30 de julho de 2018

Capítulo 22

PAELSIA

O otimismo de Cleo já estava totalmente renovado quando ela e Nic se preparavam para sair da casa de Eirene, na madrugada do dia seguinte. Ela apertou com força a mão daquela senhora e olhou em seus sábios olhos.
— Agradeço muito por sua generosidade. A senhora foi muito amável conosco.
— Você tem um bom coração, Cleo. — Eirene sorriu. — E percebo que ama muito sua irmã. Espero que encontre as respostas que procura para salvá-la.
Cleo também esperava.
— Diga-me qual a melhor forma de entrar em contato com a senhora. Esta vila tem algum lugar para onde eu possa enviar uma mensagem, talvez a hospedaria? Quando eu voltar para casa, quero mandar algo para retribuir sua gentileza. — Ela faria questão de enviar dinheiro e presentes à mulher por tê-los ajudado na noite anterior. Eirene e Sera viveriam com conforto pelos próximos anos.
— Não precisa.
— Eu insisto!
Eirene juntou as sobrancelhas.
— Muito bem. Sou amiga do dono da taverna. Creio que ele possa receber uma mensagem para mim. Vou anotar o nome dele para você.
Ela entrou na casinha e voltou pouco depois com um pequeno envelope amassado que entregou a Cleo.
— Obrigada. — Cleo sorriu e enfiou o papel no bolso da saia.
— A magia encontra aqueles que têm coração puro, mesmo quando tudo parece perdido. E o amor é a maior magia de todas. Sei que é verdade. — Ela beijou o rosto de Cleo e depois fez o mesmo com Nic. Depois de uma última despedida, Cleo e Nic começaram a se afastar da casa. O sol ainda não havia nascido.
A história de Eirene na noite anterior, sobre as deusas e os vigilantes, não havia dissuadido Cleo de sua busca. Apenas solidificara a crença cada vez maior de que a magia que ela buscava de fato existia. A vida de Emilia seria salva. Cleo não se concentrava em nada além disso. E quando focava muito em algo, a coisa acontecia. Não importavam os meios.
Infelizmente, ela parecia ser a única a acreditar nisso.
— Você vai para casa — Nic disse a ela com firmeza.
— O que está dizendo? — Ela parou de andar e o encarou. Estavam a apenas algumas casas de onde haviam saído.
— Você ouviu — respondeu Nic. — Para casa. Você irá para casa. Sem demora.
— Não posso ir! Ainda não.
— Achei que já tivéssemos combinado isso. — Ele suspirou e passou a mão pelos cabelos desgrenhados. — Faz uma semana e não encontramos nada além de histórias. E não acho que seja seguro você ficar perambulado por aqui comigo. Talvez eu estivesse errado em permitir que viesse.
— Você permitiu? — Ela elevou a voz. — Eu faço o que eu quiser, quando eu quiser.
— O que pode ser parte do problema. Está tão acostumada a conseguir as coisas do seu jeito que não toma cuidado quando a situação pede.
Ela olhou feio para ele.
— Não tem argumentos? — ele perguntou. — Excelente. Então concorda que é hora de você voltar para Auranos?
— Ainda não terminei minha busca. Há outras vilas para visitar.
— Eu fico mais um pouco. Farei de tudo para descobrir mais informações sobre essa vigilante que você tem certeza que se esconde por essas terras. Mas primeiro vou mandá-la em um navio de volta a Auranos para garantir que esteja a salvo e que seu pai saiba que está em segurança. Já ficamos fora tempo o bastante.
Uma parte dela queria lutar com todas as fibras de seu ser. A outra não podia deixar de concordar com Nic. O coração de Cleo se encheu de gratidão.
— Você ficaria aqui por mim?
— É claro que sim.
Ela abraçou-o com força.
— Você é mesmo o meu melhor amigo no mundo todo, sabia?
— Fico feliz em saber. Além disso, não estou com pressa de voltar para o palácio e enfrentar a ira do rei por ter fugido com a princesa.
Ele tinha razão, mas ela esperava não pensar nisso por mais um tempo. Tanto seu pai quanto Theon estariam furiosos com ela e com Nic. Uma coisa era ela voltar vitoriosa, com a solução que buscava na palma da mão; outra era voltar derrotada, com o rabo entre as pernas.
