15 de julho de 2018

Capítulo 29

Sono, ligeiro. Café da manhã, pulado. Escola, presente.
Gansey não sabia dizer o quão próximo o momento tinha de estar do fim do mundo — o seu mundo — para que ele pudesse justificar faltar à escola para caçar Glendower, e assim ele continuava indo às aulas. Adam foi, porque Adam se agarraria aos seus sonhos de uma universidade prestigiosa, mesmo se eles estivessem sendo arrancados do chão pelas mandíbulas do Godzilla. E, para a surpresa de Gansey, Ronan também, quase atrasando aos dois enquanto vasculhava na bagunça do seu quarto por um uniforme completo. Gansey suspeitou que Ronan só estivesse indo à escola para compensar pela briga no pronto-socorro na noite anterior, mas ele não se importava. Gansey só queria que Ronan somasse horas-aula.
Henry alcançou Gansey no corredor do Prédio Borden quando deixava sua aula (francês, para substituir seus estudos de latim abandonados — Gansey preferia latim, mas era terrível em francês, então n’y a pas de quoi fouetter un chat). Henry se apressou até estar no mesmo passo que Gansey.
— Ei, calouro. Só alegria no mundo depois de ontem à noite?
— Dois graus abaixo da alegria. Nos divertimos muito ontem à noite em Litchfield. Foi uma indelicadeza da nossa parte cair fora àquela hora.
— Só ficamos vendo vídeo no celular depois que vocês foram embora. Baixou o astral. Enfiei as crianças na cama e li histórias para elas, mas não paravam de perguntar por vocês.
Isso fez Gansey rir.
— Estávamos nos aventurando por aí.
— Foi o que achei. Disse isso a elas.
Cuidadosamente, Gansey acrescentou:
— Um velho amigo não estava se sentindo bem.
Não era mentira. Apenas não era completamente verdade. Era uma parte da verdade.
Henry ergueu uma sobrancelha para demonstrar que ele claramente percebera essa parte, mas não a puxou.
— Vai ficar tudo bem?
O rosto de Noah assumiu um tom negro escuro. A irmã de Noah estava parada no palco do auditório. Ossos amarelecidos por baixo de um blusão da Aglionby.
— Nós continuamos otimistas — disse Gansey.
Ele achou que não tinha transmitido nada fora do comum em seu tom de voz, mas o olhar de Henry desviou-se rapidamente sobre ele. O cacoete naquela sobrancelha apareceu de novo.
— Otimistas. Sim, você é uma pessoa otimista, Gansey Boy. Você gostaria de ver algo interessante antes do almoço?
Um olhar de relance para o seu relógio disse a Gansey que Adam, pelo menos, o procuraria no refeitório. Henry rapidamente interpretou esse olhar.
— É bem aqui. No Borden. É bacana. Combina com o Gansey.
Isso soou como absurdo completo para Gansey. Ninguém sabia o que combinava com Gansey, nem mesmo ele. Professores e amigos da família estavam sempre juntando artigos e histórias que eles achavam que poderiam capturar a atenção dele, coisas que eles achavam que combinavam com Gansey. Os itens sempre abordavam as partes mais óbvias dele. Reis galeses, Camaros antigos ou outros jovens que tinham viajado o mundo por razões bizarras que ninguém mais compreendia. Ninguém explorava além disso, e ele não encorajava muito que o fizessem. Havia noite demais atrás de si naqueles dias, e Gansey preferia voltar seu rosto para o sol. Combinava com Gansey. O que combinava com Gansey?
— Esse sorriso quer dizer sim? Sim, bom, então me siga — disse Henry, imediatamente dobrando à esquerda por uma porta estreita com uma placa onde se lia USO EXCLUSIVO PARA FUNCIONÁRIOS. O Prédio Borden havia sido originalmente um dormitório, não um prédio acadêmico, e a porta se abria para uma escada estreita. Um castiçal exagerado iluminava o caminho, e a luz era engolida por um papel de parede excessivamente desenhado. Eles começaram a descer os degraus.
— Esse prédio é muito antigo, Dick Terceiro. Mil setecentos e cinquenta e um. Imagine as coisas que ele viu. Ou ouviu, tendo em vista que casas não têm olhos.
— Lei da Moeda — disse Gansey.
— O quê?
— Foi aprovada em 1751 — disse Gansey. — Banindo a emissão de moeda pela Nova Inglaterra. E George, o Terceiro, se tornou príncipe de Gales em 1751, se me lembro bem.
— E também — Henry estendeu a mão para um interruptor de luz, que mal iluminava um porão de teto baixo com um chão de terra. Um espaço para engatinhar bem arrumado, com nada, exceto caixas de papelão enfiadas contra uma das paredes da fundação — “a primeira apresentação de circo com um macaco nos Estados Unidos”.
