30 de julho de 2018

Capítulo 25


PAELSIA

A princesa estava se provando mais ardilosa do que Theon esperava. Depois de chegar a Paelsia com dois guardas de confiança, ele havia procurado em todos os lugares, vasculhado todas as vilas em busca de pistas.
Uma coisa era certa: Cleo e Nic haviam estado ali por tempo o bastante para deixar nos moradores uma impressão duradoura e, na maioria das vezes, favorável. Theon ficou surpreso ao saber que eles disseram ser irmãos viajantes… de Limeros. Brilhante.
Mas depois empacaram. Nada novo. Nenhum indício. E a cada dia que passava crescia o medo de que algo horrível tivesse acontecido com Cleo. Ele então deu ordens para os guardas se separarem de modo que, individualmente, pudessem percorrer uma área maior.
Era seu dever como guarda pessoal de Cleo — seu único dever — mantê-la em segurança. A promessa do rei de matá-lo se fracassasse era sua menor preocupação. Ele estava mais preocupado com a segurança da princesa.
Dez dias depois de Cleo ter deixado Auranos, Theon encontrou uma pista.
Em uma estrada estreita e lamacenta depois de outra tempestade inesperada, Nicolo Cassian vinha em sua direção.
Por um momento, Theon pensou que estava tendo uma visão. Mas era verdade. Ele correu na direção de Nic e agarrou a parte da frente de sua túnica.
— Onde está a princesa? Responda!
Nic parecia tão preocupado quanto Theon.
— Você não sabe como estou feliz em ver você.
— Não ficará feliz quando eu levar você de volta para Auranos. Terá que pagar caro por tirar a princesa da segurança do palácio.
— Acha mesmo que eu a forcei a vir? Cleo tem vontade própria, você sabe.
— Onde ela está? — ele perguntou.
— Foi levada por um paelsiano há três dias. Ele apontou uma faca para o meu pescoço, ameaçou separar minha cabeça do corpo. Cleo barganhou por minha vida concordando em ir com ele. — Nic parecia arrasado com aquilo. — Ela não devia ter feito isso. Devia ter fugido. Devia ter deixado ele me matar.
O estômago de Theon revirou.
— Sabe quem foi?
Nic fez que sim, sério.
— Jonas Agallon.
Theon soltou a túnica empoeirada de Nic e viu que suas mãos estavam tremendo. O nome lhe era tão familiar quanto o seu próprio. Jonas. O rapaz que havia ameaçado a vida dela. Aquele com quem ela tinha pesadelos. E Theon não estava lá para protegê-la.
— Ela vai morrer. Ou já deve estar morta. E é culpa minha.
— Eu sei onde ela está.
A atenção de Theon se voltou para Nic.
— Sabe?
— Tive um pouco de sorte ontem. Fui perguntando, tentando descobrir mais sobre Jonas e sua família. Fiquei sabendo onde mora a irmã dele. Eles têm um barracão; acho que é lá que Cleo está presa.
Theon recuperou o fôlego.
— Você acha? Ou você tem certeza?
— Não tenho certeza, porque não a vi, mas o barracão está sendo vigiado. Uma mulher entra uma vez por dia com uma bandeja de comida e água e sai com ela vazia. Só saí de lá porque sabia que precisava mandar uma mensagem para… bem, para você. E eis que está aqui.
Uma ponta de esperança voltou ao coração de Theon.
— Leve-me até lá imediatamente.


Uma das coisas que Cleo havia aprendido em três dias de cativeiro era que Felicia Agallon odiava cada parte de seu ser tanto quanto Jonas. Mas apesar do ódio, a moça obedecia as ordens do irmão de levar comida para a princesa uma vez por dia — que consistia de pão de centeio velho e água do poço, palatável apenas com a adição de mel. Da primeira vez, quando Felicia olhou com raiva para ela pelas sombras do barracão pequeno, frio e sem janelas, com apenas um buraquinho no teto para deixar passar alguma luz, Cleo observou a água com cautela.
— Está envenenada?
— Poderia me culpar se estivesse?
Cleo pensou em discutir, mas conteve a língua.
— Na verdade, não.
