5 de julho de 2018

Capítulo 26

Blue acordou brava.
Ela não se lembrava do que sonhara, apenas que era sobre sua mãe, e, quando acordou, poderia ter batido em algo. Ela se recordou de quando visitara Adam uma tarde naquele verão e ele chutara uma caixa — era esse o nível de raiva que ela sentia. Só que não parecia valer a pena chutar alguma coisa quando não havia ninguém em volta para vê-la fazer isso.
Blue permaneceu deitada e disse a si mesma para voltar a dormir, mas, em vez disso, ficou mais irada ainda. Ela estava cansada de Persephone, Calla e sua mãe esconderem informações porque ela não era médium. De não poder fantasiar a respeito de faculdades bacanas porque não era rica. De não poder segurar a mão de Gansey porque eles não podiam machucar os sentimentos de Adam, e de não poder beijar a boca de Gansey porque ela não queria matá-lo. Blue estava cansada de saber que ele morreria e de temer que a mãe dela também morresse.
Repetidamente, ela ouvia Adam adivinhar a verdade: Gansey.
Ela jogou os cobertores para o lado e se vestiu com raiva, e com raiva correu até a sala do telefone.
Orla estava sentada ali, pintando as unhas à uma da manhã.
Blue congelou no vão da porta, a intenção escrita em seu rosto.
— Que foi? — disse Orla. — Vá em frente.
Blue não se mexeu.
— Ah, por favor. Não vou te impedir. Eu só estava tentando evitar que você tivesse o coração partido, mas como queira, vá em frente — disse Orla.
Blue atravessou a sala e pegou o telefone, olhando de relance para Orla novamente de maneira suspeita. Sua prima havia voltado a pintar minúsculas mandalas nas unhas. Ela não fingiu não estar ouvindo, mas parecia pouco incomodada.
Blue ligou para Gansey.
Ele atendeu imediatamente.
— Eu não estava dormindo.
— Eu sei — ela respondeu. — Vem me buscar.


