15 de julho de 2018

Capítulo 2

— Onde foi que o Ronan se meteu? — perguntou Gansey, ecoando as palavras que milhares de pessoas haviam pronunciado desde que a humanidade desenvolvera a fala. Enquanto saía do prédio de ciências, ele inclinou a cabeça para trás, como se Ronan Lynch — sonhador de sonhos, lutador de homens, gazeador de aulas — pudesse, de alguma forma, estar voando lá em cima. Mas não estava. Havia apenas um avião traçando silenciosamente o azul profundo acima do campus da Aglionby. Do outro lado da cerca de ferro, a cidade de Henrietta era uma balbúrdia de negócios vespertinos produtivos. Desse lado, os alunos da Aglionby eram uma balbúrdia de adolescentes vespertinos improdutivos.
— Ele estava na aula de tecnologia?
Adam Parrish — mágico e enigmático, estudante e versado em lógica, homem e garoto — trocou sua ambiciosamente carregada bolsa a tiracolo de ombro. Ele não via razão para Gansey acreditar que Ronan estivesse em qualquer lugar próximo ao campus. Adam estava usando toda a sua força de vontade para se concentrar em Aglionby, após a semana de cavernas mágicas e sonhadores misteriosos pela qual eles tinham acabado de passar, e Adam era o aluno mais motivado da escola.
Ronan, em contrapartida, tinha aparecido somente nas aulas de latim com certa regularidade, e agora que todos os alunos de latim tinham sido ignominiosamente desviados para uma turma extra de francês, o que restara dele?
— Estava? — repetiu Gansey.
— Achei que era uma pergunta retórica.
Gansey pareceu bravo por aproximadamente o tempo que levou para uma borboleta passar zunindo por eles na brisa outonal.
— Ele não está nem tentando.
Fazia mais de uma semana que eles tinham retirado Maura — a mãe de Blue — e Artemus — o pai de Blue? — do emaranhado de cavernas. Três dias desde que haviam colocado Roger Malory — o venerável amigo britânico de Gansey — em um avião de volta para o Reino Unido. Dois dias de volta à escola essa semana.
Zero dia de comparecimento de Ronan.
Seria um desperdício de faltas? Sim. Seria inteiramente responsabilidade de Ronan Lynch? Sim.
Atrás deles, o sino tocou ruidosamente no prédio de ciências, dois minutos após o período ter realmente terminado. Era um sino apropriado com uma corda apropriada, e deveria ser tocado apropriadamente ao final do período, por um aluno apropriado. A disparidade de dois minutos envelheceu prematuramente Adam Parrish. Ele gostava quando as pessoas sabiam como fazer seus trabalhos.
— Fale alguma coisa — disse Gansey.
— Aquele sino.
— Tudo é terrível — concordou Gansey.
Os dois amigos mudaram o caminho para atravessar o campo de esportes. Era uma dádiva esse deslocamento do prédio de ciências para o Gruber Hall, dez minutos exuberantes sorvendo ar e luz do sol entre as aulas. De modo geral, estar no campus confortava Adam; a rotina previsível o embalava. Estude pra valer. Vá às aulas. Erga a mão. Responda à pergunta. Marche em direção à formatura. Outros colegas reclamavam sobre o trabalho. Trabalho! Trabalho era a ilha para a qual Adam nadava, em um mar revolto.
E o mar estava muito revolto. Monstros se debatiam na linha ley abaixo deles. Uma floresta crescia através das mãos e dos olhos que Adam havia negociado para Cabeswater. E Gansey deveria morrer antes de abril. Esse era o oceano agitado, e Glendower, a ilha. Despertá-lo seria conseguir um favor, e esse favor seria para salvar a vida de Gansey. Esse país encantado precisava de um rei encantado.
Naquele fim de semana, Adam havia sonhado duas vezes que eles já tinham encontrado Glendower e agora o procuravam novamente. A primeira noite que ele tivera o sonho, fora um pesadelo. A segunda, um alívio.
Ele perguntou com cuidado:
— O que vamos fazer para procurar Glendower?
— A caverna Dittley — disse Gansey.
Essa resposta sobressaltou Adam. Costumeiramente, Gansey preferia uma abordagem cuidadosa, e a caverna Dittley era o oposto disso. Para começo de conversa, após terem retirado a filha de Glendower, Gwenllian, da caverna, animais estranhos haviam começado a rastejar de sua abertura de tempos em tempos. E por fim, Piper Greenmantle havia matado Jesse Dittley com um tiro, naquele mesmo local. Tudo a respeito da caverna exalava à morte, passada e futura.
— Você não acha que Gwenllian teria nos contado se ela achasse que o pai estava mais fundo na caverna, em vez de nos fazer perambular pela caverna dos ossos?
— Eu acho que Gwenllian busca satisfazer as próprias intenções — respondeu Gansey. — E eu ainda tenho que descobrir quais são elas.
