30 de julho de 2018

Capítulo 27

AURANOS

Cleo não esboçava reação alguma quando voltou ao palácio. Todos os sons estavam mudos e ela só conseguia ouvir o sangue correr por suas veias e as batidas de seu coração.
Theon estava morto.
— Tente não se preocupar. Fique perto de mim — Nic sussurrou quando foram levados ao rei. Os guardas não tinham dado a Cleo a chance de passar em seu quarto primeiro. Pareciam surpresos por ela ter voltado.
Ela não falou nada. Não tinha certeza se era capaz de falar.
As portas altas de madeira e ferro se abriram para dentro e lá estava ele: o rei. Um guarda se apressou na frente para informá-lo do regresso de Cleo. O rosto dele ficou pálido. Ele parecia ainda mais velho do que ela se lembrava.
— Cleo — ele exclamou. — É verdade? Você voltou mesmo ou não passa de uma ilusão?
Eles foram conduzidos até a sala e as portas foram fechadas. Cleo recebeu o olhar piedoso de um dos guardas. Ele conhecia o temperamento do rei.
— Sinto muito — ela conseguiu dizer, mas não pôde prosseguir porque começou a chorar.
O rei correu em sua direção e a acolheu nos braços.
— Minha pobre menina. Estou tão aliviado por você estar em casa.
Foi uma reação surpreendente. O rei estava sendo tão severo nos últimos tempos que ela quase se esquecera de seu lado terno. Finalmente, ele a soltou e pegou uma cadeira para ela se sentar. O olhar dele voltou-se para Nic.
— Explique.
Nic ficou agitado.
— Por onde devo começar?
— Estou furioso por vocês terem ido a Paelsia contra a minha vontade, mas não tinha ideia de que as dificuldades entre as terras resultariam em um conflito desses. Fui visitado pelo rei Gaius, que me disse que tinha capturado Cleo.
Cleo estremeceu ao se lembrar do rapaz de cabelos escuros e olhos cruéis.
— Ele tentou — disse Nic. — Mas conseguimos escapar.
— Graças à deusa. — O rei suspirou. — Como?
— Theon — Nic começou a falar, mas sua voz falhou. Apesar de parecer um pouco mais tranquilo, ele também lutava para conter as lágrimas. — Ele lutou com os homens do príncipe Magnus. Matou os dois para defender a princesa. Depois o príncipe matou Theon.
— O quê? — O rei arfou.
— Não tivemos outra escolha a não ser deixar seu corpo em solo paelsiano. Tínhamos que fugir imediatamente.
— Eu quis matar o príncipe — Cleo conseguiu dizer. — Tive a chance, mas…
— Eu não deixei — Nic admitiu. — Se ela matasse o príncipe Magnus, sei que as coisas ficariam ainda piores do que já estão.
O rei absorveu a informação.
— Fez certo em impedi-la. Mas entendo seu desejo de vingança.
Vingança. A palavra parecia tão decisiva. Tão derradeira. Era o que Jonas buscava ao capturá-la. Cleo havia visto o quanto ele estava furioso pela morte de Tomas. Se o que havia em seu coração era o mesmo que Jonas sentia em relação a ela, estava grata por continuar viva.
O objetivo de Jonas era mantê-la em um lugar onde o príncipe Magnus pudesse encontrá-la. Estavam trabalhando juntos para destruir seu pai. Foi um milagre ela ter escapado. Um milagre que custou um preço muito alto.
— Cleo, você está tão pálida — o rei disse, preocupado.
Nic tocou o braço dela.
— Ela ainda está em choque.
— Agora vê por que eu não queria que fosse, filha? Sei que queria tentar ajudar sua irmã, mas há muita coisa em risco no momento.
— Eu fracassei. — A voz dela falhou. — Não encontrei nada que ajudasse Emilia. E Theon está morto por minha causa.
O rei segurou o rosto da filha entre as mãos e beijou-a na testa com delicadeza.
