batalha.
— Descanse o quanto quiser. — Apesar de saber que era arriscado, Jonas se agachou ao lado do menino e segurou sua mão. — Quantos anos você tem?
— Onze. Acabei de fazer.
Onze. Jonas sentiu os restos do coelho malcozido que havia comido mais cedo queimando em suas entranhas. O zunido de uma flecha cortou o ar e acertou um soldado no peito. Não era um ferimento fatal. Só fez o soldado — um limeriano, pelo símbolo que usava na manga do uniforme — arrancá-la e soltar um grito hostil de dor e fúria.
Jonas voltou sua atenção ao garoto moribundo.
— Você foi muito corajoso em se voluntariar a isso.
— Meu irmão mais velho e eu não tivemos escolha. Tivemos que vir. Se eu conseguisse empunhar uma espada, teria que servir ao rei Gaius.
Servir ao rei Gaius.
Uma raiva quente subiu pela garganta de Jonas, espessa o bastante para sufocar.
— Sua família ficará orgulhosa de você.
— Auranos é tão linda. Tão verde, quente e… eu nunca estive aqui antes. Se minha mãe puder experimentar isso, ter uma vida assim, terá valido a pena.
O garoto tossiu sangue. Jonas limpou com a manga da camisa já ensanguentada enquanto dava uma olhada em volta. Havia homens lutando perto demais. Ele queria ficar com o garoto, mas não podia permanecer ali por muito tempo. Se ele conseguisse levar o menino para o acampamento, encontrar um médico…
O garoto apertou sua mão com mais força.
— Vo-você pode me fazer um favor, Jonas?
— Qualquer coisa.
— Diga a minha mãe que eu a amo. E que fiz isso por ela.
Jonas piscou demoradamente.
— Prometo.
O garoto sorriu, mas logo sua expressão se desfez e seus olhos ficaram vidrados.
Jonas ficou ali sentado um pouco mais. Ele soltou um urro de raiva pela injustiça de um garoto tão novo ter precisado morrer para ajudar o Rei Sanguinário a conquistar Auranos.
E os paelsianos — incluindo ele mesmo! — estavam ajudando o rei a cada passo do caminho, expondo a garganta à lâmina do inimigo, sacrificando seu próprio futuro.
A morte do garoto deixou tudo claro para Jonas. Não havia garantias de que o rei Gaius seria fiel às promessas que havia feito. Ele tinha os números. Seu exército era vasto e treinado. Paelsia estava lá apenas para servir de bucha de canhão.
Ele precisava voltar e falar o quanto antes com o chefe. Agarrando suas espadas, ele se virou para o outro lado — e encontrou um braço coberto por uma luva cheia de cravos indo em sua direção. Errou seu rosto por pouco mais de um centímetro quando ele girou e saiu do caminho. Era um auraniano que havia perdido boa parte da armadura na região do peito. Sua cara feia estava retalhada; os cabelos, cobertos de sangue. Alguém havia tentado cortar sua garganta, mas ele tinha escapado antes da lâmina fazer mais do que um arranhão pavoroso.
— Está se despedindo de seu irmãozinho? — O cavaleiro deu um sorriso forçado. Um de seus dentes da frente estava quebrado. — É isso que ganham quando tentam mexer conosco. Um golpe de espada nas entranhas. E você é o próximo, selvagem.
A fúria queimava dentro de Jonas. O cavaleiro atacou, dando um golpe de espada no ar — acertando as lâminas de Jonas com força o bastante para fazer seus dentes rangerem. O som de uma flecha com ponta de aço cortou o ar a centímetros de sua orelha, acertando um soldado paelsiano na parte de trás da perna. Ele caiu no chão, gritando.
O cavaleiro auraniano havia sido treinado para aquilo, mas já estava ferido por horas de batalha. Sua fadiga era a única coisa a favor de Jonas.
— Você vai perder — o cavaleiro sussurrou entredentes. — E vai morrer. Devíamos ter acabado com seu sofrimento há vários anos, com toda a sua terra esquecida pela deusa. Deviam nos agradecer por eliminá-los como as baratas imundas que são.
Jonas não se importava de ser chamado de barata. Elas eram criaturas resistentes e astutas. Era melhor do que ser chamado de selvagem. Mas ele não gostava de ouvir que ia perder.
— Você está errado. Nosso sofrimento acabou. Mas o seu está apenas começando.
Jonas jogou todo o peso do corpo na direção do cavaleiro, derrubando-o com tudo no chão. Jogando as lâminas de lado, Jonas tirou a espada do cavaleiro e a pressionou contra a garganta dele.
— Renda-se — Jonas vociferou.
