4 de julho de 2018

Capítulo 3

— Mapear até o fundo — disse Blue — para ver até onde ele vai.
— Até onde o quê vai? — demandou Gansey. Ele repetiu as palavras dela, mas elas continuavam sem fazer sentido. — Lynch, baixe o volume.
Já fazia vários dias desde a incursão deles à caverna dos corvos, e agora estavam a caminho do aeroporto para buscar o dr. Roger Malory, especialista internacional na linha ley e mentor de Gansey já avançado em anos. Ronan estava largado no assento do passageiro. Adam, emborcado contra uma janela no banco de trás, a boca entreaberta no sono inconsciente dos exaustos. Blue estava sentada atrás de Gansey, agarrando o encosto de cabeça dele, em um esforço para ser ouvida.
— Esse carro — ela se desesperou.
Gansey sabia que seu enorme e confiável Suburban teria sido uma escolha mais lógica para a viagem, mas ele queria que o velho Camaro fosse a primeira coisa que o professor visse, não o SUV novo e caro. O Camaro era um resumo da pessoa que ele havia se tornado, e ele queria, mais do que qualquer coisa, que Malory sentisse que aquela pessoa valera a viagem.
O professor não viajava de avião, mas havia viajado cinco mil quilômetros para vê-lo. Gansey não conseguia imaginar como retribuir tal gentileza, especialmente considerando as circunstâncias sob as quais ele havia deixado a Inglaterra.
— Eu disse que talvez a gente deva descer com cordas naquele poço que você achou de maneira tão prestimosa. — A voz de Blue brigava com o motor e a música eletrônica ainda alta demais de Ronan. Parecia impossível que Adam conseguisse dormir com todo aquele barulho.
— Eu simplesmente não... Ronan. Meus ouvidos estão sangrando!
Ronan baixou o volume, e Gansey recomeçou:
— Eu simplesmente não consigo imaginar por que os homens de Glendower se dariam o trabalho de baixá-lo naquele buraco. Simplesmente não consigo, Jane.
Só pensar no poço já fazia com que um veneno de há muito zunisse e queimasse em sua garganta; sem nenhum esforço, ele exorcizou a imagem de insetos desavisados andando a esmo sobre a pele fina entre seus dedos.
Ele havia quase esquecido quão aterrorizante e constrangedor era reviver o momento.
Olhos na estrada, Gansey.
— Talvez seja um buraco recente — ela sugeriu. — O teto caído de uma caverna mais baixa.
— Se isso for verdade, nós teríamos que atravessar o buraco, não entrar nele. O Ronan e eu teríamos que escalar as paredes como aranhas. A não ser que você e o Adam tenham experiência em escaladas que eu não saiba.
Do lado de fora do carro, Washington, D.C. se aproximava furtivamente; o céu de um azul profundo ficava menor. A autoestrada cada vez mais larga produzia barreiras de proteção, semáforos, BMWs, táxis de aeroporto. No espelho retrovisor, Gansey viu um canto do rosto de Blue.
Seu olhar atento se prendeu a algo na rua, rápido, e ela esticou o pescoço para olhar para fora da janela, como se fosse outro país.
E de certa maneira era. Como sempre, Gansey era um expatriado que retornava relutantemente. Ele sentiu uma pontada, uma vontade de correr, e isso o surpreendeu. Fazia muito tempo.
— O Ronan podia sonhar uma ponte para a gente — disse Blue.
Ronan fez um ruído de glorioso desdém.
— Não faça simplesmente esse barulho! Só me diz por que não. Você é uma criatura mágica. Por que não pode fazer magia?
Com uma precisão acidífera, Ronan respondeu:
— Pra começo de conversa, eu teria que dormir perto do poço, porque preciso tocar em alguma coisa para tirar essa coisa de um sonho. E teria que saber o que tem do outro lado para ter uma ideia de que tipo de ponte fazer. E aí, mesmo se eu conseguisse tudo isso, se eu conseguisse tirar algo tão grande do meu sonho, isso drenaria a linha ley, possivelmente fazendo com que Cabeswater desaparecesse de novo, dessa vez com a gente dentro, mandando todos nós para alguma terra do nunca, de onde talvez jamais conseguíssemos escapar. Achei que, depois dos acontecimentos deste verão, tudo isso estaria absolutamente claro, por isso resumi a questão dessa maneira... — Ronan repetiu o ruído de glorioso desdém.
— Obrigada pelas sugestões alternativas superproveitosas, Ronan Lynch. Sua contribuição no fim do mundo será devidamente computada — disse Blue, voltando a atenção novamente para Gansey e prosseguindo: — Bom, então o quê? Deve ser importante, ou Cabeswater não teria nos mostrado.