— Vá para os seus aposentos e descanse. Amanhã será um dia melhor.
— Eu pensei que você ficaria tão bravo comigo.
— Eu estou bravo. Mas ver você viva, bem e de volta para mim é a resposta às minhas preces. Minha felicidade por vê-la a salvo é mais poderosa do que qualquer fúria. O amor é mais forte do que a fúria, mais forte do que o ódio – é mais forte do que tudo. Lembre-se disso.
Nic ajudou-a a ir para o quarto e deu um beijo em sua testa quando ela se deitou. Ela tentou dormir, mas foi atormentada por pesadelos. Um depois do outro, e cada um deles com um garoto de cabelos escuros diferente. Um, paelsiano e selvagem, arrastando-a por uma estrada empoeirada para trancá-la em um barracão apertado e sujo. O outro, cruel e esnobe, com uma cicatriz no rosto e uma espada ensanguentada, rindo sobre o corpo de Theon.
Ela acordou no meio da noite, aos soluços.
— Calma, calma — uma voz familiar a tranquilizou. Uma mão fria alisou sua testa.
— Emilia? — Cleo se sentou na cama, percebendo que a irmã estava com ela. As sombras do quarto não eram suficientes para disfarçar a magreza e a palidez da irmã, nem as manchas escuras sob os olhos. — O que está fazendo aqui? Você devia estar na cama.
— Como ficaria longe ao saber que minha irmãzinha finalmente voltou? — O rosto de Emilia estava sério. Ela se sentou na cama, ao lado de Cleo. — Nosso pai me contou o que aconteceu, Cleo. Sinto muito pelo que houve com Theon.
Cleo abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu por um bom tempo.
— É culpa minha.
— Não deve pensar assim.
— Se eu não tivesse fugido, ele não teria precisado ir atrás de mim. Ele ainda estaria vivo.
— A função dele era proteger você. E ele fez isso. Ele protegeu você, Cleo.
— Mas ele se foi. — Ela soltou um pequeno suspiro.
— Eu sei. — Emilia a abraçou enquanto ela chorava lágrimas que pareciam não ter fim. — E sei como você se sente. Quando perdi Simon, achei que seria o meu fim também.
— Você o amava de verdade.
— De todo o coração. — Ela alisou os cabelos de Cleo. — Então fique de luto por Theon. Guarde no coração sua memória. Agradeça pelo sacrifício que ele fez. Um dia, eu prometo, essa dor vai desaparecer.
— Não, não vai.
— No momento ainda está muito viva. Parece que o sofrimento nunca vai deixar seu coração. — Emilia cerrou os dentes. — Mas você precisa ser forte, Cleo. Tempos difíceis estão por vir.
O peito de Cleo ficou apertado.
— Guerra.
Emilia confirmou.
— O rei Gaius queria que nosso pai entregasse Auranos para ele sem luta. Disse que faria coisas terríveis com você se ele se opusesse.
Cleo tremeu só de pensar. Emilia se aproximou.
— E, cá entre nós, acredito que nosso pai teria feito exatamente o que o rei Gaius pediu antes que fosse tarde demais para salvá-la.
— Ele não poderia. Há tantas pessoas em Auranos, ele não poderia entregar tudo aos limerianos.
— E aos paelsianos. Paelsia e Limeros se juntaram no ódio contra nós.
— Por que nos odeiam tanto?
— Inveja. Eles veem que temos tanto aqui… E estão certos, nós temos.
Cleo soltou um suspiro trêmulo. Suas ações quase haviam resultado na ruína do reino de seu pai.
— Minha viagem foi errada em tantos sentidos. Mas ainda não consigo me arrepender. Eu queria ajudar você.
— Eu sei. — Um sorriso pequeno e triste tocou os lábios de Emilia. — Sei que fez isso por mim. E a amo demais por isso. Mas acho que nem mesmo uma vigilante poderia me ajudar a essa altura. Nem sei se acredito que sejam mais do que uma lenda.
— Os vigilantes são reais.
— Você encontrou algum?