— Nunca. Eu luto por meu rei e por meu reino. Não vou descansar até o último dos selvagens imundos estar morto.
De repente, havia uma faca na mão do cavaleiro. Jonas sentiu a mordida da dor quando ela acertou a lateral de seu corpo. Antes de conseguir ir muito fundo, ele rolou, agarrando a espada com as duas mãos.
Com toda a força que lhe restava, Jonas desceu a espada na garganta desprotegida do cavaleiro. A cabeça voou para longe do resto do corpo. Ele limpou o jato de sangue dos olhos com a manga da camisa.
Cambaleou para levantar, sentindo dor, e abriu caminho pelo campo, atravessando o rio que agora corria com sangue sob o céu noturno. O sangue quente e espesso escorria dos ferimentos de seu corpo, mas ele continuou seguindo em frente. Ou… para trás.
Através das grossas cortinas de floresta do outro lado, viam-se as tendas armadas. Centenas de pessoas movimentavam-se na área médica — feridos, moribundos. Lamentos de dor e angústia chegavam a seus ouvidos.
Jonas continuou se movimentando, com as pernas fracas. Chegou, por fim, ao seu destino: a tenda do chefe. Essas tendas — fornecidas pelos limerianos — eram maiores do que qualquer casa paelsiana. Era onde a elite descansava e fazia as refeições, abundantemente preparadas por cozinheiros e criados.
Enquanto meninos de onze anos de idade morriam em batalha a três quilômetros dali.
Os guardas de Basilius reconheceram Jonas, apesar de ele estar coberto de sangue fresco — seu próprio e daqueles que havia matado —, então não protestaram quando ele foi entrando na tenda enorme e mobiliada. A bile subiu pela garganta de Jonas ao ver tanto luxo depois do que ele havia acabado de vivenciar.
— Jonas! — o chefe exclamou com entusiasmo. — Por favor, entre! Junte-se a mim!
A exaustão e a dor deixavam seu andar trôpego. Ele temia que seus joelhos cedessem completamente. O olhar do chefe passou pelo lado ferido de seu corpo e por seu rosto, notando os ferimentos.
— Médico!
Com apenas uma palavra, um homem se aproximou e puxou a camisa de Jonas para inspecionar seus ferimentos. De repente, havia uma cadeira atrás dele e ele se sentou com cansaço. Estava muito tonto e desorientado; sua pele estava fria e pegajosa. O mundo parecia embaçado. Ele se esforçava para respirar normalmente e retomar as forças.
O médico o atendeu, limpando as feridas e fazendo curativos nelas.
— Então me diga — pediu o chefe com um grande sorriso. — Como está a batalha?
— O senhor não estava meditando esse tempo todo? Achei que talvez pudesse nos ver pelos olhos dos pássaros. — Jonas não sabia por que havia dito aquilo. Era uma história infantil, da qual se lembrava vagamente. Uma história na qual sua mãe acreditava.
O chefe manteve o sorriso onde estava.
— É um dom que eu gostaria de ter. Talvez eu o desenvolva nos próximos anos.
— Eu queria falar com o senhor em pessoa — Jonas conseguiu dizer. Ele estava preocupado com Brion, sentindo-se culpado por deixar o campo de batalha antes do cerco estar completo. Havia perdido o amigo de vista no início da batalha. Brion podia estar morrendo, sem ninguém para protegê-lo no caso de um auraniano chegar para acabar com ele.
Ou uma flecha errante poderia perfurar sua carne desprotegida.
Com a morte de Tomas, Brion era o mais próximo de um irmão que ele tinha. Seus olhos queimavam, mas ele preferia acreditar que era por causa da fumaça do cachimbo do chefe. O cheiro de folhas de pêssego amassadas e algo mais doce enchia o ar. Jonas reconheceu o aroma como o de uma rara erva encontrada nas Montanhas Proibidas, que causava alucinações prazerosas.
— Por favor, sinta-se à vontade para falar. — Dispensando o médico com um aceno, o chefe se sentou atrás de uma mesa em que havia sido servido um banquete. Os ossos da cabra abatida estavam espalhados, assim como uma dúzia de garrafas de vinho vazias.
— Estou preocupado — ele começou a falar, com os dentes apertados.
— A guerra é algo que deve ser levado muito a sério. Sim. E você me parece um rapaz sério.
— Tendo crescido em Paelsia, nunca tive muita escolha a esse respeito, tive? — Ele tentou tirar a amargura de suas palavras, mas não conseguiu. — Trabalho em vinhedos desde os oito anos de idade.
— Você é um bom garoto. Seu trabalho é louvável. — O chefe afirmou com um aceno de cabeça. — Estou muito impressionado por minha Laelia ter encontrado você.
