15 de julho de 2018

Capítulo 27

Não eram 6h21.
Era tarde da noite ou cedo de manhã.
Quando Adam e Ronan chegaram ao Pronto-Socorro Mountain View, encontraram uma pequena sala de espera vazia, exceto por Gansey. Uma música desafinava no ambiente; as luzes fluorescentes brilhavam, indiferentes e inocentes. As calças cáqui de Gansey estavam ensanguentadas, e ele estava sentado em uma cadeira com a cabeça nas mãos, dormindo ou pranteando. Uma pintura de Henrietta estava pendurada na parede à frente dele, e água pingava dela, pois aparentemente era esse o mundo onde eles viviam agora. Em outro momento, Adam teria tentado compreender o que um sinal dessa natureza queria dizer; hoje à noite, sua mente já estava transbordando de pormenores de dados. Sua mão havia parado de se contrair, agora que Cabeswater havia recuperado parte de sua força, mas Adam não se iludia que isso quisesse dizer que o perigo havia passado.
— Ei, bostão — disse Ronan para Gansey. — Você está chorando? — Ele chutou o canto do sapato de Gansey. — Esfíncter. Você está dormindo?
Gansey tirou o rosto das mãos e ergueu o olhar para Adam e Ronan. Havia uma pequena mancha de sangue na linha do seu queixo. Sua expressão era mais dura do que Adam imaginara, e ficou ainda mais dura quando ele viu as roupas sujas de Ronan.
— Onde vocês estavam?
— Cabeswater — disse Ronan.
— Cabeswa... O que ela está fazendo aqui? — Gansey acabara de perceber a presença da Garota Órfã enquanto ela passava aos tropeços pela porta atrás de Adam. Ela parecia desajeitada em um par de botas enlameadas que Ronan havia tirado do porta-malas do BMW. Elas eram grandes demais para suas pernas e, é claro, inteiramente do formato errado para seus cascos, mas esse era o efeito desejado, de certa forma. — Qual o sentido de usarmos uma tarde inteira para levar essa garota até lá se você simplesmente ia trazer ela de novo?
— Como quiser, cara — disse Ronan, uma sobrancelha erguida diante da fúria de Gansey. — Foram duas horas.
— Talvez duas horas não signifiquem nada para você, mas tem gente que vai à escola, e duas horas é o que temos para nós mesmos — disse Gansey.
— Como quiser, papai.
— Sabe de uma coisa? — disse Gansey, pondo-se de pé. Havia algo estranho em seu tom de voz, uma corda de arco retesada. — Se você me chamar disso mais uma vez...
— Como está a Blue? — interrompeu Adam. Ele já havia presumido que ela não estava morta, ou Gansey não teria condições de estar discutindo com Ronan. Ele presumiu, na verdade, que a situação parecera pior do que fora na realidade, ou Gansey teria feito um relatório da situação.
A expressão de Gansey ainda era desafiadora e faiscante.
— Ela vai ficar com o olho.
Ficar com o olho — ecoou Adam.
— Ela está recebendo pontos agora.
Pontos — ecoou Ronan.
— Você acha que eu estava entrando em pânico por nada? Eu disse para você: o Noah estava possuído.
Possuído, como por um demônio. Possuído, como a mão de Adam. Entre aquela escuridão fervilhante em Cabeswater e esse resultado violento da possessão de Noah, Adam estava começando a ter noção do que sua própria mão seria capaz se Cabeswater não pudesse protegê-lo. Parte dele queria contar a Gansey a respeito disso, mas a outra jamais esquecera o grito agonizante de Gansey quando Adam celebrara a barganha com Cabeswater. Ele não acreditava realmente que Gansey diria Eu disse para você, mas Adam saberia que ele estava em seu direito de fazê-lo, o que era pior. Adam sempre fora a voz mais negativa em sua própria cabeça.
Incrivelmente, Ronan e Gansey ainda estavam brigando. Adam voltou a lhes dar atenção, enquanto Ronan dizia:
— Ah, por favor... e eu me importaria com um convite para uma festa vindo de Henry Cheng?
— A questão é que eu te convidei — disse Gansey. — E não o Henry. Ele não estava nem aí; eu estava.
— Ah — disse Ronan, mas não de um jeito atencioso.
Gansey deu um tapa em suas calças manchadas de sangue.
