15 de julho de 2018

Capítulo 23

Eram 6h21.
Ronan acertou a água com tamanha força que viu estrelas. O lago era quente como sangue, e, quando pensou nisso, percebeu que se lembrava desse lago. Ele o havia sonhado antes.
Era ácido.
Ele sentia o calor porque o lago o devorava. Ao fim desse sonho, não sobrava nada dele, a não ser ossos, palitos brancos em um uniforme, como Noah.
Imediatamente, Ronan lançou toda a sua intenção na direção de Cabeswater.
Não ácido, ele pensou. Torne esse lago não ácido.
Ainda assim, sua pele esquentou.
— Não ácido — ele disse em voz alta para o lago enquanto seus olhos ardiam. O líquido fluiu para dentro de sua boca, sugado para dentro de suas narinas. Ele podia senti-lo borbulhando debaixo de suas unhas. Em algum lugar abaixo dele estava a Garota Órfã, em um mar esquisito por alguns segundos a mais que ele. Quanto tempo ela tinha? Ronan não conseguia se lembrar do sonho bem o suficiente para saber. Então expirou as palavras diretamente no ácido.
— Torne o lago seguro.
Cabeswater arfou à sua volta, estremecendo, encolhendo, tentando atender ao seu apelo. Agora ele podia ver a Garota Órfã afundando lentamente abaixo dele. Ela cobrira os olhos; não sabia que Ronan viera atrás dela. Provavelmente não esperava nenhuma ajuda. Garota órfã, garoto órfão.
Ronan lutou na direção dela — ele era um nadador razoável, mas não sem ar, não através do ácido.
O líquido resmungou contra a sua pele.
Ronan agarrou o enorme blusão da garota, e os olhos dela se arregalaram, estranhos e sobressaltados. Sua boca formou Kerah?, e então ela pegou o braço de Ronan. Por um momento ambos afundaram, mas ela não era estúpida, e começou a remar com a mão livre e a empurrar-se com os cascos contra as paredes rochosas.
Parecia que eles tinham afundado quilômetros abaixo da superfície.
— Cabeswater — disse Ronan, bolhas enormes escapando de sua boca. Seu cérebro não o ajudava a solucionar o problema. — Cabeswater, ar.
Normalmente, Cabeswater o manteria seguro. Normalmente, Cabeswater sabia o quão frágil era o seu corpo humano. Mas ela não o ouvia agora, ou, se o ouvia, não podia fazer nada a respeito.
O lago fervilhou à volta deles.
Ele morreria, e tudo em que conseguia pensar era que, se morresse, a vida de Matthew terminaria também.
Subitamente, algo acertou seus pés. Pressionou suas mãos. Esmagou seu peito. Sua respiração — ele só teve tempo de agarrar a Garota Órfã antes de tudo ficar escuro.
E então Ronan irrompeu para fora da água, arremessado por uma força vinda de baixo. Ele foi vomitado sobre a beira rochosa do lago. A Garota Órfã rolou de seus braços. Ambos tossiram e expeliram o líquido; ele estava rosado, das bolhas em sua língua. Havia folhas grudadas por toda parte nos braços de Ronan, por toda parte nos braços da Garota Órfã. Eram muitas folhas. Ronan olhou confusamente sobre o ombro e percebeu que todo o lago estava cheio de videiras e arbustos. Gavinhas ainda cresciam lentamente para fora do lago. As partes submersas das plantas já estavam sendo comidas pelo ácido.
Fora isso que os salvara do afogamento. Eles haviam sido erguidos pelos galhos.
Adam estava agachado do outro lado do lago, a cabeça caída baixa, como se estivesse prestes a dar um sprint ou rezar, as mãos pressionadas de cada lado dele, com os nós dos dedos brancos sobre a rocha. Ele havia colocado algumas pedrinhas entre as mãos, em um padrão que deve ter feito sentido para ele. Uma das gavinhas que ainda crescia havia se enrolado em torno de seus tornozelos e punhos.
A verdade atingiu Ronan: as plantas não haviam salvo a vida deles. Adam Parrish havia salvo a vida deles.
— Parrish — disse Ronan.
A Garota Órfã caminhou com dificuldade em torno do lago, mantendo-se seguramente distante da beira, até o lado de Adam. Apressadamente, ela arremessou as pedrinhas para dentro do lago.
Imediatamente, as videiras pararam de crescer. Adam se recostou com um calafrio, a expressão ainda distante e doente. Sua mão direita tremia de um jeito nem um pouco agradável de ver. A Garota Órfã pegou a mão esquerda dele e lhe beijou a palma — ele só fechou os olhos — e então ela virou seu olhar urgente para Ronan.
— Para fora! Nós precisamos que ele saia! — ela disse.
— De onde? — perguntou Ronan, escolhendo um caminho em torno do lago até eles. Ele examinou a parede rochosa, a encosta da montanha à sua volta, tentando encontrar um caminho para longe dali.
— Cabeswater — disse a Garota Órfã. — Algo está acontecendo. Ah!
Entre as folhas danificadas e submersas no lago, o líquido estava assumindo uma coloração negra. Era um pesadelo.
— Levanta, Parrish — disse Ronan, agarrando o braço de Adam. — Vamos sair daqui.
Adam abriu os olhos; uma pálpebra caindo.
— Não esquece que ela está vindo com a gente.

Um comentário:

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!