Eles estariam furiosos. Certo. Não seria a primeira vez, nem a última. Ela lidaria com isso quando chegasse a hora.
— Quero ficar e ajudar você — ela disse com calma.
— Aceite, Cleo. Nem sempre pode ter o que quer.
Ela bufou contra a maciez da túnica dele.
— Muito bem. Faça como quiser. Desta vez você pode ser o herói.
— Sempre foi o meu sonho.
— De volta ao porto, então.
— Para o porto. — Ele assentiu e ofereceu a mão a ela. Ela aceitou.
Quando começaram a andar, Cleo teve a sensação estranha de que eles estavam sendo observados. Ela virou a cabeça para olhar, mas não havia ninguém. Pouco mais de um quilômetro a oeste da vila, viraram em uma estrada empoeirada e ela teve a mesma sensação.
Como dedos frios descendo por sua coluna.
— Ai. Você está apertando forte, Cleo.
— Shh — ela sussurrou. — Alguém está nos observando.
Ele franziu a testa.
— O quê?
Eles se viraram e avistaram na claridade um rapaz alto, de cabelos escuros, andando na direção deles. Cleo congelou quando ele os alcançou. Seu fôlego sumiu quando ela percebeu que era o mesmo garoto que assombrava seus sonhos.
Jonas Agallon.
— O que você está… — ela começou a dizer.
Ele deu um sorriso hostil.
— Bom dia, princesa. Que honra reencontrá-la.
E depois deu um soco na cara de Nic, derrubando o garoto no chão. Nic conseguiu se levantar rápido, cambaleando, com o nariz ensanguentado.
Cleo gritou.
— O que você está fazendo?
— Livrando-a de sua proteção. — Jonas virou Nic de frente para Cleo e pressionou a adaga, a mesma adaga incrustada de joias que Aron usara para matar Tomas, contra a garganta de Nic.
— Não! — ela gritou. — Por favor, não! Não o machuque!
Tudo estava acontecendo rápido demais. Como ele sabia que ela estava ali?
— Não é para machucar? — Jonas olhou para ela. Nic lutava contra ele, mas Jonas era muito mais alto e mais forte. Poderia manter o garoto magrelo facilmente sob controle. — Está dizendo que se preocupa com ele? Que a morte dele poderia lhe causar dor?
— Solte-o agora mesmo!
— Por que deveria fazer isso? — Ele passou os olhos escuros sobre ela. Cleo estremeceu sob a frieza de seu olhar.
— Corra, Cleo! — Nic gritou.
Mas ela não correu. Ela nunca o abandonaria daquela forma.
— O que você quer de mim? — ela questionou.
— Essa é uma pergunta perigosa. Quero muitas coisas, mas creio que nenhuma delas agradaria a bela princesa. Por enquanto, quero matar seu amigo e ver você sofrer a perda dele.
— Não, por favor! — Ela cambaleou para a frente com um ímpeto de agarrar o braço de Jonas e afastar a adaga da garganta de Nic. Mas sabia que não tinha força o suficiente para isso. Aquele garoto era muito forte e a odiava pelo que havia acontecido com seu irmão. Ele a havia ameaçado de morte em público. Ela precisava pensar. Precisava manter a calma para negociar com aquele bárbaro.
— Posso lhe dar muito dinheiro se poupar a vida dele.
A expressão de Jonas virou gelo.
— Dinheiro? Que tal catorze cêntimos auranianos pela caixa de vinho? Parece justo, não parece?
Cleo engoliu em seco e tentou não falar de forma suplicante.
— Não o mate. Sei que você me odeia pelo que Aron fez…
Os olhos dele piscaram de raiva.
— Ódio é uma palavra muito pequena para exprimir o que sinto por você.
— Seu problema é comigo, então. Não com Nic. Solte-o!
— Desculpe. Não sou muito bom em seguir ordens.
— Você pretende me matar para vingar a morte de seu irmão? — A garganta dela ficou apertada de medo.
Ele enrugou o rosto.
— Não. Meu objetivo não inclui tamanho prazer. Seu amigo aqui, por outro lado, pode descobrir que hoje é seu último dia de vida.
— Cleo, você é surda? — Nic bufou. — Eu falei para você correr!
