15 de julho de 2018

Capítulo 26

Você poderia dizer o que quisesse de Piper Greenmantle, mas ela não era uma pessoa que desistia fácil das coisas, mesmo quando não terminavam exatamente como ela havia imaginado. Ela seguiu indo ao Pilates muito tempo depois de o exercício lhe parecer fisicamente satisfatório, continuou comparecendo ao clube do livro após ter descoberto que era uma leitora muito mais rápida do que suas colegas, e persistiu em colocar cílios postiços mink costurados aos seus a cada duas semanas, mesmo após o salão mais próximo de onde ela morava ter fechado por violações sanitárias.
Então, quando saiu em busca de uma entidade adormecida mágica supostamente enterrada perto de sua casa alugada, ela não desistiu até encontrá-la.
Desfazedor.
Essa fora a primeira coisa que a entidade dissera quando a encontrara. Piper precisou de um momento mais para se dar conta de que estava respondendo à sua pergunta (“Mas que diabos?”).
Em defesa de Piper, a adormecida era perturbadora. Ela estava esperando um ser humano, e, em vez disso, encontrara uma criatura de seis pernas, sombria como um assassinato que ela teria chamado de vespa se, em primeiro lugar, Piper não achasse vespas repulsivas e, em segundo, não visse nenhum sentido em uma vespa ter trinta centímetros de comprimento.
— Isso é um demônio — Neeve dissera. Neeve era a terceira perna do desconfortável tripé ali reunido. Ela era uma mulher atarracada, de voz suave, com belas mãos e um cabelo feio; Piper achava que ela era uma médium televisiva, mas não conseguia se lembrar como ela havia chegado a essa informação.
Neeve não parecera feliz de ter descoberto um demônio, mas Piper estava morrendo à época e era pouco exigente na hora de escolher seus amigos. Ela pulou todas as outras delicadezas sociais e disse para o demônio:
— Eu o despertei. Tenho direito a um favor? Conserte meu corpo.
Vou lhe conceder um favor.
E ele havia mesmo. O ar na tumba escurecida havia ficado um pouco agitado, e então Piper havia parado de sangrar até a morte. Ela achara que isso seria um ponto-final em sua relação com a entidade. Afinal, aquele favor fora um gesto único, mas a boa vontade seria para sempre.
Agora olhe para ela. Elas haviam saído da caverna, o sol brilhava em meio às nuvens, e Piper havia acabado de matar seu marido covardemente imbecil. A mágica revolvia através dela e, para falar a verdade, ela estava se sentindo bem durona. Ao seu lado, uma cascata caía para cima, às avessas, a água borrifando céu adentro, em grandes golfadas. A árvore mais próxima de Piper vertia sua casca em feixes úmidos.
— Por que o ar está desse jeito? — perguntou Piper. — É como se estivesse me arranhando. Ele vai nos beliscar assim o tempo inteiro?
— Acredito que esteja se acalmando — disse Neeve em sua voz fraca. — Quanto mais nos afastarmos do momento da morte do seu marido. São choques secundários. A floresta está tentando se livrar do demônio, que parece usar a mesma fonte de energia, focada através da floresta. Ela está reagindo ao seu uso para matar. Posso sentir que esse lugar tem a ver com a criação, e assim, qualquer passo que você der que vá contra isso, vai causar esse tipo de terremoto espiritual.
— Todos fazemos coisas que não queremos — disse Piper. — Não quer dizer que vamos matar um monte de gente. Isso foi apenas para provar para o meu pai que eu estava falando sério em fazer as pazes com ele.
O demônio perguntou: E agora, o que você deseja?
Ele estava se segurando à velha casca raiada de uma árvore, as costas curvas do jeito que as vespas ficam quando estão no frio, na umidade ou brisa de uma cascata. As antenas vibravam na direção de Piper, e ele ainda zumbia no mesmo compasso de um enxame que parecia não existir mais.
