30 de julho de 2018

Capítulo 24

AURANOS

O rei Corvin não era nada parecido com o que Jonas havia imaginado.
Os paelsianos acreditavam que ele fosse um homem evasivo e manipulador que ignorava a pobreza deles enquanto o povo de Auranos vivia entre excessos e opulência, sem se importar com o quanto gastavam. Jonas odiava o rei Corvin mesmo sem nunca tê-lo visto.
O rei tinha uma aparência formidável. Era alto e musculoso como um cavaleiro pouco depois da flor da juventude. Os cabelos castanho-claros, salpicados de grisalho, iam até os ombros; a barba era curta e bem cuidada. Seus olhos verde-azulados eram vivos e penetrantes — e Jonas não pôde deixar de notar que tinham a mesma cor dos da princesa. À primeira vista, apesar de seu palácio brilhante revestido com ouro de verdade, o rei Corvin não parecia ser um homem que encorajasse o hedonismo e a extravagância entre seu povo.
As aparências podiam enganar, Jonas lembrou a si mesmo.
No complexo do chefe Basilius, eles haviam encontrado o rei Gaius e seus homens e viajado juntos até Auranos para mostrar que agora eram aliados.
O rei Gaius também era um homem de traços fortes. Cabelos pretos e curtos, olhos escuros, pele firme nas maçãs do rosto protuberantes. Boca fina. Ele parecia sério e severo. Mas havia algo em seus olhos, uma perversidade que traía o resto de sua aparência impecável. Jonas não tinha certeza se simpatizava com aquele olhar ou se era um motivo para desconfiar ainda mais daquele homem.
Ele havia ouvido muitas histórias sobre como o rei Gaius assegurava o bom comportamento de seus súditos — por meio de policiamento pesado feito por um exército treinado para sustentar as leis estabelecidas pelo rei. Seu reino era tingido de sangue. Jonas nunca subestimaria alguém assim, mesmo não tendo certeza da veracidade dos rumores.
O rei Corvin não se recusou a recebê-los. Convidou-os para entrar no palácio e encontrá-lo no grande salão. Era onde Jonas e Brion estavam agora, sentados um de cada lado do chefe. O rei Gaius e seus homens estavam do outro lado da grande mesa quadrada. Atrás do rei Corvin, posicionados sobre uma plataforma, havia dois guardas.
Os três grupos tinham o mesmo número de homens. Mas não haveria violência naquele dia; apenas conversas. E Jonas havia sido aconselhado a deixar o rei Gaius falar em nome de Paelsia. Ele ficou chocado e consternado ao saber que o chefe Basilius concordara com aquilo.
— Quem são esses garotos? — o rei Corvin perguntou, referindo-se a Jonas e Brion. Ele não perguntou o nome dos homens de Gaius. Como usavam o uniforme vermelho-escuro do palácio limeriano, era óbvio que se tratavam dos guardas pessoais do rei.
O chefe apontou com a cabeça para cada um deles.
— Esses são Jonas Agallon e Brion Radenos.
— São seus guardas?
— Mais do que isso. Jonas é meu futuro genro.
Jonas sentiu o olhar surpreso de Brion sobre ele.
Genro? Uma sensação de enjoo tomou conta de suas entranhas. Talvez fosse bom ele terminar tudo com Laelia antes do que pretendia. Ela obviamente tinha uma impressão equivocada sobre o futuro dos dois. Jonas ouviu um barulho. Pensou ser uma risada abafada vindo da direção de Brion, mesmo que não houvesse nada de engraçado naquilo. Continuou olhando para a frente, sem tirar os olhos do rei Corvin.
— Devemos simular uma conversa civilizada? — perguntou o rei de Auranos com firmeza.
— Digam o que vieram dizer e acabamos logo com isso.
— Eu o considero um bom amigo, Corvin — o rei Gaius lançou um sorriso caloroso a ele. — Sei que deveria ter me esforçado para fortalecer ainda mais nossos laços.
— Eles algum dia foram fortes?
— Temos tanto em comum. Duas terras prósperas que fazem divisa com Paelsia. Três terras que poderiam ser muito poderosas juntas. A amizade poderia fortalecê-las ainda mais.
— Então estão me oferecendo amizade hoje? — o rei Corvin disse com clareza e uma ponta de desconfiança. — É isso?
O rei Gaius confirmou de maneira severa.
— Amizade acima de tudo. Família acima de tudo. Sei o que é ter filhos jovens e esperar que tenham um futuro melhor. Paelsia, no entanto, tem passado por tempos muito mais difíceis do que nós.
— E você deseja ajudá-los.
— De todo o coração.
O rei Corvin olhou para o chefe Basilius.
— Sei que Paelsia se orgulha de ser um estado soberano. Vocês não pediram nossa assistência, nem nós a oferecemos. Mas eu não sabia que as coisas estavam tão difíceis para vocês.
Jonas achava impossível acreditar, mas engoliu todos os comentários venenosos que subiram à sua garganta.
— Somos um povo orgulhoso — explicou o chefe. — Tentamos resolver nossos problemas sozinhos.
O rei Gaius concordou.
— Admiro a coragem dos paelsianos durante esses anos de vacas magras. Meu coração sangra pelo sofrimento deles. Mas chegou a hora de mudarmos isso.
— O que você propõe? — perguntou o rei Corvin com uma ponta notável de repulsa ao falar com o rei limeriano. — Devemos fazer caridade? Recolher dinheiro? Roupas? Mutirão de arrecadação de alimentos? Permitir mais viagens abertas entre as nossas terras? Nos últimos tempos os paelsianos têm caçado ilegalmente em nossas terras. Acham que devo fazer vista grossa?
— Se nossas fronteiras fossem abertas, não ocorreria a caça ilegal. Nesse caso, não seria roubo.
