30 de julho de 2018

Capítulo 2

PAELSIA

Jonas caiu de joelhos e olhou horrorizado para a adaga ornada que saía da garganta de Tomas.
Tomas mexia a mão, como se tentasse tirá-la, mas não conseguia. Tremendo, Jonas segurou na empunhadura. Foi necessário força para tirá-la. Depois ele pôs a outra mão sobre o ferimento. O sangue quente e vermelho jorrava por entre seus dedos.
Felicia gritou atrás dele.
— Tomas, não! Por favor!
A vida desaparecia dos olhos de Tomas junto com cada batimento desacelerado de seu coração.
Os pensamentos de Jonas eram confusos e indistintos. Parecia que o tempo havia paralisado, enquanto a vida de seu irmão se esvaía.
Um casamento. Haveria um casamento naquele dia. O casamento de Felicia. Ela havia concordado em se casar com um amigo dos irmãos, Paulo. De brincadeira, eles haviam dificultado as coisas para ele quando o noivado fora anunciado, um mês antes. Mas logo o receberam na família de braços abertos.
Uma grande festa estava planejada, algo que o pobre vilarejo não veria de novo por um bom tempo. Comida, bebida… e várias amigas bonitas de Felicia para ajudar os irmãos Agallon a esquecer os problemas que enfrentavam diariamente para sustentar a família em uma região moribunda como Paelsia. Os irmãos eram melhores amigos — e imbatíveis em tudo o que faziam juntos.
Até aquele momento.
O pânico encheu o peito de Jonas e ele olhou desesperado para o enxame de pessoas em busca de alguém que pudesse ajudar.
— Não há nada que possa ser feito? Tem algum curandeiro aqui?
Suas mãos estavam escorregadias com o sangue de Tomas. O corpo de seu irmão convulsionou e ele fez um som repugnante enquanto mais sangue jorrava de sua boca.
— Não entendo… — A voz de Jonas falhou. Felicia agarrou seu braço. Os lamentos de pânico da moça eram ensurdecedores. — Aconteceu tão rápido. Por quê? Por que isso aconteceu?
O pai estava parado ao lado, impotente. Seu rosto estava triste, porém severo.
— É o destino, filho.
— Destino? — Jonas esbravejou, cheio de cólera. — Isso não é destino! Isso não deveria acontecer. Isso… isso foi feito pelas mãos de um nobre auraniano que acha que somos a poeira em que pisa.
Paelsia esteve em declínio constante durante gerações, com a terra enfraquecendo lentamente enquanto os vizinhos continuavam a viver com luxo e excessos, negando-lhes ajuda, recusando-lhes até o direito de caçar em suas terras abundantes, sendo que fora deles a culpa por Paelsia não ter recursos suficientes para alimentar seu povo. Fora o inverno mais rigoroso de que se teve registro. Os dias eram toleráveis, mas as noites eram geladas entre as finas paredes dos casebres. Dezenas de pessoas, pelo menos, morreram de fome ou congeladas em suas casinhas.
Ninguém morria de fome ou por exposição às intempéries em Auranos. A desigualdade sempre havia enojado Jonas e Tomas. Eles odiavam auranianos — em especial a realeza. Mas se tratava de um ódio sem nome e sem forma. Uma aversão aleatória e generalizada por um povo com que Jonas nunca tivera contato antes.
Agora seu ódio tinha substância. Agora tinha nome.
Ele olhou fixamente para o rosto de seu irmão mais velho. A pele morena e os lábios de Tomas estavam cobertos de sangue. Os olhos de Jonas ardiam, mas ele se forçou a não chorar. Tomas precisava vê-lo forte naquele momento. Ele sempre insistira para que o irmão mais novo fosse forte. Mesmo sendo apenas quatro anos mais velho, era assim que ele havia criado Jonas desde a morte da mãe, dez anos antes.
Tomas havia ensinado tudo o que ele sabia — caçar, xingar, como se comportar diante das garotas. Juntos sustentavam a família. Já tinham roubado, invadido propriedades… feito o que fora preciso para sobreviver enquanto outros moradores da vila iam à ruína.
— Se quiser algo — Tomas sempre dizia —, precisa ir atrás. Porque não vai cair do céu em suas mãos. Lembre-se disso, irmão.
Jonas se lembrava. Ele sempre se lembraria.
Tomas havia parado de se contorcer e o sangue — tanto sangue — não escorria mais tão rapidamente pelas mãos de Jonas.
Havia algo nos olhos de Tomas, além da dor. Era revolta.
Não só pela injustiça de sua morte nas mãos de um lorde auraniano. Não… também pela injustiça de uma vida de lutas diárias — para comer, respirar, sobreviver. E como tudo tinha acabado daquele jeito?