Cleo balbuciou.
— Não. Mas uma mulher que conheci, Eirene, contou histórias que nunca havia ouvido. Sobre uma feiticeira e um caçador, sobre os vigilantes. Você sabia que as deusas eram vigilantes que roubaram a Tétrade e se exilaram? Agora os vigilantes esperam encontrar a próxima feiticeira, que poderá levá-los à Tétrade perdida e restaurar sua magia antes que ela desapareça completamente. É tudo tão incrível.
Emilia manteve o sorriso.
— Parece uma história e tanto.
— É real — Cleo insistiu. — As deusas roubaram a Tétrade e a dividiram entre elas, mas o poder as tornou inimigas. Antes disso, todo o Reino Ocidental era um só. Existiu uma época em que todos eram amigos.
— Não existe mais. O rei limeriano odeia nosso pai. Ele quer destruí-lo. Está ávido pelas terras auranianas desde antes de assumir o trono. O pai dele também era rei, um rei bom que desejava a paz. O rei Gaius ficará feliz em derramar oceanos de sangue para conseguir o que deseja.
O peito de Cleo voltou a ficar apertado.
— O filho dele é uma criatura cruel e maldosa. Se eu o vir outra vez, vou matá-lo.
Isso não fez com que Emilia ficasse preocupada, e sim admirada.
— Você tem uma paixão e uma determinação sem limites. E força.
Cleo ficou olhando para ela.
— Força? Eu mal consegui levantar uma espada para salvar minha própria vida.
— Não estou falando de força física. É força aqui. — Emilia pôs a mão sobre o coração de Cleo. Depois tocou sua testa. — E aqui. Embora aqui em cima exista uma parte que ainda precisa melhorar, então nada de viagens a terras perigosas por enquanto.
— Eu não sou forte — Cleo insistiu. — Nem no coração e nem na mente.
— Às vezes você não nota o quanto é forte até ser testada. Como a filha mais nova dessa família, você não foi testada muitas vezes na vida, Cleo. Não como eu. — O rosto de Emilia obscureceu. — Mas acredito que será. Em breve. E deve se utilizar dessa força, deve aumentá-la. E deve se apegar a ela, porque às vezes essa pequena centelha de força interior é tudo o que temos para nos ajudar a vencer a escuridão.
Cleo apertou as mãos da irmã.
— E você também deve ser forte. Eu mandarei um guarda de volta a Paelsia para continuar minha busca. E ele terá sucesso.
Theon tinha prometido ir, mas agora ela teria que encontrar outra pessoa para tomar o seu lugar. Se Emilia teve ânimo o bastante para sair da cama e ver Cleo no meio da noite, ainda havia esperança de recuperação.
— Eu vou tentar — Emilia disse com a voz cansada. Ela virou a cabeça e olhou pela janela. — Farei um esforço para ser forte. Por você.
— Ótimo.
As irmãs ficaram quietas por um instante. Emilia continuou a olhar para as estrelas.
— Limeros e Paelsia estão reunindo um exército para invadir Auranos nas próximas semanas. Eles esperam que nosso pai se renda assim que eles chegarem.
Cleo foi tomada pelo pânico.
— Ele não pode ceder.
— Se não houver rendição imediata, eles lutarão para tomar o lugar.
A fúria queimou o peito de Cleo.
— O que faremos?
Emilia apertou ainda mais as mãos da irmã.
— Se você estivesse em poder dos limerianos, acho que ele daria qualquer coisa para salvar sua vida.
— E agora que voltei?
— Agora — Emilia disse com o olhar fixo na irmã —, se o rei Gaius está procurando uma guerra, é uma guerra que ele vai ter.

Um comentário:

  1. eu buguei agr tipo , não sei mas quem eu gosto ou não gosto agora literalmente eu enxerguei as coisas por todos os ângulos .

    ResponderExcluir

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!