30 de julho de 2018

Capítulo 26

PAELSIA

Quando Magnus acordou, os três cavalos haviam fugido. Ele estava sozinho no meio de Paelsia, cercado por três cadáveres. Um falcão voava em círculos. Por um instante, achou que pudesse ser um abutre.
Ele se levantou com esforço e olhou para os homens caídos. Praguejou em voz baixa, depois olhou na direção da vila ao longe. Não havia sinal da princesa Cleo e da pessoa que o derrubara.
Esforçou-se muito para não olhar para o guarda auraniano que havia matado, mas não conseguia desviar os olhos dele. O rapaz ainda tinha os olhos abertos, fixos no céu. O sangue havia ressecado sobre seus lábios e uma poça encharcara a terra ao lado de seu corpo.
Magnus percebeu que estava tremendo. Aquele guarda havia eliminado dois de seus homens. Assim que ele se virasse, Magnus poderia ter sido morto também. Ele precisou atacar primeiro. Então optou por golpear o guarda nas costas, como um covarde.
Ele se agachou e olhou fixamente para o auraniano, sabendo que nunca se esqueceria do rosto da primeira pessoa que havia matado. O rapaz não era muito mais velho do que ele.
Magnus estendeu o braço e fechou seus olhos.
Então deixou os corpos ali, foi para a vila e comprou um cavalo de um paelsiano que parecia assustado e intimidado com sua presença. E cavalgou de volta a Limeros. Parou apenas quando estava cansado demais a ponto de quase cair da montaria, dormindo algumas horas antes de continuar, entorpecido, arruinado e abatido.
O sangue do arranhão da garota havia secado em seu rosto. Pelo menos tinha parado de arder. Pensou por um instante se ficaria com novas cicatrizes. Serviria como uma marca visível de sua derrota e humilhação.
Quando finalmente chegou ao palácio limeriano, ele deixou o cavalo do lado de fora sem chamar o cavalariço para levá-lo e lhe dar água e comida. Mal podia pensar. Até mesmo andar em linha reta era um esforço monumental.
Magnus foi direto para o seu quarto, fechou a porta e caiu de joelhos sobre o chão duro.
Alguns diziam que Magnus era igual ao pai em aparência e temperamento. Ele discordara até então, mas de fato era filho de seu pai. Era cruel. Manipulador. Trapaceiro. Violento.
Atingir o guarda pelas costas para salvar sua própria vida era algo que o rei Gaius teria feito.
A única diferença é que o rei não daria importância depois. Ele nunca duvidaria de suas ações. Celebraria como celebrou a magia recém-descoberta de Lucia depois que ela transformara sua amante em uma pilha de carne tostada.
Magnus não sabia ao certo quanto tempo havia ficado ajoelhado na escuridão. Mas depois de um tempo, percebeu que não estava mais sozinho.
Lucia havia entrado em seus aposentos. Ele ainda não a estava vendo, mas sentia sua presença e o perfume floral que ela sempre usava.
— Meu irmão — ela sussurrou. — Você voltou.
Ele não respondeu. Sua boca estava seca, sedenta. Ele não sabia nem se conseguia se mexer.
Lucia tocou gentilmente em seu ombro.
— Magnus! — Ela se ajoelhou junto a ele e tirou os cabelos do irmão da lateral da face. — Seu rosto. Você está ferido!
Ele engoliu em seco.
— Não foi nada.
— Por onde andou?
— Fiz uma viagem até Paelsia.
— Você parece… ah, Magnus. — A preocupação recobria suas palavras. Ela não sabia o que ele havia feito. O que havia sido instruído a fazer.
Encontrar a princesa Cleo e levá-la a Limeros.
Uma tarefa tão simples. Magnus sabia que seu pai não a confiaria a ele se não tivesse certeza absoluta de que o filho a cumpriria.
Mas ele havia fracassado.
Lucia se levantou e voltou instantes depois com um copo de água e um pano úmido.
— Beba isso — ela disse com firmeza.
Ele bebeu. Mas a água só serviu para tornar a dor muito mais aguda.
Lucia limpou o ferimento com o pano.
— O que arranhou você?
Ele não respondeu. Lucia não entenderia o que ele havia feito.
— Diga-me — ela insistiu. O tom severo de sua voz lhe rendeu um olhar direto. — Isso mesmo. Você precisa me contar o que aconteceu. Agora mesmo.
— Você vai fazer tudo ficar bem?
— Pode ser.
Ele respirou fundo e a expressão dela ficou ainda mais severa. Ela tirou os cabelos dele da frente do rosto.
— Magnus, por favor. O que posso fazer?
Ele sacudiu a cabeça.
— Nada.
— Por que você foi a Paelsia?
