15 de julho de 2018

Capítulo 25

Eram 6h21.
Um pouco menos de mil quilômetros linha ley adiante, um milhão de luzinhas piscavam sobre as pequenas ondulações frias e escuras do rio Charles. O ar cortante de novembro invadiu porta adentro pela sacada da casa de Colin Greenmantle, no bairro central de Back Bay. Ele não havia deixado a porta aberta, mas ela estava aberta mesmo assim. Apenas uma fresta.
Elas entraram rastejando.
O próprio Colin Greenmantle estava no andar térreo da casa, na sala sem janelas marrom-dourada, que ele havia reservado para a sua coleção. As caixas em si eram belas, vidro e ferro, trama e ouro, exibições adequadamente luxuosas para objetos adequadamente luxuosos. O assoalho debaixo das caixas era feito de carvalho retirado de uma velha fazenda na Pensilvânia; os Greenmantle sempre preferiam possuir coisas que costumavam ser de outras pessoas. Era impossível dizer qual o tamanho realmente da sala, pois as únicas luzes eram as luminárias que iluminavam individualmente cada artefato incomum. As lâmpadas brilhavam através da escuridão em cada direção, feito navios em um mar noturno.
Greenmantle parou em frente a um espelho antigo. A borda era toda entalhada com folhas de acanto e cisnes se deleitando sobre outros cisnes, e um relógio com um aro de bronze estava embutido na moldura mais alta. O mostrador do relógio lia 6h21 da tarde. Supostamente, o espelho moldurava lágrimas nos reflexos dos observadores se eles tivessem passado por uma morte recente na família. O reflexo dele mostrava olhos secos, mas Greenmantle achou que sua aparência era lamentável, de qualquer forma. Em uma mão, ele segurava uma garrafa de cabernet sauvignon, cujo rótulo prometia notas de cereja e grafite. Na outra, um par de brincos que obtivera da esposa, Piper.
Ele usava um paletó com um belo corte e cuecas samba-canção. Greenmantle não esperava companhia.
Elas vieram de qualquer maneira, encontrando seu caminho através do friso em copa da biblioteca do segundo andar, engatinhando uma sobre o corpo da outra.
Ele deu um gole diretamente da garrafa — quando a escolhera da cozinha, pensara que isso pareceria mais esteticamente patético e desesperado do que carregar uma taça solitária, e parecia mesmo. Desejou que tivesse alguém ali para ver o quão esteticamente patético e desesperado ele parecia.
— Notas de pólvora negra e abandono — ele disse para o seu reflexo. Depois deu mais um gole; e esse bocado o engasgou. Um pouco de pólvora negra e abandono demais de uma só vez.
O seu reflexo arregalou os olhos; sua esposa estava ao seu lado, os dedos fechados em torno da garganta de Greenmantle. Alguns fios do cabelo loiro dela se perderam de seu penteado de outra forma arrumado, e as luminárias da coleção atrás dela criaram um efeito platinado flamejante nos fios. Seus olhos estavam escuros. Uma de suas sobrancelhas estava erguida, mas ela parecia pouco surpresa enquanto as pontas dos seus dedos pressionavam a pele do marido. O pescoço de Greenmantle arroxeou.
Ele piscou.
Ela não estava ali.
Ela jamais estivera ali. Ela o havia deixado para trás. Bem, para ser sincero, ele a havia deixado para trás, mas ela que havia começado. Fora ela quem havia escolhido perpetuar uma quantidade considerável de crimes violentos nas matas da Virgínia, bem quando ele decidira que estava pronto para pegar os seus brinquedos e partir.
— Estou sozinho — disse Greenmantle para o espelho.
Mas não estava. Elas zuniram escada abaixo, pousando sobre as molduras das fotos, e ricochetearam cozinha adentro.
Greenmantle se virou do espelho para mirar sua coleção. Uma armadura completa, um unicórnio empalhado do tamanho de uma cabra pigmeu, uma lâmina que continuamente pingava sangue no piso da sua caixa de vidro. Ela representava o que havia de melhor em quase duas décadas de coleção. Não realmente o melhor, ponderou Greenmantle, meramente os objetos que ele havia achado que teriam a maior chance de chamar a atenção de Piper.
Ele achou que tinha ouvido algo no corredor que dava para a sala. Um zumbido. Ou arranhado. Não bem um arranhado — era muito suave para isso.
— Após numerosas traições pessoais, Colin Greenmantle teve uma crise nervosa próximo dos quarenta anos — narrou Greenmantle, ignorando o ruído —, levando muitos a acreditar que ele desapareceria para sempre.
Ele considerou os brincos em sua mão. Ele havia tomado a iniciativa de adquiri-los mais de dois anos antes, mas levara todo esse tempo para que seus fornecedores os cortassem da cabeça de uma mulher na Gâmbia. Os rumores diziam que quem os usasse poderia ver através de paredes. Determinados tipos de parede, de qualquer maneira. Não tijolos. Não pedras. Mas adobe. Eles conseguiam ver através de adobe. Greenmantle não tinha orelhas furadas, então ele não colocara isso à prova. E com Piper buscando uma nova vida de crime, pelo visto ele jamais descobriria.
— Mas os espectadores haviam subestimado a resistência à adversidade pessoal de Colin — ele disse. — A sua capacidade de se recuperar de um colapso emocional.
Ele se virou para a porta bem quando as visitantes explodiram através dela.
Piscou.
Elas não desapareceram.
Piscou e piscou novamente, e algo ainda entrava pela porta, algo que não era nem a sua imaginação, tampouco uma imagem de espelho amaldiçoada. Foi necessário um momento para que sua mente processasse o ruído e a visão para se dar conta de que não era uma única visitante: eram muitas. Elas jorravam, tropeçavam e se debatiam.
Só quando uma se liberou da horda e voou em sua direção erraticamente que Greenmantle percebeu que eram insetos. Quando a vespa negra pousou em seu punho, ele disse a si mesmo para não lhe dar um tapa. Ela o picou.
— Cadela! — ele disse, e tentou acertá-la com a garrafa de vinho.
Outra vespa se juntou à primeira. Greenmantle balançou o braço e a desalojou, mas uma terceira voou em sua direção. Uma quarta, uma quinta, um corredor cheio delas. Elas estavam em toda a sua volta. Ele trajava um belo paletó, cuecas samba-canção e vespas.
Os brincos caíram no chão enquanto ele girava. No espelho, seu reflexo derramava lágrimas, e ele não via vespas, e sim Piper, seus braços e seu sorriso o abraçando.
— Terminamos — sua boca disse.
As luzes se apagaram.
Eram 6h22.

5 comentários:

  1. Morango do Nordeste28 de julho de 2018 22:29

    CARALHOOOO. CADÊ OS COMENTÁRIOS ? MUITO BOM ESSE CAP

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  2. Colin morto!!!! Não merecia morrer assim!??

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  3. nossa e pensar que eu gostava da piper
    serio apesar de tudo eu realmente achava que ela gostava dele de verdade
    ASSJanielli

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  4. Eu sou provavelmente a única pessoa que achava o Greenmantle um vilão muito carismático e não queria que ele morresse assim.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!