Ele havia abaixado a cabeça para evitar prender o cabelo nas vigas de madeira expostas que davam suporte ao assoalho acima deles. O ar cheirava a uma versão concentrada dos andares superiores do Prédio Borden — o que significava dizer, a mofo e tapete azul-marinho —, mas com a umidade adicional, a fragrância viva, peculiar às cavernas e aos porões muito antigos.
— Mesmo? — perguntou Gansey.
— Talvez — disse Henry. — Tentei encontrar fontes primárias, mas você conhece a internet, cara. Chegamos.
Eles haviam chegado ao canto mais distante do porão, e a única lâmpada junto à base da escada não iluminava bem para o que Henry apontava. Gansey levou um momento para perceber o que era o quadrado mais escuro no chão de terra já escuro.
— Será um túnel? — ele perguntou.
— Não.
— Um buraco para esconderijo? — perguntou Gansey, e se agachou. Parecia que era. O buraco não tinha mais do que um metro quadrado com as bordas gastas pelos séculos. Gansey tocou uma ranhura em uma borda. — Acho que já teve uma porta aqui um dia. Eles os chamavam de buracos de padres na Inglaterra. Devem ter sido para escravos, ou para... estocar bebidas durante a proibição, quem sabe?
— Algo por aí. Interessante, não é?
— Hum — disse Gansey. Era histórico, e ele supôs que combinava com Gansey. Ele estava vagamente desapontado, o que devia significar que ele esperava algo mais, mesmo que não soubesse o que fosse esse algo mais.
— Não, a parte que combina com o Gansey está dentro — disse Henry. Para sua surpresa, Henry escorregou para dentro do buraco, pousando no fundo com um baque surdo. — Venha conferir.
— Presumo que você tenha um plano para nos tirar daqui se eu for.
— Tem alças. — Quando Gansey não se mexeu, Henry explicou: — Isso é um teste também.
— Do quê?
— Mérito. Não. Ma... não. Tem uma palavra com c para bravura, mas não consigo lembrar. Meu lobo frontal ainda está bêbado da noite passada.
— Caráter.
— Sim, sim, é isso. É um teste de caráter. Essa é a parte que combina com o Gansey.
Gansey sabia que Henry estava certo pelo vigor de sentimento em seu coração. Era muito similar à sensação que ele tivera na festa de toga. Aquele sentimento de ser conhecido. Não de uma maneira superficial, mas por algo mais profundo, mais verdadeiro. E perguntou:
— Qual é o meu prêmio se eu passar?
— Qual é o prêmio que sempre se dá a um teste de caráter? A sua honra, sr. Gansey.
Duplamente conhecido. Triplamente conhecido.
Gansey não tinha bem certeza de como lidar com a situação de ser tão precisamente compreendido por uma pessoa que era, afinal de contas, apenas um conhecido recente. Então não havia nada mais a fazer a não ser entrar naquele buraco.
Ele estava quase completamente escuro, e as paredes confinavam o espaço. Gansey estava próximo o suficiente de Henry para sentir o cheiro forte de seu produto para cabelo, como para ouvir sua respiração ligeiramente acelerada.
— História, essa cadela complicada — disse Henry. — Você é claustrofóbico?
— Não, eu tenho outros vícios. — Se fosse Cabeswater, ela estaria rapidamente trabalhando com o medo de Gansey para produzir insetos com ferrões. Gansey se sentia grato pelo fato de que a intenção não era algo tão poderoso fora de Cabeswater. Esse buraco no chão podia continuar sendo simplesmente um buraco no chão. Nesse mundo, ele tinha de se preocupar somente em disciplinar o seu exterior, não o seu interior. — Você já imaginou ter que se esconder em um desses buracos? Passei no teste?
Henry arranhou a parede ou algo similar; o arranhão fez um ruído abafado, como um assovio, enquanto a terra caía no chão.
— Você já foi raptado alguma vez, Richard Gansey?
— Não. Estou sendo raptado agora?
— Não em uma noite com aulas. Eu fui raptado uma vez — disse Henry. Seu tom era tão leve e casual que Gansey não tinha certeza se ele estava brincando ou não. — Por um resgate. Meus pais não estavam no mesmo país, então a comunicação não era a melhor. Eles me colocaram em um buraco assim. Talvez um pouco menor.
Ele não estava brincando.
— Meu Deus — disse Gansey. Ele não conseguia ver o rosto de Henry na escuridão para saber como ele se sentia a respeito da história que ele estava contando; sua voz ainda soava leve.
— Deus não estava lá, infelizmente — disse Henry. — Ou talvez felizmente. Eu mal cabia no buraco.
Gansey podia ouvir Henry esfregando os dedos uns contra os outros, ou abrindo e fechando as mãos em punhos; cada ruído era amplificado nessa câmara poeirenta. E agora ele podia sentir aquela fragrância peculiar que vinha com o medo: o corpo produzindo químicos que exalavam ansiedade.