— Eu não vou deixar você aqui! — A voz dela falhou e as lágrimas queimaram em seus olhos.
Jonas franziu a testa.
— Não é lindo? Você devia fazer o que seu amigo está sugerindo e fugir. Não irá muito longe, mas pode tentar. Seria um momento de coragem para uma garota tão covarde.
Ela olhou feio para ele.
— Se acha que sou covarde, não sabe nada a meu respeito.
— Sei o bastante.
— Não, não sabe. O que aconteceu com o seu irmão foi uma tragédia. Eu não defendo o que Aron fez, porque ele estava errado. E eu estava errada em não impedir quando pude. Fiquei aterrorizada com o que aconteceu aquele dia. Então pode me odiar o quanto quiser, mas eu juro pela deusa que, se ferir Nic, mato você com minhas próprias mãos.
Naquele momento, ela falava sério. Todas aquelas palavras fracas, insignificantes e risíveis. Ainda assim, Jonas a encarava como se não esperasse que ela dissesse aquilo.
— Impressionante — ele replicou. — Talvez você seja mais do que um rostinho bonito e uma personalidade superficial.
— Não ouse insultá-la — Nic revidou.
Jonas revirou os olhos.
— Parece que você tem um admirador. Esse aqui daria a vida por você, não daria? Não daria, Nic? Você morreria pela princesa?
Nic engoliu em seco, mas seus olhos continuaram fixos no rosto de Cleo.
— Morreria.
Pelo amor da deusa, aquilo era demais. Ela não podia ficar parada vendo Nic morrer nas mãos daquele garoto repugnante.
— E eu também morreria por ele — ela disse com firmeza. — Então pegue essa adaga ridícula e aponte-a para mim.
Jonas virou os olhos apertados para ela.
— Podemos fazer um acordo para poupar a vida do seu fiel amigo. Está disposta a negociar comigo?
Ela continuou olhando para aquele rapaz que ao mesmo tempo temia e odiava. Havia apenas uma resposta que podia dar a Nic a chance de escapar.
— Sim.
— O negócio é o seguinte: você vem comigo de livre e espontânea vontade. Não tente fugir. Não cause nenhum problema. — Ele inclinou a cabeça. — E eu deixo o seu namoradinho aqui fugir com a cabeça ainda pregada ao corpo magrelo.
— Não, Cleo — Nic bufou. — Não faça isso.
Ela manteve o queixo levantado e não desviou os olhos do olhar marcante de Jonas.
— Quer que eu confie que não vai me matar? Que concorde em ir com você mesmo sem saber para onde vai me levar? Já ouvi o que acontece com garotas que são sequestradas por selvagens.
Ele riu.
— É isso mesmo o que acha que eu sou? Um selvagem? Que pensamento auraniano. Eu poderia simplesmente matá-lo, sabe? Se estou negociando com você é porque não sou nenhum selvagem. Diferente de você e de seu amigo que matou meu irmão.
Se ela fosse com Jonas, deixaria seu destino nas mãos de um rapaz que a odiava e a culpava pela morte do irmão. Mas se discordasse ou tentasse fugir, não tinha dúvida de que aquele bárbaro mataria Nic. Ela não se perdoaria se deixasse isso acontecer.
— Está bem. Eu vou com você — ela concordou, por fim. — Agora afaste essa lâmina da garganta dele ou ficará muito arrependido, seu filho da mãe desprezível.
Era uma ameaça insignificante. Contudo, se ela tivesse a chance de tirar a adaga dele, não hesitaria em enfiá-la em seu pescoço.
— Entendido, princesa. — Jonas afastou a lâmina do pescoço de Nic.
— Cleo, o que está fazendo? — As palavras de Nic transbordavam pânico. — Não pode concordar com isso.
O que a desesperava não era o fato de ter caído nas garras de um garoto selvagem disposto a matar sem pensar duas vezes. Era saber que a busca pela cura de Emilia não havia dado em nada.
— Continue procurando a vigilante — ela insistiu. — Não se preocupe comigo.
— Não me preocupar com você? Desse momento em diante, é tudo o que farei.
— Jonas disse que não me mataria.
— E você acredita nele? — O rosto de Nic se contorcia de agonia. Ele sempre tinha um sorriso no rosto e uma piada pronta, quase nunca ficava sério. Mas naquele momento ele não sorria.
