5 de julho de 2018

Capítulo 24

Jesse esquentou duas tigelas de macarrão instantâneo na pequena cozinha enquanto Blue se sentava em um móvel antigo que era ao mesmo tempo um banco e uma cadeira. Ele parecia ainda mais gigante naquele aposento pequeno; todos os móveis eram móveis de boneca perto dele. Atrás de si, a escuridão malevolente pressionava a janela acima da pia da cozinha. Blue se sentia bem naquele oásis de tom amarelo. Ela não estava pronta para voltar dirigindo para casa, atravessando aquela noite, especialmente agora que o faria sozinha. Noah havia desaparecido, e Blue não estava absolutamente certa se ela estava preparada para ele reaparecer novamente.
O micro-ondas bipou. Jesse explicou enquanto colocava a tigela na frente dela que não era realmente a caverna que era amaldiçoada; era algo na caverna.
— E essa coisa mata Dittleys — disse Blue — e faz coisas terríveis com o meu amigo.
— O SEU AMIGO MORTO — observou Jesse, sentando-se à frente dela na mesinha de dobrar. O espelho largado entre eles, virado para baixo.
— Não é culpa dele. Por que você não disse que podia ver o Noah?
— EU TAMBÉM NÃO DISSE QUE PODIA TE VER.
— Mas eu não estou morta — destacou Blue.
— MAS É BEM BAIXINHA.
Blue deixou passar essa e comeu o macarrão. Não estava grande coisa, mas era educado comer.
— O que existe na caverna que a torna amaldiçoada?
— ADORMECIDOS — ele respondeu.
Isso era relevante para os interesses de Blue.
— EXISTEM COISAS DORMINDO DEBAIXO DESSAS MONTANHAS. ALGUMAS DELAS VOCÊ GOSTARIA QUE CONTINUASSEM DORMINDO.
— Eu gostaria?
Ele anuiu.
— Por que eu ia querer algo assim?
Jesse comeu o macarrão.
— Não me diga que vou entender quando eu for mais velha. Eu já sou velha.
— VOCÊ NÃO VIU O SEU AMIGO?
Ela vira. Ela vira realmente.
Com um suspiro, ele pegou um livro grande de fotografias — o álbum de família dos Dittley. Era o tipo de experiência que Blue sempre suspeitara que seria encantadora e intrigante, uma espiada secreta e esclarecedora sobre o passado de outra família.
Não era isso. Era muito chato. Mas entre as histórias de nascimentos que haviam passado como você imaginaria e viagens de pesca que aconteciam como viagens de pesca acontecem, apareceu outra história: uma família vivendo na boca de uma caverna onde algo dormia tão agitadamente que espiava através de espelhos, e através de olhos, e distorcia alto-falantes, e às vezes fazia crianças rasgarem o papel de parede ou esposas arrancarem chumaços do próprio cabelo. Esse adormecido agitado ficou cada vez mais ruidoso ao longo de uma geração até que, finalmente, um Dittley entrou na caverna e se jogou na escuridão. Mais tarde, o resto da família buscou seus ossos e gozou algumas décadas a mais de paz e silêncio. E então havia mais algumas fotos dos Dittley construindo uma cobertura para os carros.
— E você deve ser o próximo? — perguntou Blue. — Quem vai assumir depois de você?
— MEU FILHO, UÉ.
Blue não mencionou que não havia indícios de qualquer outra pessoa na casa, mas ele devia ter percebido, pois acrescentou:
— MINHA ESPOSA E FILHOS FORAM EMBORA CINCO ANOS ATRÁS, MAS VÃO VOLTAR APÓS A MALDIÇÃO TER SIDO SATISFEITA.
Ela ficou tão sobressaltada com tudo isso que comeu todo o macarrão sem pensar muito a respeito.
— Nunca tinha conhecido mais alguém com uma maldição.
— QUAL É A SUA?
— Se eu beijar o meu verdadeiro amor, ele morre.
Jesse anuiu, como se dissesse: Ãhã, essa é boa.
— Tudo bem, mas por que você simplesmente não se manda? Vende essa casa, deixa outra pessoa lidar com o papel de parede e tudo o mais?
Ele deu de ombros — vindo de Jesse, um gesto impressionante.
— AQUI É MEU LAR.
— Certo, mas o seu lar poderia ser do outro lado de Henrietta — persistiu Blue. — Você poderia passar aqui na frente de carro e dizer: “Olá, casa com paredes que sangram, nos vemos depois!” Resolvido o problema.
Ele pegou a tigela de Blue e a colocou na pia. Não pareceu ofendido, mas também obviamente não concordou com ela. Jesse não iria comentar mais sobre o assunto.
— Além disso, quando c... — Blue começou, mas foi interrompida por batidas furiosas que vinham de todo lugar. A maldição? Noah? Ela apontou para o espelho de modo questionador.
Jesse balançou a cabeça e disse:
— PORTA DA FRENTE.
Ele secou as mãos em um pano de prato que parecia que precisava ser limpo em outra coisa, antes de seguir em direção à porta. Blue ouviu quando ela se abriu, e então um murmúrio de vozes que aumentava e diminuía.
