30 de julho de 2018

Capítulo 30

AURANOS

Perdida em seu sofrimento pela morte de Theon, Cleo não tinha ideia da seriedade do conflito até ver Aron andando de um lado para o outro nos corredores, com o rosto tenso e preocupado. Aron nunca ficava preocupado, a menos que a inquietação fosse quanto a ficar sem vinho.
Ela e Mira estavam a caminho da aula de artes daquela tarde. O tutor era um homem velho que odiava atrasos, mas Cleo agarrou no braço de Mira para fazê-la parar.
— O que está fazendo aqui, Aron? — ela perguntou.
Aron riu, mas não havia humor em sua risada.
— É assim que cumprimenta seu futuro marido?
O rosto dela se enrugou.
— É tão… maravilhoso reencontrá-lo, Aron — ela se forçou a dizer.
Ele realmente se achava superior a ela. Mas ela estava confiante de que o futuro dos dois não se entrelaçaria.
— Eu estou feliz em vê-lo, Aron — Mira disse com doçura. Cleo olhou para ela sem entender, mas só por um instante. — Mas você está um pouco pálido. Tem algo errado?
— Errado? — Aron repetiu. — Ah, não, não há nada de errado. O palácio está cercado por inimigos selvagens, mas não há com que se preocupar. Apenas nossa morte iminente!
Sua quase histeria não conseguiu romper as paredes da tristeza de Cleo, que a deixaram estranhamente serena.
— Eles não vão quebrar os muros.
Os inimigos haviam montado acampamento a alguns quilômetros das muralhas do palácio, mas, até onde ela sabia, ainda não haviam feito nenhum movimento ameaçador. Mensagens iam e voltavam entre o seu pai, o rei limeriano e o chefe paelsiano. Os inimigos exigiam que o rei se rendesse, mas ele se recusava. E exigia que os paelsianos e limerianos virassem as costas e voltassem para casa.
Três dias haviam se passado e ninguém havia saído um centímetro do lugar. Cleo agora estava proibida de sair do castelo. Ela olhou para Aron com frieza.
— É por isso que está aqui? Você e seus pais se refugiaram no castelo caso eles rompam as muralhas do palácio?
Aron levou o cantil dourado de sempre aos lábios. Tomou um longo gole e depois limpou a boca com as costas da mão.
— Nossa quinta não é tão protegida quanto o castelo.
— Acha que a situação é tão feia assim? — Mira perguntou, aflita.
Nic se aproximou, vindo do fim do corredor. Cleo olhou para ele com gratidão. Se não fosse por ele, ela não estaria ali.
— O que está acontecendo? — Nic quis saber, com o olhar fixo em Cleo.
— Aron se mudou para o castelo — Mira o informou.
— Ah, não fique tão decepcionada, Mira — Aron respondeu. — Sei que você gosta da minha presença. Sou a alegria da festa.
Mira corou.
— Por que alguém ficaria decepcionado com sua presença? — Nic perguntou. — Você é muito bem-vindo aqui, Aron. A qualquer hora. Meu castelo é seu castelo.
— Este castelo não é seu. Apesar da afeição do rei por você e sua irmã, vocês não passam de criados de luxo. — Aron tomou outro gole do cantil.
Nic lhe lançou um olhar contundente.
— Está bêbado demais para aceitar uma simples brincadeira, seu cretino inútil?
Aron enfiou o cantil no bolso e agarrou Nic pela camisa.
— Não mexa comigo.
— Ah, eu mexo, se quiser.
— Desde quando virou homem? Fugir com minha futura esposa fez você criar coragem?
— Sua futura esposa odeia você. — Nic empurrou Aron. — E, por sinal, seu hálito cheira a bunda de cavalo.
Aron ficou vermelho de raiva.
— Já chega — avisou Cleo, dando meia-volta.
Ela precisava falar com seu pai. Ter Aron por ali era inaceitável, mas se fosse um sinal de que as negociações não estavam indo bem, ela precisava saber a verdade. Deixou os outros e foi direto para a sala de reunião do rei. Lá dentro, encontrou muitos homens andando de um lado para o outro e discutindo em voz alta. Ela finalmente encontrou o pai bem no meio do caos.