— E, em vez disso, você foi para Cabeswater. Você poderia ter morrido lá, e eu não iria saber onde você estava porque você não atendia o telefone. Você lembra daquela tapeçaria que o Malory e eu conversamos a respeito quando ele esteve aqui? A que trazia o rosto da Blue? Ah, é claro que você lembra, Adam, porque você dragou para a superfície aquelas Blues de pesadelo em Cabeswater. Quando o lance com o Noah terminou, a Blue estava daquele jeito. — Ele ergueu as mãos, as palmas expostas. — As mãos dela estavam todas vermelhas. Com o próprio sangue. Foi você que me disse, Ronan, que algo estava começando, todos esses meses atrás. Agora não é o momento de agir sozinho. Alguém vai morrer. Sem mais brincadeiras. Não há tempo para mais nada a não ser a verdade. Nós deveríamos estar nessa juntos, o que quer que isso seja.
Não havia nenhum motivo para protestar em relação a qualquer uma dessas colocações; era tudo inquestionavelmente verdadeiro. Adam poderia ter dito que ele havia estado em Cabeswater inúmeras vezes para fazer seu trabalho junto à linha ley e que ele havia achado que essa vez seria como qualquer outra, mas ele tinha plena consciência de que havia percebido que havia algo estranho a respeito da floresta e seguiu em frente.
A Garota Órfã derrubou o cabide para casacos atrás da porta da sala de estar e deslizou para longe do acidente.
— Pare de fazer bobagem por aí — disparou Ronan. De maneira contraintuitiva, o fato de Ronan perder a paciência significava que a discussão havia terminado. — Coloque as mãos nos bolsos.
Ela sibilou de volta algo para ele em uma língua que não era inglês nem latim. Ali, naquela sala de estar mundana, ficava especialmente claro que ela havia sido montada de acordo com regras de algum outro mundo. Aquele blusão fora de moda, aqueles olhos negros enormes, as pernas delgadas com os cascos escondidos em botas. Era impossível acreditar que Ronan a tivesse tirado dos seus sonhos, mas fora impossível acreditar em seus outros objetos de sonho bizarros também. Parecia óbvio agora que por algum tempo eles vinham andando rapidamente em direção a um mundo onde a existência de um demônio era algo plausível.
Todos viraram o olhar bruscamente quando a porta dos fundos se abriu. Blue e Maura entraram na sala de estar enquanto uma enfermeira começou a se inquietar atrás do balcão. Toda a atenção imediatamente se voltou para Blue.
Ela tinha dois pontos visíveis na sobrancelha direita, prendendo as bordas limpas de um corte que descia pelo rosto. Arranhões leves de cada lado do ferimento mais profundo contavam a história de dedos se cravando como garras na pele. Adam podia dizer que ela sentia dor.
Ele sabia que se importava com ela porque seu estômago formigava desconfortavelmente apenas de olhar para aquele ferimento, a sugestão de violência o arranhando como dedos em um quadro-negro.
Noah tinha feito aquilo. Adam cerrou a mão em punhos, lembrando-se de como fora a sensação de tê-la se mexendo involuntariamente.
Gansey estava certo: qualquer um deles poderia ter morrido hoje à noite. Era chegada a hora de pararem de brincar.
Por um estranho segundo, nenhum deles falou.
Finalmente, Ronan disse:
— Meu Deus, Sargent. Você está com pontos no rosto? Dura. Na queda. Toca aqui, imbecil.
Com algum alívio, Blue ergueu o punho e tocou o dele.
— Abrasão da córnea — disse Maura. O tom sério, destituído de humor, traiu sua preocupação mais do que qualquer choro o teria. — Gotas antibióticas. Deve sarar.
Ela encarou a Garota Órfã, e esta a encarou de volta. Assim como Ronan, seu olhar atento ficava em algum lugar entre o taciturno e o agressivo, mas o efeito era ligeiramente mais estranho quando apresentado por uma garota abandonada usando botas enlameadas. Maura deu a impressão de que estava prestes a perguntar algo, mas, em vez disso, ela se retirou para o balcão para pagar pela consulta.
