5 de julho de 2018

Capítulo 30

— Essa casa é adorável. Tantas paredes. Tantas, tantas paredes — disse Malory enquanto Blue entrava na sala de estar um pouco depois. As almofadas no sofá o consumiram, agradecidas. O Cão estava deitado obstinadamente no chão ao lado do sofá, cruzando as patas com um olhar crítico para o que via à sua volta.
Atrás da porta fechada da sala de leitura, o murmúrio da voz de Gansey cresceu brevemente antes de ser enterrado pelo de Calla. Eles estavam discutindo com Persephone, ou falando enquanto ela estava na mesma sala que eles. Era difícil dizer a diferença.
— Obrigada — disse Blue.
— Onde está aquela mulher maluca?
Blue tinha acabado de tirar todas as coisas de Neeve do colchão no sótão para que Gwenllian pudesse ficar lá. Suas mãos ainda cheiravam às ervas que Neeve usara para sua divinação e às que Jimi usara para tentar subjugar aquelas que Neeve usara para sua divinação.
— Acho que ela está lá em cima, no sótão. Você realmente acha que ela é filha de Glendower?
— Não vejo razão para não acreditar — disse Malory. — Ela está com um traje que parece da época. Não é fácil assimilar tudo isso. É uma pena que não se possa publicar sobre isso em um trabalho acadêmico. Bem, suponho que se possa, se a pessoa quiser acabar definitivamente com a própria carreira.
— Eu só gostaria que ela fosse mais direta — disse Blue. — Ela diz que foi meu pai que a amarrou e a colocou para dormir, mas ela mesma disse que nunca dormiu. Isso é impossível, não é? Como você pode estar simplesmente vivo e acordado durante seiscentos anos?
O Cão olhou para Blue de soslaio, um olhar que indicava que era assim que ele acreditava que Gwenllian havia ficado daquele jeito.
— Parece provável que também tenha sido esse Artemus quem colocou Glendower para dormir — observou Malory. — Não quero ser grosseiro, mas a ideia de que ele é seu pai torna a coisa mais improvável ainda.
— Mais ainda — ecoou Blue. Ela não tinha envolvimento emocional com qualquer uma das possibilidades: seu pai sempre fora um estranho para ela, e, se no fim das contas ele era ou não uma pessoa maluca de seiscentos anos, isso não mudava nada. Era interessante que Gwenllian tivesse sido amarrada e colocada para dormir por alguém chamado Artemus, e interessante que esse Artemus aparentemente se parecesse muito com Blue, e interessante que Maura dissesse também que o pai de Blue se chamava Artemus, mas interessante não ia fazer com que Maura fosse encontrada.
— No entanto, quando se pensa naquela tapeçaria — disse Malory.
A velha tapeçaria do celeiro inundado. Blue a via novamente: seus três rostos, suas mãos vermelhas.
— O que se pode pensar dela?
— Não se sabe... Ela vai ficar aqui? — perguntou Malory.
— Acho que sim. Por enquanto. Ela provavelmente vai matar todas nós quando estivermos dormindo, não importa o que a Persephone diga.
— Acho que é uma atitude inteligente que ela permaneça aqui — disse Malory. — Ela pertence a este lugar.
Blue piscou para ele. Embora o professor excêntrico tivesse se tornado mais simpático aos olhos de Blue desde que ela o encontrara pela primeira vez, ela certamente não o consideraria o tipo capaz de compreender as outras pessoas o suficiente para oferecer uma reflexão interpessoal.
— Você gostaria de saber que serviço o Cão faz? — ele perguntou.
Isso não parecia ter nenhuma ligação com a sua declaração anterior, mas a curiosidade de Blue a devorava. Ela se conteve e respondeu:
— Ah... Não quero que você se sinta desconfortável.
— Eu me sinto desconfortável o tempo inteiro, Jane — disse Malory. — É para isso que o Cão serve. O Cão é um cão psiquiatra. Ele é treinado para sentir se estou ansioso, e faz algo para melhorar a situação. Como sentar ao meu lado, ou deitar em meu peito, ou colocar minha mão em sua boca.
— Você é muito ansioso?
— É uma palavra terrível, ansioso. Nos faz pensar em mãos inquietas, histeria e camisas de força. É mais que eu simplesmente não gosto de pessoas, porque as pessoas... nossa, eles estão discutindo para valer mesmo, não estão?
Isso era porque Calla gritara havia pouco na outra sala:
— NÃO ME VENHA COM ESSE OLHAR VAZIO DE ESTUDANTE ALMOFADINHA.
Blue se sentira satisfeita anteriormente por não estar envolvida na discussão séria na sala de leitura, mas agora estava reconsiderando a questão.
Malory continuou:
— Fui colocado em contato com o Cão diretamente antes desta viagem, e devo dizer que não imaginava que seria tão desafiador viajar com um canino. Não apenas foi um desafio encontrar um lugar para o Cão se aliviar, como ele ficou constantemente tentando deitar no meu peito enquanto eu estava parado naquela fila de segurança pavorosa.
O Cão não parecia arrependido.
