5 de julho de 2018

Capítulo 25

— Não acredito que você não está morta em algum lugar — disse Ronan a Blue. — Você devia estar morta em algum lugar.
Talvez fosse um sinal da irritação de Gansey a respeito da situação, porque ele não corrigiu Ronan dessa vez.
— Obrigada pela preocupação — ela respondeu.
A cozinha na Rua Fox, 300 fervilhava de corpos. Malory, Gansey, Ronan e Adam estavam à mesa da cozinha. Persephone flutuava próxima da pia. Calla se inclinava pensativa sobre o balcão. Orla aparecia de vez em quando no vão da porta para espiar Ronan antes de ser expulsa. Aquela noite claustrofóbica e urgente lembrava a Adam uma noite muitos meses atrás, após Gansey ter quebrado o polegar e quase ter levado um tiro, após eles terem descoberto que Noah estava morto. As coisas tinham começado a mudar havia pouco tempo.
Adam conferiu discretamente o relógio do forno. Ele havia pedido para chegar na fábrica de trailers duas horas mais tarde, para se encontrar com os outros naquela noite, e queria ter certeza de que não se atrasaria.
— Professor Malory, você gostaria de uma xícara de chá? — perguntou Blue.
Malory pareceu aliviado.
— Eu adoraria uma xícara de chá.
— Você prefere, hum, um sabor frutado ou um sabor mais forte? — ela perguntou. — Se fosse beber um ou o outro na forma de chá?
Ele considerou.
— Forte.
— Escolha corajosa — disse Blue. — Alguém mais?
Várias cabeças balançaram. Tanto Adam quanto Gansey haviam sido vitimados pelas bebidas da Rua Fox, 300. Os chás ali eram colhidos do jardim ou pegos no mercado de produtos agrícolas, cortados e misturados à mão, e então colocados em sacos rotulados com o ingrediente predominante ou o efeito pretendido. Alguns deles eram mais fáceis de beber recreativamente do que outros.
— Eu quero bourbon puro — disse Calla.
Ela e Persephone fizeram um brinde.
Enquanto Blue preparava o chá e trazia água para o Cão, Gansey disse:
— Tudo bem, eis a questão. Nós encontramos outra caverna, e, parece brincadeira, alguém está dormindo nela. Chegou a hora de decidir o que fazer.
— Não há nenhuma decisão a ser tomada — disse Ronan. — Vamos entrar.
— Você diz isso porque não viu o Noah hoje — Blue lhe disse enquanto colocava a xícara na frente de Malory. — Esse aí não tem nenhum efeito alucinógeno, mas talvez você se sinta um pouco eufórico.
— Nada que eu já tenha bebido aqui me fez sentir qualquer coisa próxima de euforia — disse Gansey.
— Você nunca tomou esse aqui — disse ela. — De qualquer forma, o Noah estava bastante assustador. O Jesse, o homem que é dono da caverna, diz que existe uma maldição. — Ela resumiu a maldição.
— Por que ele simplesmente não se muda? — perguntou Adam.
— Para longe do lar da família dele? — perguntou Ronan, soando ao mesmo tempo sincero e incomodado.
— Lar é um termo um pouco forte — disse Gansey. — Eu vi o lugar.
— Você. — Blue apontou para ele. — Fique quieto antes que diga alguma coisa ofensiva. Tem algo mais que vocês precisam saber. Uma das mulheres aqui previu a morte do Jesse mais cedo este ano. Ela não o conhecia, mas sabia o nome dele.
A cabeça de Adam se ergueu de um salto. Não porque fosse uma informação chocante, mas porque a voz de Blue havia mudado um pouco, e Persephone e Calla estavam ocupadas virando seus drinques, repentinamente sem se olhar. Adam, um animal dissimulado, era uma pessoa agudamente ligada aos segredos de outras pessoas. Então ele não tinha certeza de por que haveria qualquer coisa obscura a respeito da morte prevista de um estranho, mas sabia que Blue Sargent estava contando uma verdade parcial.
— Espera, espera — disse Gansey. — Então você está me dizendo que não apenas esse Jesse Dittley acredita que existe uma maldição naquele lugar, como na realidade ele está certo e vai morrer?
— Ou ele vai morrer por causa de algo que nós fizermos — insistiu Blue. — Foi por isso que eu toquei no assunto. Acho que precisamos tomar decisões de modo responsável.
— Vocês têm uma lista de mortos? — interrompeu Ronan. — Que lance mais sombrio. Eu estou nela?
— Alguns dias eu gostaria que sim — disse Blue.
— Posso ver? — perguntou Adam.
— O quê?
— Posso ver a lista?
Blue se virou para preparar uma xícara de chá para si.
— Não está comigo. Minha mãe levou com ela. Só lembro o nome dele. Quer dizer, eu achei que era uma garota, com ie no fim, mas a parte do Dittley eu guardei.
Calla ergueu uma sobrancelha pronunciadamente, mas não disse nada.
Ah, pensou Adam com uma súbita e sinistra convicção. Eis a questão. Então um de nós está na lista.
— Isso não importa — disse Gansey. — O tempo urge e o Adam precisa ir logo. A questão é: Nós vamos entrar na caverna amanhã?
Quem de nós?
Malory se animou:
— Agora seria um bom momento para destacar que eu não vou entrar em caverna nenhuma. Fico feliz em apoiar vocês de um local aonde o sol consiga chegar.
— É claro que vamos entrar — disse Ronan. — Por que não?
— Risco — respondeu Gansey. — Sou completamente contra colocar qualquer pessoa nesta sala em risco.
— Tem outra coisa, seus coelhos: lembrem-se que existe mais de um adormecido — destacou Calla. — Três deles. Um é para vocês despertarem, e um para não despertarem.
— E o adormecido do meio? — perguntou Ronan.
