5 de julho de 2018

Capítulo 31

Ronan dirigiu de volta para Santa Inês. Adam achou que ele queria ir ao seu apartamento, acima do escritório da igreja, mas, quando eles saíram para a rua, Ronan desviou o caminho e seguiu na direção da entrada principal da igreja.
Embora Adam morasse na parte de cima da igreja, não entrara ali desde que se mudara para o apartamento. Os Parrish nunca haviam sido frequentadores de igreja, e, ainda que o próprio Adam suspeitasse que pudesse existir um Deus, também achava que isso não importava.
— Lynch — ele disse enquanto Ronan abria a porta para o santuário na penumbra. — Achei que nós íamos conversar.
Ronan mergulhou os dedos na água benta e tocou a testa.
— Está vazio.
Mas a igreja não parecia vazia. A atmosfera era claustrofóbica com a fragrância de incenso, vasos de lírios exóticos, resmas de tecido branco e o olhar prostrado de um Cristo desolado. Ela sangrava histórias que Adam não conhecia, rituais que ele jamais conheceria, conexões que ele jamais compartilharia. Ela estava carregada com um tipo de história sussurrante que o deixava tonto.
Ronan acertou o braço de Adam com as costas da mão.
— Vamos lá.
Ele caminhou ao longo dos fundos da igreja escura e abriu uma porta para uma escada íngreme. No topo, Adam se deparou com um balcão escondido ocupado por dois bancos de igreja e um órgão. Uma estátua de Maria — provavelmente Maria? — estendia as mãos para ele, mas isso porque não o conhecia. Ela rogava a Ronan, e provavelmente o conhecia. Algumas velas pequenas queimavam aos pés da santa.
— O coro fica aqui em cima — disse Ronan, sentando-se no órgão. Sem avisar, ele tocou um fragmento terrivelmente alto e chocantemente sonoro.
— Ronan! — sussurrou Adam. Ele olhou para Maria, mas ela não parecia incomodada.
— Eu disse para você. Não tem ninguém aqui. — Quando Ronan viu que Adam ainda não acreditava, ele explicou: — É dia de confissão lá em Woodville, e o nosso padre foi para lá. Nesses dias o Matthew costumava ter aulas de órgão, porque não tem ninguém por perto para ser incomodado por sua música terrível.
Adam finalmente se sentou em um dos bancos. Pousando o rosto no encosto liso, olhou para Ronan. De maneira bastante estranha, Ronan também pertencia àquele lugar, como havia pertencido à Barns. Essa religião ruidosa e suntuosa o havia criado tanto quanto o mundo de sonhos de seu pai; parecia impossível que Ronan inteiro existisse em uma só pessoa.
Adam estava começando a perceber que não conhecia Ronan de verdade. Ou melhor, ele havia conhecido parte dele e presumido que era Ronan inteiro.
O cheiro de Cabeswater, de todas as árvores após a chuva, passou por Adam, e ele percebeu que, enquanto estivera olhando para Ronan, este estivera olhando para ele.
— Então, Greenmantle — ele disse, e Ronan desviou o olhar. — Filho da puta. Sei.
— Olhei todos os registros públicos naquela primeira noite.
Teria sido bastante fácil para Ronan fazer isso sozinho, mas talvez ele soubesse que Adam gostaria do aspecto enigmático da procura e que isso lhe ocuparia a mente.
— Dois doutorados, casa em Boston, três multas por excesso de velocidade nos últimos dezoito meses, blá-blá-blá.
— E aquele lance da aranha na teia?
— Não importa — respondeu Adam. Ele não precisara de muito tempo para conseguir a versão prontamente disponível da história de vida de Colin Greenmantle. E apenas um pouco mais de tempo para perceber que não era realmente a história de vida que ele precisava. Ele não precisava desfazer a teia — provavelmente não conseguiria desfazer a teia. Ele precisava gerar uma nova teia.
— É claro que importa. É tudo que importa.
— Não, Ronan, olha... vem aqui.
Adam começou a escrever na poeira sobre o banco ao lado dele. Ronan se juntou a ele, agachando-se para ler o que ele escrevia.
— O que é isso?
— As coisas que vamos fazer acontecer — disse Adam. Ele havia trabalhado tudo em sua cabeça. Embora fosse mais fácil anotar, ele havia refletido a respeito: melhor não ter uma trilha de papel ou um registro eletrônico. Apenas Cabeswater poderia entrar no registro da mente de Adam. — Essas são todas as provas que você precisa sonhar e que nós precisamos enterrar.