Isso presume que as prioridades de Cabeswater sejam as mesmas que as nossas, pensou Gansey. Em voz alta, ele disse:
— Vamos encontrar outra maneira de entrar na caverna. Uma maneira que nos leve para o outro lado daquele buraco. Tendo em vista que não se trata de uma caverna normal, mas absolutamente ligada à linha ley, o Malory pode nos ajudar.
Ele não conseguia acreditar que Malory estivesse realmente ali. Ele tinha passado quase um ano com o professor, o maior tempo que já ficara em qualquer lugar, e havia começado a parecer que nunca existiria um dia em que ele não estivesse buscando. Agora ele olhava para um túmulo cada vez mais estreito, e em algum lugar naquela vasta escuridão estavam Glendower e o fim.
Gansey se sentiu despreparado; o tempo avançava em ritmo rápido, nervoso.
No espelho retrovisor, ele cruzou com os olhos de Blue por acidente. De maneira bastante estranha, viu seus próprios pensamentos refletidos no rosto dela: excitamento e consternação. Casualmente, fora da vista de Ronan, verificando que Adam ainda estava dormindo, Gansey deixou a mão pender entre o assento do motorista e a porta. Com a palma para cima, os dedos esticados na direção de Blue.
Isso não era permitido.
Ele sabia que não era permitido, por regras que ele mesmo havia estabelecido. Gansey não se permitiria brincar de favoritismo entre Adam e Ronan; ele e Blue não podiam brincar de favoritismo dessa maneira, também. Ela não veria o gesto, de qualquer forma. E o ignoraria se visse. O coração de Gansey batia rápido.
Blue tocou a ponta dos dedos dele.
Apenas isso...
Ele apertou ligeiramente os dedos dela, apenas por um momento, então tirou a mão e a colocou de volta na direção. Seu peito estava aquecido.
Isso não era permitido.
Ronan não tinha visto; Adam ainda estava dormindo. A única vítima era seu pulso.
— A sua saída, idiota! — disparou Ronan.
Gansey virou apressadamente. Adam piscou, desperto. Ronan falou um palavrão. O coração de Gansey retomou os batimentos.
Olhos na estrada, Gansey.
No aeroporto, o professor não estava esperando na área de desembarque, como combinado, tampouco atendeu o telefone. Eles finalmente o encontraram sentado ao lado da esteira de bagagem, próximo de um grupo de pessoas tagarelando, uma torre de malas e um cão de serviço com uma aparência irritável. Ele parecia precisamente como Gansey se lembrava. Havia algo de tartaruga em sua fisionomia, e ele tinha não apenas um queixo, mas outro esperando na fila atrás. O nariz e as orelhas pareciam estranhamente feitos de borracha. As bolsas redondas abaixo dos olhos espelhavam perfeitamente as linhas arredondadas das sobrancelhas. Sua expressão era perplexa.
— Sr. Malory! — disse Gansey alegremente.
— Ah, meu Deus — disse Ronan baixinho. — Ele é tão velho.
Adam socou Ronan, poupando a Gansey o incômodo.
— Gansey — disse Malory, apertando-lhe a mão. — Que alívio.
— Sinto muito por deixar você esperando... Eu liguei!
— Esse maldito celular. A bateria dessas coisas é uma droga. É como uma conspiração para nos vender algo. Medicação para pressão sanguínea, possivelmente. Os aviões são sempre assim? Tão cheios de gente?
— Acho que sim — disse Gansey. De canto de olho, notou que Adam estava observando Malory de maneira não inteiramente típica de Adam, a cabeça inclinada, uma concentração pensativa nos olhos. Desconcertado, Gansey se apressou. — Vamos às apresentações. Estes são meus amigos: Ronan, Adam Parrish e Jane.
A expressão de Adam se focou. Tornou-se típica de Adam. Ele piscou para Gansey.
— Blue — ela corrigiu.
— Ah, sim, você é azul — concordou Malory. — Como você é perceptiva. Como era o nome? Jane? É a senhorita com quem falei ao telefone todos aqueles meses atrás, certo? Como ela é pequena. Já parou de crescer?
— O quê? — disse Blue.
Gansey sentiu que era o momento de tirar Malory do terminal.
— Qual dessas é a sua mala?
— Todas elas — disse Malory tragicamente.
Ronan estava tentando o seu melhor para capturar significativamente o olhar de Gansey, mas este não permitia. Os adolescentes pegaram as malas.
O cão de serviço se levantou.
Blue, amiga de todos caninos, disse:
— Alto lá, amigão. Você fica aqui.
