5 de julho de 2018

Capítulo 23

Blue não era tanto uma motorista ruim quanto uma medrosa. Já que ela não havia comido o seu feijão, como Jesse Dittley comentara, precisava ajustar o assento o mais próximo possível dos pedais. Ela agarrava a direção com a graça de um urso de circo. Tudo no painel gritava por sua atenção. Luzes? Velocidade! Ar no rosto? Ar nos pés! Óleo no motor! Estranho símbolo de bacon?
Ela dirigia muito devagar.
A pior parte do seu terror era como dirigir a deixava brava. Não havia nada a respeito do processo de dirigir que parecesse confuso ou injusto para Blue. Ela havia tirado nota máxima no teste de direção. Sabia o significado de tudo, exceto o do símbolo de bacon. Placas de trânsito nunca a deixavam perplexa; dar a preferência era algo lógico. Ela era campeã nisso. Concedesse a ela quarenta minutos, e Blue conseguia estacionar o Ford da Rua Fox em qualquer lugar que você quisesse.
Mas ela nunca podia esquecer que era uma piloto minúscula em uma arma de vários milhares de quilos.
— A questão é só que você não praticou o suficiente — disse Noah generosamente, mas segurando a alça da porta de maneira que parecia redundante para alguém que já estava morto.
É claro que ela não havia praticado o suficiente. Havia apenas um carro na Rua Fox, 300, e tinha alta demanda. Blue podia ir de bicicleta para a escola, para o trabalho, para a Indústria Monmouth, de maneira que o carro geralmente ficava com as pessoas que trabalhavam fora ou tinham coisas para fazer na cidade. Em sua atual taxa de aquisição de prática, Blue imaginava que estaria confortável atrás da direção de um carro lá pelos quarenta anos.
Aquela tarde, no entanto, ela conseguira reivindicar seu direito sobre o carro por algumas horas. Noah era sua única companhia naquela viagem de campo: Gansey tinha alguma atividade de garoto corvo. Adam estava trabalhando ou descansando do trabalho, e Ronan havia desaparecido no espaço celeste, como sempre.
Eles estavam se dirigindo à casa de Jesse Dittley.
— Nós estamos indo tão devagar — disse Noah, esticando o pescoço para observar a fila inevitável atrás deles. — Acho que acabei de ver um triciclo passando.
— Grosso.
Após uma demorada jornada, Blue parou o carro no acesso com sulcos abertos na terra de Jesse Dittley. A fazenda parecia menos mística no sol, menos sombria e amaldiçoada, e mais encardida e enferrujada. Puxando o freio de mão — “Não estamos nem em um morro!”, protestou Noah —, Blue saiu do carro e foi até a varanda. Ela bateu forte na porta.
Foram necessárias algumas tentativas antes de ele abrir. Quando o fez, Blue ficou chocada novamente com sua altura. Ele estava usando outra regata, ou talvez fosse a mesma. A diferença de altura entre eles tornava difícil discernir sua expressão.
— AH, VOCÊ.
— Ãhã — Blue se apresentou. — Eis a minha proposta: você nos deixa explorar a sua caverna e eu limpo o seu jardim. Eu tenho credenciais.
Ele se inclinou, e Blue se esticou, e ele aceitou o cartão de visita que ela havia feito e cortado para si, para convencer as senhoras do bairro a lhe pagar por plantar em seus canteiros. Enquanto ele o lia, Blue estudou seu rosto e seu corpo, buscando sinais de uma doença subjacente, alguma condição preexistente que pudesse atingi-lo num futuro próximo. Algo além de uma caverna amaldiçoada. Blue não viu nada, fora altura e mais altura.
Finalmente, ele respondeu:
— VOCÊ ESTÁ TENTANDO ME DIZER QUE NÃO GOSTA DO QUE EU FIZ COM O MEU JARDIM?
— Qualquer jardim pode se beneficiar de algumas flores — respondeu Blue.
