30 de julho de 2018

Capítulo 29

AURANOS

As forças conjuntas dos soldados de Limeros e Paelsia atravessavam a fronteira de Auranos. Pouco menos de três meses antes, Jonas estava naquela mesma fronteira planejando invadir o palácio auraniano para vingar a morte do irmão. A ameaça de execução imediata feita pelos guardas da fronteira auraniana era o mesmo perigo que havia enfrentado quando caçava ilegalmente com Tomas.
Mas agora nenhum guarda de fronteira tentou impedir a invasão de cinco mil homens. Eles haviam recuado para se juntar à força auraniana principal.
— Bela armadura têm os limerianos, não? — Brion comentou enquanto ele e Jonas marchavam lado a lado. Eles não haviam recebido cavalos, como muitos de seus conterrâneos. Em vez disso, o chefe os havia encarregado de ficar de olho nos dispersos e garantir que todos continuassem seguindo adiante. Brion comparava aquilo a cães treinados para arrebanhar ovelhas.
— Bem brilhantes — Jonas concordou.
Os limerianos estavam muito mais bem equipados do que os paelsianos. Ele podia identificar a maioria dos recrutas paelsianos a metros de distância: sem elmo nem armadura, e se algum deles empunhasse uma espada, estaria enferrujada ou cega. Ou então os paelsianos carregavam armas rudimentares feitas de madeira e guarnecidas com cravos. Funcionavam bem para derrubar o inimigo, mas estavam longe do ideal.
— Já parou com sua obsessão pela princesa Cleo? — Brion perguntou.
Jonas lhe lançou um olhar contundente.
— Não estou obcecado.
— Se está dizendo…
— Não estou.
— Eu nunca a vi. Quem sabe? Talvez ela seja digna de uma obsessão. Uma loira linda, certo?
A menção à princesa estragou o humor de Jonas.
— Cale a boca.
— Só lembre de uma coisa: Laelia quer você de volta são e salvo, então tente não pensar muito na princesa. Precisa voltar para a sua prometida o mais rápido possível.
Jonas fez cara feia.
— Nunca concordei com casamento nenhum.
— Boa sorte ao contar isso para o chefe. Ele já está escolhendo seu presente de casamento.
Jonas não conseguiu conter um pequeno sorriso, apesar do assunto não ser nem um pouco engraçado. Ele não tinha intenção nenhuma de se casar com Laelia Basilius.
Mas Brion tinha acertado a respeito de uma coisa. Jonas estava obcecado pela princesa Cleo desde que ficara sabendo que ela havia escapado do barracão e que seus salvadores haviam deixado o marido de Felicia e dois amigos dela inconscientes. Tiveram sorte de não serem mortos. Felicia ficou furiosa com a situação e jurou que nunca perdoaria Jonas por tê-la envolvido naquilo. Levaria tempo para ela se acalmar.
No momento, a princesa devia estar de volta à segurança das muralhas do palácio auraniano, sã e salva. A víbora de cabelos dourados era cheia de surpresas.
Jonas olhou novamente para os homens que o cercavam. Alguns de Paelsia eram garotos de apenas doze anos de idade. Não eram homens ainda. E os números estavam desiguais: havia muito mais limerianos ali. Talvez três deles para cada paelsiano.
Brion passou a mão pelos cabelos desgrenhados.
— Tomas ficaria orgulhoso por sua morte ter gerado esse tipo de levante. Ele gostaria de estar aqui para nos ajudar a destruir esses auranianos gananciosos.
— Certo.
Mas Jonas não tinha tanta certeza. Ele havia pensado muito desde que conhecera o rei Corvin. Desde o momento em que ele havia olhado para o rei Gaius e questionado sua motivação — questionado por que ele dividiria Auranos com o chefe Basilius. Algo naquela aliança não parecia confiável.
O rei Gaius não era de confiança.
O ódio de Jonas em relação aos nobres auranianos levou ao desejo de acabar com todos os que viviam ali, tirar o que era deles para que sua terra pudesse prosperar — e foi isso que o rei limeriano ofereceu. Ele se concentrou em seguir ordens e marchar como todo mundo, com os olhos fixos no caminho.
Mas algo ainda o incomodava. Não era a primeira vez que se sentia confuso, mas em tempos como aqueles, quando arriscava a vida para derrotar outra terra, gostaria de acreditar totalmente nas razões da batalha. Queria a certeza que tinha antes.
A certeza de que seu povo estava morrendo, sua terra estava se esvaindo, e enquanto muitos — como seu pai — acreditavam que aquilo era apenas obra do destino, Jonas não concordava. A certeza de que Auranos tinha tudo e se recusava a prestar assistência ou a desfazer o acordo comercial que transformara Paelsia em uma terra escrava das uvas. A certeza de que, assim como caçava na terra deles para alimentar a família, ele poderia também roubar com satisfação as riquezas auranianas em nome de seu irmão.
Fácil. Com aquele exército, Jonas acreditava que seriam bem-sucedidos. O rei Gaius havia interferido e oferecido auxílio, dando provas que satisfizeram o chefe e conquistaram a confiança dele. Mas nunca havia ajudado Paelsia antes daquilo. Foi apenas no cerco contra Auranos que ele apareceu com ideias e planos, de repente. Com seu exército preparado, acostumado a oprimir seu próprio povo.
— O que foi? — Brion perguntou. — Parece que está pensando na morte da bezerra.
Jonas olhou para o amigo, abriu a boca para falar, mas logo a fechou novamente.
— Esqueça. Não é nada.
Ele não podia compartilhar com Brion pensamentos tão obscuros e revolucionários. Mas eles ainda assim chamaram sua atenção.
E se o rei Gaius houvesse mudado de ideia? E se ele quisesse Auranos toda para si? Se ele tivesse uma boa estratégia, conquistaria não apenas uma terra… mas duas.
Tudo seria dele. E se esse sempre tivesse sido o seu plano?
Contudo, a questão era: com o exército que o rei Gaius comandava — Jonas voltou a olhar à sua volta, para os homens violentos com fortes armaduras —, por que ele não havia tomado Paelsia primeiro? Por que perderia tempo se aliando a uma terra mais fraca? Por que se esforçaria tanto para ganhar a confiança do chefe Basilius?
Ele olhou na direção do rei Gaius e do príncipe Magnus, montados em seus cavalos, com as costas eretas sobre a sela. Acompanhando os dois estava a princesa limeriana, Lucia. À primeira vista, parecia tão bela quanto esnobe aos olhos de Jonas. Ele não imaginava por que ela os estaria acompanhando em uma viagem tão perigosa.
Eles pareciam tão… nobres.
Jonas odiava nobres, todos eles. Isso não havia mudado. E ainda assim o chefe havia se aliado — e aliado Paelsia — irrevogavelmente àqueles nobres. Daquele dia em diante, seus destinos estavam unidos.
Apesar do calor auraniano, aquele pensamento despertou algo gelado no interior de Jonas.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!