— Só não acho que seja um risco razoável. Além disso, é uma cena de crime.
Se Ronan estivesse ali, ele teria dito: Tudo é cena de crime.
— Isso quer dizer que você tem ideias diferentes? — disse Gansey.
Ideias, plural? Adam teria ficado feliz em ter uma única ideia. A maneira mais promissora de realizar um avanço, uma caverna em Cabeswater, havia desmoronado durante sua última excursão, e nenhuma nova oportunidade tinha aparecido para substituí-la. Gansey havia observado que ela parecera um teste de merecimento, e Adam não conseguia deixar de concordar. Cabeswater havia lhes designado um teste, eles haviam se colocado nele e, de alguma maneira, tinham deixado a desejar. Parecera muito certo, no entanto. Ele e Ronan haviam trabalhado juntos para livrar a caverna de perigos, e então o grupo inteiro reuniu seus talentos para reviver brevemente os esqueletos de um rebanho antigo que havia levado Ronan e Blue a Maura. Todas as noites desde então, Adam repassava aquela lembrança antes de dormir. Os sonhos de Ronan, Adam se concentrando na linha ley, Blue amplificando, Gansey colocando em palavras o plano inteiro em movimento. Adam nunca se sentira tão... intrínseco antes. Eles tinham sido uma bela máquina.
Mas isso não os levara a Glendower.
— Falar mais com Artemus? — sugeriu Adam.
Gansey fez um ruído de hum. Teria sido algo pessimista de se ouvir vindo de qualquer pessoa, mas soava duplamente assim vindo dele.
— Não acho que vamos ter problema em falar com Artemus. É fazer com que ele fale de volta que estou preocupado.
— Achei que você disse que era persuasivo — disse Adam.
— A experiência não provou que esse fosse o caso.
— Gansey Boy! — gritou uma voz através dos campos. Whitman, um dos velhos companheiros da equipe de remo, ergueu três dedos como saudação. Gansey não respondeu, até que Adam tocou levemente seu ombro com as costas da mão. Gansey piscou os olhos, e então seu rosto se transformou no sorriso de Richard Campbell Gansey III. Que tesouro era aquele sorriso, transmitido através de eras de pai para filho, guardado em baús de noivas em gerações sem filhos, polido e exibido orgulhosamente sempre que uma companhia partia.
— Se liga — respondeu Gansey, seu velho sotaque sulista desenrolando-se generosamente através das vogais. — Você deixou a janela aberta!
Rindo, Whitman fechou a braguilha e se pôs ao seu lado com um passo largo. Ele e Gansey começaram a bater papo. Um momento mais tarde, dois garotos mais haviam se juntado a eles, então mais dois novamente. Eles caçoavam alegremente uns com os outros, leves, jovens e sociáveis, anúncios da vida saudável e da boa educação.
Essa era uma matéria específica que Adam nunca dominara, embora tivesse investido meses de intenso estudo. Ele havia analisado os trejeitos de Gansey, dissecado as reações dos outros garotos e catalogado padrões de diálogo. Havia observado como um gesto afável abria um leque de conversação viril, elegante como um truque de mágica. Anotara cuidadosamente a cena de bastidores: como um Gansey miserável se tornava um Gansey hospitaleiro em apenas um segundo. Mas ele jamais conseguia realizar isso na prática. Saudações calorosas gelavam sua boca. Gestos casuais tornavam-se um repúdio. Um contato firme do olhar transformava-se em uma encarada tensa.
Adam retomava a matéria a cada trimestre, mas, incrivelmente, pensou, talvez houvesse algumas habilidades que nem Adam Parrish conseguisse assimilar.
— Onde está o Parrish? — perguntou Engle.
— Está bem ali — respondeu Gansey.
— Não sei como não percebi o vento soprando da geleira — disse Engle. — Tudo bem, cara?
Era uma pergunta retórica, passível de ser respondida com um ligeiro sorriso fingido. Os garotos estavam ali por causa de Gansey. Onde estava o Parrish? Em um lugar distante demais para se escalar em um dia.
Em eras passadas, essa dinâmica teria perturbado Adam. Teria o ameaçado. Mas agora ele estava certo de seu lugar como um dos dois favoritos de Gansey, então ele simplesmente colocou as mãos nos bolsos e caminhou silenciosamente com os outros garotos.
Subitamente, Adam sentiu Gansey ficar tenso ao seu lado. Os outros ainda falavam agitadamente e riam, mas a expressão de Gansey havia ficado pensativa. Adam seguiu o seu olhar para as grandes colunas que seguravam o telhado do Gruber Hall. O diretor Child estava parado no topo da escada, com um livro didático ou algo parecido na mão. Ele era um homem esquisito, a pele tostada de sol, uma calorosa recomendação para o uso de filtros solares e chapéus de aba larga.
