15 de julho de 2018

Capítulo 30

Gansey não respirou.
Em um primeiro momento, ele não achou que realmente fosse um inseto. No escuro, nessa proximidade, ele o estava imaginando. Mas então sentiu o inseto se acomodar na palma da mão.
Familiar. Pernas finas dando apoio a um corpo mais vasto.
— Richard Man — disse Henry.
Gansey não respirou.
Ele não podia tirar a mão dali: era uma jogada perdida que ele já havia tentado antes. Então, terrivelmente, o inseto zuniu uma vez, sem levantar voo. Era um ruído que havia muito tempo Gansey parara de interpretar como tal. Era uma arma. Uma crise na qual aquele que recuasse primeiro morria primeiro.
— Dick.
Gansey não respirou.
Na realidade, a chance de ser picado por um inseto era incrivelmente baixa. Pense nisso, Gansey havia dito para um amigo preocupado da família enquanto os dois conversavam na rua com insetos brilhando no anoitecer. Quando foi a última vez que você foi picado? Ele não conseguia processar por que Henry havia feito isso. Ele não sabia dizer o que ele deveria estar pensando. Será que ele estava pensando em tudo o que aconteceu com ele? Toda a parte boa e a ruim também? Porque, se fosse isso, o gravador estava travado, tocando apenas esse momento.
— Gansey — disse Henry. — Respire.
Luzes minúsculas moviam-se no canto da visão de Gansey. Ele estava respirando, só que não o suficiente. Ele não podia arriscar se mover.
Henry tocou o dorso da mão de Gansey, e então tapou a mão de Gansey com a sua. O inseto ficou preso contra as mãos de Gansey e Henry, dentro de um globo de dedos.
— Eis o que aprendi — disse Henry. — Se você não consegue não ter medo...
Havia um lugar onde o terror terminava e se tornava nada. Mas hoje, nesse buraco, com um inseto na sua pele, com uma promessa de que ele morreria logo, o nada jamais veio.
Henry terminou:
— ... tenha medo seja feliz. Pense na sua noivinha, Gansey, e nos momentos divertidos que passamos ontem à noite. Pense no que você tem medo. Aquele peso que diz para você que é uma abelha? Ele precisa ser algo que te mata? Não. É apenas uma coisinha. Poderia ser qualquer coisa. Poderia ser algo bonito em vez disso.
Gansey não conseguia mais segurar a respiração; ele tinha de desmaiar ou respirar direito. Então soltou um fluxo áspero de ar sem valor e sugou outro de volta. O escuro tornou-se apenas o escuro novamente; as luzes dançantes tinham desaparecido. Seu coração ainda fazia uma algazarra em seu peito, mas estava desacelerando.
— Aqui está — disse Henry, como havia dito no Dia do Corvo. — É uma coisa terrível ver outra pessoa assustada, não é?
— O que tem na minha mão?
— Um segredo. Vou confiar a você esse segredo — disse Henry. Agora ele soava um pouco indeciso. — Porque eu quero que você confie em mim. Mas para que isso aconteça, se for para nos tornarmos amigos, você precisa saber da verdade.
Henry respirou fundo, então tirou a mão de cima da palma de Gansey para revelar uma abelha enorme.
Gansey mal teve tempo de reagir quando Henry tocou seus dedos de novo.
— Calma, sr. Gansey. Olhe de novo.
Agora que Gansey havia se acalmado, ele podia ver que não se tratava de maneira alguma de uma abelha comum; era um belo inseto robótico. Belo talvez não fosse a melhor palavra, mas Gansey não conseguia pensar em outra. As asas, antenas e pernas eram feitas de metal, com juntas articuladas perfeitas e asas de arame finas, mas era tão delicado e elegantemente colorido quanto uma pétala de flor em qualquer outra parte. Ele não estava vivo, mas parecia vital. Ele podia vê-lo na escuridão, pois tinha um coração minúsculo que emitia um brilho âmbar.
Gansey sabia que a família de Henry estava no negócio de abelhas robóticas, mas ele não havia pensado nisso quando ele considerara abelhas robóticas. Ele tinha praticamente certeza de que já vira imagens de abelhas robóticas, e, embora elas fossem exemplares impressionantes de nanorrobótica, elas não eram nem um pouco parecidas com abelhas de verdade, tendo mais em comum com helicópteros minúsculos do que com insetos vivos. A abelha de Henry, no entanto, era temerosa e incrivelmente construída. Ela o fazia lembrar-se tão fortemente dos objetos de sonho de Ronan que era difícil se livrar da ideia, uma vez que ela lhe tivesse ocorrido.