Ela precisava acreditar em Jonas. Não tinha outra escolha.
— Vá. E não tente nos seguir.
Jonas pegou-a pelo braço e arrastou-a pela estrada de terra, na direção da vila de onde haviam vindo, ainda cheia de lama pela tempestade da noite anterior. Ele olhou para trás, na direção de Nic, com um olhar sinistro.
— Siga-nos e o acordo está acabado. Ficarei com a princesa e matarei você. Agora corra para a sua casa, onde estará seguro.
Nic ficou parado em um silêncio furioso, punhos cerrados ao lado do corpo, enquanto Jonas arrastava Cleo. Seu rosto estava tão vermelho quanto os cabelos. Ela olhou para trás o máximo que conseguiu, até ele não passar de um ponto ao longe.
— Para onde está me levando? — ela questionou.
— Cale a boca.
Ela bufou.
— Nic não está mais por perto para você ameaçar.
— Então agora vai começar a me dar trabalho? Não recomendo, princesa. Não vai gostar do resultado.
— Estou surpresa por se dar ao trabalho de usar meu título real. É óbvio que não o respeita.
— Como prefere que eu a chame? Cleo?
Ela olhou para ele com repulsa.
— Só os meus amigos me chamam assim.
Jonas fez cara feia.
— Então eu nunca a chamarei assim. Não, eu gosto de princesa. Ou, talvez, ‘vossa alteza’. Me faz lembrar de como você se considera superior e poderosa diante de um pobre selvagem como eu.
— Essa palavra pareceu incomodar você. Por quê? Está com medo de que seja verdade? Ou se considera mais refinado do que isso?
— Que tal calar a boca como pedi antes? Ou posso usar uma mordaça, se preferir.
Ela ficou em silêncio por um instante.
— Para onde está me levando?
Ele resmungou.
— E começou de novo. A princesa tem boca grande.
Seus pensamentos começaram a acelerar.
— Vai me usar para extorquir dinheiro do meu pai. Não vai?
— Não exatamente. Uma guerra está por vir, princesa. Sabia disso?
Ela ficou sem ar.
— Guerra?
— Entre Limeros, Paelsia e sua preciosa e brilhante Auranos. Dois contra um, uma vantagem que nos favorece. Acredito que sua delicada presença em minha terra ajude a acabarmos com tudo rápido e sem derramamento de sangue.
Cleo cambaleou com a possibilidade. Sabia que havia uma certa agitação — mas guerra?
— Como se você se importasse com isso. Acho que alguém como você adoraria uma chance de derramar sangue.
— Eu não me importo nem um pouco com o que você pensa.
— Você me usaria contra o meu pai? Me faria de refém? Você me dá nojo.
Ele apertou ainda mais o braço dela, provocando dor.
— Eu pagaria qualquer preço pelo seu silêncio agora. Então fique quieta ou precisarei cortar sua língua fora, vossa alteza.
Cleo parou de falar. Ficou quieta e calma, o mais obediente possível, e ele continuou a conduzi-la pela estrada. Passando a vila, o acesso se transformou em um caminho mais estreito e lamacento. Um coelho marrom passou correndo na frente deles, na direção de um prado com grama alta — surpreendentemente verde para uma paisagem tão desolada e triste.
Ela não fez mais nenhuma pergunta. Sabia que ele não as responderia. E não queria correr o risco de perder a língua.
De repente, iludido pela repentina calma da princesa, Jonas soltou o braço dela para secar a testa com as costas da mão.
Sem hesitar, Cleo escapou, com os pés rápidos como os do coelho ao deixar a estradinha e se enfiar no prado amplo e gramado. Se conseguisse chegar à floresta do outro lado, poderia se esconder até o cair da noite. Daí encontraria o caminho de volta para o porto e fugiria.
Mas antes de chegar às árvores, Jonas a alcançou. Ele agarrou a parte de trás de seu vestido, puxando-a e obrigando-a a parar no meio da grama alta. Foi tão brusco que Cleo tropeçou, caiu e bateu a cabeça em uma pedra.
A escuridão a cercou.


