5 de julho de 2018

Capítulo 29

— Eu nem sei o que pegar. Ração? — perguntou Ronan.
Adam não respondeu. Eles estavam em uma loja grande e reluzente, olhando artigos de higiene. Ele pegou um frasco de xampu e o colocou de volta. Sua roupa ainda estava salpicada de sangue do chuvisco apocalíptico e sua alma ainda doía do comentário do vira-lata. Gwenllian — Gansey tinha enviado a identidade dela por uma mensagem de celular para Ronan — estivera em uma caverna por seiscentos anos e havia percebido quem ele era imediatamente. Como?
Ronan pegou um frasco de xampu e jogou no carrinho que Adam empurrava.
— Aquele ali custa catorze dólares — disse Adam. Ele achava impossível desligar a parte do seu cérebro que somava compras no supermercado.
Talvez fosse isso que Gwenllian pôde ver em seu cenho franzido.
O outro garoto nem se virou.
— O que mais? Coleira contra pulgas?
— Você já fez uma piada de cachorro. Com a “ração”.
— Fiz mesmo, Parrish.
Ronan continuou pelo corredor, ombros endireitados, queixo empinado arrogantemente. Não parecia que estava fazendo compras. Parecia que estava cometendo um furto. Ele jogou algumas pastas de dente no cesto.
— Qual escova de dentes? Essa parece rápida. — E a jogou com força sobre as outras mercadorias.
A descoberta de Gwenllian fazia coisas esquisitas com o cérebro de Adam. A descrença não deveria ter sido uma opção depois de todas as coisas que haviam acontecido com a linha ley e Cabeswater, mas Adam percebeu que ele não havia acreditado verdadeiramente que Glendower ainda pudesse estar dormindo sob uma montanha em algum lugar. E, no entanto, ali estava Gwenllian, enterrada da mesma maneira lendária. Seu último ceticismo havia sido tomado dele.
— O que vamos fazer agora? — perguntou Adam.
— Pegar uma casinha de cachorro. Droga, você está certo. Eu realmente não consigo pensar em outra piada.
— Eu quis dizer agora que encontramos Gwenllian.
Ronan fez um ruído que indicava que ele não achava essa linha de pensamento interessante.
— Vamos fazer o que estávamos fazendo antes. Ela não importa.
— Tudo importa — respondeu Adam, relembrando suas sessões com Persephone. E pensou em acrescentar desodorante às compras do carrinho, mas não tinha certeza se havia algum sentido pegar um para alguém que havia nascido antes de ele ter sido inventado.
— O Gansey quer Glendower. Ela não é Glendower. — Ronan começou a dizer algo, mas parou. Ele lançou um pote de creme de barbear no carrinho, mas nenhuma lâmina. Era possível que fosse para ele, não para Gwenllian. — Não tenho certeza se não devemos parar enquanto estamos na vantagem, de qualquer maneira. Nós temos Cabeswater. Por que precisamos de Glendower?
Adam pensou na visão de Gansey morrendo no chão e disse:
— Eu quero o favor.
Ronan parou tão abruptamente no meio do corredor que Adam quase bateu o carrinho atrás dele. Os seis itens no fundo escorregaram para frente.
— Fala sério, Parrish. Você ainda acha que precisa disso?
— Eu não questiono as coisas que moti...
— Blá-blá-blá. Está certo, eu sei. Ei, olha aquilo — disse Ronan.
Os dois observaram uma mulher bonita parada na seção de produtos de jardinagem, sendo atendida por três funcionários da loja. Seu carrinho estava cheio de lonas, aparadores de cercas e várias coisas que poderiam facilmente ser transformadas em armas. Os homens seguravam pás e mastros que não cabiam no carrinho. Eles pareciam muito ansiosos em ajudar.
Era Piper Greenmantle. Adam disse secamente:
— Ela não me parece o seu tipo.
Ronan sibilou:
— É a mulher do Greenmantle.
— Como você sabe?
— Ah, por favor. Era nisso que a gente devia pensar. Você já o investigou?
— Não — disse Adam, mas era mentira. Era difícil para ele ignorar uma questão uma vez que ela fosse levantada, e Greenmantle era uma questão mais grave que a maioria. Então ele admitiu: — Um pouco.
— Um monte — traduziu Ronan, e ele estava certo, porque, estranhamente, Ronan sabia bastante sobre como Adam funcionava. Era possível que Adam soubesse disso o tempo todo, mas optara por se considerar impenetrável — particularmente suas partes mais indesejáveis.
Com um último olhar de relance para a Greenmantle mais loira, eles foram para a fila do caixa. Ronan passou o cartão sem nem olhar para o total — um dia, um dia, um dia — e então eles voltaram para a tarde ensolarada. No meio-fio, Adam percebeu que ainda estava empurrando o carrinho com a única sacola aninhada no canto. Ele se perguntou se eles deviam ter pegado mais coisas, mas não conseguia imaginar o quê.
Ronan apontou para o carrinho.
— Entra aí.
— O quê?
Ele apenas continuou apontando.
— Dá um tempo. Isso aqui é um estacionamento público — disse Adam.
— Não dificulte as coisas, Parrish.
Enquanto uma senhora idosa passava por eles, Adam suspirou e subiu no carrinho de supermercado. Ele encolheu os joelhos para caber lá dentro, sabendo perfeitamente que aquilo provavelmente terminaria mal.
Ronan agarrou a barra com a concentração caprichosa de um piloto de moto e mirou a linha entre eles e o BMW parado no canto distante do estacionamento.
— Qual você acha que é a inclinação desse estacionamento?
— Ah, não sei. Dez graus? — Adam segurou as laterais do carrinho e então pensou melhor. Era melhor se segurar direito.
Com um sorriso selvagem, Ronan empurrou o carrinho para fora do meio-fio e arrancou na direção do BMW. Enquanto eles ganhavam velocidade, Ronan gritou um palavrão feliz e terrível, e então saltou para dentro dos fundos do carrinho. Enquanto eles voavam em direção ao BMW, Adam percebeu que Ronan, como sempre, não tinha intenção de parar antes que algo ruim acontecesse. Ele colocou a mão sobre o nariz bem quando eles viram a lateral do BMW. O carrinho sem assento balançou uma vez, duas, e então virou catastroficamente de lado. Continuou escorregando, os garotos escorregando com ele.
Os três pararam.
— Ah, meu Deus — disse Adam, tocando o ralado no cotovelo. Não estava tão mal assim, de verdade. — Meu Deus. Posso sentir meus dentes.
Ronan estava deitado de costas a alguns metros dali. Uma caixa de pasta de dente repousava sobre seu peito e o carrinho jazia virado a seu lado. Ele parecia profundamente feliz.
— Você devia me contar o que descobriu sobre o Greenmantle — disse Ronan —, para que eu possa começar a sonhar.
Adam se levantou antes que fosse atropelado.
— Quando?
Ronan abriu um largo sorriso.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!