Um século antes o chefe paelsiano da época havia ido aos soberanos de Limeros e Auranos, terras fronteiriças ao norte e ao sul, para pedir ajuda. Limeros negou auxílio, dizendo que já tinham muito o que enfrentar para restabelecer o próprio povo depois de uma guerra recém-terminada com Auranos. A próspera Auranos, no entanto, chegara a um acordo com Paelsia. Eles subsidiariam a plantação de vinhedos em toda a terra fértil de Paelsia — área que poderia ter sido usada para plantação de alimentos para o povo e os animais. Em vez disso, prometeram importar o vinho paelsiano a preços favoráveis, o que, por sua vez, permitiria a Paelsia importar safras de alimentos auranianos a preços também favoráveis. Aquilo ajudaria a economia dos dois países, afirmou o então rei de Auranos. E o ingênuo chefe paelsiano aceitou o acordo.
Mas o negócio tinha prazo para acabar. Depois de cinquenta anos os preços estabelecidos sobre as importações e exportações expirariam. E expiraram. Agora os paelsianos não tinham mais condições de importar alimentos auranianos — ainda mais com a queda do preço dos vinhos, já que Auranos era seu único comprador e podia estabelecer o valor sem piedade, o que fizeram, diminuindo sempre mais. Paelsia não tinha navios para exportar a outros reinos além do Mar Prateado, e a austera Limeros, ao norte, adorava uma deusa que condenava a embriaguez. O resto da terra continuou a morrer lentamente, durante décadas. E tudo o que os paelsianos podiam fazer era assistir à própria decadência.
O som do choro da irmã naquele que deveria ser o dia mais feliz de sua vida partiu o coração de Jonas.
— Lute — Jonas sussurrou no ouvido do irmão. — Lute por mim. Lute por sua vida.
“Não”, parecia dizer Tomas quando o resto de luz desapareceu de seus olhos. Ele não podia falar. Sua laringe havia sido cortada pela lâmina auraniana. “Lute por Paelsia. Por todos nós. Não deixe que isso seja o fim. Não os deixe ganhar.”
Jonas se esforçou para não deixar escapar o choro que habitava o fundo de seu peito, mas não conseguiu. Ele chorou, produzindo um som estranho a seus próprios ouvidos. E uma fúria obscura e inesgotável tomou conta dele, ocupando o espaço onde o sofrimento havia aberto um profundo buraco negro.
Lorde Aron Lagaris pagaria por aquilo.
E a garota de cabelos claros — a princesa Cleiona. Ela ficou parada com um sorriso frio e satisfeito no belo rosto enquanto via seu amigo assassinar Tomas.
— Juro que vingarei sua morte, Tomas — Jonas conseguiu dizer por entre os dentes cerrados. — Isso é apenas o começo.
Seu pai tocou seu ombro e Jonas se contraiu.
— Ele se foi, meu filho.
Jonas afastou a mão trêmula e cheia de sangue da garganta retalhada do irmão. Estava fazendo promessas a alguém cujo espírito já havia partido. Apenas o corpo de Tomas estava ali. O rapaz olhou para o céu azul sobre o mercado e deixou um pungente grito de sofrimento escapar de sua garganta. Um falcão dourado, que estava empoleirado na banca de vinhos de seu pai, voou sobre eles.

6 comentários:

  1. mas que homem mais despresivél é esse aron
    nao! a cleiona nao tem nada a ver com isso
    ta bom que ela poderia ter mandado seu guarda impedir aquilo mas pô ela ficou perdidona lá sem saber o que fazer
    NAO tenha como ela saber que ia terminar assim
    ASS:Janielii

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  2. Dяεรรค✇Բяiĉkye19 de outubro de 2018 19:56

    Que raiva do Aron, ele merece pagar pelo que fez, mas acho que a princesa nao merece essa raiva toda de Jonas neh, pq tipo, pelo que entendi ela é inocente demais, n teve culpa, ate pq Aron aprenta ser um garoto mimado demais.. só q nossa, oq ele fez nem eu perdoaria '-'

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  3. Cara essa Cléo é muito fresca sem personalidade deve ser uma vitimista

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  4. E a garota de cabelos claros — a princesa Cleiona. Ela ficou parada com um sorriso frio e satisfeito no belo rosto enquanto via seu amigo assassinar Tomas.
    Mano que princesa boba! Sem personalidade. Ela poderia mandar o Theon evitar isso. Fora isso, aparenta ser um bom livro.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!