Princesas, na opinião de Jonas, deveriam ser dóceis, educadas e fáceis de lidar. Até o momento, a princesa Cleiona Bellos não havia sido nada daquilo. Até a filha do chefe, Laelia, que passava a maior parte do tempo dançando eroticamente ou brincando com suas cobras, era muito mais doce e gentil.
Mas Cleo era, de fato, uma cobra. E ele não a subestimaria mais.
Jonas torceu o tornozelo no solo irregular quando correu atrás dela. A dor e a fúria tomaram conta dele. Se ela tivesse estourado a cabeça e os miolos escorressem sobre a pedra — uma escultura desgastada que, ele via agora, tinha a forma de uma roda —, ficaria feliz e comemoraria. Em vez disso, Jonas esperou e verificou seu tornozelo. Pelo menos não estava quebrado.
Ele ficou olhando para a princesa e a impaciência deixou seu corpo tenso e inquieto.
— Acorde.
Ela permaneceu imóvel.
Jonas analisou o rosto dela. Não podia negar que era adorável… talvez até a garota mais bonita que ele já havia visto. Mas mesmo a moça mais bonita podia ser traiçoeira e cruel.
— Acorde — ele exigiu. — Agora.
Ele a cutucou com a ponta da bota, mas não obteve resposta.
Jonas gritou um xingamento e se agachou ao lado dela, enfiando a adaga na terra para ficar com as duas mãos livres. Depois sentiu o pescoço dela, procurando o pulso.
Encontrou.
— Que pena — Jonas reclamou, embora parte dele estivesse aliviada. Ele analisou o rosto dela, tirando os cabelos sedosos da frente. Ela era pequena, uns trinta centímetros mais baixa do que ele e pelo menos trinta quilos mais leve. Seu vestido claro, cor de lavanda, era feito da mais fina seda — ele nunca havia visto nada parecido. Ela usava safiras pequeninas nas orelhas furadas e um anel de pedra verde no dedo, mas suas joias se resumiam a isso. Esperta, já que qualquer joia mais chamativa ao lado de roupas boas fariam dela um alvo para ladrões.
O rosto estava livre da pintura que Laelia usava, mas as bochechas ainda eram viçosas e douradas pelo sol, e os lábios eram cor-de-rosa. Inconsciente, ela não parecia a dondoca rica, fria e manipuladora que Jonas tinha em mente.
Finalmente seus cílios se levantaram.
— Já era hora, vossa alteza. Tirou uma boa soneca?
Foi quando Jonas sentiu um puxão para trás, surpreso, e a ponta afiada da adaga encostada em seu queixo.
— Afaste-se de mim — a princesa bufou.
Não foi preciso dizer duas vezes. Jonas se virou com cuidado, impressionado por ela ter conseguido puxar a arma do solo sem que ele notasse. Justo quando estava começando a achar que ela era inofensiva e vulnerável, a bela cobra conseguiu mostrar os dentes. Ela se levantou desajeitadamente, mantendo a adaga apontada para ele, e foi para o outro lado da roda de pedra sobre a qual havia caído.
Ele a olhou com cuidado.
— Então agora está com a minha adaga.
— Estou com a adaga de Aron.
— Achado não é roubado. Ele a deixou enfiada na garganta do meu irmão.
A dureza nos olhos dela suavizou e eles começaram a se encher de lágrimas.
Jonas zombou.
— Não vai querer que eu acredite que se sente mal com isso.
— É claro que me sinto mal! — A voz dela falhou.
— Seu lorde Aron o matou sem pensar duas vezes. Apesar disso, você ainda aceitou se casar com ele, não é?
Quando ela riu, não havia nada de divertido em sua risada.
— Eu odeio Aron. Nosso noivado não foi escolha minha.
— Interessante.
A dureza voltou aos olhos dela.
— Ah, é?
— Você terá que se casar com alguém que odeia. Isso me deixa feliz.
— Fico feliz por minha desgraça animar o seu dia. — Ela olhou feio para ele. — De qualquer forma, agora tenho uma faca. Se você chegar perto de mim, garantirei que ela encontre seu coração.
— Você está mesmo com a minha arma. Ficou muito perigosa agora, não é? Acho que eu devia estar com medo.
Ela olhou para ele agachado a quase dois metros de distância, com a adaga bem presa entre os dedos.
