15 de julho de 2018

Capítulo 21

Ronan podia dizer sem dúvida alguma que algo não estava certo.
Quando eles entraram em Cabeswater, Adam disse:
— Dia.
Ao mesmo tempo em que Ronan disse:
— Fiat lux.
Normalmente a floresta se harmonizava com os desejos de seus ocupantes humanos, particularmente quando esses ocupantes eram seu mágico ou seu Greywaren. Mas, nesse caso, a escuridão em torno das árvores seguia teimosamente presente.
— Eu disse, fiat lux — disparou Ronan, então, a contragosto — Amabo te.
Lentamente, a escuridão começou a ceder, como água exsudando através do papel. No entanto, em nenhum momento a floresta chegou a ficar completamente de dia, e o que eles conseguiam ver não estava... certo. Eles estavam parados em meio a árvores escuras, cobertas de líquens cinzentos e sombrios. A atmosfera era esverdeada e melancólica. Embora não restassem folhas nas árvores, o céu parecia baixo, um teto musgoso. As árvores ainda não tinham dito nada; era como o sussurro monótono antes de uma tempestade.
— Hum — disse Adam em voz alta, claramente inquieto. Ele não estava errado.
— Você ainda quer seguir em frente? — perguntou Ronan. Tudo o fazia lembrar-se de seus sonhos. Toda a noite o fazia lembrar-se disto: a corrida até o trailer, o espectro de Robert Parrish, essa escuridão doentia. A essa altura, Motosserra normalmente já teria partido em um voo exploratório, mas, em vez disso, ela estava encolhida sobre o ombro de Ronan, as garras cravadas em sua jaqueta.
E, como em um dos sonhos de Ronan, ele teve a sensação de que sabia o que aconteceria antes que acontecesse.
Adam hesitou. Então ele anuiu.
Era sempre impossível dizer nos sonhos se Ronan sabia o que aconteceria antes que acontecesse, ou se as coisas apenas aconteciam porque ele pensava nelas primeiro. Isso tinha alguma importância?
Tinha quando você estava desperto.
Eles permaneceram um momento à beira da floresta para saber onde estavam. Para Ronan, a questão era apenas se mover por ali para que as árvores vissem que ele estava entre elas; elas fariam o possível para atender aos seus desejos, o que incluía não deixar que nada sobrenatural o assassinasse. Para Adam, isso significava conectar-se com a linha ley que pulsava por baixo da floresta, abrir-se e deixar o padrão maior apoderar-se dele. Era um processo ao mesmo tempo sinistro e extraordinário de se observar de fora. Adam; então Adam, vazio; então Adam, mais. Ronan pensou a respeito da história do olho perambulante e da mão com vida própria de Adam. Eu serei suas mãos. Eu serei seus olhos.
Ele fatiou o pensamento para fora da cabeça. A memória de Adam negociando parte de si mesmo já era um visitante frequente demais em seus sonhos; ele não precisava relembrar isso de novo, intencionalmente.
— Você já terminou com o seu lance de mágico? — perguntou Ronan.
Adam anuiu.
— Hora?
Ronan lhe passou o telefone, contente por se livrar dele. Adam o estudou.
— 6h21 — ele disse, franzindo o cenho. Ronan franziu o cenho também. Não era algo enigmático por ser inesperado ali. A hora na linha ley era sempre incerta, pulando para frente e para trás, minutos levando horas, e vice-versa. O que era surpreendente era que a hora 6h21 já havia acontecido um número suficiente de vezes fora da linha ley para levantar suspeitas. Algo estava acontecendo,
mas ele não sabia o quê.
— Você já terminou com o seu lance de Greywaren? — perguntou Adam.
— Ainda não — respondeu Ronan. Fechando as mãos em concha junto à boca, ele gritou para o silêncio: — Garota Órfã!
Bem ao longe, através da atmosfera esverdeada parada, um corvo guinchou de volta. Ha ha ha. Motosserra sibilou.
— Está bem assim para mim — disse Ronan, e abriu caminho pelas árvores verdes. Ele não estava feliz com a escuridão, mas não se podia dizer que ele era um estranho ao trabalho em meio a pesadelos. A chave era aprender o mais rápido possível quais regras e medos estavam em jogo, e apoiar-se neles. O pânico era como você se machucava em pesadelos. Lembrar ao sonho que você era algo estranho a ele era uma boa maneira de ser expulso ou destruído.