Em sua voz pequena, Persephone disse:
— Essas coisas realmente sempre soam melhor em três.
— O Jesse também disse que algumas coisas não devem ser despertadas — acrescentou Blue discretamente, sem permitir que Adam cruzasse o seu olhar. — Então, sim, risco.
Mais de um de nós?
— Nós entramos na caverna em Cabeswater — disse Ronan. — O risco era o mesmo. Talvez pior, porque não fazíamos ideia de onde estávamos nos metendo.
Talvez, pensou Adam, fosse a própria Blue que estivesse na lista. Talvez fosse por isso que ela a escondia de todos.
— Bom, eu concordo com o Ronan — disse Blue —, mas também sou suspeita, porque quero encontrar minha mãe, e o risco vale a pena para mim.
Adam pensou em suas sessões com Persephone. Ela teria se dado ao trabalho de ensiná-lo se soubesse que ele ia morrer? Ela olhava para ele agora, olhos negros sólidos, como se o desafiasse a gritar os segredos.
— Tem mais uma coisa que precisamos conversar — começou Gansey, hesitante. — O que vamos fazer se acharmos Glendower. Se houver um favor quando o despertarmos. Não tenho certeza se há apenas um favor, ou vários, e devemos saber o que dizer em qualquer uma dessas situações. Vocês não precisam responder agora, mas pensem nisso.
Houvera um tempo em que tudo que Adam pensara era a promessa daquele favor. Mas agora ele tinha apenas um ano de escola à sua frente, não estava mais debaixo do teto de seu pai e podia enxergar uma saída sem a ajuda de Glendower. Tudo que sobrara era pedir para se libertar de Cabeswater.
E ele não tinha certeza se queria isso.
Gansey e Ronan murmuravam outra questão, Malory dava sua opinião, mas Adam não conseguia se concentrar mais naquele assunto. Ele sabia que não estava errado a respeito da cautela de Blue. Ele o sabia da mesma maneira que sabia quando fora Cabeswater que o despertara de seu sono e quando precisava ir reparar a linha ley. Ele sabia disso como uma verdade.
Adam olhou para o relógio.
— Se já decidimos, preciso ir.
Ele não precisava. Ele tinha um pouco mais de tempo. Mas isso não podia esperar. A suposição estava crescendo dentro dele.
— Já? — perguntou Gansey, mas não de maneira descrente. — Que saco.
— É — disse Adam. — Mas eu tenho esse fim de semana e alguns dias de folga depois disso. Blue, você pode me ajudar a tirar uma coisa do carro?
— Que coisa?
Ele mentiu rápida e eficientemente:
— Aquele lance que você queria. Não acredito que você não lembra. O, o... tecido.
Persephone ainda estava olhando para ele.
Blue balançou a cabeça, mas para si mesma, não para ele, pesarosa com sua própria falta de memória. Ela se afastou do balcão enquanto Adam se despedia, tocando o punho de Gansey e assentindo para Malory e Ronan.
Ele fez o melhor que pôde durante a despedida para agir casualmente, embora se sentisse sobrecarregado com um segredo indizível. Eles saíram juntos pela porta da frente e seguiram pela calçada escura até onde o carro dele estava estacionado na calçada, atrás do glorioso Camaro.
A rua estava silenciosa e fria, as folhas secas farfalhando como alguém pedindo silêncio a uma multidão.
— Eu não lemb... — começou Blue, e então parou quando Adam a pegou pelo braço e a puxou para perto.
— Quem de nós, Blue?
— Ei, para...! — Ela livrou o braço, mas Adam não recuou.
— Quem de nós está na lista?
Ela olhou para longe, seus olhos em um carro numa esquina distante.
Blue não respondeu, mas também não o insultou dizendo que ele estava errado.
— Blue.
Ela não olhou para ele.
Ele deu a volta em torno dela de maneira que ela não tivesse como evitar olhar para ele.
— Blue, quem de nós?
O rosto dela estava estranho, toda a jovialidade levada embora. Blue não estava chorando. No entanto, seus olhos transpareciam algo pior que choro. Ele se perguntou por quanto tempo ela estivera carregando aquilo consigo. O coração de Adam batia forte. Ele havia acertado. Um deles ia morrer.
Eu não quero morrer, não agora...
— Blue.
— Você não vai conseguir deixar de saber — ela disse.
— Eu preciso saber — disse Adam. — Você não entende? Este será o favor. É isso que eu vou pedir. Eu preciso saber para que a gente faça o pedido, se for apenas um.
Ela só manteve o olhar dele.
— Gansey — disse Adam.
Blue fechou os olhos.
É claro. É claro que ele seria tomado deles.
Sua mente forneceu a imagem: Gansey convulsionando no chão, coberto de sangue, Ronan encolhido ao seu lado, arrasado. Fazia meses que Cabeswater lhe mostrara a visão, mas ele não a havia esquecido.
Tampouco havia esquecido como, na visão, a morte de Gansey havia sido sua culpa.
Seu coração era um túmulo.
Se for culpa sua, pensou Adam, você pode evitar.

2 comentários:

  1. Não da da missa a metade qrido, q nem a Blue já falou, se você ta vendo o futuro de uma determinada maneira é pq as decisões que você já tomou ou mesmo as que vc vai tomar estão moldando aquele futuro. Então a questão não é SE o Gansey vai morrer, mas sim COMO. Se vai ser morto pelo o Adam ou Cabeswater ou um dos adormecidos ou a Blue, até picada de vespa entra na lista de "causas de morte para Gansey"

    ResponderExcluir
  2. Adam seu desgraçado inteligente!

    ResponderExcluir

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!