— Escuta — disse Gansey em uma voz baixa. — Preciso dizer uma coisa. É um momento estranho para dizer, mas eu... eu continuo esperando pelo momento certo e não consigo parar de pensar sobre como fazer isso. Se hoje à noite tivesse terminado pior, talvez eu nunca teria essa oportunidade de novo. Então, a verdade é esta: não posso pedir para vocês que sejam sinceros, se eu mesmo não fui.
Gansey se aprumou na cadeira. Adam viu o seu olhar pousar em Blue. Julgando, talvez, se ela sabia ou não o que ele estava prestes a dizer, ou se ele deveria dizer. Ele tocou o polegar no lábio inferior, percebeu o gesto e baixou a mão.
— A Blue e eu estamos saindo — ele disse. — Não quero magoar ninguém, mas quero continuar saindo com ela. Não quero mais esconder isso. Está acabando comigo, e noites como esta, tendo que ficar aqui, olhar para a Blue com o rosto desse jeito e fingir que... — Gansey parou de falar, um silêncio tão intenso que ninguém ousou lhe acrescentar outro ruído. Então terminou o que estava dizendo, repetindo: — Não posso pedir para vocês que façam coisas que eu mesmo não fiz. Sinto muito por ter sido hipócrita.
Adam jamais acreditara realmente que Gansey reconheceria a relação de uma maneira tão direta, e agora que a confissão pairava no ar, ela era intensamente desagradável. Não havia alegria em ver Gansey parecendo tão miserável, nem satisfação em ver Gansey e Blue essencialmente pedindo permissão para continuarem a sair juntos. Adam gostaria de que eles tivessem simplesmente contado a verdade desde o início; se isso tivesse acontecido, eles jamais teriam chegado a esse ponto.
Ronan ergueu uma sobrancelha.
Blue recolheu os dedos em punhos pequenos e cerrados junto ao corpo.
Gansey não acrescentou mais nada, simplesmente esperou pelo julgamento, o olhar incerto focado em Adam em particular. Ele era uma versão muito maltrapilha da pessoa que Adam havia encontrado pela primeira vez, e Adam não sabia dizer se Gansey estava se tornando uma pessoa diferente, ou se ele estava voltando a ser alguém que ele já fora muito tempo atrás. Adam revolveu dentro de si em busca de alguma coisa que ele ainda desejasse ouvir de Gansey, mas nada se destacou.
Respeito era tudo que ele quisera todo esse tempo, e respeito era o que ele estava encarando, mesmo que de forma tardia.
— Obrigado — disse Adam. — Por finalmente nos contar. — Ele queria dizer por me contar. Gansey sabia disso, e anuiu ligeiramente. Blue e Adam trocaram um olhar. Ela mordeu o lábio; ele ergueu um ombro. Ambos lamentavam.
— Bom. Fico feliz que todos saibam — disse Gansey em um tom de voz altivo. Muito tempo atrás, Adam acharia essa reação animada insuportável, petulante até. Agora ele sabia que era o oposto. Quando pressionado por algo muito importante e pessoal, Gansey se esquivava para uma cordialidade jovial. Era algo tão fora do contexto nessa unidade de pronto-socorro, nessa noite tumultuosa, que era verdadeiramente perturbador, particularmente ao lado de sua expressão ainda perturbada.
Blue pegou a mão de Gansey.
Adam apreciou o gesto.
— Que nojo — disse Ronan, numa resposta infantil.
Mas Gansey disse:
— Obrigado pela opinião, Ronan — com uma expressão respeitável no rosto novamente, e Adam percebeu o quão inteligentemente Ronan havia aliviado a tensão do momento. Todos podiam respirar de novo.
Maura voltou do balcão até onde eles estavam. Adam teve a clara impressão de que ela se demorara por lá intencionalmente, dando espaço para todos eles. Então ela tirou as chaves do carro do bolso e disse:
— Vamos embora daqui. Esses lugares me deixam nervosa.
Adam se inclinou para bater os nós dos dedos contra o punho de Gansey.
Não havia mais tempo para brincadeiras. Só havia tempo para a verdade.

2 comentários:

  1. Será que eles (Adam e Blue), vão
    contar ao Gansey que ele vai morrer?

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    Respostas
    1. Deveriam né, já que chegou a hora de ser sincero e tal...

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Boa leitura, E SEM SPOILER!