Algumas dessas coisas precisavam ser literalmente enterradas. O plano era caprichado na concepção, mas não na execução; era um negócio sujo incriminar alguém, e assassinatos exigiam corpos. Ou pelo menos partes de corpos.
— Parece muita coisa — admitiu Adam, porque parecia, uma vez que ele havia escrito tudo na poeira. — Acho que é mesmo. Mas na maioria são detalhes.
Ronan terminou de ler o plano de Adam. Ele tinha o rosto ligeiramente desviado do horror que lia, da mesma maneira que desviara o rosto do seu objeto de sonho. Ele disse:
— Mas... isso não é o que aconteceu. Não foi isso que Greenmantle fez.
Ronan não precisou dizer: Isso é mentira.
Adam deveria ter sabido que isso seria um problema para ele. Ele lutou para explicar.
— Eu sei que não foi. Mas é difícil demais incriminá-lo por ter encomendado a morte do seu pai. É sutil demais e há detalhes demais que eu não sei. Ele pode refutar uma das nossas evidências com uma evidência real, ou algo real, como a sequência de tempo real do que ele fez, e isso poderia arruinar o que a gente apresentasse. Mas, se eu inventar o crime, posso controlar todas as variáveis.
Ronan apenas o encarou.
— Escuta, tem que ser algo realmente horrível, algo que ele não iria querer cumprir pena na prisão por causa disso — disse Adam. Agora ele estava se sentindo um pouco sujo; ele não conseguia dizer se o desgosto visível de Ronan era apenas por causa da natureza do crime que Adam havia sugerido, ou por Adam ser capaz de contemplar um crime tão terrível. Mas ele persistiu, pois agora era tarde demais para recuar. — Queremos que ele se sinta ameaçado demais, para nem chegar a pensar em abrir a boca ou contra-atacar. Se ele chegasse a ser acusado disso, estaria arruinado, e ele sabe disso. E, se ele for preso, as pessoas que cometem crimes contra crianças são maltratadas na cadeia, e ele sabe disso também.
Adam podia ver os dois lados de Ronan lutando entre si. Ele podia ver, inacreditavelmente, que a mentira perderia.
— Apenas uma vez — disse Adam rapidamente. — Apenas desta vez. Eu posso refazer isso para realmente ser sobre o seu pai, mas essa opção não seria à prova de balas. E então você teria que lidar com o tribunal. Da mesma maneira o Matthew. — Ele se sentiu mal a respeito dessa última parte, mesmo que ela fosse verdadeira. Porque ele sabia que ela mexeria com Ronan, e mexeu.
— Tudo bem — disse Ronan, decepcionado. Ele olhou para o plano escrito na poeira e franziu o cenho. — O Gansey odiaria isso.
Porque era o pior tipo de sujeira. Reis não haviam nascido para sujar suas bainhas nisso.
— É por isso que não vamos contar para ele.
Ele esperava que Ronan recuasse nesse ponto também, mas ele apenas anuiu. Eles concordaram a respeito de duas coisas: proteger os sentimentos partidos de Gansey e mentir por omissão.
— Você acha que pode fazer isso? — perguntou Adam. — É um monte de detalhes.
Deveria ser impossível. Ninguém deveria ser capaz de sonhar nenhuma dessas coisas, muito menos todas elas. Mas Adam vira o que Ronan podia fazer. Ele havia lido o testamento sonhado, e andado no Camaro sonhado, e sido aterrorizado pelo terror noturno sonhado.
Era possível que houvesse dois deuses naquela igreja.
Ronan se agachou ao lado do banco novamente, estudando a lista, os dedos correndo preguiçosamente sobre a barba por fazer enquanto pensava. Quando não estava tentando parecer um imbecil, seu rosto parecia muito diferente, e, por um momento fugaz, Adam sentiu a desigualdade surpreendente de sua relação: Ronan conhecia Adam, mas Adam não tinha certeza de que conhecia Ronan, no fim das contas.
— Vou fazer isso agora — disse Ronan por fim.
— Agora? — perguntou Adam incredulamente. — Aqui? Agora?
Ronan abriu um sorriso arrogante, satisfeito por ter conseguido essa reação.
— Não há momento melhor que o presente, Parrish. Agora. Tudo, tirando o telefone. Eu preciso ver que modelo ele tem antes que possa sonhá-lo.