Felicia a analisou por alguns momentos de silêncio desconfortável.
— Não está envenenada. Jonas quer você viva, embora eu não saiba o porquê.
Ainda assim, Cleo esperou o máximo que pôde antes de beber ou comer qualquer coisa. Na maior parte do tempo, tentava dormir sobre um monte de palha, tomava pequenos goles de água e mordiscava pedacinhos de pão duro. Era o mais distante do luxo que já havia estado.
Tentou roer as cordas que amarravam seus pulsos, mas não funcionou. Mesmo se desse certo, a corrente em volta do tornozelo era outro problema sério. Além disso, o barracão estava trancado por fora e era vigiado. Ela não se permitia pensar na irmã, no pai ou em Theon. Era um camundongo preso em uma armadilha sem escapatória, esperando o gato voltar.
Esperando.
E esperando.
Depois do que pareceu uma eternidade — mas depois Cleo descobriu ser pouco mais de três dias —, ela ouviu algo. Gritos. Gemidos. Golpes.
E então ouviu uma batida na porta.
O medo a deixou quieta e imóvel. Houve outra batida, mais alta dessa vez. E vozes abafadas. Ela prendeu a respiração e tentou ser corajosa o suficiente para encarar qualquer demônio obscuro que pudesse entrar.
Foi quando lhe ocorreu que a pessoa do lado de fora não estava tentando bater; estava tentando arrombar a porta, que balançou para dentro. Cleo protegeu os olhos quando a dolorida luz do sol entrou pela escuridão.
Quando Theon entrou, ela ficou boquiaberta, em choque, e ao mesmo tempo seu coração saltou no peito.
— Viu? — Nic disse triunfante. — Eu sabia que ela estava aqui.
— Tem mais alguém aqui? — Theon perguntou. Cleo levou um tempo para se dar conta de que ele estava falando com ela.
Ela tentou parar de olhar admirada para os dois.
— Eu… o quê? Aqui? Não, não tem ninguém aqui agora. Só eu. Mas há guardas do lado de fora.
— Eu já cuidei deles.
Nic correu para o lado dela e agarrou seus braços.
— Cleo, você está bem? Aquele selvagem tocou em você?
A preocupação que ela viu no rosto dele fez seus olhos se encherem de lágrimas.
— Estou bem. Ele não me machucou.
Nic soltou um suspiro de alívio e a abraçou com força.
— Fiquei tão preocupado.
Theon não disse nada, mas foi na direção dela quando Nic a soltou. Ele demonstrava tensão.
Cleo quase se afastou, pois ele parecia furioso.
— Theon…
Ele ergueu a mão.
— Não quero ouvir nada além de que você está bem.
— Mas…
— Princesa, por favor.
— Você tem o direito de estar bravo comigo.
— Não importa como eu me sinto. Preciso levá-la para casa. Fique quieta para que eu possa soltá-la antes que os guardas que derrubei acordem.
Ela fechou a boca e ele começou a desatar os nós. Era mais eficiente do que cuidadoso com as cordas, e os pulsos dela ficaram mais esfolados quando ele terminou do que estavam antes, mas ela não reclamou. Depois, Theon desembainhou sua espada e cortou a corrente. Ele olhou para a manilha ainda no tornozelo da garota.
— O resto terá que esperar até encontrarmos um ferreiro.
Theon segurou os punhos dela e a puxou para fora do barracão, ao sol. Cleo nunca havia sentido algo tão bom quanto o calor do sol batendo em seu rosto. Nic vasculhou a bolsa dela, que havia sido derrubada quando Jonas a levou, e tirou seu manto, colocando-o sobre seus ombros para aquecê-la. Ela olhou para ele com gratidão.
Imediatamente, começaram a se afastar daquela prisão e a voltar para a estrada. Havia uma vila a apenas um quilômetro e meio de distância — a mesma em que Nic e Cleo haviam conhecido Eirene e passado a noite.
— Podemos pegar um navio para voltar — Nic sugeriu. — Tem um partindo amanhã ao pôr do sol, se chegarmos a tempo. Você estará de volta a Auranos antes que se dê conta, Cleo, e tudo ficará bem.
O estômago dela revirou.
