15 de julho de 2018

Capítulo 24

Eram 6h21.
Ninguém respondia ao telefone na Rua Fox há horas. Blue havia obedientemente usado o telefone de Gansey para ligar para casa a cada quarenta e cinco minutos, como sua mãe pedira, mas ninguém o atendia. Isso não lhe pareceu estranho da primeira vez; se a linha estava ocupada com uma consulta mediúnica de longa distância, chamadas de fora caíam no correio de voz. No entanto, era estranho que isso continuasse acontecendo. Blue tentou novamente depois de passados quarenta e cinco minutos, e aconteceu outra vez.
— Nós precisamos ir — ela disse para Gansey.
Gansey não questionou. Para o crédito de Henry Cheng, este também não o fez, embora estivesse bastante filantropicamente bêbado e preferisse que eles dormissem por lá. Em vez disso, Henry pareceu adivinhar no mesmo minuto que se tratava de uma questão particular e não se envolveu mais no assunto. Aceitou seus lençóis e se despediu deles, implorando mais uma vez que Blue o acompanhasse em sua viagem para a Venezuela.
No carro, eles se deram conta de que o relógio de Gansey seguia repetindo 6h21.
Algo estava errado.
Na Rua Fox, 300, Blue tentou a porta da frente. Embora fosse tarde — era tarde? Eram 6h20, agora 6h21, sempre 6h20, então 6h21 —, a porta não estava trancada. Ao lado dela, Gansey parecia ao mesmo tempo cauteloso e elétrico.
Fecharam a porta da frente atrás de si.
Algo estava errado.
Na casa escura, Blue não sabia dizer o que estava fora do lugar, mas tinha absoluta certeza de que algo estava errado. Congelou com a sensação, incapaz de se mover, até saber o que a incomodava. É assim que deve ser viver como uma médium, ela pensou.
Suas mãos tremeram.
O que estava errado? Estava mais escuro, talvez, do que de costume, e a luz ambiente da cozinha não conseguia penetrar a noite. Estava mais frio, talvez, do que era ordinariamente, mas isso podia ser a sua ansiedade. Estava mais silencioso, sem o tagarelar da televisão ou o retinir de xícaras de chá, mas isso podia ser simplesmente por causa da hora tardia. Uma lâmpada tremeluziu — não, eram apenas as luzes de um carro refletidas no visor de vidro do relógio do corredor. O relógio marcava 6h21.
Blue não conseguia se mexer.
Parecia impossível ficar ali, paralisada pelo medo e nada mais, mas ela estava. Blue disse a si mesma que ela havia rastejado através de cavernas misteriosas, suportado fagulhas de um dragão de pesadelo e que estivera na presença de um homem desesperado com uma arma, e então o mero fato de estar em sua própria casa, sem nada que a ameaçasse claramente, não deveria paralisá-la.
Mas ela não conseguia se mover, e Gansey também não se mexia. Um dedo pressionado de maneira ausente contra seu ouvido esquerdo. Seus olhos traziam o olhar vidrado que ela lembrava que seu ataque de pânico na caverna não fazia muito tempo.
Ela cogitou de relance que eles seriam as últimas duas pessoas vivas no mundo. Ela entraria na sala de estar e não encontraria nada, a não ser corpos.
Antes que pudesse se conter, uma única lamúria se lhe escapou:
Seja sensata!
Gansey pegou sua mão desajeitadamente. A palma dele estava suada, mas isso não importava — a dela também estava. Ambos estavam aterrorizados.
Agora que Blue pensou a respeito da situação, a casa não estava nem um pouco silenciosa. Sob o silêncio, ela ouviu algo crepitando e zunindo, como equipamentos eletrônicos desajustados.
Os olhos de Gansey viraram imediatamente para ela. Blue apertou os dedos dele firme e agradecidamente. Então, ao mesmo tempo, eles soltaram as mãos um do outro. Eles não tinham certeza se precisariam de ambas as mãos para se defender.
Mexa-se, Blue.
Eles começaram a caminhar devagar, com medo de que as tábuas do assoalho rangessem, até que tivessem certeza do que haviam encontrado.
Apenas: medo.
Na base da escada, Blue repousou a mão sobre a maçaneta do corrimão e prestou atenção. O zunido que ela tinha ouvido antes estava mais alto agora, mais dissonante e vivo. Era uma canção sem palavras, sussurrante, que entoava sinistramente uma nota antes de modular para outra, mais alta, em sua estranha escala.
