5 de julho de 2018

Capítulo 21

Era bastante tarde quando Blue ligou aquela noite, bem depois de Malory ter voltado no Suburban, bem depois de Ronan ter retornado no BMW.
Ninguém mais estava acordado.
— Gansey? — perguntou Blue.
Algo ansioso nele se manifestou.
— Me conta uma história — ela disse. — Sobre a linha ley.
Ele foi imediatamente até a cozinha-banheiro-lavanderia, caminhando o mais silenciosamente possível, pensando em algo para contar a Blue. Enquanto se sentava no chão, ele disse em voz baixa:
— Quando estive na Polônia, eu conheci um cara que tinha cantado a viagem toda através da Europa. Ele dizia que, enquanto cantasse, sempre conseguiria encontrar o caminho de volta para a estrada.
A voz de Blue estava baixa também, do outro lado do telefone.
— Acho que você está se referindo a um caminho de corpos, não a uma rodovia.
— Rodovia mística. — Gansey penteou o cabelo com uma mão, lembrando: — Eu fiz trilhas com ele por uns trinta e cinco quilômetros. Eu tinha um GPS. Ele tinha a canção. Ele estava certo, também. Eu podia desviar esse cara um milhão de vezes e levá-lo para longe dois milhões de vezes, e ele sempre conseguia retomar a linha ley. Como se estivesse magnetizado. Desde que continuasse cantando.
— Era sempre a mesma canção? Será que era a do assassinato da abóbora?
— Ah, Deus.
As tábuas do assoalho estavam frias para a sola de seus pés descalços. Por alguma razão, a sensação era sensual e perturbadora, um lembrete da pele de Blue. Gansey fechou os olhos:
— Era uma época mais simples, antes de essa música ter sido lançada no mundo. Não consigo acreditar como o Ronan e o Noah são obcecados por ela. O Ronan estava falando em conseguir a camiseta. Você consegue imaginar ele com ela?
Blue deu um riso abafado.
— O que aconteceu com o polonês?
— Acho que ele está abrindo caminho pela Rússia cantando agora. Ele estava indo da esquerda para a direita. Oeste para leste, quer dizer.
— Como era a Polônia?
— Mais bonita do que você imagina. Muito bonita.
Ela fez uma pausa.
— Eu gostaria de ir um dia.
Gansey não se concedeu o tempo para duvidar da sabedoria de dizer isto em voz alta antes de responder:
— Eu sei como chegar lá, se você quiser companhia.
Após uma longa pausa, Blue disse, com uma voz diferente:
— Vou cantar para mim mesma dormir. Até amanhã. Se você quiser companhia.
O telefone ficou em silêncio. Nunca era o suficiente, mas era algo.
Gansey abriu os olhos.
Noah estava sentado contra o batente da porta da cozinha-banheiro-lavanderia. Quando Gansey pensou a respeito, achou que o amigo possivelmente estivesse sentado ali por um longo tempo.
Não havia nada inerentemente culposo no momento, só que Gansey queimava de culpa, e emoção, e desejo, e o sentimento nebuloso de ser verdadeiramente descoberto. Estava no seu interior, e o interior era só o que interessava a Noah.
O outro garoto tinha uma expressão compreensiva.
— Não conte para os outros — disse Gansey.
— Sou um morto — respondeu Noah. — Não um idiota.

2 comentários:

  1. O Noah não conta segredos, ele é amorzinho demais pra isso <3

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  2. sério, essas ligações estão despedaçando meu coraçãozinho gelado.


    jo

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Boa leitura, E SEM SPOILER!