— PODE TER CERTEZA. — Ele bateu a porta na cara dela.
Noah, que estivera parado ao lado de Blue sem ser visto, disse:
— Era isso que você queria que acontecesse?
Não era, mas, antes que ela tivesse alguma chance de formular seu próximo plano, ele abriu novamente a porta, e dessa vez estava usando botas de borracha com estampa camuflada. Ele saiu para a varanda.
— QUANTO TEMPO VAI LEVAR?
— Hoje.
— HOJE?
— Sou super-rápida.
Ele desceu os degraus e examinou o jardim. Era difícil dizer se estava analisando se Blue conseguiria fazer tudo em uma tarde ou contemplando se sentiria falta daquela ruína quando ela não estivesse mais ali.
— PODE COLOCAR AS COISAS NA CAÇAMBA DAQUELA PICAPE ALI.
Blue seguiu seu olhar até uma picape marrom enferrujada que ela presumira equivocadamente que fosse mais lixo ainda.
— Ótimo — disse ela, e achava isso mesmo, pois pouparia tempo se não tivesse de dirigir lentamente até o aterro quatro vezes. — Então, negócio fechado?
— SE VOCÊ TERMINAR HOJE.
Ela fez um sinal de positivo com o polegar.
— Tudo bem, então. Ao trabalho. O tempo urge.
Jesse pareceu olhar para Noah de certa maneira, mas então seus olhos se desviaram e voltaram para Blue. Ele abriu a boca, e, por um momento, ela achou que ele tinha visto Noah e ia dizer algo sobre ele, mas no fim apenas disse:
— VOU COLOCAR UMA ÁGUA NA VARANDA PARA VOCÊ. CUIDE PARA OS CÃES NÃO BEBEREM.
Não havia cães à volta, mas era possível que estivessem se escondendo atrás de um dos sofás descartados no jardim. De qualquer maneira, ela se sentiu tocada pelo gesto.
— Obrigada — disse. — É gentil da sua parte.
Essa gratidão aparentemente deu a Jesse a confiança de que ele precisava para dizer o que estivera pensando antes. Coçando o peito, ele a examinou em sua camiseta recortada, seus jeans manchados e seus coturnos.
— VOCÊ É UMA COISINHA TÃO PEQUENA. TEM CERTEZA QUE CONSEGUE FAZER ISSO?
— Trata-se de perspectiva forçada. É porque você comeu o seu feijão. Sou maior do que pareço. Você tem uma motosserra?
Ele piscou.
— VOCÊ VAI CORTAR ÁRVORES?
— Não. Sofás.
Enquanto Jesse procurava uma motosserra dentro da casa, Blue colocava suas luvas e começava a trabalhar. Ela fez as partes mais fáceis primeiro, juntando pedaços de metal refugado do tamanho de cachorrinhos e baldes de plástico quebrados com ervas silvestres crescendo através deles. Então arrastou troncos de madeira com pregos saindo para fora e pias quebradas com uma camada de água da chuva nas bacias.
Quando Jesse Dittley apareceu com uma motosserra, Blue pegou seus óculos escuros exagerados e de lentes rosa no carro para servir como proteção e começou a cortar as partes maiores das coisas no jardim em pedaços que fossem fáceis de carregar.
— CUIDADO COM AS COBRAS — avisou Jesse Dittley da varanda enquanto ela fazia uma pausa para recuperar o fôlego. Blue não compreendeu o que ele queria dizer até que ele apontou na direção do mato crescido em torno da varanda com um gesto sinistro.
— Eu me dou bem com cobras — disse Blue. A maioria dos animais não era perigosa se você soubesse como dar a eles uma margem de segurança. Blue arrastou as costas da mão sobre a testa suada e aceitou o copo de água que ele lhe passou. — Você não precisa ficar cuidando de mim. Eu me viro.
— VOCÊ É UMA TAMPINHA EXÓTICA — decidiu Jesse Dittley. — COMO UMA DAQUELAS FORMIGAS.
Ela inclinou a cabeça para trás para olhar para ele.
— Por que diz isso?
— AQUELAS FORMIGAS QUE ESTAVAM NA TELEVISÃO. NA AMÉRICA DO SUL, OU NA ÁFRICA, OU NA ÍNDIA. CARREGAM DEZ VEZES O PRÓPRIO PESO.