Ele não sabia dizer, no entanto, se era a sua ou a de Henry. Porque a mente de Gansey sabia que aquele buraco não produziria um enxame súbito de abelhas para matá-lo. Mas o coração de Gansey se lembrava de estar pendurado na caverna em Cabeswater, ouvindo os enxames se desenvolvendo abaixo dele.
— Isso combina com o Gansey também, não é? — perguntou Henry.
— Qual parte?
— Segredos.
— É verdade — admitiu Gansey, porque admitir que você tinha segredos não era o mesmo que contá-los. — O que aconteceu?
— O que aconteceu, ele pergunta. Minha mãe sabia que pagar o resgate na mesma hora apenas encorajaria os outros a raptar os filhos dela enquanto ela não estivesse por perto, e assim ela pechinchou com meus captores. Eles não gostaram disso, como você pode imaginar, então me obrigaram a dizer para ela no telefone o que eles fariam comigo todos os dias em que ela não os pagava.
— Eles te obrigavam a dizer para ela?
— Sim, sim. Veja bem, isso faz parte da pechincha. Se os pais sabem que o filho está com medo, isso vai fazer com que paguem mais rápido, e mais, essa é a sabedoria.
— Não fazia ideia.
— Quem faz? Agora você faz. — As paredes pareciam mais próximas. Henry seguiu em frente com uma risadinha, uma risada. — Ela disse: “Não pago por bens danificados”. E eles disseram que ela só receberia isso, e assim por diante. Mas minha mãe era muito boa com negociações. E assim, depois de cinco dias, fui devolvido para ela, ainda com todos os meus dedos e ambos os olhos. Por um bom preço, eles dizem. Eu estava um pouco rouco, mas isso foi culpa minha.
Gansey não sabia como ele se sentia a respeito disso. Ele havia recebido seu segredo, mas não fazia ideia por quê. Ele não sabia o que Henry queria dele. Ele tinha muitas reações em mãos para empregar — empatia, conselho, preocupação, apoio, indignação, tristeza —, mas ele não sabia qual combinação a situação pedia. Ele estava acostumado a saber. Ele não achava que Henry precisasse de qualquer coisa dele. Isso era uma paisagem sem mapa. Finalmente, ele disse:
— E agora estamos parados em um buraco igual àquele, e você parece muito calmo.
— Sim. Essa é a questão. Passei... passei muitos anos em busca de ser capaz de fazer isso — disse Henry. Ele inspirou curto, pouco, e Gansey tinha certeza de que seu rosto contava uma história bem diferente do que sua voz ainda relaxada. — Em vez de me esconder, enfrentar o meu medo.
— Há quantos anos? Quantos anos você tinha?
— Dez. — O blusão de Henry fez um ruído amarfanhado; Gansey sentiu que ele se mexia. Sua voz soou um pouco diferente. — Quantos anos você tinha, Whoop Whoop Gansey Boy, quando você foi picado por aquelas abelhas?
Gansey sabia a resposta fatual, mas não tinha certeza se essa era a resposta que Henry queria. Ele ainda não fazia ideia do motivo pelo qual essa conversa estava acontecendo.
— Eu também tinha dez anos.
— E como esses anos passados te trataram?
Ele hesitou.
— Alguns melhores do que os outros. Acho que você viu.
— Você confia em mim? — perguntou Henry.
Era uma questão carregada ali no escuro e na escuridão maior que se estendia adiante. Ali no teste de caráter. Ele confiava? A confiança de Gansey sempre fora baseada no instinto. O seu subconsciente rapidamente reunindo todos os marcadores em um quadro que ele compreendia sem saber por que o fazia. Por que ele estava naquele buraco? Ele já sabia a resposta a essa pergunta.
— Sim.
—Me dê sua mão — disse Henry. Com uma das mãos, ele encontrou a palma de Gansey na escuridão. E, com a outra, colocou um inseto nela.

3 comentários:

  1. Esse Henry foi entrando de uma forma tão sorrateira que fiquei um pouco surpresa como ele ficou derrepende tão envolvido com Gansey.

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  2. Eu sei que o Gansey tem várias personalidades e tal. Mas pelo eu eu conhecia dele nesses 3 livros ele não parecia o tipo de pessoa que entraria em um buraco com um mais-ou-menos conhecido e diria que confia nele, assim do nada. Isso tá me parecendo algo ruim. Não vejo como o Henry ajudaria o Gansey ou porque faria isso sem nada em troca.

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    1. Nem todas as pessoas fazem coisas esperando algo em troca. Henry deve apenas estar fazendo por amizade ou simplesmente porque quis ajudar o Gansey depois de ver ele quase entrando em um ataque de pânico naquele dia que teve a comemoração dos corvos na Aglionby, algo como solidariedade porque ele também sentia pânico por ter vivido uma experiência traumática assim como o Gansey. Eu simpatizo demais com o Henry, me parece ser uma pessoa boa, gentil e cheia de empatia

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