— Nosso pai me mandou ir até lá para trazer uma coisa para ele. Eu fracassei. E… coisas ruins aconteceram. Ele vai ficar furioso comigo. — Ele olhou para o chão, olhou para suas mãos. Havia deixado a espada no andar de baixo. Não tinha se preocupado em limpar o sangue do guarda.
— Que coisas ruins aconteceram?
— Os guardas que me acompanhavam... eles foram mortos.
Ela arregalou os olhos.
— Eles foram mortos? Mas você escapou. Foi ferido, mas escapou. — Ela tocou o rosto dele com leveza. — Graças à deusa você sobreviveu.
Ele olhou para a bela irmã, tirando forças do modo como ela o olhava, como se ele nunca pudesse ser capaz de fazer algo realmente ruim.
— Eu matei uma pessoa.
Os lábios de Lucia se abriram de surpresa.
— Meu pobre irmão. Passou por tantas coisas horríveis. Eu sinto muito.
— Sou um assassino, Lucia.
— Não. — Ela segurou o rosto dele entre as mãos para forçá-lo a continuar olhando para ela. — Você é meu irmão. E é maravilhoso. Nunca faria nada de ruim. Está me ouvindo?
Lucia o abraçou com força. Tanta que ele quase conseguiu esquecer o que havia acontecido. Ele se agarrou a ela. Ela era a âncora que impedia que ele fosse arrastado pelo mar.
— Nosso pai não vai ficar bravo — ela sussurrou. — O que ele queria que você fizesse, seja o que for, não é tão importante quanto o seu retorno em segurança.
— Talvez ele discorde disso.
— Não, não discorda. Eu me senti muito mal pelo que aconteceu com Sabina. — A voz dela falhou. — Mas ele me garantiu que não sou uma pessoa ruim e que não devo temer minha magia. Que o que aconteceu estava fadado a acontecer. Foi o destino.
— E você acreditou nele?
Lucia fez silêncio por um instante.
— Demorei um pouco, mas agora acredito. O que sou capaz de fazer não me causa mais medo. Deixe-me mostrar o que aprendi.
Ela pressionou a mão contra o rosto ferido do irmão. A pele dela se aqueceu junto à dele e começou a brilhar com uma suave luz branca. Ele ficou olhando dentro dos olhos azuis dela, esforçando-se para não recuar quando o calor aumentou e afundou em sua pele. Doeu, mas ele se obrigou a não se esquivar. Quando ela se afastou, ele tocou o rosto e descobriu que estava liso, exceto pela cicatriz anterior, e que os novos arranhões haviam desaparecido. Lucia o havia curado com magia da terra.
— Incrível. Você é incrível.
Um sorriso pequeno e confiante surgiu nos lábios dela.
— Fiquei surpresa com a gentileza de nosso pai comigo depois… bem, depois do que fiz. Eu o amo por não piorar as coisas para mim.
Magnus odiava a ideia de que Lucia tivesse se iludido com algumas palavras afáveis do pai.
— Você o ama mais do que a mim?
Ela se aproximou dele e soltou uma risada suave.
— Quer saber a verdade?
— Sempre.
— Então será nosso segredo — ela sussurrou no ouvido dele. — Amo você mais do que qualquer outro.
Ele se afastou e olhou nos olhos dela, segurando seu belo rosto nas mãos. Aquilo podia ser verdade?
— Isso faz com que se sinta melhor depois da sua terrível missão? — ela perguntou.
Ele concordou com a cabeça.
— Faz, sim.
Em seguida, com o coração explodindo, ele comprimiu sua boca junto à dela, beijando-a tão profunda e apaixonadamente como sempre sonhara. Os lábios dela eram tão macios e doces, e o preenchiam com esperança e amor.
Sentindo um arrepio, ele de repente se deu conta de que as mãos de Lucia estavam espalmadas contra o seu peito e que ela estava tentando afastá-lo. Quando ele interrompeu o beijo, ela deslizou para longe dele, caindo no chão. Levantou a mão para cobrir a boca, com os olhos arregalados e consternados. E pior: enojados.
Os lábios dele formigavam pelo contato com os dela, mas a realidade do que havia acontecido caiu sobre sua cabeça como um balde de água fria.
Ela não havia correspondido ao beijo.
— Por que você fez uma coisa dessas? — A voz dela foi abafada pela mão.
— Sinto muito. — O coração pulava no peito, mas logo depois Magnus balançou a cabeça em negação. — Não, espere. Não vou pedir desculpas. Eu queria beijá-la assim há tanto tempo, mas sempre tive medo.
As mãos dela tremiam quando as afastou da boca.
— Mas você é meu irmão.
— Você disse que me amava.
— Sim. Eu o amo muito… como meu irmão. Mas isso… — Ela sacudiu a cabeça. — Não. Não está certo. Nunca mais deve fazer isso.