— Não é a parte de fora das pessoas que me incomoda, mas a de dentro. Desde criança sou capaz de ver auras, ou como queira chamar. A personalidade. E se a pessoa...
— Espera, você disse que pode ver auras?
— Jane, eu não esperava que justo você fosse me julgar...
Blue estava bem familiarizada com a ideia de auras — campos de energia que cercavam todos os objetos vivos. Orla passara por um período na adolescência em que contava a todas as pessoas o que suas auras diziam a respeito delas. Ela havia contado a Blue que sua aura dizia que ela era baixinha. Ela fora uma adolescente bem difícil.
— Eu não estava julgando! — ela assegurou a Malory. — Estava esclarecendo. Isso tem a ver com o Cão porque...?
— Porque, quando as pessoas estão próximas demais de mim, a aura delas me toca, e, se auras demais me tocam, isso me confunde e faz com que eu fique como os médicos idiotamente chamam de ansioso. Médicos! Idiotas. Não sei se o Gansey já lhe contou que a minha mãe foi assassinada pelo sistema de saúde britânico...
— Ah, sim — Blue mentiu rapidamente. Ela estava muito mais interessada em ouvir como Malory via auras, o que estava firmemente em seu círculo de interesses, e muito menos interessada em ouvir sobre mortes de mães, o que estava decididamente fora de seu círculo de interesses.
— É uma história chocante — disse Malory, com alguma satisfação. Então, por causa do rosto ou da estatura de Blue, ele lhe contou a história. E terminou com: — E pude ver a aura dela lentamente desaparecer. Então é por isso que eu sei que Gwenllian pertence a um lugar como este.
Blue arrastou uma expressão de volta ao rosto.
— Espera. O quê? Perdi algo aqui.
— A aura dela é como a sua: é azul — ele disse. — A aura de uma vidente!
— É mesmo? — Ela ficaria extremamente irritada se fosse por isso que tivesse recebido seu nome; seria como chamar um cachorrinho de Peludo.
— Essa cor de aura pertence àqueles que conseguem romper o véu!
Ela decidiu que contar a ele que ela não conseguia, na realidade, romper o véu só prolongaria a conversa.
— É por isso que eu fui originariamente atraído para Gansey — continuou Malory. — Apesar de sua personalidade mercurial, ele tem uma aura muito agradável e neutra. Não sinto que esteja com outra pessoa quando estou com ele. Ele não toma nada de mim. Está um pouco mais ruidoso agora, mas não muito.
Blue tinha uma compreensão muito limitada do que significava “mercurial”, e era bem difícil tentar aplicar a Gansey essa compreensão limitada. Ela perguntou:
— Como ele era naquela época?
— Foram dias gloriosos — respondeu Malory. Então, após uma pausa, acrescentou: — Exceto quando não foram. Ele era menor naquela época.
A maneira como ele disse “menor” fez parecer que não estava falando de altura, e Blue achou que entendia o que ele queria dizer.
— Ele ainda estava tentando provar que não tinha tido nenhuma alucinação. Ainda estava bastante obcecado com o evento em si. Mas parece ter se desvencilhado disso, o que é bom para ele.
— O evento... as picadas? A morte, você quer dizer?
— Sim, Jane, a morte. Ele não pensava em outra coisa. Estava sempre desenhando abelhas, marimbondos e coisas do tipo. Tinha pesadelos em que gritava... Ele precisou arrumar um lugar só para ele, porque eu não conseguia dormir com isso, como você pode muito bem imaginar. Às vezes esses acessos aconteciam durante o dia também. Nós estávamos dando uma volta em alguma trilha em Leicestershire e no momento seguinte ele estava no chão, arranhando o rosto como um paciente psiquiátrico. Então eu o deixava, e ele seguia seu curso e ficava bem, como se nada tivesse acontecido.
— Que terrível — sussurrou Blue, imaginando aquele sorriso fácil que Gansey aprendera a lançar sobre seu rosto verdadeiro. Envergonhada, ela lembrou que se perguntara um dia o que teria feito um garoto como ele, um garoto que tinha tudo, aprender uma habilidade dessas. Que injusta fora ao presumir que amor e dinheiro tornariam impossível sentir a dor e a dureza da vida. Ela pensou na discussão deles no carro na noite anterior com alguma culpa.
Malory não pareceu ouvi-la.
— Mas que pesquisador. Que faro aguçado para mistérios. Você não treina uma coisa assim! Você já nasce com essa capacidade.
Blue ouviu a voz de Gansey na caverna, rouca e repleta de medo: Marimbondos.
Ela tremeu.
— É claro, um dia ele simplesmente partiu — Malory pensou alto.
— O quê? — Blue se concentrou de repente.
— Eu não devia ter me surpreendido — disse o professor com tranquilidade. — Eu sabia que ele era um grande viajante. Mas achava que não tínhamos realmente terminado nossas pesquisas. Nós tivemos um breve desentendimento e nos reconciliamos. Mas então, uma manhã, ele simplesmente partiu.
— Partiu como?