— Conte mais sobre essa guerra contra Auranos. Qual é o seu objetivo?
— Tomar sua preciosa terra e dividi-la por igual entre Paelsia e Limeros. Vocês têm muito e nós não temos nada, e tudo se deve a medidas que seu país ganancioso decretou há um século. Por isso vamos transformar em nosso o que é de vocês.
— Isso não vai acontecer. Meu pai não cederá.
— Por isso é excelente ter a joia que ele chama de filha como moeda de barganha. Eu mesmo vou com o chefe Basilius participar de uma reunião com seu pai. Veremos o que ele tem a dizer. Mas talvez o rei não se importe em perder uma filha quando já tem outra como sua herdeira oficial. A princesa Emilia seria uma escolha melhor, mas ela não está em Paelsia. Ainda estou curioso, vossa alteza. Por que está aqui?
— Não é da sua conta — a princesa resmungou.
As sobrancelhas dele se uniram.
— Eu ouvi você pedir para o seu amigo continuar a busca por uma vigilante. Que bobagem foi aquela?
Algo obscuro e desagradável passou pelo belo rosto de Cleo.
— Não é da sua conta — ela repetiu, acrescentando —, seu selvagem.
Jonas ignorou a frustração e estendeu a mão para ela.
— Devolva a adaga para mim antes que você se corte.
Ela investiu com a arma na direção dele.
— Não pretendo me cortar. Mas posso cortar você se chegar mais perto.
A língua da garota era mil vezes mais perigosa do que qualquer outra arma que empunhasse. Jonas ficaria surpreso se descobrisse que ela já havia segurado alguma arma. Ainda assim, ele a observava com cuidado. Por mais que a desprezasse, a imagem era adorável.
— Basta — ele disse em voz alta.
Jonas foi para cima dela, agarrando seus pulsos e derrubando a adaga com facilidade. Ele empurrou-a, esticando seus braços sobre a cabeça e apertando seus pulsos. O rapaz pressionou o corpo com firmeza sobre o dela, fixando-a contra a roda. Cleo olhou para ele assustada e furiosa.
— Saia de cima de mim, seu animal! Está me machucando!
— Se está tentando apelar ao meu lado compassivo, descobrirá que não tenho piedade de você. — Ele se ajeitou de modo a segurar seus dois pulsos com uma só mão. A outra desceu e apertou a garganta dela. Ele olhou nos olhos dela e finalmente viu uma ponta satisfatória de medo. Cleo achou que ele a mataria apesar do que havia prometido.
Ele aumentou a pressão em sua garganta e ficou encarando a garota que permanecera ao lado do noivo enquanto seu irmão sangrava até morrer.
— Por que está em Paelsia? — ele perguntou. — Está aqui espionando para o seu pai?
Ela olhou para ele com os olhos arregalados.
— Espionando? Está louco?
— Isso não é resposta.
— Não, não estou aqui para espionar, seu idiota. Isso é ridículo.
— Então por quê? Do que estava falando quando disse para o seu amigo procurar uma vigilante? Fale — ele grunhiu, aproximando o rosto do dela. A respiração da princesa era rápida, quente e doce contra a pele dele. — Ou vai se arrepender amargamente.
— Estou aqui por causa da minha irmã — ela disse, sem interromper o contato visual. Ele não sabia ao certo se ela estava mentindo.
— Sua irmã — ele repetiu.
— Existe a lenda de uma vigilante exilada em Paelsia que possui sementes de uva inoculadas com magia da terra e que têm poderes de cura.
Ele revirou os olhos.
— Você quer que eu acredite que está procurando por uma vigilante? Também corre atrás de arco-íris?
Sua zombaria lhe rendeu um olhar contundente.
— Se for preciso… Minha irmã está muito doente. Ela está morrendo e ninguém pode ajudá-la. Então vim contra a vontade de meu pai procurar essa vigilante e implorar ajuda.
Jonas processou aquela história ridícula, mas uma coisa chamou sua atenção acima de todas as outras.
— A herdeira do trono auraniano está morrendo.
— Certamente está feliz em ouvir isso.
— Você acha?
— Minha dor é sua glória. Você me considera responsável pela morte de seu irmão, e agora sabe que minha irmã está morrendo no palácio e que eu não tenho como salvá-la. — Lágrimas escorriam do canto dos olhos dela.