— Muito bem, cavalheiros — ele chamou. — Pude ouvi-los do meu gabinete. Estamos nos comportando como corvos? A aula os espera.
Toques de punhos foram trocados; um cabelo foi ajeitado; ombros se bateram. Os outros garotos se dispersaram; Gansey e Adam ficaram para trás. Child ergueu uma mão para Gansey em uma espécie de aceno antes de se enfiar nos gabinetes do Gruber Hall.
Mais uma vez, Gansey parecia bravo, e então não parecia coisa alguma. Ele retomou sua caminhada para a aula.
— O que foi aquilo? — perguntou Adam.
Gansey fingiu não ter ouvido enquanto eles subiam os degraus sobre os quais Child estivera há pouco.
— Gansey. Que história é essa?
— O quê?
— A mão. Child.
— É amigável.
Não havia nada de extraordinário em ser mais amigo de Gansey do que de Adam, mas isso não combinava com o diretor Child.
— Fala que não vai me contar, mas não me conte uma mentira.
Gansey fez um estardalhaço ao enfiar a camisa do uniforme para dentro da calça e puxar o blusão para baixo. Ele não olhou para Adam.
— Não quero brigar.
Adam deu um palpite sutil.
— Ronan.
Os olhos de Gansey desviaram-se furtivamente até ele e de volta para o blusão.
— Não acredito — disse Adam. — O quê? Não. Você não fez isso.
Ele não sabia exatamente do que estava acusando Gansey. Só sabia o que Gansey queria para
Ronan, e como Gansey conseguia as coisas.
— Não quero brigar — repetiu Gansey.
Ele estendeu o braço em direção à porta, e Adam colocou a mão sobre ela, impedindo-o.
— Olhe à sua volta. Está vendo o Ronan? Ele não se importa. Forçar comida goela abaixo não vai fazer com que fique com fome.
— Não quero brigar — repetiu Gansey.
Gansey foi salvo por um zumbido; seu telefone estava tocando. Tecnicamente eles não deveriam aceitar chamadas durante o dia na escola, mas ele tirou o telefone e virou a tela para que Adam pudesse vê-la. Duas coisas chamaram a atenção de Adam: primeiro, a chamada dizia que era da mãe de Gansey, o que provavelmente era, e segundo, o telefone dizia que eram 6h21, o que definitivamente não eram.
A postura de Adam mudou sutilmente, não mais bloqueando Gansey de entrar em Gruber, mas pressionando uma mão contra a porta, como um vigia.
Gansey colocou o telefone junto ao ouvido.
— Alô? Ah. Mãe, estou na escola. Não, o fim de semana foi ontem. Não. É claro. Não, apenas vá rápido.
Enquanto Gansey falava ao telefone, Cabeswater acenava para Adam, dando apoio à sua forma cansada, e, por apenas um minuto, ele o permitiu. Ele respirou algumas vezes sem esforço. Tudo eram folhas e água, troncos e raízes, pedras e musgo. A linha ley zunia dentro dele, moldando e decaindo com seu pulso, ou vice-versa. Adam sabia que a floresta precisava lhe contar algo, mas ele não conseguia discernir bem o que era. Ele precisava fazer uma adivinhação após a escola ou encontrar tempo para realmente ir à floresta.
Gansey desligou e guardou o telefone.
— Ela queria saber se me agradava a ideia de fazer um evento de última hora de sua campanha aqui no campus, esse fim de semana. Se o Dia do Corvo atrapalharia, se não teria problema de vir conversar com o Child. Eu disse que... Bem, você ouviu o que eu disse.
Na verdade, Adam não tinha ouvido. Ele estivera ouvindo Cabeswater. De fato, ele ainda ouvia tão atentamente que, quando a floresta súbita e inesperadamente balançou, ele balançou também.
Nervosamente, Adam agarrou a maçaneta para se firmar.
O zunido da energia havia desaparecido dentro dele.
Adam mal teve tempo para se perguntar o que tinha acontecido e se a energia retornaria quando a linha ley voltou a murmurar dentro dele outra vez. Folhas se abriram no fundo de sua mente. Ele soltou a maçaneta.
— O que foi isso? — perguntou Gansey.
— O quê? — Adam, ligeiramente ofegante, ainda assim imitou o tom anterior de Gansey da maneira quase precisa.
— Não seja idiota. O que foi que aconteceu?
O que acontecera é que alguém havia acabado de cortar o provimento de uma quantidade enorme de energia da linha ley. O suficiente para até Cabeswater acusar o golpe. Na limitada experiência de Adam, apenas algumas coisas podiam fazer isso acontecer.
À medida que a energia retomava aos poucos a velocidade, ele disse a Gansey:
— Eu sei exatamente o que o Ronan está fazendo.

Um comentário:

  1. o que será que o Ronan está aprontando agora ?
    ASS:Janielli

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Boa leitura, E SEM SPOILER!