Adam olhou à sua volta para a igreja parada. Ela ainda parecia tão habitada. Mesmo que ele acreditasse racionalmente que a igreja permaneceria vazia, em seu coração, ele se sentiu tomado de... possibilidades. Mas o rosto de Ronan transmitia um desafio e Adam não recuaria. Ele disse:
— Eu sei que modelo de telefone ele tem.
— Dizer para mim qual é não basta. Eu preciso ver o aparelho — respondeu Ronan.
Adam hesitou e então perguntou:
— E se eu pedisse a Cabeswater para te mostrar o telefone dele no sonho? Eu sei de que modelo é.
Ele esperou que Ronan vacilasse ou questionasse a estranheza de Adam, mas Ronan apenas se endireitou e esfregou as mãos.
— Tudo bem, legal. Beleza. Escuta, talvez você deva ir. Para o apartamento, e a gente se encontra depois que eu terminar.
— Por quê?
— Nem tudo na minha cabeça é uma grande coisa, Parrish, acredite ou não. Eu te disse. E, quando estou trazendo algo de um sonho, às vezes não consigo trazer só uma coisa.
— Vou arriscar.
— Pelo menos me dá espaço.
Adam recuou para se sentar ao lado de Maria enquanto Ronan se deitava em um banco, esfregando o plano encardido com as pernas do jeans. Algo a respeito da sua imobilidade no banco e da qualidade de funeral da luz lembrava a Adam a efígie de Glendower que eles tinham visto na tumba. Um rei, dormindo. Adam não conseguia imaginar, no entanto, o reino estranho e selvagem que Ronan poderia governar.
— Para de me olhar — disse Ronan, embora seus olhos estivessem fechados.
— Como queira. Vou pedir a Cabeswater o telefone.
— A gente se vê do outro lado.
Enquanto Ronan se remexia, Adam piscou sobre as velas aos pés de Maria. Era mais difícil olhar para uma chama do que para uma poça de água escura, mas servia ao mesmo propósito. À medida que sua visão nublava, ele sentia sua mente se soltar e se separar do corpo e, um instante antes de sair de si, Adam pediu a Cabeswater para dar a Ronan o telefone. Pedir não era bem a palavra certa. Mostrar era melhor, porque ele mostrou a Cabeswater o que precisava: a imagem do telefone apresentando-se a Ronan.
Era impossível julgar o tempo quando ele fazia uma divinação.
Próximo dele — o que era próximo? — Adam ouviu um ruído brusco, como um grasnado, e subitamente percebeu que não fazia ideia se estivera encarando a luz por um minuto, uma hora ou um dia. Seu próprio corpo parecia a chama, tremeluzindo e frágil; ele estava se aprofundando demais.
Hora de voltar.
Ele abriu caminho de volta, retornando para seus ossos. Adam sentiu o momento que sua mente se prendeu ao seu corpo mais uma vez. Seus olhos piscaram até se abrir.
Ronan estava tendo uma convulsão à sua frente.
Adam recolheu as pernas, para longe do alcance do desastre à sua frente. Os braços de Ronan estavam manchados de sangue e as mãos estavam marcadas com ferimentos que escorriam, viscerais. Seus jeans estavam escuros, encharcados. O tapete da igreja reluzia de sangue.
Mas o horror era sua espinha, dobrada para trás. Era sua mão, pressionada contra sua garganta. Era sua respiração — uma respiração entrecortada, uma palavra sufocada. Eram seus dedos, tremendo enquanto ele os levava à boca. Eram seus olhos, arregalados demais, reluzentes demais, fixos no teto. Vendo apenas dor.
Adam não queria se mexer. Ele não podia se mexer. Ele não podia fazer isso. Isso não estava acontecendo.
Mas estava, e ele podia.
Ele avançou aos tropeços.
— Ronan... Ah, meu Deus.
Porque, agora que estava mais próximo, ele podia ver o estrago que havia se tornado o corpo de Ronan. Além da possibilidade de reparo. Ele estava morrendo.
Eu fiz isso... Foi ideia minha... Ele nem queria fazer...
— Está feliz agora? — perguntou Ronan. — Era isso que você queria?
Adam se sobressaltou violentamente. A voz tinha vindo de algum outro lugar. Ele olhou para cima e encontrou Ronan sentado de pernas cruzadas sobre o banco acima deles, a expressão vigilante. Uma das mãos desse Ronan estava ensanguentada também, mas claramente não era sangue dele. Algo sombrio percorreu seu rosto enquanto ele dirigia o olhar para seu duplo morrendo. O outro Ronan se lamuriou. Era um som horroroso.