Duas pessoas apareceram no vão da porta para a cozinha, seguidas de Jesse. Bizarramente, eram Gansey e Calla. Era estranho imaginar os dois viajando juntos para qualquer lugar, e mais estranho ainda conceber a presença dos dois ali na cozinha de Dittley. Eles estavam concentrados em Blue.
Jesse gesticulou para ela, como que para dizer:
— VIU SÓ?
Irrompendo sobre a soleira, Calla lançou uma mão, palma para cima. Ela estava cuspindo ácido.
— As chaves do carro. Agora. Você não vai dirigir aquele carro de novo até estar com oitenta anos e ter o cabelo branco. Passe as chaves para cá.
Blue a encarou.
— O quê? O quê?
— Você acha que pode simplesmente sair e não ligar?
— Você me disse que ninguém mais precisava do carro hoje!
— E aí você achou que isso significava que não precisava ligar?
Blue estava prestes a retrucar sobre ser um ser humano responsável e que eles não tinham nenhum motivo para estar preocupados com seu paradeiro, mas então viu a expressão de Gansey logo atrás de Calla. Seus dedos tocavam ligeiramente a têmpora e a maçã do rosto, e seus olhos se perdiam no nada. Blue não saberia interpretar a expressão alguns meses atrás, mas agora ela o conhecia bem o suficiente para perceber que aquilo significava alívio: o relaxamento de uma tensão. Ele parecia verdadeiramente abalado. Ela havia preocupado os dois, terrivelmente.
— ... meia dúzia de pessoas te procurando por toda parte e já começando a achar que você estava morta em uma vala qualquer — Calla estava dizendo.
— Espera aí, o quê? Vocês estavam me procurando?
— São dez da noite! Você saiu faz seis horas, e não foi para trabalhar, não é? A gente nem fazia ideia de onde você tinha se metido! Eu estava prestes a ligar para a polícia de novo.
Ela deixou o de novo pesar de maneira significativa. Blue não olhou para Gansey ou Jesse.
— Vou ligar para o Ronan — disse Gansey em voz baixa — e dizer que ele pode voltar para a Monmouth.
Ronan estivera procurando por ela também? Teria sido fofo, se ela estivesse correndo qualquer tipo de perigo.
— Eu... — Blue percebeu antes de terminar a frase que não havia discussão: eles estavam certos, e ela estava errada. De maneira pouco convincente, ela concluiu: — Não achei que alguém fosse perceber.
— Carro — disse Calla —, chaves.
Blue docilmente as entregou.
— Outra coisa: nunca mais quero andar no carro horrível desse garoto — disse Calla. — Você pode voltar de carona com ele, porque estou brava demais para olhar para a sua cara. Vou dizer coisas de que vou me arrepender.
Ela começou a partir com tudo e então parou ao lado de Jesse, o nariz virado. Seus braços haviam se tocado; Calla nitidamente tivera uma impressão psicométrica no mesmo instante.
— Ah, era você — ela disse.
Ele virou a cabeça para baixo para observá-la sem malícia. Calla saiu a passos largos sem mais gentilezas ou explicações.
— Hãã... — disse Blue, pondo-se de pé. — Desculpe por isso.
— NÃO TEM PROBLEMA.
— Obrigada pelo macarrão. Então, e a caverna?
— VOCÊ AINDA QUER ENTRAR LÁ DEPOIS DISSO?
— Como você disse, ela só mata Dittleys.
— A MALDIÇÃO SÓ MATA DITTLEYS. A CAVERNA PODE MATAR OUTRAS PESSOAS.
— Estou disposta a correr o risco, se você deixar.
Jesse coçou o peito de novo.
— BOM, COMBINADO É COMBINADO.
Eles se cumprimentaram, a mão de Blue parecendo minúscula na dele.
— VOCÊ FEZ UM BOM TRABALHO, FORMIGA — ele disse.
Então Gansey deu um passo à frente, colocou o celular elegantemente no bolso e pegou as chaves. Havia algo de preocupado em seu rosto. Ele parecia, na realidade, como parecera na caverna, o rosto estranho e cheio de vincos. Era tão estranho vê-lo sem sua roupagem de Richard Campbell Gansey III em público que Blue não conseguia parar de olhar para o seu rosto. Não — não era o seu rosto. Era a sua postura, os ombros caídos, o queixo para dentro, o olhar saindo por baixo de sobrancelhas incertas.
— ELA ESTAVA BEM — Jesse lhe assegurou.
— Minha cabeça sabia disso — disse Gansey. — Mas o resto de mim, não.

3 comentários:

  1. Então a maldição da caverna é um adormecido? .-.

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  2. que fofo Gansey!! :)

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  3. O Ronan procurando! Qe avalanche de fofura! >< E o Gansey? Não to sabendo lidar com ele, qe gracinha! Tem adormecido na caverna, quero gritar

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Boa leitura, E SEM SPOILER!