Havia algo de estranho nele quando chegou no Pig. Algo feroz em seus olhos, um tipo de mordida em seu sorriso tênue. Algo inteiramente febril e inquieto. Blue parou na beira do sorriso de Gansey e olhou.
Aquele não era o Gansey que ela vira na cozinha mais cedo; era o Gansey para quem ela ligava secretamente à noite.
Ele não perguntou aonde ela queria ir. Eles não podiam falar sobre isso, então não disseram nada.
O Camaro estava com o motor ligado em ponto morto na rua silenciosa, tarde da noite. Blue entrou no carro e bateu a porta. Gansey — o Gansey descuidado, selvagem — engatou outra marcha tão logo eles saíram do bairro. Ele levou o carro ruidosamente de semáforo em semáforo e então, quando chegaram à rodovia vazia, o deixou aumentar a velocidade furiosamente, o punho fechado sobre o câmbio.
Eles seguiam para leste, na direção das montanhas.
Blue ligou o rádio e mexeu com a música de Gansey até encontrar algo que valesse a pena tocar alto. Então brigou com sua janela para baixá-la, e o ar gritou sobre ela. Estava frio demais para isso, realmente, mas Gansey estendeu o braço para o banco de trás sem tirar os olhos da estrada e arrastou seu sobretudo para a frente. Blue o colocou, tremendo quando o forro de seda gelou suas pernas nuas. O colarinho cheirava a ele.
Eles não conversavam.
O rádio pulava e valsava. O carro rugia. O vento esvoaçante dentro do carro. Blue colocou a mão sobre a de Gansey e a segurou, os nós dos dedos brancos. Não havia outra alma na estrada, exceto eles.
Subiram as montanhas — para cima, para cima e através de um desfiladeiro.
Os picos eram negros e proibitivos à meia-luz dos faróis, e, quando eles alcançaram o ponto mais alto no desfiladeiro, os dedos de Gansey se cerraram mais ainda debaixo dos dedos de Blue enquanto ele reduzia a marcha e fazia o retorno, zunindo de volta pelo mesmo caminho em que tinham vindo.
Eles voltaram em alta velocidade para Henrietta, passando por estacionamentos de lojas sinistramente vazios, casas geminadas silenciosas, Aglionby, o centro da cidade, Henrietta. Do outro lado da cidade, Gansey dobrou deslizando em uma esquina para um novo e inutilizado desvio: quatro pistas novíssimas de estrada iluminada de lugar nenhum para lugar nenhum.
Ele parou o carro ali, pegou seu casaco de Blue e eles trocaram de lugar. Ela puxou o assento o mais próximo possível da direção e deixou o motor morrer. E mais uma vez. Gansey colocou a mão no joelho de Blue, dedos sobre a pele, a linha da vida tocando o osso, e a impediu de soltar a embreagem rápido demais. O motor subiu de rotação, forte e convicto, e o carro saltou para frente.
Eles não conversavam.
As luzes dos postes passavam em série pelo para-brisa à medida que Blue acelerava em uma direção, então dava a volta e retornava no outro sentido, repetidamente. O carro era temível e disposto — exagerado, rápido demais, tudo ao mesmo tempo. O câmbio trepidava por baixo de seu punho quando eles estavam parados, e o acelerador crescia e se prendia ao pé de Blue quando estavam em movimento. O ar frio que entrava pela ventilação debaixo do painel sussurrava o ar da noite sobre suas pernas nuas; o calor do motor rugindo queimava a parte de cima de seus pés. O ruído: o mero ruído era um monstro, amplificado quando ela podia senti-lo vibrando no câmbio, puxando a direção, vociferando através de seus pés.
Blue estava com medo dele até apertar o acelerador, e então seu coração bateu forte demais para lembrar que tinha medo.
O Camaro era como Gansey aquela noite: aterrorizador e emocionante, disposto a fazer o que quer que ela pedisse.
Blue se sentia mais corajosa a cada volta. Apesar de todo seu ruído e sua pose, o Pig era um professor generoso. Ele não se importava que Blue fosse uma garota muito baixinha que nunca dirigira um carro com câmbio manual antes. Ele fazia o que podia.
Blue não podia esquecer a mão de Gansey sobre seu joelho.
Ela encostou o carro.
Blue achara que era uma coisa tão simples evitar beijar alguém quando estava com Adam. Seu corpo nunca soubera o que fazer. Agora ele sabia. Sua boca não se importava que ela fosse amaldiçoada.
Ela se virou para Gansey.
— Blue — ele avisou, mas sua voz era caótica. Próximo assim, sua garganta cheirava a hortelã, suéter de lã e assento de carro de vinil, e Gansey, apenas a Gansey.
— Eu só quero fingir. Só quero fingir que eu poderia — ela disse.
Gansey suspirou.
O que era um beijo sem um beijo?