— Não está tudo bem. Eu não encontrei a vigilante.
Theon fez um sinal para Nic.
— Preciso falar a sós com a princesa. Você poderia nos dar um minuto?
Nic olhou para ela.
— Depende. Cleo?
Ela concordou.
— Tudo bem. Devo deixar Theon falar agora. Daí, quando chegar em casa, só serei repreendida por meu pai.
Repreendida era uma palavra leve para se referir à sua futura punição. Ela queria pensar que seria diferente, mas estava pronta para aceitar seu destino.
— Então vou até a vila arrumar alguma coisa para comer — Nic avisou.
— Encontramos você lá — disse Theon com firmeza.
Dando uma última olhada para Cleo para confirmar se podia mesmo deixá-la sozinha com Theon, Nic se virou e partiu. Cleo observou a partida dele, com medo de voltar o olhar para seu guarda furioso.
— Apesar de tudo, não estou arrependida de ter vindo — ela afirmou quando o silêncio recaiu sobre eles. — Fiz isso para ajudar minha irmã e estou arrasada por ter fracassado. Sei que me despreza e tenho certeza de que meu pai ficou furioso quando soube que eu tinha partido. — Ela deu um suspiro cansado. — Mas eu precisava vir.
Quando ela se virou para Theon, a expressão dele tinha mudado. Onde antes havia raiva e severidade, agora havia algo muito mais dolorido.
— Contudo, no que diz respeito à dor e aos problemas que lhe causei — ela sussurrou — estou muito arrependida.
Ele abaixou as mãos e pegou nas dela.
— Fiquei tão preocupado com você.
Cleo ficou surpresa por ele estar tão perto dela.
— Eu sei.
— Você podia ter morrido.
— Theon, eu não estava pensando direito.
— Nem eu. E ainda não estou.
Ela olhou para Theon justo quando ele capturou sua boca e a beijou profundamente.
Não foi um beijo de amizade. Foi um beijo de paixão verdadeira, que ela conhecia apenas nos sonhos. Seu coração pulava no peito e ela o envolveu com os braços para puxá-lo para mais perto. Quando terminaram, ele se afastou dela, com os olhos fixos no chão e a expressão bastante séria.
— Minhas humildes desculpas por isso, princesa.
Ela pousou os dedos sobre os lábios.
— Por favor, não se desculpe.
— Eu não devia ter feito isso. Não devia ter achado que você poderia sentir… — Ele engoliu em seco. — Pedirei para o seu pai designar outra pessoa como seu guarda pessoal quando voltarmos. Eu não apenas fracassei na tarefa de mantê-la em segurança como não tenho mais a objetividade necessária. Você é muito mais do que a filha do rei para mim. Em tão pouco tempo… você se tornou tudo para mim.
Cleo perdeu o fôlego.
— Tudo?
Theon levantou os olhos e encarou-a.
— Tudo.
Lágrimas arderam nos olhos de Cleo.
— Bem, na verdade isso torna as coisas muito mais fáceis.
Ele franziu a testa.
— Não entendo.
— É óbvio. Não posso me casar com Aron nem com mais ninguém. Eu me recuso, não importa o que meu pai diga. — O coração dela transbordava. — Meu… meu destino é ficar com você.
A respiração de Theon começou a acelerar, mas sua expressão ficava cada vez mais séria.
— Mas eu não passo de um guarda.
— Eu não me importo!
— Mas seu pai vai se importar. E muito, certamente.
— Meu pai terá que lidar com isso. Ou eu fujo de novo. — Um sorriso tocou os lábios dela. — Com você.
Theon riu, um estrondo profundo saiu de seu peito.
— Ótimo. Você dirá a seu pai que o guarda que ele designou para manter a filha em segurança a coagiu a romper o noivado e por isso vai ficar tudo bem. Com certeza ele vai aceitar e não vai me jogar em um calabouço.
— Talvez ele não aceite. Não de imediato. Mas eu vou fazer de tudo para que ele saiba que não há outra solução.
Ele ficou em silêncio por um instante, analisando a expressão dela.
— Então você sente algo por mim?