O rei Corvin levou os dedos às têmporas e olhou para Gaius com firmeza.
— Estou aberto a todo tipo de discussão.
— Sim, seria ótimo discutir — o rei Gaius replicou —, se fosse há vinte anos e meu pai ainda governasse. Mas os tempos mudaram.
O rei Corvin olhou para ele com uma repulsa indisfarçável.
— Então o que vocês querem?
— Mudança — o rei Gaius respondeu. — Em uma escala muito maior.
— Tal como?
O rei Gaius recostou na cadeira.
— O chefe Basilius e eu queremos tomar Auranos e dividir igualmente entre nós.
O rei Corvin ficou em silêncio por um instante, olhando nos olhos do outro rei. Então seus lábios se afastaram dos dentes retos e brancos e ele riu.
— Ah, Gaius. Tinha me esquecido de que você é um piadista.
Mas o rei limeriano não sorriu.
— Eu não estou brincando.
A expressão do rei Corvin ficou fria como gelo.
— Quer que eu acredite que você se aliou com esse chefe para tomar minha terra e dividir entre vocês? Deve achar que sou muito estúpido. Tem outro motivo. Qual é seu verdadeiro objetivo aqui? E por que agora, Gaius? Depois de todo esse tempo?
— E quando seria melhor? — foi tudo o que respondeu o rei Gaius.
O rei Corvin lançou um olhar compassivo ao chefe Basilius.
— Confia nele para algo tão importante?
— Totalmente. Ele me deu provas que muito poucos ousariam dar. Ele me honrou com um sacrifício de verdade. Isso vale seu peso em ouro para mim.
— Então você não passa de um tolo imperdoável. — O rei Corvin se afastou da mesa e se levantou. — Esta reunião está encerrada. Tenho mais com que me preocupar em vez de ouvir essas bobagens.
— Estamos lhe dando uma chance de concordar com nossos termos — advertiu o rei Gaius, sem recuar. — Você deveria ser sábio e aceitar. Sua família seria bem tratada, você receberia uma nova casa. Algum dinheiro. Não é necessário haver derramamento de sangue por causa disso.
— Tudo o que você toca fica manchado com sangue, Gaius. Por isso não é bem-vindo em meu reino há dez anos.
Ele se virou para a porta e um guarda a abriu.
— Estamos com sua filha.
Os ombros do rei Corvin ficaram tensos e ele deu meia-volta lentamente. Sua expressão irritada agora era perigosa.
— Eu acho que não ouvi direito.
— Sua filha, Cleiona — Gaius enunciou as palavras devagar. Não havia lugar para equívocos. — Parece que ela foi encontrada perambulando por Paelsia sem proteção. Não foi uma atitude muito sábia para uma princesa, não é?
Jonas tentou ao máximo manter o rosto inexpressivo. Era por aquilo que havia esperado tanto tempo e o motivo de não ter matado Cleo com suas próprias mãos. Em vez disso, a promessa de mantê-la viva seria usada para assegurar um futuro melhor para sua terra e sua família.
— Você não devia deixar sua filha caçula viajar a outras terras sem proteção adequada — disse o rei Gaius. — Mas não se preocupe. Garantirei pessoalmente a segurança dela.
— Você ousa me ameaçar? — As palavras do rei Corvin transbordavam veneno.
O rei Gaius abriu as mãos.
— É muito simples. Entregue seu reino quando voltarmos com nossos exércitos. E ninguém terá que sofrer.
O rei Corvin agarrava com tanta força o batente da porta que Jonas teve certeza de que ele arrancaria uma lâmina de madeira.
— Machuque minha filha e eu o destruirei com minhas próprias mãos.
O rei Gaius ficou calmo.
— Como eu desejaria o mal de sua filha mais nova, Corvin? Sei o amor que um pai tem por seus filhos. O meu mais velho, Magnus, por exemplo, está provando seu valor de muitas maneiras. Até mesmo neste exato momento. Tenho muito orgulho dele, como tenho certeza de que se orgulha de suas filhas. São duas, não são? — O rei limeriano franziu a testa. — A mais velha, ouvi dizer, está bastante doente. Ela vai se recuperar?
— Emilia está bem.
O rei Corvin estava mentindo. Jonas viu em seus olhos.
Cleo alegou ter ido a Paelsia atrás da lenda de uma vigilante exilada que poderia salvar a vida de sua irmã. Ela estava dizendo a verdade em um momento no qual ele esperava apenas mais mentiras.
— Pense no que discutimos aqui. Pense com cuidado. — O rei Gaius se levantou da cadeira. Os outros, incluindo Jonas, fizeram o mesmo. — Quando eu voltar, espero que esteja em frente aos portões do seu palácio, oferecendo sua rendição imediata e absoluta.
O rei Corvin ficou em silêncio por um instante, tenso.
— E se eu não fizer isso?
— Nós tomaremos Auranos à força. E eu testemunharei sua filha mais nova sendo torturada por bastante tempo até que eu finalmente a deixe morrer.
— E eu farei o mesmo com a sua — bufou o rei Corvin.
O rei Gaius riu.
— Eu o desafiaria a tentar.
Eles saíram. Jonas sentiu o olhar tenso do rei Corvin sobre ele ao caminharem na direção da saída.
— O seu irmão foi morto no mercado aquele dia — disse o rei a ele quando passou. — Reconheci seu nome.
Jonas confirmou, mas não olhou nos olhos do outro homem.
— Seu sofrimento e seu desejo de vingança fizeram com que se aliasse a escorpiões, mesmo sem perceber — alertou o rei Corvin. — Tenha muito cuidado para não ser picado.
O rapaz olhou para ele apenas de relance, lutando para manter a expressão neutra, antes de sair da sala com os outros.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!