Henry tirou subitamente o telefone do bolso. Digitando rapidamente, abriu uma tela coberta por um arco-íris que de certa forma era tão difícil de olhar quanto a abelha robótica.
— A AbelhaRobô usa esse aplicativo para fazer a interface com o ChengFone. Ela reconhece a sua digital, então veja bem, eu pressiono meu dedo aqui e digo a ela o que eu quero encontrar... AbelhaRobô, encontre cabelo volumoso!... E olhe, lá vai ela.
Gansey se sobressaltou violentamente enquanto a abelha levantava voo com o mesmo ruído que antes, erguendo-se no ar e alinhando-se sobre o seu cabelo. O peso dela ali era pior ainda do que tê-la em sua palma. Rigidamente, ele disse:
— Você poderia tirar isso daqui? Ela me deixa muito desconfortável.
Henry pressionou o dedo contra a tela novamente, e a abelha levantou voo de novo, zunindo até o seu ombro.
— Você não falou nada dessa vez — disse Gansey.
— Não, não preciso dizer nada. Ela lê meus pensamentos através da minha digital — disse Henry. Ele não tirou os olhos da tela enquanto dizia isso, mas Gansey podia ver na luz que ele avaliava a sua reação. — Então eu apenas digo a ela o que fazer e... whoosh!... lá vai ela, obrigado, obrigado, abelhinha.
Henry estendeu a mão e a abelha zumbiu até ela como uma floração móvel; a luz se apagou. Ele a enfiou de volta no bolso. Era impossível, é claro, e Henry estava esperando que Gansey dissesse que era impossível. Essa era a razão por que era um segredo: ela não podia existir.
A rede caiu ao redor de Gansey; ele a sentiu.
— Os seus pais fazem abelhas robóticas — ele começou cuidadosamente.
— Meu pai. A empresa do meu pai, sim.
Havia uma linha traçada aqui, embora Gansey não a compreendesse.
— E ela produz abelhas como esta.
Gansey não se esforçou para soar como se acreditasse nisso.
— Gansey Boy, acho que temos de decidir se podemos confiar um no outro ou não — disse Henry. — Acho que esse é o momento em nossa amizade recente.
Gansey considerou suas palavras.
— Mas acreditar em uma pessoa e confiar em alguém não é a mesma coisa.
Henry riu de maneira aprovadora.
— Não. Mas já acreditei e já confiei em você. Mantive o segredo a respeito do que você tinha no porta-malas do seu Suburban e de como Adam Parrish não morreu por causa daquelas telhas. Isso é acreditar em alguém. E confiei em você: eu lhe mostrei a AbelhaRobô.
Tudo isso era verdade. Mas Gansey conhecia gente suficiente com segredos que não se deixavam deslumbrar em usá-los facilmente como moeda. E muito do que Gansey vivia colocava a vida de outras pessoas em risco, não somente a sua. Isso era muita confiança para uma festa de toga e um buraco no chão. Ele disse:
— Existe um princípio psicológico que os vendedores de carros usam. Eles compram uma Coca-Cola de uma máquina automática para você com o seu próprio dinheiro, e então você se sente obrigado a comprar um carro deles.
Havia humor na voz de Henry.
— Você está dizendo que os seus segredos estão para os meus segredos como um automóvel está para um refrigerante carbonado?
Agora havia humor na voz de Gansey.
— A empresa do seu pai não produziu aquela abelha, não é?
— Não.
Era melhor terminar com isso de uma vez.
— O que você quer que eu diga? A palavra mágica?
— Você já viu mágica como a minha AbelhaRobô antes — disse Henry. — Não é o mesmo tipo de mágica que observar Parrish desviar uma tonelada de ardósia. Onde você viu esse tipo de mágica?
Gansey não podia responder.
— Não se trata de um segredo meu.
— Vou lhe poupar a agonia — disse Henry. — Eu sei. Declan Lynch. Ele vendeu duas dessas para a minha mãe.
Isso era tão inesperado que Gansey se sentiu grato por eles estarem na escuridão absoluta novamente; ele tinha certeza de que o choque se revelara em seu rosto. E lutou para digerir essa informação. Declan — então essa abelha era uma criação de Niall. Se a mãe de Henry era uma cliente, isso queria dizer que Declan estava vendendo para pessoas na escola? Certamente Declan não era tão estúpido.