— Você não é minha irmã de verdade. — Ele se permitira ficar envergonhado com o que havia feito. Havia cedido ao amor que tinha por ela de uma forma real, e se recusava a deixar que aquilo fosse transformado em algo vil. Era puro. A coisa mais pura em todo o mundo. — Não tem o meu sangue. Você não nasceu nesta família. Nasceu em Paelsia. Sabina roubou você do berço. Foi criada aqui como minha irmã, mas não temos parentesco de sangue. Se ficarmos juntos, não será proibido.
O rosto dela estava tão pálido que ela parecia um fantasma. A ferocidade havia deixado seus olhos, substituída pelo choque.
— Por que está me dizendo essas coisas horríveis?
— Porque é a verdade. A verdade que deveria ter sido contada pelo próprio rei. Ele quer usar o seu poder para benefício próprio. Foi por isso que pediu que fosse trazida para cá, por isso criou você como filha.
Lucia sacudiu a cabeça.
— E você sempre soube?
— Não, fiquei sabendo naquela noite pela própria Sabina. Mas nossa mãe confirmou tudo.
— Eu não entendo. — Ela se levantou cambaleando. Ele fez o mesmo, observando-a com cautela. Sua desgraça em Paelsia fora momentaneamente esquecida. Ele não queria ter contado a verdade a Lucia daquele jeito tão brusco.
— Acalme-se — ele a tranquilizou. — Por favor. O rei ainda a tem como sua filha amada, sei que sim. E nós fomos criados juntos, lado a lado. É tudo real. Mas considerar você apenas uma irmã, agora que sei da verdade… não posso. Você é muito mais do que isso para mim.
Lucia olhou nos olhos dele.
— Por favor, não me diga isso.
— Você é a única pessoa no mundo que significa algo para mim. — A voz dele falhou. — Eu amo você, Lucia. Amo você até as profundezas da alma.
Ela o encarou.
— Você disse que me amava. — Ele tentou manter a voz firme. — Mais do que qualquer outra pessoa.
— Como irmão. Como meu querido irmão, meu amor é incondicional.
Foi como se o coração dele parasse e o mundo caísse à sua volta.
— Apenas como irmão.
— Nunca mais pode fazer isso. Não pode me tocar desse jeito. É errado, Magnus.
Ele cerrou os punhos na lateral do corpo.
— Não é errado.
— Eu não sinto a mesma coisa por você.
— Mas um dia você pode…
— Não. — Lágrimas surgiram em seus olhos. — Eu nunca vou sentir o mesmo por você. Por favor, não quero tocar nesse assunto nunca mais. — Ela passou a mão sobre os longos cabelos, como se tentasse alisá-los. Foi até a porta, mas ele pegou em seus pulsos para impedir.
Os olhos de Magnus queimavam.
— Por favor, não me deixe.
— Eu preciso ir. Não aguento ficar com você agora.
Ela se soltou e saiu do quarto.
Magnus ficou ali parado, olhando para a porta, sem se mexer, sem pensar em nada, aturdido pelo que tinha acabado de acontecer.
Ela viraria as costas para ele e o puniria por demonstrar seus sentimentos. Por abrir seu coração como nunca havia feito antes com ninguém.
Magnus sempre fora um tolo. Uma criança. Uma criança que sempre apanhava ou era maltratada por quem era maior, mais forte ou mais poderoso. Durante a vida toda, ele passara por intenso sofrimento e desenvolvera uma fina máscara para encobrir seus verdadeiros sentimentos. Mas máscaras podiam ser removidas facilmente e destruídas com poucas palavras.
A partir daquele dia, ele não era mais criança. Havia matado. Havia perdido a pessoa que mais amava, e ela nunca mais confiaria nele como antes. Nada seria o mesmo com Lucia daquele dia em diante. Ele havia destruído para sempre a relação que tinham. E por um instante, sozinho em seus aposentos, ele cerrou os punhos e se permitiu chorar a perda de sua irmã e melhor amiga.
Foi quando seu coração, partido em milhares de pedaços, lentamente começou a se transformar em gelo.

5 comentários:

  1. Eu não sei se posso lidar com isso.
    Mesmo ele tendo matado o Theon e eu estar muito triste eu n consigo odia-lo.
    Meu Deus! Eu to confusa.

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  2. "seu coração começou a se transformar em gelo"..ele vai ficar do lado negro da força como o pai???rs

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  3. Muito justo ele perder a consideração da Lúcia depois de ter matado o Theon.
    Muito justo!

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  4. Não consigo não gostar do Magnus, acho que ele ainda irá se redimir! Poxa, Theon, eu tava torcendo tanto 😓 Uma das mortes literárias que mais me doeu

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  5. nossa, muito tenso mas foi justo ele perder Lucia.

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