Ronan era bom em ser uma coisa de sonho, especialmente em Cabeswater.
Eles seguiram em frente, e, durante o tempo todo, a floresta continuou errada em torno deles. Era como se caminhassem em um terreno inclinado, embora o chão estivesse bem nivelado.
— Fala de novo — disse Adam cuidadosamente, o alcançando — como os seus sonhos estavam equivocados. Use menos palavrões e mais informações específicas.
— Sem mudar Cabeswater à nossa volta?
Embora Cabeswater tivesse sido lenta em responder ao seu pedido por luz, isso não queria dizer que ela seria lenta em responder a uma incitação de um pesadelo. Não, quando tudo já parecia assim, um meio mundo cinzento-esverdeado de troncos sombrios.
— Obviamente.
— Eles estavam equivocados assim mesmo.
— Assim como?
— Bem assim — disse Ronan.
Ele não disse nada mais, e gritou:
— Garota Órfã!
Caw caw caw!
Dessa vez os guinchos soaram mais como uma garota e menos como um pássaro. Ronan acelerou um pouco o passo; agora eles estavam escalando. À sua direita, uma superfície de rocha exposta inclinava-se agudamente para baixo com apenas algumas árvores pequenas irrompendo das fendas na superfície nua. Eles abriram caminho cuidadosamente ao longo dessa borda precária; um passo em falso os arrastaria muitos metros abaixo, sem um meio rápido para escalar de volta.
Ronan olhou de relance para trás para se certificar de que Adam o seguia; ele o seguia e mirava Ronan com olhos estreitados.
— Você acha que o seu sonho está equivocado porque Cabeswater está equivocada? — perguntou Adam.
— Provavelmente.
— Então, se consertarmos Cabeswater, consertaríamos os seus sonhos.
— Provavelmente.
Adam ainda processava a questão, pensando com tamanho esforço que Ronan imaginou que podia senti-lo. Na realidade, em Cabeswater, com Adam tão próximo dele, era possível que ele realmente sentisse.
— Você conseguia tornar seus sonhos realidade antes de encontrarmos Cabeswater, certo? Você consegue fazer isso sem ela?
Ronan parou e semicerrou os olhos através da escuridão. A uns quinze metros abaixo, a descida rochosa inclinada na qual eles caminhavam terminava em uma pequena lagoa de água absolutamente translúcida. Ronan conseguia ver através dela até o seu fundo pedregoso. Ela era muito mais profunda do que larga, uma fenda cheia de água. Isso prendeu sua atenção.
— Por quê?
— Se você se desligar de Cabeswater até eu consertar tudo isso, os seus sonhos seriam normais?
Eis a questão. Adam estava fazendo as perguntas certas; as perguntas que significavam que ele provavelmente já sabia a resposta. Quanto mais tempo eles passavam em Cabeswater, mais eles trabalhavam juntos com os sonhos de Ronan, mais os pesadelos de Cabeswater eram refletidos nele, e vice-versa. Além de tudo, as evidências só aumentavam.
Mas agora que eles estavam nessa, Ronan não tinha certeza se ele queria estar do outro lado. Tantos dias em um banco de igreja com os nós dos dedos pressionados contra a testa, silenciosamente perguntando o que eu sou, sou o único, o que isso quer dizer...
— Eu consigo sonhar melhor com Cabeswater. Com a Garota Órfã também. Mas...
Ele parou e olhou para o chão.
— Pergunte — ele disse. — Vá em frente. Vamos...
— Pergunte o quê?
Ronan não respondeu, apenas olhou para o chão. A atmosfera verde moveu-se em torno dele, manchando sua pele pálida, e as árvores curvaram-se sombrias e reais à sua volta, tudo nesse lugar parecendo com os seus sonhos, ou tudo em seus sonhos parecendo com esse lugar.
Adam premiu os lábios, e então perguntou:
— Você sonhou Cabeswater?
Os olhos azuis de Ronan viraram-se rapidamente para Adam.

2 comentários:

  1. Quando eu penso nisso me dá dor de cabeça

    ResponderExcluir
  2. Teoricamente se Ronan sonhou cabeswater, ela é uma parte dele. Sendo assim Adam Tá ligado de alguma maneira com o Ronan não é?
    Aahh...slá. Que confuso tsc tsc

    ResponderExcluir

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!