O Cão havia subido no peito de Malory e agora lambia o seu queixo. Malory não o afastou.
— Ah, partiu. Suas coisas, suas malas. Ele deixou muita coisa para trás, o que ele não precisava. Mas nunca mais voltou. Passaram-se meses até ele me ligar novamente, como se nada tivesse acontecido.
Era difícil imaginar Gansey abandonando qualquer coisa desse jeito. Ele estava rodeado de coisas às quais se apegava ferozmente.
— Ele não deixou um bilhete nem nada?
— Simplesmente partiu — disse Malory. — Depois disso, a família dele me ligou algumas vezes, tentando descobrir para onde ele tinha ido.
— A família dele? — Ela sentia como se lhe estivessem contando uma história sobre uma pessoa diferente.
— Sim, eu contei a eles o que podia, é claro. Mas eu não sabia realmente. Primeiro foi o México, antes de ele chegar até mim, então a Islândia, eu acho, antes dos Estados Unidos. Duvido que eu saiba metade da história. Ele juntava as coisas dele e simplesmente partia, assim, fácil e rápido. E fez isso muitas vezes antes de ir para a Inglaterra, Jane, já era um hábito.
Antigas conversas lentamente se realinhavam na cabeça de Blue, assumindo novas tonalidades de significados. Ela se lembrou de uma noite carregada na encosta de uma montanha, olhando para Henrietta iluminada como um vilarejo de conto de fadas. Lar, ele havia dito, como se isso lhe causasse dor. Como se ele não conseguisse acreditar no que estava vendo.
Não era exatamente que a história que Malory lhe contara havia pouco não batesse com o Gansey que ela conhecia. Era mais que o Gansey que ela via era uma verdade parcial.
— Era covardia e estupidez — disse Gansey do vão da porta, apoiando-se no batente, mãos nos bolsos, como fazia frequentemente. — Não gosto de despedidas, então simplesmente me abstive, sem pensar nas consequências.
Blue e Malory o examinaram. Era impossível dizer há quanto tempo ele estava parado ali.
— Foi muito decente da sua parte — ele continuou — não ter me dito nada sobre isso. É mais do que eu merecia. Mas saiba que me arrependi, e muito.
— Bem — disse Malory, parecendo profundamente desconfortável. O Cão desviou o olhar. — Bem. Qual é o veredito sobre a sua mulher das cavernas?
Gansey colocou uma folha de hortelã na boca; era impossível não pensar na noite anterior, quando ele havia colocado uma na dela.
— Ela fica aqui, por enquanto. Não foi ideia minha, foi da Persephone. Ofereci ajeitar o primeiro andar da Monmouth. Talvez seja isso que vai acabar acontecendo.
— Quem é ela? — perguntou Blue, testando o nome: — Gwenllian. — Ela não estava dizendo direito; a pronúncia do ll não chegava nem perto da aparência.
— Glendower teve dez filhos com a esposa, Margaret. E pelo menos quatro... não com ela. — Gansey disse essa parte com desgosto; estava claro que ele não achava isso digno de seu herói. — Gwenllian é uma dos quatro descendentes ilegítimos que sabemos. É um nome patriótico. Houve duas outras Gwenllians famosas, ligadas à liberdade galesa.
Ele pensou em dizer algo mais, mas não disse. Sinal de que era algo desagradável ou feio. Blue o impeliu:
— Fala logo, Gansey. O que é?
— A maneira como ela foi enterrada... A porta da tumba tinha a imagem de Glendower, assim como a tampa do caixão. E não a imagem dela. Podemos perguntar, embora seja bastante difícil arrancar dela uma informação verdadeira, mas me parece provável que ela tenha sido enterrada em um túmulo falso.
— Como assim?
— Às vezes, quando há um túmulo muito rico ou muito importante, eles colocam uma cópia desse túmulo em algum lugar próximo, mas mais fácil de encontrar, para despistar os ladrões.
Blue ficou escandalizada.
— Sua própria filha?
— Ilegítima — afirmou Gansey, mas se sentiu infeliz ao fazê-lo. — Você ouviu o que ela disse. Como punição por algo. É tudo tão repugnante. Estou morrendo de fome. Onde o Parr... o Adam e o Ronan foram?
— Fazer compras para Gwenllian.
Ele olhou para seu enorme e belo relógio com um franzir de cenho enorme e perplexo.
— Faz tempo?
Ela fez uma careta.
— Um pouco.
— O que vamos fazer agora? — perguntou Gansey.
Da outra sala, Calla berrou:
— VÁ COMPRAR UMA PIZZA PARA A GENTE. COM QUEIJO EXTRA, RIQUINHO.
— Acho que ela está começando a gostar de você — disse Blue.

2 comentários:

  1. O Malory tem a mesma criatividade que eu pra nomes. Meu gato se chama Gato e eu chamo as gatinhas que eu alimento na rua as vezes de Gatinha (sim, as duas).
    E é muito difícil pensar no Gansey fugindo desse jeito, abandonando tão facilmente (sério, esse garoto parece que tem personalidades múltiplas)

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  2. Muito legal como a autora abordou a questão do Malory e seu cão.

    j.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!