— Você me salvou. E mesmo antes disso… bem, eu apenas sabia, sem saber. — O coração dela ficava mais leve a cada palavra que dizia.
Theon sacudiu a cabeça.
— Eu não salvei você. Nic descobriu onde você estava. Eu só derrubei os guardas e arrombei a porta.
Cleo abriu um sorriso largo.
— Bem, mas eu não estou apaixonada por Nic, então teremos que achar outro jeito.
Ele a puxou para os seus braços outra vez, um pouco hesitante.
— Ainda estou furioso por você ter fugido e quase ter sido morta. Este não é um lugar seguro.
— A resposta que preciso está aqui.
— A busca terá que esperar.
— Mas não pode esperar. — Sua garganta voltou a ficar apertada.
Theon ficou olhando para o chão por um tempo e depois encarou Cleo.
— Não podemos ficar aqui. Você precisa entender isso. Não entende?
O coração de Cleo batia forte o bastante para quase sair do peito. Ela não conseguia esquecer o verdadeiro motivo de estar em Paelsia. Ao mesmo tempo, não podia negar que Theon estava certo. Se havia uma guerra contra Auranos em formação, aquele não era o lugar para a princesa. Sua garganta ficou áspera.
— Queria que houvesse outro jeito.
— Espere uma semana — Theon pediu. — E eu mesmo voltarei. Descobrirei se essa lenda em que acredita é verdadeira. Deixe-me fazer isso por você.
Ela olhou para ele com gratidão e concordou.
— Obrigada.
— Também encontrarei Jonas Agallon quando eu voltar. — A expressão dele obscureceu. — Ele precisa pagar com sangue pelo que fez.
Ela estremeceu com a ideia da violência.
— Ele me culpa pelo que Aron fez com seu irmão. Ainda carrega a adaga de Aron.
Theon olhou para ela, sério.
— Ele ameaçou você com aquela adaga?
Ela confirmou, depois virou o rosto para não ver a onda de fúria nos olhos dele.
— Se eu o encontrar — Theon vociferou —, ele não precisará se vingar pela morte do irmão. Vai se juntar a ele no além.
— Ele está de luto por Tomas. Isso não serve como desculpa para suas ações, mas as justifica.
— Eu não concordo.
Cleo não conseguiu conter um olhar brincalhão.
— O quê? — ele perguntou com cautela.
— Nós discordamos em muita coisa, não é?
Theon apertou a mão de Cleo.
— Não em tudo.
O sorriso dela cresceu.
— Não, não em tudo. — Ela passou os braços ao redor do pescoço dele e o beijou novamente, com suavidade no início, depois de forma intensa.
Naquele momento, o otimismo dela se renovou. Theon logo voltaria a Paelsia sozinho e teria mais facilidade na busca do que ela. Ela enfrentaria a ira do pai em Auranos. Depois que ele se acalmasse em relação à sua imprudente viagem, ela explicaria que havia se apaixonado por um guarda e que, se o rei quisesse vê-la feliz — e é claro que queria —, deveria aprovar Theon como seu pretendente. Não havia motivo para ele não dar um título de cavaleiro a Theon e um cargo mais importante no palácio para elevar seu status social e torná-lo digno de cortejar uma princesa. Ela não era mesmo a filha mais velha, nem a primeira na linha de sucessão…
Surgiu um som de cascos de cavalo e Theon ficou tenso, desfazendo o abraço com Cleo.
Três indivíduos a cavalo se aproximaram e deram um giro para bloquear a estrada que levava à próxima vila.
— Ah, aí está você. — O do meio não parecia nem um pouco velho; dezoito ou dezenove anos no máximo. Ele tinha cabelos e olhos escuros e estava todo vestido de preto. Os homens ao lado dele usavam um uniforme vermelho que Cleo reconheceu como limeriano.
Um arrepio desceu por sua espinha e ela puxou o manto para mais perto do corpo.
— A quem se dirige? — Cleo perguntou sem delongas.
— Você é a princesa Cleiona Bellos — respondeu o rapaz de cabelos escuros, com uma expressão um tanto entediada. — Correto?
Theon apertou ainda mais o pulso dela. Ela entendeu aquilo como um alerta para não responder a pergunta.