Blue se sentiu lisonjeada, mas disse firmemente:
— Todas as formigas podem carregar dez vezes o próprio peso, não é? Formigas normais?
— ESSAS SE SAÍAM MELHOR QUE AS FORMIGAS NORMAIS. PENA QUE NÃO LEMBRO COMO ELAS FAZIAM, SENÃO EU TE CONTAVA.
— Você está tentando dizer que eu sou um tipo melhor de formiga?
Jesse Dittley a interrompeu:
— BEBA SUA ÁGUA.
E se retirou para dentro de casa. Com um largo sorriso, Blue voltou ao trabalho. Noah se sujava no porta-malas do carro; Blue havia colocado alguns sacos de palha e algumas plantas de canteiro ali, e mais algumas no banco de trás. Ele puxou um saco de palha para fora, mas não completamente, o rasgou e a palha se espalhou pelo acesso.
— Ops.
— Noah — disse Blue.
— Eu sei.
Noah começou a catar a duras penas cada lasca de palha enquanto Blue continuava arrumando o lixo.
Era um trabalho duro, mas satisfatório, um pouco como passar aspirador de pó. Era bacana poder ver o resultado logo em seguida. Blue era boa em suar e ignorar músculos ardendo.
À medida que o sol baixava, o jardim escurecia, e as árvores esparsas pareciam mais próximas. Blue não conseguia deixar de se sentir observada na presença delas. A maior razão disso, ela sabia, era por causa de Cabeswater. Ela jamais esqueceria o som de uma árvore falando, ou aquele dia em que ela havia descoberto que criaturas inteligentes, alienígenas, a cercavam completamente. Mas essas árvores eram provavelmente apenas árvores comuns.
Só que ela não tinha mais certeza se havia algo como uma árvore comum. Talvez em Cabeswater elas fossem capazes de ser ouvidas por causa da linha ley. Talvez aqui as árvores fossem roubadas de sua voz.
Mas eu sou uma bateria, ela pensou. Blue considerou como havia tirado Noah da tomada antes. Ela se perguntou se era possível fazer o mesmo ao contrário.
— Parece cansativo — comentou Noah.
Ele não estava errado. Blue se sentira exausta após a vigília na igreja em abril, quando dúzias de espíritos haviam tirado energia dela. Talvez um meio-termo, então.
Então estas árvores estavam falando, ou era apenas o vento?
Blue fez uma pausa em sua lide com a palha e girou sobre os calcanhares. Ergueu o queixo para olhar para as árvores que cercavam a propriedade de Dittley. Carvalhos, espinheiros, algumas olaias, alguns cornisos.
— Vocês estão falando? — ela sussurrou.
Não houve precisamente nada maior ou menor do que ela havia sentido ou ouvido antes: um farfalhar nas folhas, um movimento em seus pés. Como se a própria grama estivesse se movendo. Era difícil dizer precisamente de onde vinha o ruído.
Blue achou que ouviu, baixo e fino...
tua tir e elintes tir e elintes
... mas talvez fosse apenas o vento, alto e impendente entre os ramos dos galhos.
Blue tentou ouvir de novo, mas não teve sorte.
Eles logo perderiam a luz, e Blue não se sentia empolgada com a perspectiva de dirigir lentamente de volta no escuro. Pelo menos eles estavam finalmente fazendo a parte verdadeiramente agradável — o plantio das flores, fazendo o trabalho parecer pronto. Noah tinha força suficiente para ajudar com isso e se ajoelhou ao lado dela simpaticamente, abrindo buracos com as mãos na terra para os fardos de raízes.
Em determinado momento, no entanto, Blue olhou de relance na luz que se punha e viu Noah colocando uma planta inteira no buraco e chutando terra sobre toda ela, incluindo as florações.
— Noah! — ela exclamou.
Ele olhou para Blue, e havia algo bastante vazio em seu rosto. Sua mão direita lançou mais um torrão de terra sobre as pétalas. Fora um gesto automático, como se sua mão estivesse desconectada do resto do corpo.