Ele olhou para Cleo, exausto, quando ela se aproximou.
— Você não devia estar aqui.
— O que está acontecendo?
— Nada com que tenha que se preocupar.
Ela ficou furiosa.
— Acho que, se está prestes a acontecer um ataque geral à minha casa, então tenho que me preocupar. Como posso ajudar?
O homem que estava ao lado do rei bufou.
— É claro que pode ajudar. Consegue segurar uma espada, princesa?
Ela endireitou a postura e lançou a ele um olhar agudo.
— Se for preciso.
— Elas são muito pesadas. — O homem revirou os olhos. — Você devia ter tido filhos homens, Corvin. Seriam mais úteis agora do que filhas.
— Segure sua língua — o rei vociferou. — Minhas filhas são mais importantes para mim do que qualquer outra coisa neste reino.
— Então devia tê-las mandado embora antes que as coisas chegassem a esse ponto. Para algum lugar seguro.
— O castelo não é seguro? — Cleo perguntou cada vez mais assustada.
— Cleo, vá agora — pediu o rei. — Vá para suas aulas. Não se preocupe com nada disso. É muita coisa para você.
Ela olhou para ele com firmeza.
— Não sou criança, pai.
O homem desagradável riu.
— Quantos anos você tem? Dezesseis? Faça o que seu pai sugeriu e vá aprender a pintar. Ou bordar. Ou qualquer uma dessas coisas que as garotinhas fazem. Deixe que nós, homens, cuidemos dessas coisas sujas.
Cleo não conseguia acreditar no tom que aquele homem ousava falar com ela.
— Quem é você? — ela resmungou.
Ele parecia entretido, como se um gatinho tivesse acabado de mostrar suas garras afiadas.
— Alguém que está tentando ajudar seu pai com uma situação difícil.
— Cleo, perdoe a grosseria do lorde Larides; ele, como todos nós, está sob muita pressão no momento. Mas não se preocupe, eles não conseguirão entrar no castelo. Mesmo se passarem pelas muralhas do palácio, você está em segurança aqui, Cleo. Prometo. Vá ficar com seus amigos. Com sua irmã. Deixe que eu lido com isso.
Ela reconheceu o nome — e agora reconhecia o próprio homem. Ele tinha deixado crescer a barba desde a última vez que ela o vira. Era o pai de lorde Darius, ex-noivo de sua irmã. Sua família fazia parte do círculo de confiança do rei.
Quando olhavam para ela, todos esses homens viam uma garotinha que havia fugido por um capricho: procurar sementes mágicas. E que havia causado problemas. Que era inútil em todos os sentidos, exceto ser bonita. E talvez fosse. E se fosse verdade, ficar ali só causaria mais problemas para o seu pai. Por fim, Cleo concordou e virou as costas. O rei pegou suas mãos e lhe deu um beijo rápido na testa.
— Vai ficar tudo bem — ele afirmou, afastando-a dos ouvidos dos membros do conselho. — Sei que está sendo difícil, mas vamos sobreviver a isso. Aconteça o que acontecer. Seja forte por mim, Cleo. Você me promete isso?
Ele parecia tão preocupado que a única coisa que ela podia fazer era concordar. O gesto pareceu clarear parte da escuridão nos olhos dele.
— Prometo.
— Aconteça o que acontecer, lembre-se de que Auranos tem sido um lugar belo e próspero
há mil anos. E continuará assim. Haja o que houver.
— O que vai acontecer? — ela perguntou em voz baixa.
A expressão dele permaneceu tensa.
— Quando tudo isso terminar, as coisas vão mudar. Agora vejo como estava fechando os olhos para os problemas que aconteciam ao redor das fronteiras de meu próprio reino. Se eu prestasse mais atenção, nada disso teria acontecido. Não repetirei os mesmos erros do passado. Auranos continuará sendo uma força poderosa e dominante, mas seremos mais bondosos e benevolentes com nossos vizinhos.
As palavras dele não funcionaram para garantir a ela que tudo ficaria bem.
— A batalha vai começar logo?
Ele apertou as mãos dela.
— Já começou.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!