Um baque surdo diretamente atrás deles sobressaltou Gansey. Mas Blue gostou de ouvir esse ruído, pois ela o conhecia. Era a batida do roçar dos tamancos gigantes de sua prima no assoalho irregular. Com alívio, ela se virou para encontrar Orla, agradavelmente familiar e boba em suas calças boca de sino de sempre. Seu olhar estava fixo em algum ponto acima da cabeça de Blue.
— Orla — disse Blue, e os olhos de sua prima se baixaram para encontrar os seus.
Orla deu um grito.
As mãos de Blue agiram sem o auxílio de sua mente, tapando os ouvidos como uma criança, e seus pés seguiram o exemplo, tropeçando para trás sobre Gansey. Orla pressionou as mãos sobre o coração e gritou novamente, o som estridente atingindo um tom mais agudo. Não era nada que Blue pensasse que ouvira um dia de sua prima. Alguma parte de Blue fugiu imediatamente dele, para que não fosse o rosto de Orla gritando, não fosse o corpo dela mesma observando, e que fosse um sonho em vez da realidade.
Orla ficou em silêncio.
Seus olhos, no entanto... ela ainda olhava para o nada além de Blue. Para algo dentro dela mesma. Seus ombros arfaram com horror.
E, atrás de tudo, aquele zunido continuava de alguma parte na casa.
— Orla — sussurrou Gansey. — Orla, você consegue me ouvir?
Orla não respondeu. Ela estava olhando para um mundo que Blue não conseguia ver.
Blue não queria dizer a verdade, mas ela o fez de qualquer forma.
— Acho que temos de encontrar o ruído.
Gansey anuiu sinistramente. Deixando Orla chorando em seu mundo invisível, eles avançaram lentamente casa adentro. Ao fim do corredor da frente, a luz da cozinha parecia prometer segurança e certeza. Mas entre eles e a cozinha havia a escuridão do vão da porta da sala de leitura. Embora o coração de Blue lhe dissesse que o interior da sala estava completamente escuro, seus olhos lhe mostravam que havia três velas na mesa. Elas estavam acesas. Mas isso não importava. Elas não afetavam a escuridão.
O zumbido estranho e multidirecional derramava-se para fora da sala de leitura. Havia também um ruído de arrastar surdo, como se alguém estivesse passando uma vassoura sobre as tábuas do assoalho.
Os nós dos dedos de Gansey tocaram tentativamente a mão de Blue.
Dê um passo.
Ela deu um passo.
Entre.
Eles entraram.
No chão da sala de leitura, Noah se retorcia e tremia, seu corpo impossível. Em algum lugar, ele estava morrendo. Sempre morrendo. Embora Blue já o tivesse visto reencenar sua morte antes, ela nunca ficava mais fácil de ver. O rosto voltado para o teto, a boca aberta em uma dor irracional.
A respiração de Gansey se prendeu audivelmente.
Acima de Noah, Calla estava sentada na grande mesa de leitura, os olhos focados no vazio. As mãos repousavam sobre as cartas de tarô, espalhadas. Um telefone estava ao lado deles; ela estivera no meio de uma leitura a longa distância.
O zunido dissonante ressoava mais alto do que qualquer coisa.
Estava vindo de Calla.
— Você está com medo? — sussurrou Noah.
Tanto Blue quanto Gansey se sobressaltaram. Eles não haviam percebido que Noah havia parado de se contorcer, mas ele havia, e agora estava deitado de costas, os joelhos recolhidos, olhando para eles. Havia subitamente algo escarnecedor em sua expressão, algo que não combinava com ele. Os dentes de sua caveira sorriram através dos lábios.
Blue e Gansey olharam de relance um para o outro.
A coisa que era Noah subitamente olhou intensamente para cima, como se ouvisse algo se aproximando. Ele começou a zumbir também. Não era algo musical.
Cada célula no corpo de Blue lhe inflamava um aviso.
Então Noah se duplicou e se tornou um só.
Blue não tinha certeza de que outra forma colocar a questão. Havia um Noah, então outro bem ao lado dele, olhando para o outro lado, e então o único Noah novamente. Ela não conseguia decidir se havia um erro nele, ou um erro em como ela o via.
— Todos devemos temer — disse Noah, a voz fina através do zumbido. — Quando se brinca com o tempo.
Ele estava subitamente próximo deles, olho no olho, de pé, ou pelo menos só o seu rosto, e, num piscar de olhos, longe novamente. Ele havia jogado algo de sua Noahcidade — sua forma exterior de garoto — sobre si novamente. Trazia as mãos sobre os joelhos como um corredor, e toda vez que expirava, ofegante, o zumbido escapava dele relutantemente.