Ele a observou, esperando por um sinal de fingimento.
— Você não acredita em mim — ela disse, com desespero. — Tudo o que vê quando olha para mim é maldade. Mas eu não sou má. — Ela começou a ofegar. — Eu não sou!
À primeira vista, ela parecia pequena e frágil, mas a princesa tinha uma essência feroz e ardente capaz de queimar qualquer um que chegasse perto demais. Até Jonas sentiu seu calor.
Aquilo o surpreendeu. Ela o havia surpreendido.
— Vai dizer alguma coisa ou só vai continuar me encarando? — ela perguntou, desafiando Jonas com os grandes olhos verde-azulados.
Ele se levantou tão rápido que quase torceu o tornozelo outra vez. Depois a puxou sem se preocupar em ser gentil. Ela cambaleou, incapaz de se equilibrar por um instante. Teve sorte de ter ficado apenas um pouco tonta depois de bater a cabeça. Podia ter sido bem pior.
Sem dizer uma palavra, ele agarrou a adaga e a enfiou na bainha de couro em seu cinto.
Começou a arrastar a princesa de volta para a estrada.
— Para onde está me levando? — ela perguntou, fazendo a conversa girar em círculos.
— Para algum lugar tranquilo onde eu tenha certeza de que não causará mais problemas. Sabe, você devia ter enfiado aquela faca em mim quando teve a chance, vossa alteza. Não vai escapar de novo.
Cleo olhou feio para ele, com o fogo de volta aos olhos.
— Não hesitarei em matá-lo da próxima vez.
Ele deu um sorriso frio.
— Veremos.
Assim que enfiou Cleo em um barracão no canto da propriedade de Felicia, ele amarrou as mãos dela na frente do corpo e prendeu seu tornozelo com uma corrente para garantir que não escapasse. Cleo xingou Jonas, lutando o tempo todo. Aquilo não o atrasou muito.
— Sei que você me odeia. — Lágrimas brilhavam nos olhos dela. Ela estava movida pela raiva, e seu medo ia e vinha.
— Odiar você? — ele perguntou. — Não acha que tenho esse direito?
— Eu me odeio pelo que aconteceu com o seu irmão. Sinto muito pelo que Aron fez. Tomas não merecia morrer.
— Só está dizendo isso para tentar se salvar.
— Não é só por isso — ela admitiu.
Ele não conseguiu conter o riso diante da honestidade de Cleo.
— Acha que vou machucar você?
— Já machucou.
— Comparado a seu estilo de vida, tudo pode parecer uma dificuldade, vossa alteza. Mas estará segura aqui.
— Por quanto tempo?
— Alguns dias. No máximo uma semana.
Ela olhou aterrorizada para o interior do barracão.
— Aqui?
— Minha irmã e meu cunhado aceitaram tomar conta de você. Amigos vigiarão a porta, caso tente fugir. Alguém trará comida e água todos os dias. — Ele apontou para a esquerda com o queixo. — Ali tem um buraco recém-cavado para vossa majestade usar quando precisar. Não é uma latrina dourada e incrustada de joias, mas deve servir. Isso seria considerado um aposento de luxo para uma princesa paelsiana. Você não faz ideia.
— Você é um selvagem abominável por me manter aqui. Meu pai vai pedir sua cabeça por isso.
Jonas agarrou a garganta de Cleo novamente e a encostou contra a parede.
— Eu não sou selvagem — ele bufou. — E não sou um bárbaro.
— E eu não sou uma megera malvada que aprecia a morte alheia.
— Alguns dias de dificuldade não vão matar você. Podem até fazer bem.
Seus olhos verde-azulados piscaram.
— Espero que você seja destroçado por lobos em sua viagem a Auranos.
Jonas não esperaria outra reação dela. Menos do que isso seria uma decepção.
Enquanto andava na direção da porta, ele olhou para trás e disse:
— Nos veremos outra vez em breve, vossa alteza. Tente não sentir muito a minha falta.

3 comentários:

  1. eu shippo não me julguem mas é ate engraçado esses dois juntos

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  2. Já é a terceira pessoa com quem eu shippo a Cleo. Deveria tá preocupada?

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Boa leitura, E SEM SPOILER!