— Ah, não — protestou Malory. — O Cão é meu.
Eles olharam para o Cão. Ele usava um colete azul bacana que alertava para sua utilidade sem fornecer mais detalhes.
— Tudo bem — disse Gansey.
Ele evitou mais um olhar significativo de Ronan. No meio-fio, lá fora, todos pararam para Malory remover o colete do Cão e então o observaram se aliviar na placa dos carros de aluguel.
— Para que serve o Cão? — perguntou Ronan.
A boca de tartaruga de Malory ficou bem pequena.
— Ele é um animal de serviço.
— Que tipo de serviço ele presta?
— Dispensar você — respondeu Malory.
Gansey evitou um terceiro olhar significativo tanto de Adam quanto de Malory.
Eles chegaram ao carro, que não havia aumentado de tamanho desde que entraram no terminal. Gansey não gostava de confrontar as consequências de sua insensatez tão diretamente.
Senhoras e senhores, meu truque para vocês hoje será pegar este Camaro 1973...
Gansey tirou o estepe do porta-malas e o abandonou ao lado de um poste de luz. O preço da visita de Malory.
... e acomodar cinco pessoas, um cachorro e um monte de bagagem dentro.
Após realizar esse truque de mágica, ele afundou no assento do motorista. O Cão respirava, ofegante e ansiosamente. Gansey sabia como era isso.
— Posso fazer um carinho nela? Nele? — perguntou Blue.
— Sim — respondeu Malory. — Mas ele não vai gostar. Ele é muito tenso.
Gansey permitiu que Blue trocasse um olhar significativo com ele no espelho retrovisor quando eles voltaram para a autoestrada.
— A comida no avião estava horrorosa; impressionante que a equipe não tenha morrido com úlceras hemorrágicas — disse Malory, batendo no braço de Gansey tão subitamente que tanto Gansey quanto o Cão deram um salto, surpresos. — Você sabe alguma coisa sobre a tapeçaria que foi perdida para os ingleses em Mawddwy?
— Tapeçaria? Ah. Ah. Tinha mulheres com mãos vermelhas nela? Achei que eles tinham decidido que era uma bandeira — disse Gansey.
— Sim, sim, essa mesma. Você é bom!
Gansey achou que ele não era melhor do que se poderia esperar depois de sete anos de estudos com um propósito praticamente único, mas apreciava o sentimento. Ele levantou a voz a fim de incluir o banco de trás na conversa.
— Na realidade é muito interessante. Os ingleses perseguiram alguns dos homens de Glendower, e, embora eles tenham escapado, os ingleses ficaram com essa tapeçaria antiga. Ou bandeira, tanto faz. As mãos vermelhas são interessantes porque mãos vermelhas são associadas ao Mab Darogan, um título mítico. Ele foi dado a pessoas como o rei Artur e Llewellyn, o Grande, além, é claro, de Owain Lawgoch...
— É claro — ecoou Ronan sarcasticamente. — Owain Lawgoch, claro.
— Não seja tão babaca — murmurou Adam.
— Essa faixa termina — disse Blue.
— Termina mesmo — disse Gansey, entrando no fluxo. — De qualquer maneira, o Mab Darogan era uma espécie de “filho do destino” galês.
Malory intercedeu:
— Culpe os poetas. É mais fácil levar as pessoas à rebelião se elas acreditarem que estão ao lado de um semideus ou alguma figura escolhida. Nunca confie em um poeta. Eles...
Gansey o interrompeu:
— A bandeira foi destruída, certo? Ah, desculpe, eu não queria interromper.
— Está tudo bem — disse Malory, soando como se estivesse mais do que tudo bem. Puxar os fios da tecedura firme da história era o que eles tinham em comum. Gansey estava aliviado por perceber que a relação deles ainda estava intacta, apenas construída sobre uma fundação muito diferente do que sua relação com as pessoas no banco de trás. Enquanto um Honda passava voando por eles, seus ocupantes mostrando o dedo do meio para Gansey, o professor continuou: — Acreditou-se realmente que ela havia sido destruída. Na realidade, utilizada para um novo fim. Skidmore escreveu que ela foi usada para fazer camisolas de dormir para Henrique IV, embora eu não tenha conseguido encontrar essas fontes.
— Camisolas de dormir! — repetiu Blue. — Por que camisolas de dormir?
— Para máxima ignomínia — disse Gansey.
— Ninguém sabe o que ignomínia significa, Gansey — Adam murmurou.
— Desonra — ofereceu Malory. — Destruição da dignidade. De maneira muito parecida com viajar de avião. Mas a tapeçaria foi na realidade descoberta pouco tempo atrás, na semana passada.