— O que... o que está acontecendo? — perguntou Adam, se sentindo tonto. Ele estava desperto; ele estava sonhando.
— Você disse que queria ficar e ver — rosnou Ronan do banco. — Aproveite o show.
Adam compreendia agora. O Ronan real não havia se mexido; ele havia despertado exatamente onde dormira. Aquele Ronan morrendo era uma cópia.
— Por que você sonharia isso? — demandou Adam. Ele queria que o seu cérebro acreditasse que aquele Ronan agonizante não era real, mas a duplicação era perfeita demais. Ele via ao mesmo tempo um Ronan Lynch morrendo violentamente e um Ronan Lynch distante, observando friamente. Ambos eram verdadeiros, embora devessem ser impossíveis.
— Eu tentei algo grande demais de uma só vez — disse Ronan do banco. Suas palavras eram curtas e entrecortadas. Ele estava tentando parecer indiferente, vendo sua própria morte. Talvez ele não se importasse. Talvez isso acontecesse o tempo inteiro. Como Adam fora idiota de pensar que sabia alguma coisa a respeito de Ronan Lynch. — Não era o tipo de coisa... o tipo de coisas que eu normalmente sonho, e tudo ficou confuso. Os horrores noturnos vieram. Depois as vespas. Eu sabia que as traria comigo. Que eu ia acordar desse jeito. Então sonhei outro eu para elas e aí... eu despertei. E aqui estou. E aqui estou, de novo. Que truque bacana. Que maldito truque bacana.
O outro Ronan estava morto.
Adam se sentiu da mesma maneira que havia se sentido quando vira o mundo de sonho. A realidade se retorcia sobre si mesma. Ali estava Ronan, morto, impossível de ser pranteado, porque havia outro Ronan, vivo, olhando-o fixamente.
— Aqui — disse Ronan. — Aqui estão as coisas. As mentiras que você queria.
Ele empurrou um envelope de papel pardo enorme para Adam, cheio, presumivelmente, de provas para incriminar Greenmantle. Adam levou muito tempo para perceber que Ronan queria que ele o pegasse, e então um segundo a mais para mudar sua mente para a mecânica de tomá-lo.
Adam disse para sua mão se estender, e relutantemente ela o fez.
Vamos, Adam, coragem.
Havia sangue no envelope, e agora na mão de Adam. Ele perguntou:
— Você conseguiu tudo?
— Está tudo aí.
— Até a...
— Está tudo aí.
Que feito impossível, milagroso e horroroso era aquele. Um plano vil, tramado por um garoto vil, tornado uma realidade vil através de um sonho. Quão apropriado que Ronan, deixado com seus próprios recursos, manifestasse belos carros, belos pássaros e um irmão de bom coração, enquanto Adam, quando dado o poder, manifestava uma série doentia de assassinatos perversos. Adam perguntou:
— E agora? O que fazemos com...
— Nada — rosnou Ronan. — Você não faz nada. Não, você faz o que eu pedi antes. Vá.
— O quê?
Ronan estava tremendo. Não de veneno, como o outro Ronan, mas de alguma emoção desencadeada.
— Eu disse que não queria você aqui caso isso acontecesse, e agora aconteceu, e olhe para você.
Adam achou que ele havia suportado toda a situação bastante bem, considerando que Gansey teria desmaiado a essa altura. Ele certamente não conseguia ver como a sua presença havia piorado a situação de alguma maneira. No entanto, ele podia ver que Ronan Lynch estava bravo porque queria estar bravo.
— Seja um imbecil se quiser. Isso não foi culpa minha.
— Eu não disse que foi culpa sua — disse Ronan. — Eu disse fique longe de mim.
Os dois garotos se encararam. Insanamente, parecia uma discussão como todas as outras que eles já haviam tido, embora dessa vez houvesse um corpo com a forma de Ronan encolhido entre eles e coberto de sangue.
Aquilo era apenas Ronan querendo gritar onde alguém pudesse ouvi-lo, o que começou a minar a calma de Adam, não porque ele acreditasse que Ronan estivesse bravo com ele, mas porque estava cansado de Ronan pensar que aquela era a única maneira de demonstrar que estava incomodado.
— Ah, vamos lá. O que foi agora? — ele disse.
— Adeus. É isso — Ronan respondeu.
— Como queira — disse Adam, dirigindo-se para a escada. — Da próxima vez você pode morrer sozinho.

Um comentário:

  1. Nem começaram a namorar e já discutem como um casal de velhos
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Boa leitura, E SEM SPOILER!