Na verdade havia sido o contrário. Jonas havia encontrado Laelia. Havia passado um bom tempo em sua cama, ouvindo seus mexericos sobre as amigas, suas histórias sobre as cobras odiosas, tudo na tentativa de ganhar a confiança do chefe e convencê-lo a se rebelar contra os auranianos e tomar o que devia ser deles.
Mesmo se Tomas não tivesse morrido, Jonas ainda desejaria aquilo para o seu país.
Mas aquilo estava errado. Ele sentia, no fundo do coração, que era verdade.
Não havia tempo para jogos. Havia meninos morrendo naquele campo, dando a vida para chegar alguns metros mais perto das muralhas do palácio. Ele precisava dizer o que viera dizer.
— Eu não confio no rei Gaius.
O chefe se recostou na cadeira acolchoada e ficou observando Jonas com curiosidade.
— Por que não?
— Há mais limerianos do que paelsianos aqui. A reputação do rei já é conhecida: brutalidade e ganância. O que garante que ele não vai nos matar depois de darmos a vida para ajudá-lo a conquistar Auranos? Que não vai nos escravizar para ficar com tudo para ele?
O chefe apertou os lábios e pitou o cachimbo.
— Você realmente acha isso?
A frustração tomou conta de Jonas. Seu coração batia forte.
— Precisamos recuar. Reavaliar antes que ocorram mais baixas. Um menino morreu na minha frente, mal tinha completado onze anos. Ao mesmo tempo em que quero destruir Auranos, não quero que nossa vitória seja pintada com sangue de crianças.
A expressão do chefe ficou séria.
— Não sou homem de começar uma coisa e depois desistir.
Não, ele era homem de começar uma coisa e esperar em sua tenda luxuosa até ela chegar ao fim.
— Mas…
— Entendo sua preocupação, mas precisa ter fé em mim, Jonas. Tenho buscado dentro de mim as respostas de que precisamos. E o resultado é, infelizmente, a guerra. Isso não vai terminar até chegar ao fim. Meu destino é me aliar ao rei Gaius. Eu confio nele. Ele provou com um sacrifício de sangue diferente de tudo o que já testemunhei. Foi incrível. — Ele parecia satisfeito. — O rei Gaius é um homem bom e honrado que cumprirá as promessas que me fez. Não tenho dúvidas quanto a isso.
Jonas cerrou os punhos ao lado do corpo.
— Se ele é tão bom e honrado, onde esteve quando nossa terra estava morrendo? Quando nosso povo estava morrendo? Onde estava sua assistência?
O chefe Basilius suspirou.
— Passado é passado. Só podemos olhar na direção do futuro e tentar ao máximo fazer o que for possível para que ele seja melhor.
— Por favor, considere o que eu disse para o senhor. — Quanto mais ele falava, mais Jonas se convencia de que eles estavam seguindo por um caminho obscuro e sangrento. O que ele havia visto no campo de batalha era apenas o início de todo o sofrimento que estava por vir.
— É claro. Vou considerar tudo. Valorizo sua opinião, Jonas.
— E sua magia? Acha que pode usá-la para nos ajudar?
O chefe espalmou as mãos.
— Não será necessário. O rei Gaius me disse que tem uma arma secreta à disposição assim que conseguirmos passar pelas muralhas do palácio. Esta não é uma batalha que durará dias ou semanas – nem meses. Ela acaba amanhã. Eu prometo.
A boca de Jonas estava tão seca que ele desejou que ainda houvesse um pouco de vinho naquelas garrafas.
— Que arma secreta?
A pergunta foi respondida com um sorriso enigmático.
— Se eu contar, não será mais secreta, não é? — O chefe se levantou e se aproximou da cadeira de Jonas para lhe dar um tapinha nas costas. O rapaz se contraiu pela dor dos ferimentos recém-cobertos. — Confie em mim, Jonas. Quando tudo isso terminar e estivermos colhendo as recompensas do que conquistamos aqui em Auranos, sua festa de casamento será a maior que já existiu em Paelsia.
Jonas saiu da tenda com o som da risada do chefe ecoando à sua volta. O resultado seria o mesmo se ele tivesse falado com as paredes.
Com tristeza, ele olhou para o céu escuro sarapintado de estrelas brilhantes e para a grande lua, e imaginou por que ele não mostrava nenhum sinal da tempestade que estava por vir.

Um comentário:

  1. "Homem bom e honrado" que corta um filho, mata o outro e rouba uma menina pra vantagem própria. Bela honra ele tem.
    É bom que o "homem honrado" mate esse lider desgraçado mentiroso

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Boa leitura, E SEM SPOILER!