— Assim não — disse Blue, sem ter certeza do que estava dizendo, apenas tentando soar gentil e não horrorizada. — Noah, preste atenção no que você está fazendo.
Seus olhos eram tão infinitamente negros e fixos no rosto de Blue que a deixaram com os pelos arrepiados na nuca. A mão dele se moveu novamente, socando mais terra sobre as flores.
Então ele estava mais próximo, ela não o vira se mover. Seus olhos escuros estavam presos nos dela, sua cabeça virada de uma maneira que lembrava muito pouco um garoto. Havia algo completamente não Noah a seu respeito.
As árvores tremeram acima.
O sol havia quase partido; a parte mais visível era o branco morto da pele de Noah. O buraco esmagado em seu rosto, onde ele fora atingido pela primeira vez.
— Blue — ele disse.
Ela se sentiu muito aliviada.
Mas então ele acrescentou:
— Lírio.
— Noah...
— Lírio. Azul.
Blue se pôs de pé muito lentamente. Mas não se distanciara dele. De alguma forma, ele se colocara de pé na mesma hora que ela, espelhando-a perfeitamente, os olhos ainda presos aos dela. A pele de Blue estava congelando.
Jogue sua proteção, disse Blue para si mesma. E ela o fez, imaginando a bolha à sua volta, o muro impenetrável...
Mas era como se ele estivesse dentro da bolha com ela, mais próximo que antes. Nariz com nariz.
Seria mais fácil lidar com uma situação de malícia do que com seus olhos vazios, espelhos negros, refletindo apenas ela.
Subitamente, a luz da varanda se acendeu, jogando luz sobre e através do corpo de Noah. Ele era um objeto obscurecido, enxadrezado.
A porta da frente se escancarou. Jesse Dittley desceu correndo a escada, a varanda trovejando, e avançou enorme sobre eles. Ele lançou a mão à frente — Blue achou que ele fosse bater nela ou em Noah — e então segurou algo plano entre o rosto dela e o de Noah.
Um espelho.
Ela viu a parte de trás incrustrada de ágata; Noah estava olhando para o lado que refletia.
Seus olhos se escureceram, se esvaziaram. Ele jogou as mãos sobre o rosto.
— Não! — gritou, como se tivesse se queimado com água fervendo. — Não.
Em seguida cambaleou, afastando-se de Jesse, de Blue e do espelho, as mãos ainda pressionadas sobre os olhos. Seu lamento era terrível — ainda mais terrível porque agora ele começava a soar como Noah novamente.
Ele tropeçou para trás sobre um dos vasos vazios, caiu duramente e ali ficou, as mãos sobre o rosto, os ombros tremendo.
— Não.
Ele não tirou as mãos dos olhos, e Blue, um pouco envergonhada, se deu conta de que havia ficado satisfeita porque ele não o fizera. Ela também tremia. Ela olhou para cima (e para cima e para cima), para Jesse Dittley, que pairava ao lado dela com o espelho, o objeto parecendo pequeno como um brinquedo em sua mão.
— EU NÃO FALEI QUE HAVIA UMA MALDIÇÃO? — ele disse.

3 comentários:

  1. Meu coração chora pelo Noah. Ele está agindo mais fantasmagórico que o normal, será a maldição dos Dittleys ou o adormecido ruim? </3

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  2. To triste com a iminente morte do Jesse :c O Noah ta parecendo muito com os espíritos de Supernatural, o eco da morte e depois ele fica raivoso do nada... Não curti, quero o Noah de volta

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  3. Será que o espírito dele ficou proteção por ter sido retirado da linha leu? Ou cabeswater está tentando falar com a blue por meio do Noah?

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Boa leitura, E SEM SPOILER!