15 de julho de 2018

Capítulo 22

Eram 6h21.
— Quando? — perguntou Adam. — Quando você percebeu que tinha sonhado Cabeswater? Agora?
Eles se encararam no topo da face inclinada da rocha, o lago translúcido bem abaixo. O coração de Adam disparava, pela adrenalina ou pela simples proximidade da linha ley.
— Sempre.
Isso não deveria mudar a maneira como ele via Ronan. O seu sonhar sempre fora impressionante, incomum, um imprevisto de Deus, um truque da linha ley que permitia que um jovem transformasse seus pensamentos em objetos concretos. Mágica, mas uma mágica razoável. Mas isso — não apenas sonhar a realidade de uma floresta inteira, mas criar um espaço de sonho além da própria mente...
Adam estava parado dentro dos sonhos de Ronan; era isso que essa compreensão significava.
Ronan se corrigiu:
— Mais ou menos sempre. A questão... no momento em que chegamos aqui, eu me dei conta. Minha caligrafia naquela rocha. Acho que percebi imediatamente. Só levei mais tempo para acreditar nisso.
Cada memória daquelas primeiras incursões na floresta estava lentamente se movendo dentro dele. Partes caindo em seus devidos lugares.
— É por isso que ela chama você de o Greywaren. É por isso que você é diferente para ela.
Ronan deu de ombros, mas foi um gesto por se preocupar demais e não de menos.
— É por isso que a gramática do latim dela é terrível. É a sua gramática.
Ronan deu de ombros novamente. Perguntas surgiam aos borbotões na cabeça de Adam, difíceis demais para dizer em voz alta. Ronan era humano mesmo? Meio sonhador, meio sonho, criador de corvos, garotas com cascos e terras inteiras. Não era de espantar que o uniforme da Aglionby o sufocasse, não era de espantar que seu pai o fizera jurar sigilo, não era de espantar que ele não conseguisse se concentrar na sala de aula. Adam havia se dado conta disso antes, mas agora ele o percebia novamente, de maneira mais absoluta, vigorosa, o ridículo que era Ronan Lynch em uma sala de aula para aspirantes políticos.
Adam se sentiu um pouco histérico.
— É por isso que ela fala latim, e não português ou galês. Meu Deus. Será que eu...
Ele havia feito uma barganha com essa floresta. Quando ele caiu no sono e Cabeswater estava em seus pensamentos, emaranhado em seus sonhos, era Ronan...
— Não — disse Ronan, rápido e em um tom espontâneo. — Não, eu não a inventei. Eu perguntei às árvores depois de ter percebido, por que diabos... como diabos isso aconteceu. Cabeswater existia, de certa maneira, antes de mim. Eu apenas a sonhei. Quer dizer, eu a fiz parecer desse jeito. Escolhi essas árvores, essa linguagem e toda aquela merda para ela, sem saber. Onde quer que ela tivesse existido na linha ley antes, ela foi destruída, e então ela não tinha um corpo, uma forma... Quando eu a sonhei, eu a trouxe de volta para uma forma física, só isso. Como elas chamam isso mesmo? Eu a manifestei. Eu só a manifestei do maldito plano onde ela estava. Não sou eu.
Os pensamentos de Adam giraram na lama, e ele não fez nenhum progresso.
— Cabeswater não sou eu — repetiu Ronan. — Você ainda é apenas você.
Uma coisa era dizer isso e outra coisa era ver Ronan Lynch parado em meio às árvores que ele havia sonhado como reais, parecendo fazer parte delas porque ele era parte delas. Mágico — não era de espantar que Ronan não tivesse problemas com a estranheza de Adam. Não era de espantar que ele precisasse que ele fosse.
— Não sei por que diabos eu te contei isso — disse Ronan. — Eu devia ter mentido.
— Só me dê um segundo com essa informação, tá? — pediu Adam.
— Tudo bem.
— Você não pode ficar bravo por eu refletir sobre isso.
— Eu disse tudo bem.
— Quanto tempo levou para você acreditar nisso? — demandou Adam.
— Ainda estou tentando — respondeu Ronan.
— Então você não pode... — Adam se calou. Subitamente sentiu como se tivesse despencado de um penhasco. Era a mesma sensação que ele tinha quando sabia que Ronan sonhava algo grande. Ele só teve tempo para se perguntar se fora verdadeiramente a linha ley, ou só o choque da revelação de Ronan quando aconteceu de novo. Dessa vez, a luz em torno deles caiu concomitantemente.
A expressão de Ronan se aguçou.
— A linha ley... — Adam começou e então se calou, incerto de como terminar seu pensamento. — Está acontecendo alguma coisa com a linha ley. Parece como quando você está sonhando algo grande.
Ronan abriu bem os braços, deixando claro: não sou eu.
— O que você quer fazer?
— Não sei se deveríamos permanecer aqui enquanto ela está desse jeito — disse Adam. — Definitivamente não acho que a gente deve tentar chegar à ravina das rosas. Só vamos chamar mais algumas vezes.
Ronan encarou Adam, avaliando suas condições. Vendo que Adam precisava ficar sozinho para refletir sobre o que acabara de ouvir, ele disse:
— Que tal só mais uma vez?
Juntos, eles gritaram:
— Garota Órfã!
A intenção cortou através das palavras compartilhadas de ambos, mais aguçada que a escuridão.
A floresta ouviu.
A Garota Órfã apareceu, o solidéu puxado baixo sobre os olhos enormes, mais suado e mais sujo do que antes. Ela não conseguia evitar parecer deslocada e diferente nessa mata verde-cinzenta, deslizando entre árvores escuras. Parecia pertencer a fotos antigas que Adam vira na Barns, uma criança imigrante, perdida, de um país destruído.
— Aqui está você, sua garotinha de rua — disse Ronan, enquanto Motosserra chilreava nervosamente. — Finalmente.
A garota ofereceu o relógio de Adam de volta para ele, relutantemente. A pulseira havia adquirido algumas marcas de dentes desde que ele a vira pela última vez. O mostrador dizia 6h21. Estava bastante encardido.
— Pode ficar com ele — disse Adam —, por enquanto. — Ele não podia realmente abrir mão do relógio, mas ela não tinha nada, nem mesmo um nome.
Ela começou a dizer algo na língua estranha e complicada que Adam sabia que era a língua antiga de qualquer que fosse aquele lugar — a língua que o jovem Ronan acreditara que fosse latim em seus sonhos distantes — e então se conteve. Por fim, disse:
— Cuidado.
— Com o quê? — perguntou Ronan.
A Garota Órfã gritou.
A luz obscureceu.
Adam sentiu no peito essa energia que o afundava. Era como se cada artéria em seu coração tivesse sido aberta com uma tesoura.
As árvores uivaram; o chão tremeu.
Adam se agachou, pressionando as mãos contra o chão em busca de ar, em busca de ajuda, para que Cabeswater lhe desse de volta o seu batimento cardíaco.
A Garota Órfã partira.
Não, não partira. Ela despencava pela face inclinada da rocha, os dedos como garras tentando se segurar, os cascos arranhando surdamente, pedrinhas caindo junto com ela. Ela não gritou socorro — apenas tentou se salvar. Eles a observaram escorregar direto no lago translúcido e, por ser tão transparente, viram quão fundo foi seu mergulho.
Sem hesitar, Ronan saltou atrás dela.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!