— Quem quer saber? — Theon perguntou.
— Eu sou Magnus Lukas Damora, príncipe de Limeros. É uma honra conhecer a princesa em pessoa. Ela é tão adorável quanto me disseram.
Ela olhou para ele com surpresa. Príncipe Magnus. É claro que ela já tinha ouvido falar dele. Mas não era a primeira vez que se encontravam. Ele havia visitado o palácio com os pais quando tinha apenas cinco ou seis anos de idade. Ela voltou os olhos para a bochecha dele, onde havia uma cicatriz que ia do canto da boca até a orelha, e teve uma lembrança repentina, na qual não pensava desde criança.
Um menino chorando com sangue escorrendo pelo rosto. O sangue pingando sobre um tapete colorido do palácio. A mãe dele, a rainha de Limeros, segurando um pano contra o ferimento.
Ela não havia se ajoelhado e abraçado o filho junto ao peito. O pai dele, o rei, gritava para o menino parar de fazer escândalo.
Mas o rapaz de agora não parecia alguém que choraria por um pouco de sangue. Na verdade, o jeito como ele a olhava lhe dava uma sensação gélida. Algumas pessoas podiam achá-lo muito bonito, mas ela não achava. Havia algo cruel e desagradável em sua aparência.
Ele a deixou imediatamente desconfortável.
Mas lidar com pessoas desagradáveis fazia parte de seus deveres como princesa.
— É um grande prazer ser apresentada a você, príncipe Magnus — Cleo disse, mantendo um tom de voz educado e comedido. — Talvez nos reencontremos em breve. Estávamos indo encontrar nosso amigo na vila para voltarmos a Auranos.
— Quanta gentileza — ele replicou. — E quem é o amigo que está a seu lado?
— Este é Theon Ranus, um guarda do palácio que está me acompanhando em Paelsia.
— O que está fazendo em Paelsia, se me permite perguntar?
— Apreciando a vista — ela disse sem perder a pose. — Gosto de explorar.
— Certamente. — O cavalo dele estava imóvel e o olhar do príncipe permanecia fixo no rosto de Cleo. — Mas está mentindo. Fui informado de que estava presa em um barracão aqui perto, um que está com a porta quebrada e três guardas inconscientes com ferimentos na cabeça. Demorei um pouco mais do que pensava para encontrá-lo. Não conheço muito a paisagem de Paelsia. Eu, diferente de você, não estou apreciando a vista. — Ele olhou em volta com desgosto. — Na verdade, ficarei feliz em ir embora o mais rápido possível.
— Fique à vontade — Theon replicou baixinho.
Magnus olhou para ele com severidade. Em vez de dizer alguma coisa, um sorriso tomou conta de seu rosto. Depois seu olhar se voltou para Cleo e ela se sentiu presa por seus olhos sem emoção.
— Quer dizer que conseguiu escapar de seus sequestradores? Garota esperta.
Ela se esforçou para não desviar o olhar, para não demonstrar fraqueza.
— Posso agradecer à deusa por ter conseguido escapar. Com a ajuda de Theon.
— Agradecer à deusa — repetiu Magnus. — Que deusa é essa? A má, de quem herdou seu nome? A inimiga da deusa do meu povo?
A paciência dela estava se esgotando.
— Por mais que eu esteja gostando da conversa, príncipe Magnus, é hora de partir. Por favor, transmita meus cumprimentos à sua família quando voltar a Limeros.
Magnus fez um sinal para seus guardas, que desceram da montaria. O coração acelerado de Cleo começou a bater ainda mais rápido.
— O que quer com isso? — Theon não esperou nem mais um segundo antes de desembainhar sua espada e entrar na frente de Cleo.
— Teria sido muito mais fácil se a princesa tivesse ficado onde estava até eu chegar — afirmou Magnus. — Pediram-me para levá-la a Limeros.
Cleo respirou fundo.
— Você não fará nada disso.
— Meu pai, o rei Gaius, me pediu. E é isso o que farei. — Seu olhar escuro voltou-se para Theon. — Sugiro que não tente impedir meus homens. Não queremos derramar sangue hoje.
Theon ergueu a espada.