— Está brincando! — Gansey se virou abruptamente.
— Está em péssimo estado... Tecidos não se preservam muito bem, como você sabe. E levou uma eternidade para eles determinarem do que se tratava. Agora, agora, pegue esta saída, Gansey, para que eu possa lhe mostrar uma coisa. Por um curioso acidente, a tapeçaria foi encontrada debaixo de um celeiro em Kirtling. A enchente abriu um caminho profundo através da camada superior do solo, o que revelou a ponta de uma fundação mais antiga. Metros e metros de terra foram deslocados.
— Toda essa água não destruiu a bandeira? — Adam perguntou.
O professor se virou para trás.
— Exatamente a questão! Por um truque da física, a água não encheu a fundação, mas em vez disso acabou abrindo um curso separado ligeiramente morro acima! E, em resposta à sua pergunta não feita, sim! O celeiro estava localizado sobre uma linha ley.
— Era exatamente isso que eu ia perguntar — disse Ronan.
— Ronan — disse Blue —, não seja tão babaca.
Gansey pegou um canto da risada de Adam no espelho retrovisor enquanto entrava em uma vaga de estacionamento em um posto de gasolina enlameado. Malory havia tirado uma velha câmera digital de algum lugar em sua pessoa e estava repassando as fotos.
— Agora eles estão dizendo que a enchente foi causada por uma tempestade repentina ou algo assim. Mas as pessoas que estavam lá dizem que as paredes do celeiro estavam chorando.
— Chorando! — exclamou Blue. Era impossível dizer se estava horrorizada ou encantada.
— No que você acredita? — perguntou Gansey.
Em resposta, Malory simplesmente lhe passou a câmera. Gansey olhou para o visor.
— Ah — ele disse.
A foto mostrava um tecido bastante degradado pintado com três mulheres, cada uma em um robe simples de uma época bem anterior a Glendower. Elas estavam paradas em poses idênticas, as mãos erguidas de cada lado da cabeça, as palmas em um tom vermelho-sangue, anunciando o Mab Darogan.
Cada uma delas tinha o rosto de Blue Sargent.
Impossível.
Mas não. Nada era impossível ultimamente. Ele aumentou o zoom da foto para ver melhor. Os olhos grandes de Blue olhavam de volta para ele.
Estilizados, sim, mas mesmo assim a semelhança era extraordinária: as sobrancelhas dúbias, a boca curiosa. Gansey pressionou o nó dos dedos contra os lábios enquanto marimbondos zuniam em seus ouvidos.
Ele se sentiu subitamente subjugado, como não se sentia há muito tempo, pela memória da voz em sua cabeça enquanto sua vida era salva. Você vai viver por causa de Glendower. Alguém na linha ley está morrendo quando não deveria, e assim você vai viver quando não deveria. Ele se sentia absolutamente compelido a ver Glendower em pessoa, tocar sua mão, ajoelhar-se diante dele, agradecê-lo, sê-lo.
Mãos se estenderam do banco de trás; Gansey não sabia de quem eram. Ele as deixou pegar a câmera.
Blue murmurou algo que ele não captou, e Adam sussurrou:
— Ela parece com você.
— Qual delas?
— Todas elas.
— Puta merda — disse Ronan, colocando em palavras os pensamentos de todos.
— A foto está muito próxima — disse Gansey finalmente. — A qualidade é excelente.
— Bem, é claro — respondeu Malory. — Você não compreende? Este é o celeiro ao lado da minha casa de campo. Fui eu que vi as lágrimas. Minha equipe encontrou a tapeçaria.
Gansey se esforçou para compreender o que estava ouvindo.
— Como você sabia que devia procurar ali?
— Essa é a questão, Gansey. Eu não estava procurando nada. Estava em um merecido feriado. Após o verão que tive, brigando com aquele desgraçado do meu vizinho Simmons por causa do maldito esgoto dele, eu estava precisando desesperadamente descansar. Vá por mim, minha presença em Kirtling foi coincidência.
— Coincidência — ecoou Adam, desconfiado.
O que era isso, essa coisa enorme? Gansey se sentia aceso com a expectativa e o temor. A enormidade da questão lembrava o poço negro na caverna — ele não conseguia ver o fundo, tampouco o outro lado.
— Devo dizer, Gansey — disse Malory animadamente —, que estou muito empolgado para conhecer a sua linha ley.

Um comentário:

  1. "Senhoras e senhores, meu truque para vocês hoje será pegar este Camaro 1973... e acomodar cinco pessoas, um cachorro e um monte de bagagem dentro."

    Gansey, o mágico

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Boa leitura, E SEM SPOILER!