Era uma toalha puxada em uma mesa posta para festa. Tudo misturado com todo o resto em apenas alguns momentos caóticos. Dedos nos cabelos, mãos segurando nucas, bocas roçando rostos e queixos em perigosa proximidade.
Eles pararam, o nariz de um amassado contra o outro daquela maneira estranha que a proximidade exige. Blue podia sentir a respiração de Gansey em sua boca.
— Talvez não tivesse problema se eu te beijasse — ele sussurrou. — Talvez seja apenas se você me beijar.
Ambos engoliram ao mesmo tempo, e o feitiço se rompeu. Ambos riram, mais uma vez ao mesmo tempo, nervosamente.
— E depois nunca mais falamos sobre isso — disse Gansey, zombando de si mesmo ligeiramente, e Blue ficou tão contente com isso, pois havia ensaiado as palavras daquela noite repetidamente em sua cabeça e queria saber se ele havia também. Suavemente, ele prendeu o cabelo dela atrás das orelhas, o que era perda de tempo, pois seu cabelo nunca estivera atrás das orelhas para começo de conversa e não ficaria ali. Mas ele o prendeu de novo, e mais uma vez, e então tirou duas folhas de hortelã e colocou uma em sua boca e outra na de Blue.
Ela não sabia dizer se era muito tarde ou se havia ficado muito cedo.
E agora a alegria catastrófica estava passando e a realidade voltava a assumir o seu lugar. Blue podia ver que agora ele estava muito próximo de ser aquele garoto que ela vira no adro da igreja.
Conte para ele.
Blue rolou a folha de hortelã de um lado para o outro sobre a língua. Ela se sentia trêmula de frio ou cansaço.
— Você já pensou em parar antes de encontrar Glendower? — ela perguntou.
Ele pareceu surpreso.
— Não faça essa cara — ela disse. — Eu sei que você precisa encontrá-lo. Não estou pedindo para me dizer por quê. Eu entendo essa parte. Mas, conforme a busca fica mais arriscada, você já pensou em parar?
Gansey manteve o olhar dela, mas seus olhos haviam se distanciado, pensativos. Ele estava ponderando a questão, talvez, o custo da busca versus sua necessidade imperecível de ver o rei. Então ele se concentrou em Blue novamente e balançou a cabeça.
Ela se recostou completamente e deu um longo e ruidoso suspiro.
— Bom, tudo bem.
— Você está com medo? É isso que está perguntando?
— Não seja idiota — ela respondeu.
— Não tem problema se estiver — disse Gansey. — Isso é só meu, no fim das contas, e eu não espero que ninguém mais...
— Não. Seja. Idiota.
Era ridículo; ela não fazia nem ideia se era a busca por Glendower que o mataria — qualquer marimbondinho seria suficiente. Ela não podia lhe contar. Maura estava certa — isso simplesmente arruinaria os dias que ele ainda tinha pela frente. Adam estava certo, também. Eles precisavam encontrar Glendower e pedir pela vida de Gansey. Mas como ela podia saber essa questão importantíssima sobre Gansey e não contar a ele?
— É melhor a gente voltar.
Ele expirou, mas não discordou. O relógio no Camaro não funcionava, mas devia ser perigosamente próximo da manhã. Eles trocaram de lugar; Blue encolhida novamente no casaco dele, pés sobre o assento. Enquanto ela puxava o colarinho para cima para cobrir a boca e o nariz, se deixou imaginar que aquele lugar era seu de direito. Que de alguma forma Adam e Ronan já sabiam disso e não se importavam. Que seus lábios não carregavam nenhuma ameaça. Que Gansey não ia morrer, não ia partir para Yale ou Princeton, que tudo que importava era que ele havia lhe emprestado o seu casaco com sua relva e sua hortelã no colarinho.
No caminho de volta para o centro da cidade, eles viram um veículo reluzente, sem dúvida o carro de um garoto corvo, parado no acostamento da estrada. Ele parecia brilhante e astronômico sob as luzes dos postes.
O sentimento desagradável da realidade cutucou Blue novamente.
— O que é isso...? — disse Gansey.
— Um dos seus — ela respondeu.
Ele encostou o carro ao lado do outro e gesticulou para que Blue baixasse o vidro.
Um garoto de cabelos negros igualmente brilhante e astronômico estava sentado atrás da direção do outro carro.
— Você é uma garota — ele disse para ela, perplexo.
— Vinte pontos! — respondeu Blue tensamente. — Quer saber, fica com trinta, porque é tarde e estou me sentindo generosa.
— Cheng. O que aconteceu? — disse Gansey, inclinando-se para frente para enxergar além de Blue. Sua voz havia mudado imediatamente para voz de garoto corvo, o que deixou Blue subitamente incomodada de ser vista em um carro com ele. Era como se a raiva de antes não tivesse sido adequadamente extinta, e agora fosse necessário apenas tomar conhecimento de que ela era uma garota em um carro com um príncipe da Aglionby para trazê-la de volta.