— E eu sugiro que você deixe a princesa bem aqui onde está. Ela não vai a lugar nenhum com você.
— Afaste-se, rapaz, e eu o deixo voltar para a sua terra ainda respirando.
Theon riu de verdade, e Magnus olhou feio para ele.
— Sinceramente — Theon disse —, não estou com muita vontade. Você é o príncipe limeriano, próximo na linha de sucessão ao trono. Sempre ouvi dizer que veio de uma linhagem de grandes homens.
— E vim.
— Se está dizendo… Talvez você seja a exceção à regra.
— Cômico. — Magnus sacudiu a mão. — Guardas, levem a princesa. E cuidem de seu protetor. Agora.
Os guardas se aproximaram de Theon.
— Theon… — a garganta de Cleo estava apertada demais para falar.
— Fique atrás de mim.
O pânico tomou conta dela. Ela achou que eles haviam escapado. Que ela tinha conseguido se livrar de Jonas. Só precisavam encontrar Nic e percorrer o resto do caminho até o porto para encontrar um navio que os levasse para casa. E tudo estaria bem de novo.
— O que o seu pai quer comigo? — ela perguntou. — A mesma coisa que Jonas queria? Me usar contra o meu pai em sua guerra?
— Considere como uma tentativa de aprimorar as relações entre os povos. Peguem a princesa — Magnus ordenou aos guardas. — Agora.
Mas para pegar Cleo eles primeiro teriam que passar por Theon. Os dois homens — e eram homens, não garotos — desembainharam as armas. Cleo ficou com medo por Theon, mas ela nunca o havia visto empunhando uma espada antes.
Ele era incrível.
Cleo cambaleou para trás, afastando-se de Theon enquanto ele confrontava os dois. As espadas retiniam e faiscavam durante a briga. O guarda loiro cortou um talho no braço de Theon que jorrou sangue, escorrendo pela manga de seu uniforme azul. Cleo se sentiu aliviada quando viu que ele ainda conseguia lutar com aquele braço; devia ser apenas um ferimento superficial. Então ele enfiou a espada no peito do guarda loiro.
Foi um golpe mortal. O guarda limeriano caiu de joelhos com um grunhido e logo foi de cara na terra.
Magnus praguejou em voz alta. Cleo olhou para ele no cavalo. Parecia chocado pela morte do guarda, como se esperasse que Theon se rendesse facilmente e entregasse a custódia de Cleo a ele sem briga ou resistência.
Não era uma situação fácil, mas Cleo confiava que Theon venceria. Ele era seu herói. Já tinha salvado sua vida uma vez. Salvaria de novo.
A dificuldade era maior com o segundo guarda, que foi na direção de Cleo. Ele era mais velho e mais experiente, e manejava a espada com tanta facilidade que parecia uma extensão de seu corpo. Cleo já havia visto guardas praticar com espadas de madeira e disputar torneios no verão, com armas de verdade feitas de ferro e aço. Mas nunca havia presenciado uma luta como aquela.
Quando ela temia que Theon fosse derrotado, o outro guarda perdeu o equilíbrio no solo pedregoso. Theon não hesitou: atravessou-o com sua espada.
A arma do guarda caiu no chão e ele desmoronou. Um instante depois, afogou-se em seu próprio sangue e ficou imóvel. Estava morto.
Cleo também havia perdido o fôlego, mas agora respirava de forma profunda e trêmula ao ser tomada pelo alívio. Theon os havia barrado. Havia matado os dois para defendê-la, mas sabia que não havia outra opção. Eles a levariam contra a vontade e a arrastariam a Limeros como prisioneira de guerra para usá-la contra seu pai.
Theon tinha salvado sua vida novamente.
Cleo olhava para ele cheia de gratidão, pronta para abrir um sorriso. O peito dele estava cheio pela respiração ofegante; a testa úmida pelo suor. Eles se olharam nos olhos.
Então uma espada passou pelo centro do peito de Theon, vinda das costas. A ponta afiada e ensanguentada atravessou a frente de seu uniforme. Ele olhou, chocado, e viu a espada sendo puxada para trás e o sangue escuro ensopando o tecido.
Ela ficou horrorizada.
— Theon! — Cleo gritou.