— Como a sua mãe sabia como comprar essas abelhas? Você contou para ela?
— Você entendeu a situação de trás para frente. Ela não sabe por que eu estou aqui. Eu estou aqui porque ela sabe. Você não percebe? Eu sou a desculpa dela. Ela me visita. Compra algo de Declan Lynch. Volta para casa. Sem que ninguém perceba. Ah! Eu queria dizer isso em voz alta por dois anos. Segredos apodrecem.
— A sua mãe mandou você para Aglionby só para que ela pudesse ter cobertura para fazer negócios com Declan? — perguntou Gansey.
— Artefatos mágicos, cara. Um grande negócio. Um negócio assustador. Uma boa maneira de ter os seus joelhos estourados. Ou ser morto como o nosso amigo Kavinsky.
Gansey se sufocava com tantas revelações.
— Ela negociava com ele?
— De jeito nenhum. Ele apenas vendia drogas, mas ela disse que eram mágicas, também. E vamos lá. Você estava na festa da Independência esse ano. Explique os dragões.
— Não posso — disse Gansey. — Nós dois sabemos.
— Sim, sabemos — disse Henry, satisfeito. — Uma vez ele quase matou o Cheng Dois apenas para se divertir. Ele era terrível.
Gansey se recostou contra a parede empoeirada.
— Você está caindo? Você está bem? Achei que estávamos conversando.
Eles estavam conversando, apenas não como Gansey havia antecipado. Ele havia falado com um número suficiente de pessoas estranhas em sua busca por Glendower. De muitas maneiras, suas viagens não eram definidas por cidades ou países pelos quais ele havia passado, mas por pessoas e fenômenos. A diferença era que Gansey tinha ido atrás dessas pessoas e fenômenos. Eles jamais tinham vindo atrás dele. Gansey jamais encontrara alguém realmente como ele mesmo, e, embora Henry estivesse longe de ser seu irmão gêmeo, ele era o mais próximo que Gansey havia encontrado disso.
Ele não havia percebido a solidão dessa crença até ela ser testada. E perguntou:
— Existem outras pessoas mágicas em Aglionby sobre as quais eu deva saber?
— Tirando as que andam com você? Ninguém que eu saiba. Faz um ano que tento sacar o seu número.
— Está no diretório estudantil.
— Não, seu idiota. Idiomaticamente. Sacar qual é a sua. Saber se você era um verme como o K ou não. Sacar o seu número. Quem aqui fala o inglês como segunda língua? Dica: não é você.
Gansey riu, então riu mais um pouco, sentindo como se tivesse passado por todas as emoções conhecidas pelo homem nos últimos dias.
— Eu não sou um verme — ele disse. — Sou apenas um cara procurando um rei. Você disse que a sua mãe comprou duas dessas coisas. Onde está a outra?
Henry puxou o inseto adornado para fora do bolso. Seu coração âmbar aqueceu o poço com sua luz novamente.
— Lá no laboratório, é claro, enquanto meu querido pai tenta copiá-la com partes não mágicas. Minha mãe disse para eu ficar com esta, para que eu me lembre de quem sou.
— E o que é isso?
A abelha iluminou a si mesma e a Henry: as asas translúcidas e as sobrancelhas travessamente cortadas de Henry.
— Algo mais.
Gansey olhou para ele bruscamente. Em algum lugar ao longo do caminho, durante essa caçada por Glendower, ele havia deixado de perceber quanta mágica havia no mundo. Quanta mágica que não estava simplesmente enterrada em uma tumba. Ele o sentia agora.
— Eis a questão que eu preciso te contar antes que sejamos amigos — disse Henry. — Minha mãe vende mágica. Ela me disse para observar você para descobrir os seus segredos. Não pretendo te usar agora, mas era isso que eu deveria fazer. Não comecei esse jogo em busca de um amigo.
— O que você quer que eu diga?
— Nada ainda — disse Henry. — Eu quero que você pense a respeito disso. E então espero que você escolha confiar em mim. Porque estou lotado de segredos e faminto de amigos.
Ele segurou a abelha entre eles de maneira que Gansey o olhou através do brilho do magnífico corpo do inseto. Os olhos de Henry pareciam ferozes e cheios de vida. Ele jogou a abelha para cima.
— Vamos sair deste buraco.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!