15 de julho de 2018

Capítulo 28

Dependendo por onde você começasse a história, ela dizia respeito a Declan Lynch.
Embora fosse difícil de acreditar, ele não havia nascido paranoico.
E, realmente, era paranoia quando não se estava necessariamente errado?
Ter cautela. Era assim que se dizia quando as pessoas queriam realmente matá-lo. Ele havia aprendido a ser cauteloso, não paranoico.
Declan havia nascido dócil e confiante, mas havia aprendido. Havia aprendido a suspeitar de pessoas que lhe perguntavam onde você morava. Havia aprendido a falar com seu pai apenas em telefones celulares descartáveis comprados em postos de gasolina. Havia aprendido a não confiar em ninguém que lhe dissesse que não era louvável desejar uma casa histórica no centro de uma cidade devassa, uma suíte master com um tapete de pele de tigre, uma caixa cheia de conhaques belamente cintilantes e um carro alemão que sabia mais a respeito do mundo que você. Havia aprendido que mentiras só eram perigosas se você às vezes contasse a verdade.
O mais velho e mais natural filho de Niall Lynch estava em sua casa na região central de Alexandria, Virgínia, e encostou a testa contra o vidro naquela manhã, mirando a rua tranquila abaixo. O tráfego de Washington, D.C., estava apenas começando a rugir para a vida, e esse bairro ainda precisava sair da cama.
Declan segurava um telefone. Ele estava tocando.
O aparelho era mais desajeitado que o telefone de trabalho que ele usava para seu estágio com Mark Randall, animal político e grande golfista. Ele havia escolhido intencionalmente um modelo com um formato decididamente diferente para o trabalho do seu pai. Declan não queria passar a mão na bolsa a tiracolo e pegar o telefone errado. Não queria tatear a mesinha ao lado da cama no meio da noite e falar casualmente com a pessoa errada. Não queria dar o telefone errado para Ashley segurar para ele. Qualquer coisa que ele pudesse fazer para se lembrar de ser paranoico — cauteloso — enquanto tocava os negócios de Niall Lynch ajudava.
Esse telefone não tocava havia semanas. Declan achou que finalmente se livrara daquilo. Mas tocou.
Declan debateu por um longo tempo se era mais perigoso atendê-lo ou ignorá-lo. Ele se reajustou. Ele não era mais Declan Lynch, insinuante fedelho político. Ele era Declan Lynch, o filho durão de Niall Lynch.
Tocou de novo.
Declan o atendeu.
— Lynch.
— Considere isso um telefonema de cortesia — disse a pessoa do outro lado da linha. Uma música tocava ao fundo; algum instrumento de corda queixoso.
Um filete fino e viscoso de suor frio escoou por seu pescoço.
— Não é possível que você espere que eu acredite que seja só isso — ele disse.
— De maneira alguma — respondeu a voz na outra linha. Ela era cortada, com sotaque, e invariavelmente acompanhada por alguma música. Declan a conhecia somente como Seondeok. Ela não comprava muitos artefatos, mas, quando comprava, não havia drama. O entendimento era claro: Declan apresentava um objeto mágico, Seondeok fazia uma oferta, Declan o entregava a ela, e cada um seguia o seu caminho até a próxima vez. Em momento algum, Declan achava que poderia ser caprichosamente enfiado no porta-malas do carro do seu pai enquanto era agredido, ou imobilizado com algemas e forçado a ver o celeiro de seus pais ser revirado, ou espancado cruelmente e deixado meio morto no quarto de seu dormitório em Aglionby.
Declan apreciava os pequenos gestos.
Mas nenhuma dessas pessoas era confiável.
Cautela, não paranoia.
— A situação está muito volátil lá em Henrietta — disse Seondeok. — Ouvi dizer que não é mais a loja de Greenmantle.
Volátil, sim. Essa era uma palavra. Em outros tempos, Niall Lynch vendia seus “artefatos” para negociantes mundo afora. De certo modo, isso havia sido reduzido a Colin Greenmantle, Laumonier e Seondeok. Declan presumiu que era uma questão de segurança, mas talvez ele estivesse dando crédito demais para o seu pai. Talvez ele simplesmente tivesse esquecido todos os outros.
— O que mais você ficou sabendo? — perguntou Declan, nem confirmando, nem negando.
— Bom saber que você não confia em mim — respondeu Seondeok. — O seu pai falava demais.
— Não aprecio o tom — disse Declan. Seu pai havia falado demais. Mas isso cabia a Lynch dizer, não a alguma negociante coreana de antiguidades mágicas ilegais.
A música ao fundo parecia lamentar, pedindo desculpas.
— Sim, foi rude de minha parte. O que ouvi por aí é que alguém talvez esteja vendendo algo especial em Henrietta — disse Seondeok.
O suor frio escorreu pelo colarinho de Declan.
— Não sou eu.
— Não achei que era. Como eu disse: telefonema de cortesia. Achei que você talvez quisesse saber se os lobos estavam vindo bater em sua porta.
— Quantos lobos?
A música parou e recomeçou.
— Podem ser matilhas e mais matilhas.
Talvez eles tivessem descoberto a respeito de Ronan. Os dedos de Declan apertaram o aparelho.
— Você sabe o que eles estão uivando, seonsaengnim?
— Hum — disse Seondeok, com um ruído evocativo que transmitia que ela sabia que tinha os ouvidos de Declan e que o aceitava mesmo assim. — Esse segredo ainda é muito novo. Eu te liguei com a esperança de que eu pudesse te dar tempo suficiente para agir.
— E como você acha que eu devo agir?
— Não cabe a mim dizer. Não sou sua mãe.
— Você sabe que eu não tenho pais — disse Declan.
A música sussurrou e suspirou atrás dela. Por fim, ela repetiu:
— Não sou sua mãe. Sou apenas outra loba. Não se esqueça disso.
Ele se afastou da janela.
— Desculpe. Agora fui eu que fui rude. Obrigado pela ligação.
Sua mente já estava analisando os piores cenários possíveis. Ele precisava tirar Ronan e Matthew de Henrietta — só isso importava.
— Sinto falta dos achados do seu pai, eles são muito belos. Ele era um homem com problemas, mas acho que tinha uma mente linda — disse Seondeok.
Ela estava imaginando Niall Lynch repassando armários embutidos, coleções e porões, fazendo uma curadoria cuidadosa dos objetos que ele havia encontrado. Declan imaginava algo mais próximo da verdade: seu pai sonhando na Barns, em quartos de hotel, em sofás, no banco de trás do BMW que agora era de Ronan.
— Sim — disse Declan. — Sim, eu penso assim também.

Um comentário:

  1. Surpreendente saber que Declan negocia com Colin, Lamounier e Seondeok. Será que faz tudo isso para proteger seus irmãos?

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Boa leitura, E SEM SPOILER!