Theon tocou o peito e viu sua mão coberta de sangue. Seu olhar agonizante encontrou o dela por alguns segundos e ele logo caiu de costas, com os olhos abertos fixos no céu.
Magnus ficou atrás de Theon, segurando a espada ensanguentada.
Ele franziu a testa olhando para o corpo de Theon, com as sobrancelhas unidas, sacudindo a cabeça.
— Ele matou meus homens. Teria me matado em seguida.
O corpo todo de Cleo tremia violentamente e seus pés se movimentavam sem que ela pensasse. Ela caiu ao lado de Theon, agarrando seus braços, seus ombros, seu rosto. Não conseguia enxergar nada através das lágrimas.
— Theon, você está bem. É apenas um ferimento. Por favor, olhe para mim! — Seu choro histérico tornava quase impossível entender o que falava.
Ele estava bem. Tinha que estar. Ela já tinha planejado tudo. Ele a levaria de volta a Auranos e seu pai ficaria furioso por um tempo. Depois ela diria ao rei que amava Theon e que não se importava com o fato do rapaz ser um guarda. Ele era tudo o que ela sempre havia desejado. E Cleo sempre conseguia o que queria, se desejasse com muita vontade.
— Sinto muito por ter chegado a esse ponto — explicou o príncipe Magnus. — Se seu guarda tivesse se afastado quando eu mandei, isso não teria acontecido.
— Ele não é só um guarda — ela sussurrou. — Não para mim.
Quando ela sentiu o príncipe tocar em seu braço como se quisesse levantá-la, ela gritou e o arranhou.
— Saia de perto de mim! Não me toque!
A expressão dele estava impassível.
— Você precisa vir comigo agora.
— Nunca!
— Não deixe as coisas ainda mais difíceis.
Ela o encarou, chocada, não enxergando nada além de um borrão. Aquela criatura terrível diante dela era pior do que a mais cruel das feras. Ele havia feito aquilo com Theon. Theon tinha ido resgatá-la e agora estava…
Agora estava…
Não, não estava. Ele sobreviveria. Tinha que sobreviver.
Cleo se afastou de Magnus e abraçou o corpo de Theon, tentando segurá-lo, tentando protegê-lo do príncipe que poderia tentar feri-lo de novo. Seu sangue ensopou o vestido de seda dela, aquele que tentou não sujar mesmo sendo obrigada a usá-lo por vários dias trancada no barracão frio e escuro. Ela nem olhou para os outros corpos. Eles estavam mortos.
Mas Theon não estava. Ele não estava.
— Já chega disso. — Magnus puxou o braço de Cleo e a levantou. — Tudo deu errado e agora preciso levá-la sozinho. Não teste minha paciência nem por mais um segundo. Comporte-se.
— Me solte! — Ela gritou e arranhou o rosto de Magnus com toda a força que tinha. Foi suficiente para tirar sangue do mesmo lado da cicatriz. Ele resmungou e a empurrou. Ela tropeçou e caiu no solo pedregoso. Ficou ali caída, aturdida e tentando recobrar o fôlego.
Magnus se aproximou dela. Ele tinha sangue nas mãos e na face. Seu rosto estava vermelho, mas agora parecia mais chateado do que furioso. Por um instante, ela se lembrou do garotinho que chorava com o rosto ensanguentado.
Ele estendeu o braço na direção dela.
Então algo bateu nele e acertou a lateral de sua cabeça. Ele caiu no chão com um gemido e soltou a espada. Cleo se levantou enquanto Nic corria até eles. Ele havia jogado a pedra do tamanho de um palmo que atingiu Magnus.
O príncipe não estava inconsciente, mas desorientado. Ele gemia.
Nic olhou horrorizado para aquela cena.
— Cleo! O que aconteceu aqui?
Ela pegou a pesada espada do príncipe e a levantou. Nunca havia tido permissão para empunhar uma antes. Mas ela reuniu forças — forças que nunca soube que tinha — para segurá-la sobre o peito de Magnus. Mal conseguia enxergar através das lágrimas. A cólera lhe daria forças para pressionar a ponta da espada ensanguentada sobre o coração do príncipe.
