30 de julho de 2018

Capítulo 21

PAELSIA

A noite havia sido longa e Jonas sabia que não conseguiria pregar o olho. Primeiro foi até a casa da avó de Sera e olhou pela janela, por uma pequena abertura na lona gasta que a cobria, para provar a si mesmo que a garota de quem Sera havia falado não podia ser a princesa Cleiona. Ele estava duvidando de seus próprios instintos.
A garota de cabelos dourados dormia tranquila sobre um colchão de palha perto do fogo.
Era ela.
A fúria tomou conta de Jonas. Ele precisou ser forte para não invadir a pequena casa e apertar a garganta real de Cleo até ver a vida dela se esvair lentamente. Talvez então pudesse descansar. Talvez pudesse sentir que a morte de seu irmão fora vingada de alguma forma.
Um momento de pura vingança teria um sabor tão doce… mas logo acabaria. Em vez disso, Jonas cavalgou até o complexo do chefe e contou a ele sobre a presença inesperada da princesa Cleo em Paelsia.
O chefe pareceu não se importar.
— Que diferença faz se uma menina rica e mimada decide explorar minhas terras?
— Mas é a princesa de Auranos — Jonas argumentou. — Pode ter sido mandada pelo pai para espionar.
— Uma espiã de dezesseis anos? Que é uma princesa? Por favor. Ela é inofensiva.
— Eu discordo.
O chefe olhava para Jonas com curiosidade.
— Então o que você sugere?
Uma excelente pergunta. Uma pergunta na qual ele vinha pensando desde que havia confirmado a identidade de Cleo. Como era ousada e desrespeitosa aquela princesa que não se importava em voltar ao mesmo lugar onde causara tanta dor e tanto sofrimento.
Ele respirou fundo antes de falar, tentando ao máximo permanecer calmo.
— Sugiro que o senhor veja isso como uma oportunidade de capturá-la. Com certeza o rei de Auranos faria de tudo para garantir que ela voltasse em segurança. Podemos mandar uma mensagem a ele.
— Em quatro dias irei a Auranos com o rei Gaius para uma reunião com o rei Corvin. Esperamos negociar a rendição dele. Você e seu amigo Brion vão comigo. Se for para mandar uma mensagem como essa, nós mesmos a entregaremos.
Ver a cara do rei Corvin quando dissessem que estavam com Cleo… Seria uma pequena vingança em nome de todos os paelsianos contra um rei egoísta e egocêntrico que não enxergava nada além de seu próprio reino cintilante.
— O que seria melhor do que ter a própria filha do rei se as negociações derem errado? — perguntou Jonas.
Qualquer batalha, mesmo muito bem organizada, resultaria na perda de vidas paelsianas — principalmente com os cidadãos destreinados que estavam sendo recrutados para lutar lado a lado com os soldados limerianos. Uma rendição do rei Corvin sem a necessidade de guerra seria o resultado ideal. O chefe apertou os lábios, mexendo na grande pilha de comida que havia diante dele, mesmo já passando da meia-noite. Jonas ignorava as garotas que dançavam atrás dele, perto da fogueira, como uma diversão noturna para Basilius.
O jovem ainda ficava incomodado ao ver no complexo uma ponta do excesso e da opulência que criticava em Auranos. Muitas pessoas nas vilas contavam histórias sobre as mordomias que o chefe Basilius desfrutava como líder — pagas com o alto imposto sobre os vinhos. Mas ninguém se incomodava com aquilo. Eles o colocavam em um patamar diferente; ele representava a esperança. Muitos adoravam o chefe como a um deus, acreditando que ele possuía poderes mágicos. Talvez a magia só pudesse ser atraída com dançarinas e grossas fatias de carne assada.
O chefe concordou, por fim.
— É um excelente plano. Eu lhe passo oficialmente a tarefa de deter a garota. O rei Gaius inicia sua viagem de Limeros a meu complexo amanhã – daqui iremos a Auranos juntos. Darei a ele a notícia sobre a filha do rei Corvin quando ele chegar.
Jonas fez cara feia. Ele detestava a ideia de que o rei limeriano — líder de uma terra que não tratava Paelsia melhor do que Auranos havia tratado durante todos aqueles anos — tivesse se tornado um confidente tão próximo do chefe. Seu desejo era dizer que a interferência do rei Gaius não era necessária, mas sabia que seria ignorado — ou pior, expulso do complexo e do círculo de confiança do chefe — se fizesse isso.
Que seja.
— Vá — o chefe ordenou. — Encontre essa garota e prenda-a em um lugar bem seguro. — Ele deu um sorrisinho para Jonas. — E faça o possível para tratá-la com respeito. Ela é da realeza. — O chefe sabia das questões pessoais de Jonas com a princesa, assim como todos em um raio de trinta quilômetros de sua vila.
— É claro. — Jonas se curvou e se virou para sair.
— Assim que garantirmos a rendição do rei Corvin, contudo, você terá minha permissão para fazer o que quiser com ela. — Com Jonas dispensado, o chefe voltou para sua enorme refeição e suas dançarinas.
Jonas não podia garantir que trataria a princesa com respeito. Seu ódio obsessivo por ela crescia a cada dia. Seu sangue fervia. Parte dele desejava não ter ido falar com o chefe. Ele poderia ter matado Cleo naquela casa desprotegida e ninguém, além dele próprio, ficaria sabendo. Esperar até eles falarem com o rei auraniano seria um desafio.
Mas até ele reconhecia que uma mudança permanente para seu povo era mais importante do que vingança. A princesa valia mais viva do que morta.
Por enquanto.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!