A respiração de Blue e de Gansey pairava em uma nuvem à frente deles, bruxuleando, como se eles fossem os mortos. Noah estava sugando energia deles. Muita energia.
— Blue, vá — disse Noah. Sua voz soava tensa, mas ele havia controlado o zumbido horroroso. — Gansey... vá. Não sou eu!
Ele deslizou para a direita e então para trás novamente, de um jeito diferente de como uma matéria deveria se comportar. Um sorriso invertido esgueirou-se em sua boca, completamente em desacordo ao seu cenho franzido, e desapareceu. Havia um ar desafiador em seu rosto, e então não havia mais.
— Nós não vamos embora — disse Blue, começando a lançar toda a sua proteção em torno de si. Ela não podia evitar que o que quer que estivesse possuindo Noah sugasse a energia de Gansey e Calla, mas podia isolar sua própria bateria, por sinal, bastante considerável.
— Por favor — sibilou Noah. — Desfazedor, desfazedor.
— Noah — disse Gansey —, você é mais forte que isso.
O rosto de Noah ficou negro. Do crânio ao borrão de um batimento cardíaco. Apenas os dentes reluziam. Ele se engasgou ou riu.
— VOCÊS TODOS VÃO MORRER.
— Saia dele! — rosnou Blue.
Gansey tremeu intensamente com o frio.
— Noah, você consegue.
Noah ergueu as mãos diante de si, as palmas e os dedos de frente uns para os outros, como uma dança de tenazes. Elas não eram as mãos de Noah, e então eram linhas rabiscadas.
— Nada é impossível — disse Noah, com uma voz grave e uniforme. As linhas rápidas desenhadas assumiram o lugar de suas mãos novamente, depravadas e inúteis. Blue conseguia ver dentro da cavidade do seu peito, e não havia nada ali, exceto escuridão. — Nada é impossível. Estou vindo buscá-lo. Estou vindo buscá-lo. Estou vindo buscá-lo.
A única coisa que mantinha Blue de pé, a única coisa que a mantinha tão próxima dessa criatura, era a consciência de que ela estava testemunhando um crime. Aquilo não era Noah sendo intencionalmente aterrorizador. Aquilo era algo em Noah, através de Noah, sem permissão. A voz zunida seguiu em frente:
— Estou vindo buscá-lo... Blue! Estou vindo buscá-lo... Por favor! Vá! Estou vindo buscá-lo...
— Não vou abandoná-lo — disse Blue. — Não tenho medo.
Noah soltou uma risada desregrada, como o deleite de um duende. Em um tom de voz agudo, de canto, chilreou:
— Você que pediu!
E então ele se lançou contra ela.
Blue viu de relance Gansey tentando agarrá-lo, bem no momento em que as garras de Noah se cravaram no rosto dela.
A sala de leitura ficou tão iluminada quanto estivera escura. Dor e luminosidade, frio e calor...
Ele estava arrancando o olho de Blue.
Ela gritou, desesperada:
— Noah!
Tudo eram linhas retorcidas.
Ela levou as mãos ao rosto, mas nada mudou. Blue se sentia fisgada em garras, os dedos de Noah cravados em sua carne. O olho esquerdo de Blue via apenas branco; seu olho direito via apenas negro. Ela sentia os dedos suados; o rosto quente.
A luz explodia de Noah como uma labareda de sol.
Subitamente, mãos agarraram seus ombros, arrancando-a dele. Blue estava cercada por calor e menta. Gansey a segurava tão firmemente que ela podia senti-lo tremendo contra si. O zumbido estava por toda parte. Ela podia senti-lo em seu rosto, que queimava enquanto Gansey se torcia para se colocar entre ela e a fúria zumbidora que era Noah.
— Ah, Deus. Blue, preciso da sua energia — Gansey disse para ela, bem em seu ouvido, e ela ouviu o medo entrelaçado em suas palavras. — Agora.
A dor explodia a cada batida do coração de Blue, mas ela deixou que ele tomasse seus dedos suados.
Gansey agarrou a mão de Blue, e ela derrubou todas as barreiras em torno de sua energia. Seco, convicto e alto, ele disse à coisa:
— Seja. Noah.
A sala ficou em silêncio.

2 comentários:

  1. Capaz que o cara pode mandar uma porta latir e a porta vai realmente latir, mano do céu

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  2. Esse é o poder dele kkk quero ver quem desobedece só q não

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Boa leitura, E SEM SPOILER!