O espanto de Magnus transparecia em meio à desorientação.
— Princesa… não…
— Ele estava tentando me salvar. Você o fez sangrar. — Ela cuspia as palavras. — Agora quero fazer você sangrar.
Nic agarrou o punho dela.
— Não, Cleo. Não faça isso.
Os braços dela doíam de segurar a pesada espada com firmeza.
— Preciso impedir que ele machuque mais alguém.
— Ele já foi impedido. Olhe para ele. Nós já o ferimos. Mas se matá-lo, as coisas ficarão muito piores do que já estão. Precisamos ir para casa. Agora.
— Ele queria me levar para Limeros como prisioneira. Theon impediu.
Nic tirou a espada das mãos dela.
— Ele não vai levar você. Prometo que não vai.
Magnus olhou para Nic, carrancudo, porém aliviado.
— Obrigado. Vou me lembrar de sua assistência.
Nic olhou feio para ele.
— Não fiz isso por você, seu cretino.
Ele virou a espada e golpeou Magnus na cabeça com o cabo. Foi o suficiente para derrubar o príncipe. Depois Nic jogou a espada de lado. Suas mãos agora estavam cobertas com o sangue de Theon.
Cleo cambaleou novamente até Theon e caiu de joelhos ao lado dele. Tirou os cabelos cor de bronze da testa dele.
Ele estava olhando para o céu. Não estava piscando. Seus olhos eram de um tom tão belo de marrom-escuro. Ela adorava aqueles olhos. Aquele nariz. Aqueles lábios. Tudo nele.
Ao tocar os lábios dele, seus dedos espalharam o sangue.
— Acorde, Theon — ela pediu com delicadeza. — Estou bem aqui. Estou esperando que me resgate.
Nic tocou no ombro dela com cuidado.
Ela sacudiu a cabeça.
— Ele vai ficar bem. Só precisa de um tempo.
— Ele se foi, Cleo. Não há nada que você possa fazer.
Ela pressionou a mão contra o peito ensanguentado de Theon. Não havia batimentos cardíacos. Os olhos dele estavam vidrados. Seu espírito havia partido. Aquilo não passava de uma casca. E ele nunca mais a encontraria.
Ela não conseguia controlar o choro que chacoalhava seu corpo todo. Não existiam palavras para tamanha dor. Ela havia perdido Theon justo quando havia se dado conta do que ele significava para ela.
Se ela não tivesse ido a Paelsia, Theon não teria precisado segui-la. Ele a amava. Queria que ela ficasse em segurança. Agora ele estava morto e a culpa era toda dela.
Cleo se inclinou e beijou os lábios de Theon — o terceiro beijo deles.
O último.
Depois deixou Nic afastá-la dos corpos de Theon, morto, e de Magnus, inconsciente, e conduzi-la na direção do porto.

11 comentários:

  1. NAAAAAOOOOOO
    A PORRA
    QUE MERDA FOI ESSA?
    EU TO CHORANDO RIOS
    ISSO NÃO SE FAZ!

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  2. É... Parece que um shippe afundou, né? Na vdd nunca shippei Theon e Cléo. Eu achei bonitinho os dois ali, mas...

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  3. Acho q Cléo tem o poder tbm, talvez o da terra e agua...ela e a Lúcia nasceram quase no mesmo dia..e agora com a raiva da morte do Theon o poder vai borbulhar..hehehe

    Ariane

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  4. 😱😱 gente não to acreditando .. Ele morreu mesmo 😭😭😢 Passei o tempo todo achando que ela ia invocar a magia da Terra e curar o Theon

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  5. Ela vai ficar com Jonas.

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  6. Tem um olho na minha lágrima
    Ainda não tô acreditando que o theon morreu cara

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  7. Cada capítulo é um choque diferente, que livro é esse!!!
    Eu desconfiei mesmo que algo ia dar errado com esse Theon, porque tá muito cedo pra ela já se apaixonar definitivamente e tal, mas nunca imaginei que ele fosse morrer..

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  8. Pra mim esse livro ta tão sem graça ,espero realmente melhorar e muito ,pq ate aqui ta tido muito rápido e previsível.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!