No alto, o sol balançou; ocorreu a Piper que talvez nem fosse dia. Outro pedaço da casca se desprendeu da árvore.
— Você faz mal para o meio ambiente?
Piper sempre fora atenta à sua pegada de carbono. Parecia sem sentido que ela passasse duas décadas reciclando, se ela iria destruir um ecossistema inteiro.
Eu sou um produto natural desse meio ambiente.
Um galho se dobrou até o chão, ao lado de Piper. Suas folhas eram negras e delas escorria um líquido amarelo e grosso. O ar continuava a estremecer.
— Piper. — Neeve pegou a mão de Piper com carinho, parecendo tão serena quanto alguém poderia ser ao vestir trapos rasgados ao lado de uma cascata que escorria ao contrário. — Eu sei que quando você se jogou na tumba da entidade adormecida, me tirando do caminho, se assegurando que você e somente você teria o favor dela, você tinha a esperança de me tirar da jogada e continuar em um futuro onde você e somente você controlasse as suas próprias escolhas e gozasse do favor do demônio, provavelmente me deixando na caverna para perambular, na melhor das hipóteses, e morrer, na pior delas. Na época, admito que fiquei muito incomodada com você, e os sentimentos que eu tinha então não são sentimentos dos quais sinto orgulho agora. Vejo que você não só tem dificuldade em confiar nos outros, como não me conhecia. Mas se você quiser...
Piper perdeu grande parte do discurso enquanto observava as unhas bem formadas de Neeve. Elas eram moedinhas invejavelmente perfeitas de queratina. As unhas de Piper estavam comidas do esforço de arrastar-se para fora da caverna desabada.
— ... existem maneiras melhores de atingir as suas metas. Realmente, é fundamental que você aprenda a contar com a minha considerável experiência em mágica.
Piper concentrou sua atenção.
— Tudo bem. Eu perdi a cabeça lá dentro, mas e daí? Pule a parte dos sentimentos.
— Não acho que seja sábio se unir a um demônio. Eles são inerentemente negativos em vez de positivos. E tomam mais do que doam.
Piper se virou para o demônio; era difícil dizer o quão atento ele era. Vespas não tinham pálpebras, então era possível que ele estivesse dormindo.
— Quanto dessa floresta terá de morrer para que eu recupere a minha vida?
Agora que estou desperto, vou desfazer toda ela, de qualquer maneira.
— Tudo bem, então — disse Piper. Ela tinha a sensação de alívio que vinha de uma decisão ruim ter sido tomada por si. — Está decidido. Melhor aproveitar a oportunidade. Ei... aonde você está indo? Você não quer ficar... — Piper deu ouvidos, e o demônio atentou para os seus pensamentos. — ... famosa?
Neeve piscou.
— Respeitada.
— Mesmo lance — disse Piper. — Bem, não vá ainda. Eu meio que dei uma curva em você antes porque eu estava morrendo e tipo brava. Só um pouquinho? Mas vou dar um jeito nisso.
Neeve pareceu menos entusiasmada do que Piper havia esperado, mas pelo menos ela não tentou fugir novamente. Isso era positivo; Piper não queria realmente ficar sozinha com o demônio. Não porque ela estivesse com medo, mas porque ela se sentia mais energizada com uma plateia. Ela havia preenchido um questionário online que disse que ela era um tipo especial de pessoa extrovertida e que era provável que ela fosse desse jeito para o resto da vida.
— Isso vai ser um novo recomeço para nós duas — Piper assegurou a Neeve.
O demônio inclinou a cabeça, suas antenas ondulando novamente. Olhos de vespas não eram para ser tão grandes, pensou Piper. Eles pareciam aqueles óculos de sol marrom-escuros de aviadores.
Possibilidades de vida e morte se moviam sombriamente neles.
E agora?
— Hora de ligar para o papai de novo — disse Piper.

Um comentário:

  1. Burras.
    Ainda me impressiona que a Neeve tenha feito uma merda dessa, pra uma "medium" ela é bem leiga.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!