Henry Cheng saltou para fora do carro e se inclinou na janela do passageiro. Blue se sentiu claramente desconfortável por estar tão próxima de suas maçãs do rosto pronunciadas.
— Não sei. Ele parou.
— Parou como? — perguntou Gansey.
— Fez um ruído. Aí eu parei. Ele parecia bravo. Sei lá. Eu não quero morrer. Tenho todo um futuro pela frente. Você sabe alguma coisa sobre carros?
— Não elétricos. Que tipo de barulho você disse que ele fez?
— Um que eu não quero ouvir de novo. Não posso quebrar esse carro. Quebrei o último e meu pai ficou louco comigo.
— Quer uma carona de volta?
— Não, quero o seu celular. O meu morreu e não posso andar pela estrada ou vou ser estuprado pelo pessoal da região. — Henry bateu com o joelho na lateral do Camaro e disse: — Cara, é assim que se faz. Músculo americano que dá para ouvir a um quilômetro de distância. Não sou muito bom nesse lance de branco protestante. Você, por outro lado, é campeão... Só acho que você segue na direção contrária. Você devia andar com garotas durante o dia e com garotos à noite. É o que a minha halmeoni costumava dizer, pelo menos.
Havia algo terrível a respeito de todo aquele diálogo. Blue não sabia dizer se era porque o diálogo não precisava dela, ou porque era entre dois garotos extremamente ricos, ou porque era um lembrete concreto de que ela havia descumprido uma de suas regras mais importantes. (Ficar longe de garotos da Aglionby.) Ela se sentia como um acessório empoeirado qualquer. Ou pior. Ela simplesmente se sentia... mal.
Ela passou o celular de Gansey para Henry sem dizer uma palavra.
Enquanto o outro garoto voltava para sua aeronave reluzente para fazer a ligação, ela disse para Gansey:
— Para sua informação, eu não gosto quando a sua voz soa daquele jeito.
— De que jeito?
Ela sabia que não era algo legal de se dizer, mas sua boca disse de qualquer maneira:
— Sua voz falsa.
— Como?
— A que você usa com eles — ela disse. — Com os outros imbecis da Aglionby.
— O Henry é legal — disse Gansey.
— Ah, tá, “estuprado pelo pessoal da região”.
— Foi uma piada.
— Hahaha. Ha. Ha. Ha. É uma piada quando alguém como ele diz, porque na realidade ele não precisa se preocupar com isso. É tão típico.
— Não entendo por que você está agindo desse jeito. Na verdade ele é um pouco como você...
Blue desdenhou.
— Ah, tá bom!
Ela sabia que estava se excedendo, mas não conseguia parar. Era algo a respeito de seus rostos bonitos, de seus cabelos bonitos, de seus carros bonitos e da confiança natural e recíproca entre eles.
— Acho que talvez seja uma coisa boa que a gente não possa realmente... que a gente nunca vai...
— É mesmo? — perguntou Gansey, perigosamente educado. — Por que você acha isso?
— Nós simplesmente não estamos no mesmo nível, só isso. Nós temos prioridades muito diferentes. Estamos distantes demais. Não funcionaria na verdade.
— Dois segundos atrás a gente estava quase se beijando — ele disse —, e agora acabou tudo porque paramos para deixar um cara usar o meu celular?
— Nunca começou! — Blue se sentia tão furiosa quanto no momento em que acordara. Mais.
— Tudo isso porque eu não concordei que o Henry é um imbecil? Estou tentando ver as coisas do seu ponto de vista, mas está bem difícil. Algo a respeito da minha voz?
— Não importa. Esquece. Só me leva para casa — disse Blue. Agora ela estava se arrependendo de... de tudo. Ela nem sabia para onde sua argumentação a levara, apenas que não podia voltar atrás. — Depois que ele devolver o seu celular.
Gansey a estudou. Ela esperava ver sua raiva espelhada no rosto dele, mas, em vez disso, a expressão dele havia se desanuviado. Não era uma expressão feliz, exatamente, mas ele não parecia mais confuso. Ele perguntou:
— Quando você vai me contar qual é a razão real disso tudo?
Isso a fez dar um longo e trêmulo suspiro, próximo das lágrimas.
— Nunca.

3 comentários:

  1. Nem começaram a namorar e já discutem igual um casal de velhos

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  2. Muito difícil para Blue dizer para o amor da sua vida que ele vai morrer.

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  3. Toda essa situação dos dois é muito dolorosa, acho que mais dolorosa pra Blue por saber que o Gansey vai morrer. A Orla até que foi bem legal com a Blue, sobre não querer que ela sofra. Aquilo que o Gansey disse foi o que a Blue viu na arvore o dia que a linha ley foi desperta, uma das visões já se tornou real, agora falta a outra

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Boa leitura, E SEM SPOILER!